Historiadores, de um modo geral, admitem que já nos séculos XV e XVI, era possível encontrar traços de um novo Ocidente. A justificativa encontra-se no fato de
que, a partir desses períodos, foi possível presenciar a emergência de um ser humano menos alheio às transformações da Natureza, mais autônomo e dotado de uma consciência de si mesmo – curioso em relação ao mundo, como conseqüência de sua confiança na capacidade de discernimento entre o bem e o mal.
Aproximar a dimensão autônoma do indivíduo dos conhecimentos21 produzidos nos períodos em questão será nosso intento de abordagem para este tópico. Embora não tencionemos tratar a questão apenas como o resultado das relações estabelecidas nessa época. Admitiremos, guardados os devidos “avanços” e “retrocessos” comparados aos períodos anteriores, crenças, valores e padrões que se estruturaram e passaram de um período para outro, formando um Conglomerado Herdado22. Este, através de sucessivos
movimentos cumulativos, foi e será a referência para a formação de concepções de mundo nas principais tendências, em diferentes épocas.
Como trabalhamos com informações abstraídas dos conflitos entre diversas gerações, concentraremos nossa atenção nas manifestações da Racionalização e da Modernização, caracterizadas nos conflitos, angústias e expectativas dos indivíduos, para controlar a diversidade dos fenômenos inerentes tanto à natureza interna como externa aos homens. Nesse sentido, usaremos recortes históricos do Renascimento e do
21 Mesmo correndo o risco de uma abordagem simplificada, o termo “conhecimento” será explorado, aqui,
nas suas múltiplas manifestações: mítica, religiosa, técnica e científica. Para diminuir os riscos, delimitaremos as formas de conhecimento aqui apresentadas, oferecendo, senão filosoficamente, pelo menos conceitualmente, uma caracterização do conjunto de fatores que organizam e modelam tais formas.
22 Expressão atribuída a Gilbert Murray, por E. R. Dodds, significando a lenta formação de crenças e valores
que se estruturam no modo de pensar de um povo ou geração, através de sucessivos movimentos civilizatório (ver Dodds, E.R. Os gregos e o irracional. Portugal: Gradiva, 1988. p.194).
Iluminismo23, como base de apoio teórico para elegermos parâmetros do modo de pensar e agir dos ditos Modernos.24
Os movimentos acima sugeridos, nas especificidades que lhes são inerentes, justificam serem tomados como referência na contextualização da Racionalidade Moderna e no que dela foi desviado pela Racionalização Econômica, por servirem de trampolim para a difusão de idéias e ideais que popularizaram o reverenciamento da Razão como instrumento dos progressivos avanços técnicos e científicos no próprio programa de intenções para a Modernidade.
O referencial discursivo será constituído por elementos extraídos das relações sociais, políticas, culturais e intelectuais, abstraídas do conjunto de idéias que propagaram o Renascimento e o Iluminismo.25 De tais elementos contextuais nos
serviremos analiticamente, para formar uma base teórico-investigativa com apoio estratégico para desenvolvermos o referencial descritivo do que se convencionou chamar de Moderno.26
23 Assumiremos aqui o termo Iluminismo, com a mesma configuração atribuída por Rouanet. Com um
enfoque que extrapola o contexto do século XVIII, que não se encontra limitado a uma época específica, mas, a partir das idéias da Ilustração segue, enquanto tendência intelectual, no combate ao Mito e ao Poder , com base na Razão Discursiva. De certa forma, o Projeto Iluminista, na visão de Rouanet, visa a auto-emancipação dos indivíduos, através de um conjunto de valores e ideais, consubstanciados em tendências como o Racionalismo, o Individualismo e o Universalismo. (cf. Rouanet: 2001, p.97).
24 Baumer (1990) admite que o século XVII é o primeiro século Moderno. A justificativa que ele apresenta
para essa afirmação, reside no fato de que nesse período o nível de educação das pessoas já estava em crescimento, o que possibilitava um número cada vez maior de pessoas projetarem-se na perspectiva dos Modernos, ou seja, pensarem sua autonomia, respaldados na Racionalidade. (Baumer: 1990, op. cit. p.43).
25 Apesar de alguns autores admitirem que os humanistas do Renascimento e da Reforma não assumiram a
postura, ou se autodenominaram de “modernos”, eles não negam a importância que esse período, somado ao movimento Iluminista, representou no impulso das idéias e comportamentos que se seguiram na formação e transformação do mundo, na perspectiva do “novo”, do moderno. Ao Renascimento credita-se a oposição ao saber dos escolásticos, filósofos e teólogos que dominavam as Universidades da Idade Média. O Iluminismo, nas palavras de Rouanet, foi o responsável pelos contornos da Modernidade. Tinha por base a emancipação do indivíduo pautado em um conjunto de valores e ideais, consubstanciados em tendências como o Racionalismo, o Individualismo e o Universalismo. (Rouanet: 2001, p.97)
26 Encontramos vários sentidos e referências para as palavras “moderno” e “modernidade”. Segundo
Idéias, ações, reações, fusões, difusões, ou mesmo confusões, geradas da aplicação dos princípios e diretrizes do Renascimento e do Iluminismo, são objetos de análises e discussões de historiadores, cientistas sociais, filósofos e teóricos de um modo geral que se interessam pelos caminhos e bifurcações que nos trouxeram os scripts da Modernidade. Estes, abstraídos de “mentes iluminadas”, ofereciam indicadores para interpretarmos nosso papel de sujeitos do conhecimento, sujeitos do saber, sujeitos do fazer, enfim, para compor e montar a nossa historicidade.
O script para a Modernidade tornou-se instrumento importante no reconhecimento da autonomia dos indivíduos, que começaram a repensar valores e padrões e a se arriscarem na grande aventura humana de pensar e organizar sua existência, sem depender de uma História pré-escrita e revelada por intermediários que não conheciam a natureza do próprio autor.
Os valores e princípios forjados em dimensões inalcançáveis pelos limites racionais passaram a ser objeto de questionamento e desconfiança. Por mais paradoxais que representassem as informações e explicações postas pela Razão humana, na época, exerceram influência e mudanças significativas na formação dos indivíduos, principalmente por rever posturas e parâmetros normativos.
Além do mais, os períodos em questão ofereceram-nos interfaces entre componentes da Racionalidade e da Irracionalidade27, inseridos em processos de
mesmo com todas essas referências, as definições ainda apontam para a passagem do tempo. As palavras “moderno”, “modernização” e “modernidade” são geralmente definidas, por contraste, um passado arcaico e estável, mas, também, sempre colocadas em meio uma briga ou polêmica onde há ganhadores e perdedores: os Antigos e os Modernos. Isto o levou a admitir que Moderno é duas vezes assimétrico: assinala uma ruptura na passagem regular do tempo e um combate no qual há vencedores e vencidos. (Latour: 2000, p.15).
27 Pretendemos dar ao termo “irracionalidade” um pouco mais de atenção, visando a atender a imposições de
consistência à temática por nós escolhida. O referido termo, apesar de muito usado ainda é pouco discutido no meio acadêmico. Dedicaremos um espaço específico para aprofundar, conceitualmente, relações
aprendizagem e formação que conduziram à caracterização do mundo moderno. A identificação do Moderno com a racionalização das ações ressaltou a importância dos indivíduos desenvolverem sua natureza interior, incentivando-os a produzir conhecimentos nas diferentes áreas do saber e do fazer.
Graças ao ímpeto incontrolável de descobrir-se e reconhecer-se como sujeito responsável pelo que estava à sua volta, o indivíduo identificou-se como moderno e sentiu orgulho em defender sua autonomia e sua individualidade, afirmando-se como Ser do (dominante) mundo, e não simplesmente como um Ser no (morador) mundo. Essa
personalidade do indivíduo renascentista, quando transladada para o contexto contemporâneo, torna visíveis tanto a Racionalidade, quanto a Irracionalidade com que se alimentaram as idéias e os ideais para garantir as bases de expansão da visão Moderna, como reforço na Ocidentalização do mundo e como Projeto de Desenvolvimento.28
A determinação do indivíduo renascentista em buscar novos horizontes e parâmetros de orientação no mundo possibilitou-o ir além do crescimento interior e o forçou a acreditar no domínio do conhecimento, na criatividade, na exploração da natureza exterior, sujeita aos caprichos de sua natureza interior, e não mais como um legado divino, revelado em
contraditórias do tipo: racional-irracional, logos-mito. Para o momento, tomaremos o termo “irracional” dentro da visão geral que o classifica como conotação negativa e contrária à aplicação dos corretos princípios e procedimentos da Razão.
28 O “Projeto Ocidental de Desenvolvimento” deverá ser tomado como resultado de interfaces históricas do
Poder econômico com o Poder Político, construindo, renovando ou transformando as relações de mercado, a partir dos interesses de gerencia do capital. Nas palavras de Latouche, “a apoteose do Ocidente não é mais a presença real de um Poder humilhante por sua brutalidade e arrogância. Ela se apóia nos poderes simbólicos cuja dominação abstrata é mais insidiosa, e por isso mesmo menos contestável. Esses novos agentes da dominação são a Ciência, a Técnica, a Economia e o Imaginário sobre os quais repousam: os valores do Progresso”. Cf. Serge Latouche. A Ocidentalização do mundo: ensaios sobre a significação, o alcance e os limites da uniformização planetária. Petrópolis-RJ: Vozes, 1994. p.22. (coleção horizontes da globalização). Ver também, Pires (2000), op. cit.
condições sobrenaturais, a fim de bem conduzir o povo nas questões espirituais e nas relações materiais de sobrevivência, para ampla aliança entre o céu e a terra.
A capacidade de discernimento do Homem Renascentista por vezes o levou a assumir posturas céticas quanto às ortodoxias, rebelando-se contra autoridades que se apresentavam como responsáveis por suas crenças e ações. O homem do período em questão encontrava- se ainda muito ligado ao passado clássico, embora, pela sua nova condição de sujeito pensante, se encontrasse imbuído de uma dimensão de mundo na qual se mostrava fortemente empenhado com a projeção do futuro.
A visão do futuro do indivíduo renascentista o tornou demasiadamente orgulhoso de sua humanidade, consciente de sua distinção e seguro de sua capacidade intelectual para compreender e controlar a Natureza (Tarnas: 2000, p. 305). Tal postura ganhou ênfase com a produção artístico-cultural do Renascimento, a qual emergiu junto com os valores que animaram o Homem Renascentista na busca de significados existenciais, a fim de equilibrar, ou mesmo deslocar, o enfoque medieval no destino espiritual que admitia garantias para outro mundo, e não para este.
Em Tarnas (2000)29, encontramos mostras do Homem Renascentista emergindo
de um contexto configurado pelo caos, no qual a Racionalidade e a Irracionalidade aparecem juntas entre os escombros dos desastres, das lutas religiosas e das convulsões sociais. A Peste Negra, a Guerra dos Cem Anos entre Inglaterra e França, somados à Pirataria, são exemplos na História que demonstram a ambientação favorável para reacender mitos e crenças medievais.
29 Cf. Tarnas, Richard. A Epopéia do Pensamento Ocidental: para compreender as idéias que moldaram nossa
Por sua vez o enfoque preterido para a configuração da perspectiva do homem moderno, neste estudo, não autoriza se fazer uma leitura do homem renascentista numa dimensão unilateral de inventor, inovador ou precursor da Técnica e dos instrumentos que lhe deram origem. O mais próximo que objetivamos é identificar, no processo histórico, a partir do Renascimento, aplicações do Conhecimento Racional30 configurado no Conhecimento Técnico-Científico, interagindo com elementos do pensamento mítico e/ou irracional 31 estreitando, ou não, laços entre as visões de mundo, moderna e contemporânea.
O ponto alto do contexto renascentista pode ser associado ao rompimento de valores éticos e morais valorizados em séculos anteriores, sob a interpretação e orientação das concepções míticas e religiosas sobre o Mundo. O impulso que proporcionou o rompimento também serviu para incentivar a expansão de idéias e teorias que motivaram um re-direcionamento e uma re-interpretação teórico-científica das categorias de Homem, e de Natureza.
Sobre isso Tarnas (2000) nos diz o seguinte:
como acontecera na revolução cultural da Idade Média, muitos séculos antes, as invenções Técnicas desempenharam um papel essencial na formação da nova era. Especialmente quatro delas [todas com precursores no Oriente] entraram em uso disseminado no Ocidente, com imensas ramificações culturais: a bússola magnética, permitindo as façanhas da navegação que abriram o Globo à exploração européia; a pólvora, contribuindo para o fim da velha ordem feudal e a ascensão do nacionalismo; o relógio mecânico, fator de decisiva
30 O termo “racional”, nesse primeiro momento da discussão, deverá ser tomado na sua dimensão
interpretativa mais “simples”, como uma ação articulada, mental e humana, dirigida para a sistematização e compreensão de fins determinados. Ao longo do trabalho, apresentaremos o entendimento de vários pensadores que se detiveram mais profundamente sobre o tema.
31 O conceito de irracional exige uma melhor definição. A princípio não aprofundaremos a paradoxal idéia da
ação irracional, seja como algo não-racional, que se encontra fora do âmbito da razão, seja a irracionalidade, sinônimo de falha da própria razão. Parcialmente tomaremos o irracional, como um desvio da razão. Mais adiante buscaremos delimitar melhor o conceito.
mudança no relacionamento do Homem com o tempo, a Natureza e o trabalho, separando e libertando a estrutura das atividades humanas da predominância dos ritmos da Natureza; e a imprensa, que produziu um fabuloso aumento no aprendizado, levando tanto as obras clássicas como as Modernas a um público cada vez mais amplo e erodindo o monopólio do conhecimento há muito nas mãos do clero. (p.247).
As palavras de Tarnas (2000) demonstram a importância que as invenções técnico- científicas tiveram, para os padrões de civilização da época renascentista. A partir delas se percebe o impulso para o Desenvolvimento econômico, favorecido pelo conhecimento, pela exploração e aplicação dos novos instrumentos da Técnica e da Ciência. A Pólvora e os acessórios para ela adaptados viabilizaram a derrocada das estruturas feudais medievais, e tornaram possíveis o surgimento das Nações-Estado e, conseqüentemente, o reforço das forças seculares contra a Igreja Católica.
A Imprensa ocupou espaço, no amplo processo de difusão das idéias, disseminando a palavra impressa, profetizando o advento do Mundo Novo. O “novo” já era estimulado nas esferas econômica e social, pelo desejo de acumulação individual e o sentimento de libertação coletiva, traduzidos em exploração dos insumos e a imploração por consumos. Na esfera cultural, as leituras e as reflexões solitárias eram realizadas por uns poucos indivíduos, que ofereciam oportunidades, teóricas e práticas, para romper as maneiras tradicionais de pensar.
A engenhosa engrenagem que proporcionou a descoberta e o funcionamento do Relógio Mecânico, estimulou uma visão mecanicista para se compreender, explicar e explorar o próprio funcionamento do Mundo em suas várias manifestações. O processo de elaboração e produção do saber teórico e prático, vinculado a alguns curiosos inventores, que
teimavam em fazer uso da imaginação criativa para resolver problemas estruturais, de grandes e pequenas proporções, somava-se ao de outros intelectuais que, mesmo isolados em seus pequenos mundos abstratos, pensavam estratégias para conquistar o Mundo com seus sonhos.
Desse modo, é possível perceber que o Homem Renascentista apresentou-se permanentemente estimulado para o novo, para arriscar-se em grandes aventuras pelos caminhos do Saber. Aventuras que o forçaram ao alargamento da Razão, para uma dimensão de compreensão mais precisa do Mundo e do que o punha em movimento. Tais aventuras foram expandidas, principalmente, com uso da Bússola Magnética.
Os avanços técnicos e científicos tornaram possível avançar intelectualmente, através dos intrincados caminhos do Mundo Natural, pouco a pouco desvelado pelas investigações Científicas. Assim, o Conhecimento Racional aparece como resultado do aperfeiçoamento técnico nos diferentes modos de apreensão e exploração da Natureza, articulados em prol do avanço da invenção mecânica e da construção de equipamentos de todos os tipos.
A leitura contextual de fatores intrínsecos à formação do Homem Renascentista demonstra que o Renascimento, longe de significar um movimento unilateral, pautado no Poder racional e criativo da nova geração que se formava, destacou-se, fundamentalmente, pela oportunidade criada para a releitura das idéias do contexto anterior, mesmo sem haver a clareza no que estava por vir, ou do que lhe daria suporte.
Tarnas (2000) chegou a admitir que o Renascimento derivava da síntese de muitos opostos, dentre os quais cita o Cristão e o Pagão, o Moderno e o Clássico, o Secular e o Sagrado, Ciência e Religião, Poesia e Política. De onde conclui que o Renascimento foi ao mesmo tempo uma era em si mesmo, e uma transição (Tarnas: 2000, p.251).
O conflito interior do Homem Renascentista envolveu de um lado o teológico e o místico e, do outro, o lógico-racional. Quando colocado na perspectiva comparativa, o renascimento revela traços de um passado solidamente fundado em valores morais fortemente voltados para uma possível recuperação do elo perdido entre o Homem e o Mundo, e de um futuro que se projetou e se organizou em função da superação do que existia como normatização da condição humana no Mundo.
Os fatores acima se juntaram na composição da História Renascentista, provocando mudanças significativas na concepção de Homem e de Mundo, o que se refletiu na modelação da Cultura Ocidental, chegando até à Contemporaneidade, como pressupostos ou exigências para estabelecer padrões normativos de formação ou deformação do Moderno.
Tarnas (2000) nos ofereceu uma síntese do que representou o espírito do Homem Renascentista para a modelação da Racionalização e Modernização do Mundo Ocidental. O destaque encontra-se nos legados da Técnica e da Ciência, que, oportunamente, souberam ocupar estrategicamente os espaços que antes estavam reservados ao Mito e à Religião, para projetarem um novo sentido para o Mundo.
o novo triunfo mecânico proporcionou um Modelo conceitual básico e a metáfora para a ciência emergente da nova era - na verdade, para toda a cultura moderna - moldando em profundidade a moderna visão do Cosmo e da Natureza, do ser humano, da sociedade ideal e até mesmo de Deus. (...) Esse novo valor, colocado no individualismo e na genialidade pessoal, reforçava uma característica semelhante dos humanistas italianos, cujo senso de mérito pessoal também se baseava na capacidade individual e cujo ideal era igualmente o do Homem emancipado, com múltiplos talentos. (...) Marcada pelo individualismo secular, pela força de vontade, pela multiplicidade de interesses e impulsos, pela inovação criativa e por
um desejo de desafiar as limitações tradicionais da atividade humana, esse espírito em pouco tempo começou a disseminar-se por toda a Europa, proporcionando os traços do caráter da Modernidade (Tarnas 2000 p. 248-251).
Alimentado por tais idéias e fundamentado na análise crítica das relações de comunicação que orientam as ações dos indivíduos, o Homem tido como moderno conquistou seu espaço social, elucidando alguns obstáculos que lhe surgiram no árduo processo existencial, e, pela descoberta do seu potencial racional, pareceu assumir a direção e os novos rumos de suas relações com o Mundo e com os outros da sua espécie. Seu modo de pensar, agora moderno em relação aos seus antecessores, parecia seguir o rumo da liberdade que a Modernidade32 lhe oferecia.
Nesse sentido, sob os cuidados e a orientação dos Iluministas33, a Civilização Ocidental começou sua nova caracterização da história da Racionalidade Humana. O indivíduo, no quadro geral dos seus conflitos existenciais, foi estimulado a chamar para si a responsabilidade de gerenciar e administrar o caos à sua volta, ordenando-o, através da Razão. A meta principal foi a superação de toda e qualquer crença que despertasse e
32 Existe uma ampla literatura abordando a questão da Modernidade. Mas, para a definição e contextualização
do termo, preferimos utilizar Bauman (1999), que, também em nota de rodapé, nos oferece informações objetivas da Modernidade: “período histórico que começou na Europa Ocidental no século XVII com uma série de transformações sócioestruturais e intelectuais profundas, atingindo sua maturidade primeiramente como projeto cultural, com o avanço do Iluminismo, e depois como forma de vida socialmente consumada, com o desenvolvimento da Sociedade Industrial (Capitalista e, mais tarde, também a Comunista)”. Cf.Bauman, Zygmunt, Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Editora, Zahar, 1999. (Nota p. 299).
33 Autores como Habermas e Rouanet, estabeleceram uma nítida distinção entre Iluminismo e Ilustração. Para
esses autores, o Iluminismo extrapola a dimensão cronológica de movimento ocorrido no século XVIII, em torno de filósofos enciclopedistas como Voltaire e Diderot. Para esse momento histórico-cultural, os autores designam o termo “Ilustração”. Ver a esse respeito, Rouanet, “Mal-estar na Modernidade”. Por outro lado, Adorno e Horkheimer, na tradução de Guido Antonio de Almeida, utilizam o termo Esclarecimento, para designar esse movimento no qual o indivíduo se esforça para vencer as trevas da ignorância. (ver a esse respeito a obra de Adorno e Horkheimer - Dialética do esclarecimento, tradução de Guido Antonio de Almeida).
alimentasse a esperança dos indivíduos com fins outros que não aqueles pautados no pleno exercício do racional.
A visão tradicional cristã, subsidiada pela visão mítica, era pessimista em relação à