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6. ANALYSIS AND RESULTS

6.1 Module 2: Requirements analysis

Como para Weber, também em Foucault, o exercício das formas de dominação e poder constitui uma realidade onipresente na vida social. Para o filósofo francês, “uma sociedade sem relações de poder somente pode ser uma abstração” (FOUCAULT, 1995, p. 246).

Quanto à “natureza” do poder, Foucault também segue o sociólogo alemão em seu nominalismo: “Sem dúvida, devemos ser nominalistas, o poder não é uma instituição nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados; é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa determinada sociedade” (FOUCAULT, 1988, p. 89).

Mas, para além dessas nuanças epistemológicas ao nível das pressuposições teóricas e gerais, onde, de fato, situam-se Foucault e seu modelo de análise da dominação?

Num primeiro momento, de um ponto de vista da teoria social, nos parece correto incluir Foucault entre os autores e teorias que analisam a modernidade a partir de uma teoria ou do prisma da dominação. Porém, isso não é suficiente, pois o mais importante é responder à pergunta acerca de que tipo de problema e relação fundamental Foucault clássicos da sociologia gozam desse status exemplar e privilegiado que parecem fincá-los como o horizonte incontornável da disciplina a que se deve, numa tarefa intelectual indefinida, voltar, reler, confrontar, estudar em busca de novas orientações e esclarecimentos. Eis porque, então, os clássicos são uma “contribuição singular e permanente à ciência sociedade”. (ALEXANDER, 1999, p. 48). Para maiores detalhes, ver: ALEXANDER, Jeffrey. “A importância dos clássicos”. In. Teoria Social Hoje. Anthony Giddens & Jonathan Turner (Org.). São Paulo. Unesp, 1999.

almeja dar conta com sua análise das formas de dominação moderna. É a partir do tratamento e resposta a esse questionamento que podemos compreender a singularidade teórica do autor quanto ao tema da dominação.

Numa leitura brusca, seríamos tentados a enquadrar as pesquisas históricas foucaultianas enquanto uma investigação crítica das relações entre racionalização e dominação analisadas e interpretadas a partir de uma postulação acerca das relações de interdependência entre poder e saber, evidenciadas empiricamente através da existência e atuação de tecnologias políticas e conhecimentos com pretensão à cientificidade. Contudo, isso, embora verdadeiro, não é inteiramente correto, a nosso ver, como se verá no final do capítulo.

Noutras palavras, Foucault elabora uma genealogia da racionalidade ou das formas de racionalidade que presidem as estruturas de poder da modernidade, com suas instituições sociais (o hospício, o hospital, a prisão), as técnicas (a vigilância, o exame, a sanção), estratégias políticas (as disciplinas e biopolítica) e seus mecanismos de integração social específicos. Certamente, podemos afirmar que, para Foucault, a articulação recíproca entre racionalidade e poder/dominação, observado pelo ângulo da gênese histórica de determinadas práticas sociais institucionalizadas, constitui a chave analítica básica para compreender e abordar a formação das sociedades modernas ocidentais.

Nessa empreitada, Foucault não estaria sozinho. Embora, partindo de pressupostos epistemológicos e conceituações de poder e dominação distintos, ele faz companhia a teóricos como Max Weber, Theodor Adorno e Horkheimer. Como estes últimos, Foucault - especialmente em obras como História da Loucura e Vigiar e Punir - dedicou-se, entre outras coisas, a trazer à tona as consequências perversas e contradições da razão moderna e do Esclarecimento– “[...] as Luzes que descobriram as liberdades também inventaram as disciplinas” (FOUCAULT, 2004, p. 209).

Não por acaso, em um estudo inovador sobre as fases da Teoria Crítica, o filósofo social Axel Honneth considera Michel Foucault, aproximando-o dos autores da primeira geração da Escola de Frankfurt, como o responsável pelo principal desenvolvimento teórico - ao lado dos trabalhos de Jürgen Habermas – capaz de dar continuidade e renovar a Teoria Crítica da Sociedade23. Honneth destaca, sobretudo, as contribuições foucaultianas

23 Apesar de reconhecer os méritos das ferramentas críticas construídas por Foucault e os avanços que elas e

seus escritos históricos propiciaram para a teoria social nos marcos de uma teoria crítica da sociedade e da racionalidade, especialmente sua analítica das relações entre poder e saber, o cerne do trabalho de Honneth consiste numa contundente e dura crítica à análise da sociedade e à concepção de ação social presentes nas

para compreender as formas de integração social moderna e o desenvolvimento histórico das sociedades modernasa partir do estudo dos modos de dominação social das condutas corporais e psíquicas humanas, aprofundando e conferindo maior vivacidade e exemplaridade empírica do que fez Adorno e Horkheimer em sua crítica à razão instrumental com respeito aos limites e contradições do legado e promessas do Esclarecimento acerca da emancipação e liberdade individual. Uma avaliação mais generosa do que fez Habermas em suas conferências a propósito do discurso filosófico da modernidade, no começo dos anos 1980, quando atribuiu a Foucault, juntamente com Jacques Derrida e Georges Bataille, a posição de “jovens conservadores” no que se refere à crítica da modernidade (HONNETH, 2009; HABERMAS, 2002).

A despeito dessas considerações e avaliações, isto é, se é correto enxergarmos em Foucault, um teórico ou analista da dominação social, como de fato demonstram seus mais famosos trabalhos, em especial os do período genealógico, na década de 1970, reiterado também pelos comentadores e críticos, convém realizar algumas ponderações para evitarmos sobredeterminações teóricas e restrições que reduzam a empresa intelectual do autor a uma única dimensão, desprezando as demais. De modo algum é nosso interesse sustentar uma visão unidimensional da obra e do projeto filosófico do autor em menção. Nosso intuito, com a ênfase na temática da dominação, além de se apoiar na própria interpretação global da obra do autor, visa fazer sobressair os objetivos que nos propomos neste trabalho muito mais do que fechar o pensamento de Foucault numa unidade fechada.