3. Structures
3.2. Moholt Bridge
Nessa ordem mundial da memória literária, observam-se cenas pouco afeitas às canônicas cenas ficcionais do ciclo gomífero. Os seringalistas e os seringueiros são apagados da narrativa. Apesar de as condições de trabalho na ferrovia assemelharem-se a um campo de trabalho como o dos seringais, não se estabelece essa relação. A memória, nesse novo ciclo ficcional da borracha, interessa-se em explicar de que modo a construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré se insere na história do capitalismo internacional realizado em terras brasileiras.
Para não se dizer que a memória dos tempos dos seringais fica de fora de Mad Maria, próximo ao final do romance, surge o personagem Lourival da Cunha, dono de um seringal perto de Guajará-Mirim. Quanto à origem de Lourival, sabe-se que ele veio do Ceará em 1887. Lourival oferece-se para se divertir com Finnegan e Collier, justamente quando esses deixam o prostíbulo em que encontram as índias caripunas.
As imagens “clássicas”, relacionadas às condições de trabalho nos seringais, passam ao largo. Quando Finnegan e Collier decidem voltar de seu passeio por Santo Antônio, observam uma cena: “[...] O trapiche também estava movimentado e algumas canoas circulavam em torno de uma embarcação pequena onde pelas de borracha estavam amarradas formando uma imensa balsa.[...]” (p. 285)
O seringalista, após a noitada, conversa com Collier e embarca no gaiola com pelas de borracha rumo a Manaus. Em seguida, é que Collier dá detalhes da conversa
[179] que travou com o coronel de barranco. O engenheiro inglês sabia que a cotação da borracha estava em queda. Comenta que o proprietário ficaria seis meses longe da região, visitando os filhos em Paris.
Essa descrição do seringal, por meio de diálogo entre Lourival e Collier, é o que mais se aproxima daqueles primeiros tempos das narrativas do ciclo da borracha, do que se denomina nesta tese de protomemória do ciclo, às vezes repetida à exaustão por tantos narradores do ciclo da borracha. Márcio Souza não pôde transpor essa montanha, necessária para a representação realista desse capítulo ou dessa passagem por um seringalista, tão ausente na extensão do romance.
Mas, ao final do romance, novas perspectivas sobre o ciclo são esquadrinhadas. Ao tentarem voltar para a E.F.M.M., Collier e Finnegan perdem a canoa, em razão de Collier haver esquecido de a esconder devidamente. Finnegan tenta negociar com canoeiros, mas responde ao engenheiro:
– Todos trabalham para algum seringal. Não podem sair das imediações da cidade e são proibidos de atracar em Porto Velho. – Eu já sabia – disse Collier com ironia. – Farquhar não quer que seus empregados se misturem. Aquelas canoas são propriedades dele, pertencem ao seringal Guaporé Rubber Company. (p. 285)
É, sem dúvida, revelador o fato de Farquhar ser proprietário de seringal. Amplia- se o espectro econômico do vigarista capitalista, bem como a balizas lançadas pela ordem mundial nos confins amazônicos.
Márcio Souza faz ampla revisão histórica do ciclo da borracha em Mad Maria. Mas já havia começado, com Galvez, essa prosa irônica e bem urdida, o qual realça não apenas fatos históricos, mas possibilita a esteticização da ficção. Essa literatura trabalha com extenso legado ficcional produzido pelo realismo brasileiro de diversos períodos. A ironia machadiana se adensa na literatura de Márcio Souza, João Ubaldo, Nélida Piñon, Antonio Callado.
O certo é que Mad Maria mostra uma Amazônia lançada dentro dos interesses capitalistas globais. A memória desse período sofre da vulgarização amazônica, como objeto de consumo, degradação, fonte inesgotável dos anseios internacionais. A personificação da floresta, algo de reflexão em contos de Alberto Rangel, assustam ainda mais em Mad Maria. A floresta em nenhum momento ganha uma voz materializada, mas, ao mesmo tempo, mostra uma força inexplicável de repulsão contra projetos avessos a seu destino.
[180] Sem perder de vista o ocaso da ditadura militar no Brasil, Márcio Souza faz sinal de alerta contra o implante de megalomania de outros tempos. Os milagres econômicos e as grandes obras produzem como efeito a deturpação cultural e a decadência do ser humano, o qual se permite enveredar por interesses escusos para satisfação do prazer. A babel amazônica da Madeira-Mamoré e do ouro lácteo estava sendo reinaugurada com a Transamazônica e a corrida pelo ouro de Serra Pelada. Mas nenhuma coisa nem outra andaram dentro dos trilhos. Parecia anunciada sua derrocada. Era questão de tempo.
Mad Maria fortalece-se como sentido paródico desses tempos brasileiros, de repetição de um passado: “[...] E aquilo que o leitor julgar familiar, não estará enganado, o capitalismo não tem vergonha de se repetir.” (p. 11). É assim que Márcio Souza inicia o romance. A consciência histórica dá o estalo do memorialismo.
Até diante da realidade contemporânea, o que se chama de memorial dentro do ciclo ficcional da borracha transforma-se em uma lente de aumento da história, para uma tomada de decisão no presente. Não há inocência no tempo de produção da narrativa. Havia inocência antes, no tempo de ocorrência dos fatos históricos. Se essa mesma inocência insiste em prevalecer, é porque, em 80 anos, as coisas não mudaram tanto. Daí, a força social da literatura em recuperar fatos e produzir novos efeitos. Apenas por si mesma, não muda qualquer realidade, mas a modifica na medida em que sua força se junta à força de mudança dentro da sociedade.
Diante da poética de um Thiago de Mello, aprofunda-se o que se vislumbra em Márcio Souza. Thiago tem olhos de esperança, enquanto Márcio se engendra na aporia e no pessimismo de uma história material que se repete. E é o tempo de uma amarga memória. A esperança de Thiago de Mello aparece mesmo com dúvidas: “Tive um chão (mas já faz tempo)/todo feito de certezas/tão duras como lajedos.// Agora (o tempo é que o fez)/tenho um caminho de barro/umedecido de dúvidas.//Mas nele (devagar vou)/me cresce funda a certeza/de que vale a pena o amor.” (MELLO, 1981, p. 43)
Thiago de Mello sabe, tanto quanto Márcio Souza, do poder político da memória, mesmo quando poetiza suas aparentes simplicidades, dentro do contexto de “Amazonas, pátria das águas”: “[...] Mas a casa só morreu definitivamente/quando ruíram os esteios da memória de meu pai,/neste verão dos seus noventa anos. [...]” (MELLO, 1981, p. 83-84). A memória familiar por vezes se embrenha na memória histórico-política. É inevitável esse entrelaçamento. Márcio Souza prefere ir direto para
[181] a economia, política e história, afastando da memória familiar, embora não esteja desfeita em seu arcabouço de romance histórico.
De certa forma, Márcio Souza luta contra a reificação da memória. Essa reificação imobiliza a história, enquanto a memória literária de Souza potencializa a história do ciclo da borracha com Mad Maria e outras produções. Como gesto político, ao evidenciar as agruras do capitalismo do início do século, combate sua forma apocalíptica de reificação da vida. É o que Andreas Huyssen (1995, p. 7), em Twilight memories, reflexiona acerca da memória como “antídoto da reificação capitalista”.
E o mesmo Huyssen, quando comenta sobre o futuro da memória global, ajuda a compreender o que Márcio Souza pratica literariamente nesse campo do memorialismo, uma vez que o autor de Seduzidos pela memória diz que essa memória global será “mais prismática e heterogênea do que holística ou universal” (HUYSSEN, 2000, p. 32). Mad Maria já experimenta essa impossibilidade totalizante da memória global, sendo apenas um prisma heterogêneo da história fantasmagórica da Madeira-Mamoré.
[182]
6 – MILTON HATOUM, METAMEMÓRIA E CONSCIÊNCIA MEMORIAL
De maneira superficial, não é difícil encontrar leituras críticas de Milton Hatoum que pouco ou nada consideram de sua erupção dentro de um sistema literário amazônico. Enfim, não se atentam para o fato de que Milton se insere numa espécie de continuum literário daquela cultura. Como consequência, a sua literatura aparenta inaugurar motes temáticos e estéticos ainda não realizados na literatura amazônica, o que não é bem verdade.
Também não é difícil encontrar leituras críticas que simplesmente não veem a Amazônia e sua história nos romances ou narrativas amazônicas de Hatoum, o que gera certa estranheza e assemelha-se a uma antinomia. Coloca-se Milton entre representantes da literatura contemporânea, com marcas estéticas (tais como: memória, esquecimento, narrativa do exílio e do imigrante, orientalismo) interessantes para a teoria e a crítica literária, de profunda discussão pelo menos nos últimos vinte e cinco anos, para considerar apenas o marco histórico de surgimento da literatura de Milton.
Muito se vê e muito se estuda nas narrativas do autor de Relato de um certo Oriente (1989), em nível de pós-graduação nas mais diferentes universidades do país, como se se pudesse encontrar qualquer das tendências teóricas ou críticas do momento em sua literatura, fazendo da literatura de Milton um universal brasileiro. Isso, quem sabe, seja uma marca da força de sua produção. Ao mesmo tempo, pode, futuramente, lançá-la num cadafalso, em que parece haver caído a literatura de Márcio Souza, que apresenta certo recuo no que se refere à pesquisa acadêmica, o que não significa que sua literatura seja de menor importância, ainda mais pelos problemas estéticos (como a comédia romanesca), históricos (com a reanálise de capítulo pouco compreendidos do ciclo da borracha amazônico e de outros capítulos da história amazônica), bem como de memória global, com os quais trabalha, como se demonstrou parcialmente no capítulo anterior.
O ostracismo não assombra mesmo Hatoum, tendo em vista os inúmeros estudos acerca de sua obra e sua excepcional recepção literária. Seria, portanto, moroso e improdutivo, neste espaço, promover qualquer revisão crítico-bibliográfico a seu respeito, sob pena de se discutir à exaustão tantas e tantas teses, dissertações, ensaios que se debruçaram sobre a obra de Hatoum. Ganha-se com o debate construtivo entre
[183] as diversas tendências críticas apresentadas nos mais diversos trabalhos, adotando, é evidente, o posicionamento desta tese, ou seja, o de que há ciclos ficcionais amazônicos que alicerçam a literatura amazônica, produzindo e preservando capítulos de memória da Amazônia e os transformando em memorial literário.
Há, sim, muito o que se debater sobre a produção de Milton. Por exemplo, poucas vezes, encontra-se em sua fortuna crítica a relação entre a literatura de Hatoum e sua casualidade interna dentro do sistema literário amazônico. A representação do ciclo ficcional da borracha, por exemplo, pode indicar novos parâmetros para a crítica do romanceiro de Hatoum, colocando-o comparativamente ao lado de outros narradores amazônicos, narradores que trabalham ou trabalharam com matéria poética semelhante à de Milton.
Há uma casualidade, dentro do sistema literário amazônico, retomada pelo próprio Milton Hatoum, porém não foi observada a contento, para a análise suficiente das marcas estético-literárias que se balançam em sua narrativa, como o problema da memória e do memorialismo.
Neste capítulo, tem-se o objetivo de inserir a perspectiva amazônica, com foco concentrado nessa problemática da memória exaustivamente motivada pela literatura de Hatoum, não com a expectativa de retornar uma discussão para certo provincianismo ou para a questão bairrista do regionalismo.
O continuum literário amazônico tem em Milton não apenas a modernidade das narrativas literárias. A estética da memória é muito presente e intransponível em qualquer interpretação dos principais romances de Hatoum. Dentre a safra do autor de Relato de um certo Oriente, escolheram-se duas narrativas que servem de amálgama para a tese de que a literatura amazônica tem, há um bom tempo, (in)variavelmente, alicerçado um memorial literário da Amazônia por meio da mimese do ciclo da borracha. Tais obras são Dois irmãos (2000) e Órfãos do Eldorado (2008).