• No results found

“Uma Biblioteca Digital é a colecção de serviços e de objectos de informação, com organização, estrutura e apresentação que suportam o relacionamento dos utilizadores com os objectos de informação, disponíveis directa ou indirectamente via meio electrónico/ digital”.

Leiner (1988, citado por Bairrão e Gouveia, 2007: 127)

A Biblioteca Digital é constituída por documentos digitalizados organizados quer em suporte material quer online via internet com o objectivo de organizar, seleccionar e distribuir a informação, mantendo intactos os documentos originais. O digital permite a utilização da mesma informação ao mesmo tempo, em espaços distintos por diversos utilizadores, assim como o recurso simultâneo ao texto, som e imagem. A Biblioteca Digital elimina os condicionalismos impostos por uma Biblioteca física, nomeadamente o controlo do tempo, distância, quantidade de utilizadores, transporte, capacidade de memória e ubiquidade da informação. Bairrão e Gouveia (2007: 128) referem que “a biblioteca digital pode ser também designada por biblioteca electrónica, biblioteca sem muros ou biblioteca virtual.” Estes autores corroboram as ideias apresentadas por Rodrigues (1995: 25) que aponta três grandes características das Bibliotecas Digitais, o:

“[armazenamento] e acesso a volumes cada vez maiores de informação multimédia (texto, imagem, som, vídeo, etc.) em suportes digitais e diversos formatos, a par com a existência de documentos noutros suportes (nomeadamente o papel). (…) estarão acessíveis aos seus utilizadores a qualquer hora e de qualquer lugar. (…) as bibliotecas digitais permitirão (…) a pesquisa e o acesso às suas colecções locais ou a qualquer fonte de informação existente nas redes de comunicação onde estejam integradas. A

42

possibilidade de ligação virtual entre todas as bibliotecas transformará cada uma delas num nó de uma biblioteca digital a uma escala planetária.”

A qualidade e eficiência do tipo de serviço, disponibilizado pelas Bibliotecas Digitais, exigem, nas palavras de Rodrigues (1995: 25), a existência de “infra-estruturas técnicas que suportem o acesso e difusão dos seus serviços”. É fundamental que as escolas disponham dessas infra-estruturas de forma a facilitar o uso da Biblioteca Digital e que preparem os potenciais utilizadores para o seu manuseio para não ficarem imersos na quantidade de informação disponibilizada. Neste sentido, o autor (1995: 26-27) refere a necessidade de “desenvolver novos métodos de identificação, de catalogação, organização, classificação e indexação dos recursos electrónicos.”

A integração das tecnologias no ensino, em muitos países europeus, surge na década de 60. No entanto, em Portugal, é uma preocupação mais recente, que teve início na década de 80, mas, só na década de 90, esta realidade se sentiu nas escolas. Surge a integração das Tecnologias de Informação e Comunicação nas escolas e o Ministério da Educação lança projectos que incentivam o seu uso. Estes projectos pretendiam levar os equipamentos para as escolas, formar os professores e procurar aproximar a escola da denominada Sociedade da Informação. O professor deixou de ser apenas um transmissor de saberes para ser, também, um orientador de percursos educativos, pois o professor tem de promover a proximidade entre a realidade da sala de aula e a realidade do aluno, pois a escola é mais que o estabelecimento de ensino, é uma organização social, um sistema de comportamentos. A Biblioteca Escolar deve intervir, introduzindo e desenvolvendo uma estrutura documental capaz de provocar mudanças na escola. Não esqueçamos que toda a organização da Biblioteca, a gestão da informação e do espaço são resultado de factores humanos e históricos. As Tecnologias de Informação e Comunicação constituem uma inovação da Biblioteca Escolar que vai ao encontro das práticas pedagógicas recorrentes do processo de ensino/ aprendizagem actual. O Guia para ambientes de aprendizagem digitais refere que à medida que cada vez mais recursos estão presentes na Web, mais propriamente na Web 2.0, quer alunos quer professores precisam de novas competências ao nível da literacia digital. Entre esses recursos encontram-se a pesquisa online; as plataformas (permitem a gestão da aprendizagem, mediante disponibilização de conteúdos e actividades aos alunos); os blogues (páginas Web de fácil edição que adoptam um conceito cronológico); as Wikis (ferramentas de edição colaborativa de documentos, rápida e fácil); os marcadores sociais (possibilidade de criar e gerir um sistema de marcadores ou favoritos, classificados através de etiquetas, disponíveis online de forma gratuita, pública ou privada); as aplicações Google (Googledocs para edição de texto, folhas de cálculo, formulários, apresentações, calendário, Google Talk,

Google Sites, entre outras que permitem desenvolver trabalho colaborativo de forma fácil,

desde que possuindo uma conta Gmail); as narrativas digitais (evolução natural da arte de contar histórias que recorre às ferramentas tecnológicas da idade digital); os Podcasting (forma de publicação de arquivos media digital, nomeadamente áudio, vídeo, foto, PPS, entre outros, na Internet, através de um feedRSS, que permite aos utilizadores acompanhar a sua

43

actualização); a partilha (possibilidade de disponibilizar apresentações de forma automática, mediante uso de ferramentas específicas para o efeito, nomeadamente o Scribd); a catalogação social (este tipo de serviços, como a LibraryThing e a Shelfari, permite construir uma rede social em torno de livros e de leitura, mediante a construção de uma prateleira virtual onde dispomos e apresentamos as nossas leituras e trocamos impressões); as redes sociais (espaços de interacção, colaboração e partilha como o Twitter e o Facebook); Google

Earth (aplicação Google que permite sobrevoar qualquer parte da Terra para visualizar

imagens de satélite, mapas, relevo, edifícios 3D, com possibilidade de explorar conteúdo geográfico complexo, guardar os locais visitados e partilhá-los); organização de fontes (possível, mediante uso de ferramentas como Zotero, que permitem a criação automática de bibliografias, organização de fontes e de citações); e a produção de livros electrónicos (possível, mediante uso de ferramentas como o issuu, o yudu, o myebook e o calameo, que permitem o carregamento e armazenamento de ficheiros em PDF e a criação de códigos html incorporado). No entanto, toda esta diversidade de ferramentas contribui para a ausência de espírito crítico, a redução da imaginação e criatividade, a alteração nas relações pessoais e o plágio.

Publicar conteúdos online é frequente nas Bibliotecas Escolares. No entanto, é importante verificar a existência de equipamentos e recursos humanos necessários para a gestão desses conteúdos. O planeamento, a concepção e implementação de um projecto de disponibilização de conteúdos online apresenta consideráveis vantagens para além da capacidade de armazenamento de dados, rapidez de produção, facilidade de actualização ou correcção e possível interactividade, a disponibilidade do conteúdo (tempo e local de entrega e dimensão da informação), a transparência e interactividade do conteúdo e o formato do conteúdo (hipertexto e multimédia).

Bairrão e Gouveia (2007) continuam, referindo que há que considerar que a existência das tecnologias não garante o seu uso, pois este depende da forma como o contexto social, económico e cultural interage com as novas tecnologias. As publicações de livros e documentos electrónicos exigem software de leitura próprio para permitir o acesso aos mesmos e existem serviços na Web que permitem a criação e desenvolvimentos de bancos de dados de texto integral. Estas realidades mobilizam grupos editoriais no sector da informática. Este sector foi incapaz de criar um mercado sustentável, por não possuir concepções teóricas claras relativamente à edição electrónica. A edição electrónica coloca algumas questões relativamente às clássicas definições de autor, leitor e suas relações, pois a distinção entre leitor e autor é cada vez menos clara, porque os recursos tecnológicos disponíveis permitem que o leitor se transforme em autor.

É fundamental que a Biblioteca Escolar disponha duma equipa multidisciplinar para a concretização de projectos e o papel do Coordenador, actual Professor Bibliotecário, é determinante na gestão da informação na Biblioteca. Esta função é actualmente desempenhada por professores recrutados ao abrigo da Portaria nº 756/ 2009 de 14 de Julho, que estabelece critérios de selecção, sendo um deles a formação no âmbito das novas

44

tecnologias. O coordenador/ Professor Bibliotecário deverá ter formação em biblioteconomia, competências em comunicação educacional e gestão da informação, assim como competências no domínio das novas tecnologias, deverá estar em contacto online com outras unidades documentais e publicações electrónicas.

As novas tecnologias e o digital adquirem importância vital dentro da Biblioteca Escolar, pois permite um contacto mais assíduo com outras unidades documentais, permite a candidatura directa a fundo documental, permite a elaboração de uma base de dados, com software específico, com a catalogação, classificação e indexação de documentos, com base num catálogo normalizado, que poderá ser disponibilizada ao utilizador dentro da própria Biblioteca ou online para consulta à distância. Este programa de informatização de fundo documental permite ainda ter um registo dos utilizadores da Biblioteca assim como um registo de empréstimo domiciliário.

A Sociedade da Informação é caracterizada pelo recurso intensivo às novas tecnologias e a troca de informação é feita sobretudo via computador em suporte digital. As novas tecnologias e o digital trouxeram uma nova forma de encarar a Biblioteca e alteraram as funções da própria unidade documental, que passou a ser difusora de conhecimento.

A expansão das novas tecnologias e o surgimento da Sociedade da Informação, em que a internet e o digital assumem um papel de destaque, colocam questões quanto à natureza e funções do livro como o conhecemos e acerca da sua possível substituição pelo livro digital. A Internet e o digital obrigaram à reformulação da legislação relativamente aos direitos de autor, pois actualmente as publicações digitais ganham cada vez mais forma, sendo necessária a certificação dos seus direitos como autor.

O digital, a Web, ou seja, a Web 2.0 fizeram repensar a Biblioteca Escolar, e neste âmbito, o blogue, enquanto, segundo Alvim (2007: 38), “ferramenta de escrita e de leitura colaborativa” assume um papel fundamental. Neste contexto, a autora (2007: 38-44) apresenta:

“o blogue em duas perspectivas principais: blogues como fontes de informação nos serviços internos das bibliotecas; e blogues como ferramentas que as bibliotecas podem usar para promover os seus serviços e proporcionar canais de comunicação com os seus utilizadores. (…) O blogue torna-se numa excelente ferramenta para (…) gestão das colecções na Web e a gestão interna dos próprios serviços. Não é preciso ter conhecimentos em (…) linguagem HTML, tornando o blogue uma ferramenta de fácil uso e ideal para pequenas bibliotecas (…) o blogue humaniza as estruturas de documentação e informação, aproxima o leitor à instituição, (…) possuindo uma componente social importante.”

Barreto (2007: 10) corrobora Alvim relativamente à funcionalidade e vantagens do blogue, referindo ser “uma útil e rápida fonte de informação, comunicação e entretenimento”, “oferecem uma grande provisão de serviços gratuitos e são fáceis de manejar.”

45

Na mesma linha de pensamento dos autores supra citados, e no âmbito do contexto social actual, Conde (2010: 31) refere que as Bibliotecas Escolares foram:

“convocadas para novas formas de gestão da informação e do conhecimento, que asseguram a avaliação e validação das diferentes fontes e recursos e promovem a sua organização e difusão selectiva, estimulando o acesso físico e virtual à documentação e à informação que suportam o currículo e a actividade da escola. Bibliotecas digitais, catálogos multimédia online, serviços de referência virtual, bases de dados, páginas Web, plataformas e-

learning, blogues, redes sociais e outros serviços Web 2.0 de partilha e

interacção com os utilizadores compõem hoje a paisagem informativa e comunicacional das bibliotecas escolares.”

O digital entrou na Biblioteca, transformou-a e exigiu mudança de atitude e de mentalidades e uma necessidade de adaptação e aprendizagem progressiva de novas formas de ser e estar. É para esta realidade que os alunos, utilizados, cidadãos devem ser preparados.

3-PAPEL DAS BIBLIOTECAS ESCOLARES NA FORMAÇÃO DE