Muito especificamente, Ricoeur explicita com relatos de parábolas a forma narrativa: “Que é que nas parábolas que nos leva a olhá-las como metáforas de outra realidade diferente daquela de que aparentemente falamς”. A frase “Eu Sou o que sou” (Êx 3.14), fórmula que desvela o nome de Deus, tanto preserva o seu mistério como o revela. Em “Eu o sou, eu que falo contigo” (Jo 4.26), Jesus traz a fala do Antigo Testamento e se desvela da mesma maneira que Deus a Moisés. O autor legitima a sua revelação com a mesma fórmula e com isso Jesus diz ao povo quem é!
“Filipe lhe dizμ Senhor mostra-nos o Pai e isso nos basta”!
“Diz-lhe Jesusμ Há tanto tempo convosco e tu não me conheces Filipe”ς
Ricoeur detalha como nas formas narrativas as metáforas ganham uma expressão extravagante. O texto sofre uma tensão metafórica sob a pressão de “expressões limite”44, no nosso caso, “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida”! A partir da rede
tensional estabelecida entre as metáforas, uma análise estrutural pode ser procedida em uma narrativa conflituosa seguida pelo desenlace do conflito, gerando no GJ uma marca identitária. Vejamos o seguinte exemplo:
Como pode uma moradia ter muitas moradas (Jo 14.2)? O templo era, até então, o santuário para os judeus, mas não para o GJ. “[...] não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (Jo 2.16). O templo é para os judeus a casa de Deus, mas a revelação vai além. Os judeus questionam qual sinal Jesus apresentará que justifique a sua atitude. “Respondeu-lhe Jesusμ Destruí este santuário, e em três dias eu o levantarei”. Naquele momento Jesus falava de si mesmo como sendo ele próprio o santuário e que o levantaria dos mortos — ele ressuscitaria a si mesmo!
Como pode uma pessoa se autopersonificar no “caminho, e a verdade, e a vida”ς Isso se torna possível mediante o emprego da ficção. O imaginário humano codifica essas metáforas de várias maneiras como sendo uma estrada simbólica que sirva de ponte entre o ser humano da terra para o paraíso celeste. A subjetividade dará significado pessoal, mas de maneira geral a linguagem é carregada em sua expressão extravagante, ganhando sentido em sua recepção pelo senso comum.
Podemos observar a recepção dessa mensagem pelas imagens que são produzidas, pelas metáforas, pelo mito e pela ficção, por meio do que é possível fazer uma leitura do imaginário humano. A ponte construída da terra para o céu geralmente é representada por uma cruz. Não basta ser uma ponte; precisa ser uma cruz, pois no imaginário a cruz passa a ter sentido e significado de vida eterna. Os dois mundos são separados por um abismo em fogo. A verdade no imaginário está contida em cruzar, percorrer esse caminho sem cair no abismo, e agarrar na mão de Jesus, que fica com o braço estendido o tempo todo para receber a todos que conseguem concluir a travessia.
O que representa no imaginário humano uma moradia com várias casas? Temos novamente uma recepção carregada pelo imaginário: o céu seria outro planeta onde os seres humanos possuem suas moradias perfeitas, da maneira que gostariam de ter quando vivos. No entanto, nesse imaginário é preciso morrer para cruzar o caminho, tendo alcançado a verdade e chegado à vida eterna em sua morada celestial.
As expressões-limite do QE, elaboradas na desordem metafórica, provocam uma refiguração do real, uma ruptura com o dia a dia existencial do GJ, e direcionam o leitor num outro projeto de vida. A desorientação leva a uma reorientação de valores comportamentais, “abre para a dimensão transcendente da existência humana e provoca um agir renovado”.45
Esse jogo de intertextualidade entre as metáforas será aqui também chamado de polarização mútua46. Tal processo de polarização se estende ao QE e, filtrando nossa perícope (13.33-14.31), tem-se uma rede de intersignificação entre o personagem protagonista Jesus e os personagens adjuvantes aí encaixados. Assim Ricoeur estabelece, segundo a narrativa da paixão, a identidade de Jesus que, de acordo com a teoria estrutural, constituirá a identidade do grupo “do caminho” (At λ.2). É necessário entender um pouco de quiasmo para trabalharmos nossa verdade metafórica principal e, consequentemente, todo o contexto da perícope em questão.
τs “quiasmos” ocorrem quando elementos de uma frase ou partes de uma perícope se correspondem de maneira cruzada. As “estruturas concêntricas”, que se caracterizam por apresentar diversos elementos equidistantes de um centro comum. No centro da frase ou do texto há pares que se correspondem.47
Como ilustração, vejamos nossa metáfora, nossa expressão-limite, com a sua polarização.
“Eu sou o caminho” (A)
“E a verdade” (centro) “E a vida” (A’)
45 RICOEUR, 2006, p. 41. 46 RICOEUR, 2006, p. 41. 47 WEGNER, 1998, p. 92.
Aqui nosso objeto ganha um pouco mais de intensidade: entender a função metafórica de caminho e vida, aparentemente termos diferentes, mas que, numa leitura cuidadosa e trazendo à mente o que lemos até o momento sobre metáfora, com suas transposições intertextuais, ajudam-nos a compreender a representação metafórica do quiasmo “caminho, verdade e vida”, com a verdade ao centro.
Qual o papel desempenhado por essa imagética na formação identitária do GJ? A partir de nossa análise estrutural, o que essa construção quiástica representa para o grupo joanino e a para a sua função identitária que será gerada no GJ? Essa identidade será definida de várias perspectivas: valores, crenças, ritos, gestos, comportamentos, linguagem, aparências, relações internas e externas.
2 Identidade
Cremos ser necessário tratar brevemente sobre identidade, o que nos auxiliará na identificação do GJ. Nosso fio condutor será a psicologia social48. O intuito é despertar
o leitor para o não reducionismo teológico, mas abrir o leque acadêmico e pensar a multiplicidade de ideias como produtiva na formação de outras ideias.
Como definição do conceito assumiremos a de Antonio Ciampa, para quem a construção da identidade é um fenômeno social que remete à transformação49. Segundo
a psicologia social, a formação identitária é constituída sobre dois aspectos: o pessoal e o coletivo, cuja reflexão se assenta na integração pessoal num espaço coletivo.
A identidade pode ser entendida como um fenômeno subjetivo, dinâmico e produto de semelhanças e diferenças entre si mesmo e entre alguns grupos. Pessoas num espaço coletivo buscam o reconhecimento de pertença.
Todo indivíduo é caracterizado por traços de ordem social que assinalam sua pertença a um grupo. As identidades sociais são partilhadas por aqueles que ocupam posições semelhantes e que possuem pertenças comuns.50
48 DESCHAMPS, Jean Claude; MOLINER, Pascal. A identidade em psicologia social: dos processos identitários às representações sociais. Petrópolis: Vozes, 2009.
49 CIAMPA, Antônio da Costa. A estória de Severino e a história da Severina. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 144-146.