Gerada entre o final do século XIX e o início do século XX, a obra Peter Pan aponta para uma nova organização social onde a estrutura familiar — bem entendida como burguesa ou de classe média — se esclarece e adquire fundamental importância, em que os espaços de convivência determinam-se, segundo Michelle Perrot50, em função do público e do privado, e onde papéis específicos são definidos conforme sexo e idade. É sobretudo na versão literária, através de um debruçar-se mais profundo sobre a família Darling, que Barrie nos oferece um
46 Disponível em : http://www.peterpanescarlate.com.br. Peter Pan Escarlate não é a única obra literária editada
de caráter intertextual, embora seja a única conhecida no Brasil. Cito ainda: na França, o romance gráfico Peter
Pan do famoso criador de histórias em quadrinhos Regis Loisel (LOISEL, 1990-2004), em que se entrelaçam
fantasia e a realidade social infantil entre fins do século XIX e o início do século XX46; nos Estados Unidos,
Hook and Jill, de Andrea Jones (JONES, 2009), romance que dá continuidade à narrativa de Barrie e destaca as
personagens Wendy e Capitão Hook.
47 Tinker Bell ou Sininho, como é traduzida no Brasil, foi reapresentada com seu nome em inglês e tem sido
objeto de massivo investimento por parte da indústria cultural, tanto na produção de objetos narrativos como roupas e acessórios femininos infantis e juvenis.
48Trata-se da Série Disney Fadas, composta de livros ilustrados em projeto gráfico sofisticado, e que narram
episódios ocorridos com a Fada Sininho e suas amigas, escritas por Gail Carson Levine e ilustradas por David Christian. No Brasil, a série está sendo editada pela Melhoramentos.
49 Obra aberta tanto no sentido proposto por Umberto Eco (ECO, 2001) em um dos seus textos teóricos mais
famosos ⎯ aberta a inúmeras abordagens e interpretações ⎯ quanto no sentido de flexibilidade versativa (e recriativa) para as mais variadas mídias e interfaces.
ponto de vista peculiar sobre essa organização e sobre a relação entre progenitores e prole em sua época, em que se vislumbram os cuidados, a segurança e a proteção da criança pelos adultos, mas também afetos e desafetos, pressões e repressões do desejo. Configurada sobre o tripé tradicional – pai, mediador entre o individual e o coletivo, entre o íntimo e o público51; mãe, provedora do conforto doméstico52; filhos, uma menina primogênita e seus dois irmãos menores, seres em formação, projeções dos pais ao mesmo tempo em que projetam a si mesmos53 – a família Darling chega a operar como um único atuante. Corpo afetuoso e protetor54, essa família-personagem, ao entrar em conflito interno55, percorre uma trajetória56 até o desfecho que, entretanto, não apresenta soluções fáceis, apaziguadoras ou definitivas. A unidade Darling é ameaçada pelo extraordinário poder de sedução de Peter Pan, mas, mesmo após o retorno das crianças ao lar, nada, segundo Barrie, garante a vitória e a estabilidade dos laços familiares: o progressivo amadurecimento de Wendy, o futuro dos meninos John e Michel, o envelhecimento e a morte de entes queridos (da Sra. Darling), a promessa de continuidade através dos nascimentos vindouros — de Jane e de Margareth. Todos esses eventos servem não apenas para ressaltar a eternidade de Peter Pan: eles também chamam a atenção sobre a vida concebida como uma espiral evolutiva57, transmitida de mãe para filha (diferente de Neverland, onde o círculo se fecha eternamente sobre si mesmo), e onde os eventos, sejam eles tristes ou alegres, cumprem o papel de dar ritmo e corpo ao tempo vivido.
Crescer e morrer, ou jamais crescer e, portanto, não envelhecer nem morrer — em
51 “Ele domina totalmente o espaço público. [...] Mas os poderes do pai também são domésticos. [...] ele é senhor
pelo dinheiro. [...] mesmo generoso, o pai exerce controle e poder. [...] As decisões fundamentais cabem ao pai. [...] tem o direito de vigiar as visitas, os passeios, as idas e vindas e a correspondência da mulher.” (PERROT. In: ARIÈS; DUBY, v. 4, 2009: 107-118.)
52
“As mulheres, agora, administram a casa, o grande número de empregados e a família igualmente numerosa [...]. Elas constroem uma moral doméstica[...]: a fé contra a razão, a caridade contra o capitalismo, a reprodução como autojustificação. [...] Enfim, o filho, sua saúde e sua educação são invocados como fundamento dos deveres e poderes das mulheres.” (PERROT. In: ARIÈS; DUBY, v. 4, 2009: 129-130.) “
53
“[...] o filho não pertence apenas aos pais: ele é o futuro da nação e da raça, produtor, reprodutor, cidadão e soldado do amanhã.” (PERROT. In: ARIÈS; DUBY, v. 4, 2009: 134.)
54 Darling quer dizer, em inglês, querido/a, tratamento afetivo adotado na época entre esposo e esposa. 55
Temos um pai, George Darling, intransigente e provedor, versus uma Sra. Darling (na peça ela é identificada como Mary, mas na versão literária ela não é nomeada) compreensiva e administradora do lar e seus afetos.
56 As crianças, em especial Wendy, estão em busca de individuação; os pais, em especial o Sr. Darling, passam
por um processo de auto-avaliação em virtude da espera saudosa e do medo de perder os filhos para sempre.
57 Utilizo a palavra evolução não em seu sentido habitual, de algo que segue em sentido linear e positivo em
direção a uma meta de perfeição, mas em seu sentido físico: conjunto de movimentos em várias direções, que modificam a forma ou a composição de um estado de coisas ou da matéria em direção a um novo estado, sem que isso tenha significado positivo ou negativo.
contrapartida, não viver; eis a questão. É fácil justificar por que, para o autor, é a personagem feminina a protagonista incumbida de conferir sentido ao tempo que passa, e por que é sobre Wendy que recai a responsabilidade de garantir o andar natural da vida – que não deve ser evitado ou interrompido –, basta que se pense no novo papel que, por essa época, já assume seu sexo, antes mero corpo-objeto, fonte de gozo masculino e de desafogo dos desejos da carne, indiciador de vergonhas e imundícies, para a imagem santificada de “rainha do lar”58. Essa identidade, hoje considerada pejorativa, indica o assumir de uma função socialmente aceita e reconhecida: a mulher, embora ainda subalterna à autoridade masculina, emerge como responsável pela ordem do espaço privado, enquanto cabe ao homem as tarefas de ordem pública e social. É no e a partir do seu corpo, agora visto como virtuoso, que se compreendem os ritmos naturais da existência e do envolvimento afetivo. A determinação de Wendy em regressar ao lar e ao cumprimento de todas as etapas que levam à maturidade oferece-se, assim, como um contraponto a Peter Pan, destacado em sua forma panteísta. Para o leitor infantil, porém, o que ficará disso tudo o que acabo de elucubrar? E como seria ler Peter Pan e Wendy na primeira década do século XX, poucos anos antes da Primeira Guerra Mundial? Seria essa leitura tão diferente da contemporânea? Em quê?
Entendo que a família do início do século se mantém praticamente como modelo aceito e ideal ainda na atualidade, mesmo se considerarmos a crescente reavaliação de papéis masculinos e femininos, as novas estruturas e formações parentais a partir da liberação do divórcio e dos novos arranjos matrimoniais. Família ainda significa pai/mãe/filhos, quaisquer que sejam os sujeitos que personifiquem tais papéis, seja em substituição ou adequação, independente de os laços se constituírem por meio de ofício ou por escolha afetiva. Embora organização em crise59, a família ainda é valorizada como a opção mais saudável e bem- sucedida, não só pelas vantagens próprias de uma relação conjugal estável e segura (companheirismo, redução de doenças venéreas, etc.), mas porque é ainda considerada peça- chave para a boa formação de crianças e jovens. Se há uma diferença entre a criança de ontem
58 Oposta à mulher fatal criada pela imaginação romântica e, mais especificamente, pelos simbolistas, a rainha
do lar resulta de um investimento da Igreja Católica a partir da imagem de Maria, mãe de Jesus. Essa mulher,
segundo Alain Corbin (CORBIN. In: ARIÈS; DUBY, v. 4, 2009), só aparece em público com os cabelos presos, em trajes íntimos só será vista pelo marido, seu corpo deve ser escondido sob saias e armações de modo a não revelar suas formas, e, às mocinhas, ensina-se a portar-se com modéstia, além das práticas manuais e domésticas.
59 O modelo familiar em crise, para o sociólogo Zygmunt Bauman, é o resultado de uma segunda revolução
sexual, consistindo “no desmantelamento de tudo o que a primeira revolução [...] construiu. Testemunhamos hoje uma gradual, mas aparentemente inexorável, desintegração (ou, ao menos, considerável enfraquecimento) do outrora sacrossanto e imperturbável ‘ninho familiar’.” (BAUMAN, 1998: 183.)
e a de hoje, ela se manifesta cultural e socialmente não tanto nos próprios modos do pensar infantil, mas nos modos como o adulto vê e entende essa criança, nos modos como ele permite ou interdita sua participação/interação no âmbito do privado e do público. Do ponto de vista do adulto, podemos falar da criança do início do século XX como um ser idealizado, inocente, frágil e assexuado. Contudo, uma formação diferenciada logo iniciará meninos e meninas em seus diferentes papéis: para eles, a pressão é no sentido de prepará-los para ocupar com competência seu lugar na ordem coletiva, preferencialmente seguindo os passos do pai (se este for um modelo bem-sucedido), de modo a garantir dignidade profissional e o sustento da futura família; para elas, a pressão é para que se casem tão logo o corpo esteja maduro para a vida matrimonial e os filhos e estejam habilitadas a administrar ou cumprir com autonomia as tarefas domésticas. A pressão, em suma, é para que cresçam e o façam rápido — muito embora o sentimento de nostalgia em relação ao irrecuperável estado infantil seja cultivado pelo espírito da época.
O paradoxo gerado pelas demandas sociais versus sentimentos subjetivos da classe média do início do século é discutido em Peter Pan, e os jovens leitores da época devem ter se sensibilizado, certamente, com a ideia de jamais crescer, de permanecer em estado de inocência e de irresponsabilidade, enquanto brincam com suas projeções de ser-adulto. Vivendo apenas para se divertir, esses seres “sem coração” contariam com a eterna proteção parental toda vez que necessitassem — bastaria entrar pela janela amorosa da casa burguesa, deixada sempre aberta. Haveria em cada um deles a vontade irresistível de se liberar do jugo adulto e das pressões formativas, de voar para longe e viver aventuras, ainda que de faz-de- conta: em Neverland, lugar onde o desejo infantil é a regra, o adulto não passa de um pirata sem mãe, mal-educado, patético em seu temor por um menino cujos dentes ainda são de leite.
Um grande achado de Barrie foi lidar com esses desejos apresentando um universo de fantasia diverso do usual, repleto de aventuras superficiais, comuns em outras narrativas dirigidas ao público infantil. Neverland (cujo aspecto se modifica conforme o sonho ou a projeção de cada criança) jamais se apresenta como um espaço inconsequente, desprovido de sentido: a ilha traduz-se como um espaco simbólico, cujas ocorrências apresentam significados ora amargos para os adultos mais perspicazes, ora misteriosos e até mesmo assustadores, principalmente para as crianças da época, quando o gênero de fantasia e aventura infantil, inspirado em histórias de viagens a lugares exóticos (leia-se América e África), era ainda uma novidade. Outro achado foi ter irradiado a narrativa a partir não apenas da figura de um herói, mas também de uma heroína: embora o casal protagonista atue como
se fossem ambos aliados, eles representam forças opostas e estão em dissimulada competição. A apreensão da relação entre Peter e Wendy será variada, conforme o sexo do leitor ou os elos de identificação estabelecidos por este com cada um. Nos anos de 1910, o leitor se encontraria perfeitamente sintonizado com o protótipo de herói que Peter Pan representa — um menino que deseja apenas viver aventuras e se divertir. Também a leitora certamente se reconheceria no papel que Wendy exerce em seu faz de conta, como esposa, mãe e dona de casa em Neverland; para ela, Wendy representaria tudo aquilo que uma futura mocinha do seu tempo deve sonhar ser, enquanto Peter lhes apareceria como um sonho de libertação através do casamento, um modelo de marido e pai a guiá-las por um espaço social imaginário. Como Peter não sabe cumprir esse papel, ela compreende que deve voltar para casa e prosseguir em seu amadurecimento e aprendizado até estar pronta para o homem maduro que virá. Mas mesmo essa constatação não é assim tão simples, limitada a um viés puramente psicopedagógico e ligado a uma perspectiva evolutiva de formação da criança60. Graças ao terceiro trunfo, guardado pelo autor para o epílogo, a personagem, mesmo casada e mãe, é capaz de manter contato com Peter Pan, assim como a Sra. Darling (cujo “beijo escondido” somente Peter foi capaz de obter), e assim como, provavelmente, sua filha e sua neta o farão. Wendy preserva e alimenta o espírito da infância dentro de si, em sincronia com seu estado adulto. Para as crianças, sobretudo para as meninas, isso poderia trazer algum conforto, especialmente num período em que estariam prestes a transpor as fronteiras próprias da idade, quando seriam então entregues ao futuro marido, um desconhecido (a infância seria, para elas, o recanto do ser onde homem nenhum poderia exercer seu domínio). Para os adultos de 1910, Wendy afirmaria, por um lado, a necessidade imperativa de crescer, à custa do abandono do paraíso infantil; por outro, ela personificaria o ideal de seu sexo santificado pela maternidade, tornando-se guardiã e transmissora do estado e da memória infantes, graças ao contato renovador com os filhos. Por isso, para esses mesmos adultos, Peter pode afigurar-se encantador, um ser patético e comovente.
Para o leitor contemporâneo, o conflito estabelecido pela obra poderá ganhar outro
60 Segundo Lucia Rabello, “a compreensão da especificidade da infância fica por conta de um ‘débito social e
cultural’ que lhe é atribuído frente à tarefa de crescer, e se tornar, eventualmente, como um adulto. Frente a esse ‘débito’, interpõem-se as ações educativas e familiares que visam, então, ‘fazer das crianças adultos’, ‘socializá- las’, ‘amadurecê-las’, enfim, operar sobre a infância com o dever de torná-la sempre evanescente, um traço a ser apagado e destruído, um momento, por princípio, transitório.” (RABELLO, 2001: 20.)
sentido, se eu assinalar, como assinala Isabelle Cani61, que o espaço social destinado à criança ampliou-se, e que a antiga imagem de inocência e doçura projetada pelo espírito romântico- burguês está sendo abandonada. Centro das atenções e preocupações de toda ordem e em todos os níveis — cultural, social, econômico, político, psíquico, até mesmo tecnológico — a jovem geração contemporânea, fruto de lares fragilizados e destituída de modelos parentais seguros e/ou eficientes, emancipou-se62 (não somente como classe consumidora, mas também como participante ativa dos processos sociais e econômico-culturais, como dirá Henry Jenkins em Cultura da convergência63). Perdida a aura angelical, ainda pesam sobre ela, entretanto, as exigências de uma evolução progressiva em direção a um adulto aperfeiçoado. Na pós- modernidade, acrescenta-se o fato de que o próprio adulto em crise volta-se para a juventude como modelo especular ou referencial, não apenas estético, mas como fonte de informação e de conhecimento (sobretudo quando se fala da facilidade aparente com que os jovens usualmente se acercam das novas tecnologias)64. O fenômeno é visível na predileção por determinadas formas e produtos inspirados na cultura infantil e juvenil, no desejo de preservar
61 Em sua comparação Peter Pan/Harry Potter, Cani (op. cit.) demonstra como Rowling propõe uma outra visão
do adulto sobre o ser infantil, mais à vontade e mais compreensiva sobre a dinâmica obrigatória e necessária do crescimento. Embora Barrie apresente a mesma consciência dessa dinâmica, seu ponto de vista é melancólico, beirando o trágico. Em Barrie, a idealização da infância é sintoma apresentado pelo adulto doente devido ao predomínio da lógica e da razão na organização da sociedade moderna; em Rowling, é a igualdade e a aparente diluição de fronteiras entre o espírito jovem e o maduro que contam (pensemos que bruxos e bruxas, jovens e adultos, lutam juntos na saga da autora, armados de poderes que se equiparam). A nostalgia de um tempo vivido, irreversível, foi trocada pela urgência de viver o aqui e o agora e adultos querem viver a juventude tanto quanto os jovens antecipam experiências que antes lhe eram interditadas.
62 Conforme Silvia e Guillermo Obiols: “[...] la posmodernidad propone la adolescencia como modelo social, y
a partir de esto se ‘adolescentiza’ a la sociedad misma.” [ “[…]a pós-modernidade propõe a adolescência como
modelo social e, a partir disso , ‘adolescentiza-se’ a sociedade mesma.”(OBIOLS; OBIOLS, 2008: 77, tradução minha.)] Eu diria que não só a cultura adolescente, mas também a infantil, tem influenciado os padrões estético e socioculturais como um todo. As necessidades e os gostos infantis são levados em consideração na arquitetura (vejam-se os espaços organizados para usufruto infantil no interior dos novos condomínios, shopping centers, cinemas e supermercados) e na indústria de entretenimento “para todas as idades” (como o comprovam filmes como Shrek, O estranho mundo de Jack, Avatar, entre outros) e até mesmo no vestuário e acessórios
direcionados para o consumidor adulto (desde o baby-doll, e incluindo o estilo lolita as camisetas baby-look). O olhar infantil perpassa inclusive a criação artística contemporânea em sua releitura do kitsch. Em todos os lugares, a voz da criança se faz ouvir, ainda que majoritariamente traduzida pelo e quando do interesse do adulto.
63
JENKINS, 2009.
64 “[...] mientras la autoridad paterna se iba desgastando y la materna no alcanzaba para compensarla, los
jóvenes ocupaban el lugar vacante avalados por la cultura que los idealizaba. Se les delegaba una autoridad — que no había tenido nunca — basada en la idea de que, por mero hecho de ser jóvenes, sabían lo que debía hacer-se, ya que no habían sido contaminados por la edad. […] Esos chicos aparecen rodeados de una enorme autoridad social, todo lo que hacen puede ser tomado como modelo por millones de otros.” [ “[…] enquanto a
autoridade paterna ia desgastando e a materna não alcançava compensá-la, os jovens ocupavam o lugar vago abalizados pela cultura que os idealizava. Se lhes delegava uma autoridade ⎯ que não haviam tido nunca ⎯ baseada na ideia de que, pelo fato de serem jovens, sabiam o que fazer, já que não haviam sido contaminados pela idade. […] Essas crianças aparecem rodeadas de uma enorme autoridade social, tudo o que fazem pode ser tomado como modelo por milhões de outros.” (OBIOLS, 2006: 96, tradução minha.)]
ao máximo a aparência de juventude, na busca de um compartilhamento de gostos e atitudes e, por fim, inclui até mesmo o esforço em melhor compreender e interagir com suas mentes e seus espíritos ⎯ valorizando-os em cada gesto e em cada resposta criativa ou expressiva, sempre procurando, a partir disso, desenvolver uma pedagogia mais competente e aproximativa da criança e dos seus interesses, com o intuito de promovê-las a adultos bem resolvidos. Por mais que se faça, contudo, o abismo temporal, psico-biológico e cultural entre as gerações permanece, assim como as angústias geradas pela consciência da vida como percurso progressivo em direção à morte.
Para a criança leitora da atualidade, se Peter Pan perde em termos de poder de sedução para Harry Potter — o herói que amadurece a cada episódio —, por outro, ele ainda diz desse medo da perda da infância e do não dar conta de crescer. Ele ainda responde ao desejo de fugir do excesso de encargos e de responsabilidades (levo em conta o contexto da infância contemporânea, cujos afazeres e atividades extra e intraescolares podem ser encarados por elas com muita seriedade, independentemente da localidade sociocultural, causando o chamado estresse infantil) e das pressões de uma realidade dominada pelo adulto (as exigências agora são no sentido de lidar com desarranjos e rearranjos familiares, com tarefas acima da sua capacidade, com o aumento de insegurança e de violência nos centros urbanos, etc.). A menina contemporânea poderá se identificar com as primeiras aflorações de sexualidade de Wendy, seu apelo angustiante a Peter para que cresça e amadureça, seu senso de responsabilidade e sua preocupação com a preservação da memória afetiva e com o bem- estar dos outros — perfeito contraponto ao parceiro egoísta, esquivo e fanfarrão a quem, entretanto, ela embalará sempre que for acometido por pesadelos originários do abandono e da solidão. O medo de crescer pode ser mais pronunciado no menino, reflete Cani65, daí a predileção dos autores Barrie e Rowling por protagonistas masculinos, para os quais, independente do sentido gerado, a busca heróica adquire crucial importância. Por isso, se, como herói, Peter Pan desagrada ao garoto contemporâneo, será justamente porque, mais do que qualquer outro, ele aponte para algumas fragilidades condicionais da formação de sua identidade sexual. Ao ler o texto literário, todo menino perceberá que a fanfarronice de Peter