Morin (2011b, p. 63) fala que é preciso compreender a condição humana no mundo como a condição do mundo humano. A compreensão humana chega quando sentimos e concebemos os humanos como sujeitos. O sujeito humano é complexo por natureza e por definição.
Trata-se de compreender que a unidade é múltipla e que o múltiplo é uno. O ser humano apresenta uma unidade genética comum a todos por isso é uno e múltiplo simultaneamente. E nesse contexto concordamos com Morin quando define o homo complexus. “[...] se o homo é, ao mesmo tempo, sapiens e demens,
afetivo, lúdico, imaginário, poético, prosaico, sé é um animal histérico, possuído por seus sonhos e, contudo, capaz de objetividade, de cálculo, de racionalidade, é por ser homo complexus”. (MORIN, 2003, p. 140).
Essas perspectivas possibilitam a compreensão da relação entre indivíduo e sociedade e, nesse sentido, conduzem à tomada de conhecimento e
conscientização dos estudantes sobre a sua condição humana e da diversidade dos indivíduos, dos povos e das culturas (MORIN, 2003).
Assim, a importância de tratar a condição humana, a noção de interdependência e a necessidade do cuidado por relações saudáveis entre os seres humanos e desses com o meio natural torna-se relevante nos diferentes conteúdos curriculares. Além disso, vale ressaltar a importância de que os professores possam melhor entender os estudantes, na medida em que os entendam como seres biológicos, psíquicos, afetivos, sociais e intuitivos e, sob essa ótica, reconhecendo suas subjetividades e problemas pessoais no ato educativo (PETRAGLIA, 2001; SANTOS, 2008; VIEIRA et al., 2010a, 2010b).
Faz-se decisivo a solução para o problema da compreensão diante da situação paradoxal do planeta. A solidariedade une os homens, contudo, a incompreensão permanece geral. O avanço da falta de compreensão tem se sobressaído em relação aos progressos do entendimento. Assim, a compreensão humana é “uma das finalidades da educação do futuro” (MORIN, 2011a, p. 93). Ela se compromete a garantir “a solidariedade intelectual e moral da humanidade” (MORIN, 2011a, p. 93).
São identificados dois extremos no problema da compreensão. Um deles é o problema planetário da compreensão entre os humanos, as culturas e os povos de origens distintas. O outro extremo se refere ao individual, às relações particulares entre os próximos, que são cada vez mais regidas pela incompreensão, já que a proximidade pode fazer emergir sentimentos negativos, mesmo nos que apresentam uma intelectualidade mais evoluída (MORIN, 2011a).
Morin identifica duas formas de compreensão: a intelectual ou objetiva e a compreensão humana ou intersubjetiva. A primeira é necessária à clareza e a explicação. À segunda, a explicação não é suficiente. A intersubjetividade admite o conhecimento entre sujeitos. O olhar sobre o outro pode ser objetivo ou subjetivo. O outro é alguém com quem se identificar sentir empatia ou projetar (MORIN, 2011b).
Os obstáculos à compreensão, nas suas duas formas, são diversos e enormes, situam-se no centro do mundo e consideraram “secundário, insignificante ou hostil tudo o que é estranho ou distante” (MORIN, 2011b, p. 96). Entre esses
obstáculos, estão: o “ruído”, que cria mal-entendidos ou não entendidos; a polissemia; a ignorância aos ritos e costumes do outro; a incompreensão dos imperativos éticos, próprios a uma cultura; a impossibilidade de compreensão de ideias ou argumentos de outra visão de mundo; e a impossibilidade de compreensão de uma estrutura mental em relação à outra (MORIN, 2011b).
O egocentrismo também dificulta a compreensão, na medida em que fertiliza o autoengano, pois o indivíduo tapeia a si mesmo e culpa o outro por seus males. O autoengano é um jogo que alterna mentira e sinceridade, convicção e duplicidade, levando o sujeito a perceber, de maneira pejorativa, o que as pessoas dizem ou fazem. Quando se auto engana, o indivíduo seleciona questões desfavoráveis dos outros, eliminando o que lhes é favorável, fato que interfere na compreensão entre as pessoas, devido à incompreensão de si próprio. Quando encobre as próprias fraquezas, o homem se torna implacável com as fraquezas dos outros. O ego hipertrofiado e alimentado pela necessidade de consagração torna-se necrosado, ao invés de mais compreensivo (MORIN, 2011a).
A potência destruidora do etnocentrismo e do sociocentrismo é outro obstáculo à compreensão, já que pode apagar no estranho, a qualidade de ser humano. O combate real ao etno e sociocentrismo seria a luta contra a ascendência ego-sócio-cêntrica do racismo, não somente a seus sintomas propriamente ditos (MORIN, 2011a).
Outro obstáculo para a compreensão é o espírito redutor, que restringe a noção do complexo à noção de cada um dos elementos do complexo. Esse modo de pensar, aliado à incompreensão, que motiva a redução da personalidade, ainda é predominante, e suas consequências são piores no âmbito da ética do que no do conhecimento físico. Se um organismo se mostrar com um de seus traços oportuno, não se conhecerá os aspectos negativos dessa personalidade, mas quando esse traço se mostrar desfavorável, não se conhecerá seus traços positivos. Nos dois casos, haverá incompreensão. Para a compreensão humana, não se pode reduzir o ser humano a seu erro, mesmo que o tenha cometido inúmeras vezes. O pensamento que abstrai do ser humano suas outras facetas, além do erro que cometeu, afasta o indivíduo de seu complexo e de sua humanidade, devido a esse único quesito. A crença em verdades absolutas destrói a possibilidade de compreensão das verdades de outras pessoas (MORIN, 2011a).
Os maiores entraves à compreensão são fundados por composições estruturais, radicadas de maneira permanente no espírito humano, como o egocentrismo, a auto justificação, o autoengano, as possessões e reduções e a vingança. Essas características não podem ser extraídas do ser humano, mas devem ser superadas. A união das incompreensões, intelectual e humana, individual e coletiva, constitui um empecilho para que as relações entre indivíduos, grupos, povos e nações possam ser melhoradas. As compreensões intelectuais e humanas podem ser alcançadas através do desenvolvimento das vias intelectuais e éticas (MORIN, 2011b).
A ética da compreensão exige que esta seja efetivada de modo desinteressado, pela proposição de argumentos ao invés de reprovações, não esperando reciprocidade. Ela solicita que se compreenda a incompreensão. A compreensão não desculpa nem acusa. Antes de se condenar, deve-se compreender o único caminho para a humanização das relações humanas (MORIN, 2011b).
O “bem pensar” é um dos fatores que favorecem a compreensão, pois permite apreender, em conjunto, o texto e o contexto, o ser e seu meio ambiente, o local e o global, o multidimensional e, consequentemente, o complexo, ou seja, as condições objetivas e subjetivas do comportamento humano. A introspecção também beneficia a compreensão, pois se utiliza da prática mental do autoexame crítico, que nada mais é do que a compreensão das próprias fraquezas e falhas, para que se possa entender que todos necessitam de mútua compreensão. Só assim será possível, ao homem, julgar seu próprio egocentrismo e, desse modo, não assumir a posição de juiz de todas as coisas (MORIN, 2011b).
Para que se compreenda o outro é necessário que se tenha consciência da complexidade humana, de maneira a evitar a redução do ser à menor parte dele próprio ou a um fragmento de sua vida. É importante também que se tenha uma abertura subjetiva e simpática em relação ao outro, não somente aos mais próximos, mas que esse privilégio se estenda aos demais (MORIN, 2011b).
Outro ponto-chave para a compreensão humana é a interiorização da tolerância, o que não significa ser indiferente a ideias ou ceticismos, mas assumir convicções e, ao mesmo tempo, aceitar convicções contrárias. A tolerância sugere: angústia em suportar ideias contraditórias e calar ao invés de proferir,
contrariamente, em relação a propósitos que parecem abomináveis. Isso não significa respeitar o conflitante, mas evitar que a concepção própria seja imposta sobre o ignóbil, de modo a coibir sua fala. Outro fato relevante em relação à tolerância é que ela é intrínseca à opção democrática, já que a democracia se sustenta de opiniões antagônicas e diversas, dessa maneira, exige que haja respeito à expressão de ideias as mais diversas. Outro fator importante relacionado à tolerância é o entendimento de que há uma verdade na ideia contraditória e que é preciso respeitá-la (MORIN, 2011a, p. 102). A tolerância que se defende aqui é relacionada a ideias, não a insultos, agressões ou atos homicidas (MORIN, 2011a).
O processo mundial de compreensão abrange a ética da compreensão entre as pessoas, que se funda em uma ética planetária. Dessa maneira, as culturas devem aprender umas com as outras, já que “compreender é também aprender e reaprender incessantemente” (MORIN, 2011b, p. 102) e, assim, agregar as virtudes das outras culturas e, ao mesmo tempo, propagam o melhor de si (MORIN, 2011b). Esse caminho exige que as sociedades sejam democráticas, abertas e compreendam as causas da incompreensão para que estas possam ser superadas (MORIN, 2011b).
Assim, acreditamos que a compreensão humana tal qual é definida por Edgar Morin nos ajuda a aprofundar as questões que envolvem o trabalho em equipe na área da saúde e da educação.
Nesse sentido, retoma-se a questão de pesquisa que norteia este estudo: Qual é o conceito de trabalho em equipe que direciona a prática educativa do curso de enfermagem em um Currículo Integrado? Para tanto, o próximo capítulo descreve a trajetória metodológica percorrida para a coleta das informações utilizadas neste estudo.