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Originária do grego chronikós, relativo ao tempo (chrónos), a crônica, em sua origem, era um gênero histórico destinado a narrar testemunhos e feitos de uma vida, de forma cronológica, constituindo-se em um documento de todo um período e em uma maneira de representar os fatos históricos no texto, de modo a conservá-los para a posteridade. Tratava-se, portanto, de uma literatura de informação, em que se valorizava o fato ao tempo em que se ia narrando e na qual se adicionava um toque pessoal, isto é, o cronista relatava sua versão do acontecimento através de suas emoções e sentimentos. Com essa característica, a crônica vinha sendo praticada em quase toda a Europa.

A partir do século XIX, com a modernização da imprensa, não se sabe exatamente se em Portugal ou no Brasil, o gênero evoluiu desvinculando-se da história e, em parte, do seu rigor temporal, ligando-se à literatura, para narrar, de uma maneira poética, a realidade do cotidiano nas páginas do jornal, passando a situar-se na fronteira entre informação de atualidade e a narração literária. Assim, segundo Afrânio Coutinho:

A crônica passou a significar um gênero literário de prosa, ao qual menos importa o assunto, em geral efêmero, do que as qualidades de estilo, a variedade, a finura a argúcia na apreciação, na graça, na análise dos fatos miúdos e sem importância [...]. (COUTINHO, 1997, p. 109).

No Brasil, a crônica chegou em meados do século XIX, importada da França e sob o nome de folhetim. O gênero localizava-se na primeira página, ao rés-do-chão, ou seja, no rodapé do jornal. Também denominado de folhetim era este um local destinado ao entretenimento, onde se publicavam diversas modalidades de divertimento, tais como

piada, charadas, anedotas, receitas de cozinha e beleza, críticas teatrais, resenhas de livros, explanação sobre assuntos marcantes da semana, contos e romances seriados. Assim, reunindo comentários dos mais diferentes assuntos, constituía-se, desta forma, em uma seção de variedades, uma espécie de “bazar asiático”, que quebrava o estilo pesado do jornal, tornando-se o grande atrativo dos periódicos da época. Machado de Assis, em crônica de 30 de outubro de 1859, define o folhetim como “fusão admirável do útil com o fútil”, o parto curioso e singular do sério com o frívolo (ASSIS, 1947apud. COUTINHO, 1997, p.109).

Com o tempo, alguns temas dessa seção de variedades foram destacando-se, sendo publicados semanalmente em espaços fixos do jornal. Assim, o rodapé da primeira página da folha se tornou quase que exclusivo ao romance seriado, enquanto que os demais conteúdos que abordavam com sutileza os assuntos do cotidiano - como política, teatro, esporte, memórias - passaram a merecer seções próprias que ocupavam o corpo interno do jornal. Constituindo-se, desta forma, em locais privilegiados para o desenvolvimento do novo gênero.

De acordo com Afrânio Coutinho (1997 p. 124), o primeiro escritor brasileiro a aderir ao folhetim foi Francisco Otaviano de Almeida Rosa, que assinava o “folhetim semanal” do Jornal do Comércio. Contudo, foi a partir de 1854, quando José de Alencar iniciou sua colaboração no Correio Mercantil com a seção “Ao correr da pena”, em que comentava com graça e leveza os acontecimentos da semana, que o gênero começou a se definir como crônica e a se consolidar no Brasil.

Ainda, segundo o entender de Afrânio Coutinho, a crônica adquiriu personalidade com Machado de Assis, que ao escrever seus textos dizia estar escrevendo “brasileiro”, pois a crônica exigia do escritor uma constante participação na vida da sociedade – teatros, reuniões, sessões parlamentares – de onde colhia os assuntos e era induzido a usar uma linguagem coloquial em seus textos, abandonando pouco a pouco o estilo empolado e discursivo da prosa jornalística e literária de então.

Esses escritores, assim como seus seguidores, souberam dar autonomia ao novo gênero que foi se aclimatando, ganhando originalidade e ocupando cada vez mais espaço na imprensa brasileira. Abusando da subjetividade e da descontração, criavam textos leves e descompromissados, que “funcionavam como verdadeiros oásis de respiração e bom gosto” (SANTOS, 2007, p.14), em meio às pesadas notícias de crises e de tragédias dos jornais.

Assim, o cronista buscava dentre os assuntos mais importantes e de maior divulgação, temas que permitissem discussão do interesse do leitor, de modo a construir uma cumplicidade com seu público.

Devido a essas características, a crônica foi comparada, por Antônio Candido e Davi Arrigucci, a uma conversa fiada entre amigos, com ar, aparentemente, de assunto desnecessário, e, por isso, mais próximo do leitor e de sua vida cotidiana, uma vez que “fala de perto ao nosso modo de ser mais natural” (CANDIDO, 1992, p.13). De acordo com Davi Arrigucci:

A crônica se situa bem perto do chão, no cotidiano da cidade moderna, e escolhe a linguagem simples e comunicativa, o tom menor do bate- papo entre amigos, para tratar das pequenas coisas que formam a vida diária, onde às vezes encontra a mais alta poesia. (ARRIGUCCI, 1986, p.45).

A crônica, apresentando-se como um texto literário dentro do jornal, torna-se um gênero efêmero e passageiro, relacionado diretamente ao seu tempo. Divulgada nesse órgão transitório e fruto de assuntos atuais, não tem pretensão à perenidade, herdando o mesmo caráter fugaz dos demais textos jornalísticos, isto é, o do esquecimento, uma vez que perde sua validade e brilho a cada dia, sendo substituída por outros textos que exercem a mesma função a cada novo periódico.

De caráter ambíguo, uma vez que, segundo Gledson (1990, p.11), é “um misto híbrido de jornalismo e literatura”, ela se aproxima, na sua concepção, do caráter despretensioso e datado de uma notícia. No entanto, difere da matéria essencialmente jornalística, na medida em que, apesar de ter como ponto de partida os acontecimentos diários, não visa à informação, seu propósito é ir além da divulgação dos fatos ocorridos, valendo-se do tom sutil para analisar e transformar a realidade do cotidiano, de modo a atrair o leitor. Como ressalta Massaud Moises, a crônica:

[...] apesar de fazer do cotidiano o seu húmus permanente, não visa à mera informação: o seu objetivo, confesso ou não, reside em transcender o dia-a-dia pela universalização de suas virtualidades latentes, objetivo esse via de regra minimizado pelo jornalista de ofício. O cronista pretende-se não o repórter, mas poeta ou ficcionista do cotidiano, desentranhar do acontecimento sua porção imanente de fantasia. (MOISES, 1982, p.247).

Desta forma, o gênero crônica se situa na fronteira entre o jornalismo que relata de maneira impessoal, fria, sem emoção, um acontecimento corriqueiro e a literatura que, através da fantasia, da poesia e, muitas vezes, do humor dá ao mesmo acontecimento leveza e beleza.

Assim, ao contrário da notícia e da reportagem que procuram de todas as formas convencerem o leitor sobre a importância de determinados fatos, a crônica insiste na desimportância de tudo. Paira sobre todos os assuntos sem ater-se aos fatos que têm importantes em si mesmos e, como sugere o crítico Roncari (1985, p. 14), “volta-se para aquilo que passaria despercebido se não fosse o cronista”.

Apesar de estar em um espaço de notícias, o cronista tem total liberdade para comentar o que quiser, misturando ficção, lirismo, humor e verdade para representar a vida real, com todas suas frivolidades e seu mundanismo. Gênero constituído de observação, sobretudo pessoal, sua essência está no detalhe, no ínfimo, no camuflado, naquilo que para os olhos comuns pode não dizer nada. Assim, ainda segundo Roncari:

O cronista é o sujeito que retrata o tempo, canta a imagem do turbilhão que remexe a ordem do mundo e não deixa nada fixo no lugar. [...] vê o cotidiano com um olhar estranho, alguém capaz de observar e julgar o movimento, a mudança, e alertar para o que tem de extraordinário o que parece corriqueiro, sólido e estabelecido. (RONCARI, 1985, p.14).

Sob essa definição, percebemos que a crônica, no Brasil, é um gênero hibrido em que se misturam prosa, poesia, humor, fantasia, e no qual cronista faz considerações sobre os fatos sem a pretensão de persuadir, mas antes de, refletir despretensiosamente sobre os eventos reconhecendo o passar contínuo das horas.

No entanto, não se trata de um gênero exclusivamente brasileiro, segundo José Marques de Melo (2005, p. 150), “a teoria portuguesa do jornalismo registra a existência da crônica na imprensa periódica e mostra a correspondência de interesse que encontra junto aos leitores”.

Também os cronistas portugueses escreviam nos jornais, com linguagem expressiva e, por vezes, poética, com toques de ironia e humor, os comentários da vida cotidiana, procurando ressaltar em seus textos um julgamento do comportamento social. Desta forma, estudiosos da crônica portuguesa, como José Goulão e José Jorge Letria, realçam a sua dimensão literária afirmando que:

Este gênero jornalístico é o que mais contatos tem com os gêneros literários clássicos. Os fatos são, portanto, um pretexto para o autor da crônica. A partir daí ele dá vazão aos seus sentimentos e, com absoluta legitimidade, pode entrar no domínio da ficção. A associação de idéias, o jogo de palavras e conceitos, as contraposições, misturam o real e o imaginário como forma de fazer realçar o primeiro. (LETRIA; GAULÃO, s/d, p. 85).

Deste modo, ainda com base nos dizeres de Letria e Gaulão, o cronista português, assim como o brasileiro, “reproduz em seu texto sua vivência pessoal com a qual muitas vezes os leitores se identificam, através do humor, da ironia e do elogio emocionado, de todas as formas de sentimentos” (LETRIA; GAULÃO, s/d, p. 86).

Tais pontos de contato entre o gênero nos dois países esclarecem a boa receptividade dos cronistas portugueses em jornais brasileiros no fim do século XIX e início do século XX. Nesse período, a crônica foi bastante cultivada nas folhas periódicas, amenizando as paixões políticas e os problemas sociais, pois tinham como principal objetivo a distração.

A crônica era destinada a comentar de modo ameno os fatos ocorridos na semana ou no mês, tornando-os assimiláveis para os mais diversos leitores. Dentre eles, destacamos a colônia portuguesa, que se postava como um importante público leitor, principalmente, da Gazeta de Notícias, na medida em que era responsável por grande parte dos anúncios divulgados na folha, contribuindo para a sua sobrevivência e afirmando seu interesse pelos textos divulgados no jornal, principalmente, aqueles que diziam respeito ao seu país de origem.

Desta forma, a Gazeta de Notícias, um dos principais divulgadores das letras no país, sobretudo, da crônica, contava entre seus colaboradores, com o escritor português D. João da Câmara.