Partimos do pressuposto de que a atitude de um indivíduo referente ao grupo é formada pela síntese das crenças que ele possui quanto ao seu objeto. Uma crença é compreendida a partir da subjetividade do objeto que o indivíduo possui. Toda crença associa um valor62 ao objeto. Portanto temos: Atitude = valor x expectativa63. Isso
significa que dois ou mais grupos podem apresentar opiniões diversas acerca de um objeto, mas parte das mesmas crenças. O diferente é o valor atribuído somado à expectativa de realização.
Quanto à identificação que parte do GJ, tomamos os crentes e não crentes na formação identitária do grupo, sendo estes, respectivamente, os que creem em Jesus e creem em Deus e os que não creem em Jesus e não creem em Deus64 (5.38; 8.46-47). O
GJ tem em seu processo de linguagem o dualismo luz e trevas como identificação dos crentes e não crentes. Em termos de oposição, este considera os que estão fora do grupo como os que estão nas trevas, os que estão seguindo outro caminho, outra verdade e
60 Atitude = comportamento ditado por disposição interior, maneira de agir em relação à pessoa, objeto, situação etc.
Opinião = julgamento pessoal, posição precisa, ponto de vista que se adota em um domínio particular, (social, religioso, político, intelectual, etc.) (HOUAISS, 2001, p. 335, 2071).
61 CAVAZZA, 2008, p. 21.
62 “Conceito de valor fazendo referência à ideia de avalição [...] valores sendo assumidos como objetos abstratos (liberdade, amor, igualdade, humildade, justiça social etc.)” (CAVAZZA, 200κ, p. 2κ).
63 RICOEUR, 2005, p. 25.
outra qualidade de vida. A narrativa joanina é universal, e o dualismo é onde o “gênero humano se divide, é um fator modificador nesta visão”.65
Assim, temos atitudes, crenças com similaridades (Deus, pecado, perdão, santuário etc.), mas com atributos e expectativas diferentes para o GJ. Jesus é o filho único de Deus. Ele é o “caminho, e a verdade, e a vida”, e os verdadeiros adoradores permanecem no GJ.
2.6 O extremismo (Eu sou o caminho, a verdade e a vida)
As atitudes extremas surtem uma pressão em relação às menos extremas. Elas são facilmente identificadas pelo comportamento e “mais resistentes às tentativas de influência”66. Segundo Nicoletta Cavazza, a discussão de um grupo com as mesmas
atitudes provoca a polarização ao dizer que o grupo é rigidamente orientado numa ou noutra direção. Na condição de conflito os membros justificam a sua posição de escolha ao grupo de pertença, “provocando expressões de integralismo nos membros de cada grupo”.67
No mais, o ser extremo é uma regra, uma norma que se adequa aos membros que reconhecem nesse grupo a sua identidade, especialmente para os grupos em minoria, não só no quantitativo, mas na sua posição social. Os membros, quando legitimam e justificam o extremismo como regra que facilita as expectativas do grupo quanto à realização dos seus objetivos, são levados a radicalizar na intenção de identificação com esse grupo.
Em nossa pesquisa sobre o GJ, fica evidente a radicalização como vínculo de pertença:
Diz a ele Jesus: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida! Ninguém vem ao Pai senão através de mim” (14.6).
le,gei auvtw/| Îo`Ð VIhsou/j\ evgw, eivmi h` o`do.j kai. h` avlh,qeia kai. h` zwh,\ ouvdei.j e;rcetai pro.j to.n pate,ra eiv mh. diV evmou/Å
65 RICOEUR, 2005, p. 62. 66 RICOEUR, 2005, p. 53. 67 RICOEUR, 2005, p. 55.
2.7 Estereótipos e preconceitos no grupo “do caminho”
Atitudes fortemente compartilhadas nos conflitos entre grupos assumem a forma de estereótipos sociais e, eventualmente, de preconceitos68. Adotamos como definição
de estereótipo um conjunto de associações com certo número de características descritivas.
Por exemplo, o GJ fica conhecido como o grupo “do caminho” (9.2), com uma marca de características cognitivas, estereotipadas. Ao invés de citar o nome dos membros, citamos o grupo identificado como “os do caminho”. A esse fator cognitivo a psicologia social chama de processo de categorização69. A percepção desse processo
generaliza as características do grupo, sejam elas positivas ou negativas. “Com efeito, a identidade do grupo deriva em parte pelo caráter de pertença do membro e suas categorias sociais. Ser membro de um grupo contribui para definir que sou eu”.
Os estereótipos têm como função facilitar a leitura do cotidiano. Como justificação ou como ideia, eles têm a finalidade de legitimar ou ainda de apoio a certo comportamento.
A teoria da identidade social reconhece que os grupos em desvantagem interiorizam as normas do grupo de maior poder ao lado das que são específicas do próprio grupo. Este aspecto propõe definir uma função de justificação do sistema exercido pelo estereótipo, cuja função é a de justificar as diferenças sociais.70
As atitudes solidificam o comportamento social do grupo por meio da intenção individual do membro, a qual foi consolidada pela sua visão de realidade interior, bem como pela visão da sociedade. As atitudes do GJ promovem identidade negativa e positiva. Trata-se da representação simbólica de um grupo extremista, que constrói um caminho por meio das palavras que o grupo classifica como verdade absoluta do personagem Jesus, tendo a expectativa valorizada pela promessa de vida eterna.
68 CAVAZZA, 2008, p. 103. 69 PEREIRA, 2014, p. 105. 70 PEREIRA, 2014, p. 114.
2.8 “Eu sou” (evgw, eivmi)
Precisamos entender essa revelação — frase que é conhecida como fórmula de reconhecimento. Gramaticalmente, no grego popular não se faz uso do pronome para dizer o nome. Usa-se apenas o verbo: “Sou o que fala contigo” (4.26). A narrativa do QE está construída sobre os predicados que o próprio personagem dá a si mesmo. Os temas de revelação estão vinculados pela fórmula “Eu sou” (evgw, eivmi), que soa de forma provocativa, de maneira indiciária, apontando a identidade de uma pessoa.
Jesus, o nosso protagonista, é “o sinal visível da graça invisível de Deus”71.
Jesus faz conhecer a Deus. “Eu sou” (evgw, eivmi) “é a metáfora de Deus”72, e o uso da
fórmula revelacional pode nos dar pistas acerca dele. Sua repetição no QE (15 vezes) indica a sua base literária no AT. Vejamos os versos 8.24-29 e 8.57-59 segundo a Bíblia de Jerusalém (BJ).73
28 Disse-vos que morrereis em vossos pecados,
Porque se não credes que “Eu Sou”,
morrereis em vossos pecados.
29 E quem me enviou está comigo
8.57 Disseram-lhe, então, os judeusμ “σão tens ainda cinquenta anos e viste
Abraão! 58Jesus lhes disseμ “Em verdade, em verdade, vos digoμ antes que
Abraão existisse, Eu Sou”.
Sem dúvida, a fórmula utilizada pelo autor implícito é absoluta e está relacionada com as fórmulas veterotestamentárias (Êx 3.1-14), com a grande revelação no monte Horeb a Moisés, o qual pergunta o nome de Deus (Qual o nome dele?) e obtém a resposta:
hy<h.a,
rv,a] hy<h.a,
(Serei o que Serei).Encontramos um “Eu sou” emμ e;fh\ evgw. fwnh. bow/ntoj evn th/| evrh,mw|. Numa tradução literalμ “Disse! Eu falo alto em o deserto”, ou “Eu falo alto no deserto”, ou “Disse ele! ‘Eu sou a voz do que clama no deserto. Endireitai o caminho do Senhor’” (BJ). Essa frase está na boca de João Batista e, diante de um olhar leigo, sem acesso ao
71 LIOY, Dan. The Search for Ultimate Reality: Intertextuality between the Genesis and Johannine Prologues. New York: Peter Lang Publishing, 2005, p. 86.
72 LIOY, 2005, p. 58.
grego, poderia passar como se fosse a mesma expressão. No entanto, esse suposto “Eu sou” não se trata do evgw, eivmi usado indiciariamente no personagem Jesus!