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Modified IR-40 reactor with LEU core

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9 Modeling and modification of the IR-40 reactor

9.4 Modified IR-40 reactor with LEU core

Mendigos catam restos de comida nas lixeiras de um restaurante de classe média paulista; pessoas dançam frenéticas no carnaval da Bahia; policiais espancam índio na praia; meninos de rua se drogam; boate gay realiza concurso de bumbum; professor participa de tráfico de órgãos; devastação da floresta amazônica. Cenas do filme Cronicamente Inviável, dirigido por Sérgio Bianchi com roteiro de Gustavo Steinberg, lançado no Brasil no mesmo ano das comemorações dos 500 anos. A narrativa do filme é fragmentada e, à semelhança de um quebra-cabeças, forma um sentido coerente com a destruição que atravessa todos os recantos do país.

As primeiras cenas mostram a cozinha de um restaurante separando restos de comida. Do lado de fora dois mendigos se aproximam e remexem as latas de lixo devorando o que encontram. A câmera faz um close no rosto faminto daquelas pessoas e recua com uma voz em off, provavelmente do próprio Sérgio Bianchi, dizendo que aquela situação não parece verdadeira. Muda a cena. Desta vez um garçom joga as sobras no lixo e separa um pouco para um cachorro vira- lata. Os mendigos se aproximam e o garçom os expulsa, dizendo que não podem comer os restos de comida. Ele está agachado servindo o cachorro.

Cozinheiro expulsa mendigo que busca comida no lixo

É uma cena forte que revela o descaso das pessoas com os problemas sociais. Os mendigos são nada, situados abaixo de toda hierarquia de valores, abaixo das coisas e dos animais. Mais que excluídos eles são ignorados. Em outra cena um casal carioca de classe média janta no restaurante de um amigo em São Paulo. O mesmo restaurante onde se passa a cena anterior. Ela comenta, preocupada, que esqueceu de deixar o dinheiro para a empregada, coisa imperdoável tendo em vista o fato de ela trabalhar o dia inteiro e precisar muito daquele dinheiro. Novamente o diretor interfere mudando o diálogo. Dessa vez o fato perde sua importância tornando-se apenas um comentário passageiro, logo esquecido. É o descaso e o cinismo daquelas pessoas que reclamam do país mas se colocam fora dele, isto é, não percebem que suas ações são parte das mazelas do país e se eximem de qualquer culpa. Culpa não no sentido religioso, mas no sentido de reconhecer os erros de modo a corrigi-los.

Agora a câmera focaliza uma invasão de terras no sul do país, realizado pelo movimento dos sem-terra. O grupo é manipulado por um líder obtuso e encontra resistência de um fazendeiro que os discrimina, não por estarem invadindo sua propriedade, mas por achar que os invasores são nordestinos,

tidos como responsáveis pelos problemas do sul do país. A cena mostra o despreparo do grupo e do seu líder.

Integrantes do Movimento dos sem-terra são manipulados e invadem uma fazenda no Sul, de modo desorganizado e sem

critério

Outro corte mostra o carnaval da Bahia. Um intelectual observa o fenômeno com um gravador, onde registra sua critica aguçada. Comenta a "genialidade do projeto baiano", uma perfeita forma de dominação das massas, que entorpece as pessoas fazendo-as acreditar que o Brasil é o “país da esperança e do futuro”, onde reina a felicidade:

E nquanto o resto do mundo se esforça para dominar as massas seja pelo capitalismo, o socialismo, a guerra, a revolução e até o consumo, eles não. E les só fazem o suficiente pra gerar felicidade. Mantém todo mundo pobre, colocam um som pra tocar e pronto. Mas por que os que não querem ser felizes são obrigados a participar? Mas se todo mundo quer ser feliz, por que não desistem de vez da bandeira da ordem e progresso e assumem definitivamente essa ficção barata da felicidade moribunda, podre, mijada, essa imagem aprimorada da brasilidade

enlatada que é boa pra todo mundo? E u já estou velho demais pra faturar com isso.

Carnaval na Bahia: alienação e imperativo da felicidade

A euforia do carnaval e a imposição da felicidade é objeto de critica também pelas pessoas citadas anteriormente, no restaurante em São Paulo. Brincam com o ditado “Deus é brasileiro” e ironizam: ele só vem aqui para dormir e fazer suas necessidades fisiológicas. O escárnio dessas palavras dá sentido à várias passagens que mostram pessoas urinando nas ruas, nos jardins das casas e, particularmente numa cena em que dois rapazes que participam do carnaval baiano urinam na rua atingindo um garoto que dorme no chão.

Cronicamente Inviável desmonta os mitos que constituem o nacional, a

exemplo do lugar paradisíaco onde reina a felicidade, do lugar do futuro, da cordialidade e da harmonia, mitos que se construíram desde o primeiro momento da colonização, como se pode depreender da carta de Caminha a Dom Manuel quando do "achamento":

A terra em si é de muitos bons ares, assim frios, assim temperados, como os de entre Doiro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Á guas são muitas; infinitas. E em tal

maneira é graciosa que, querendo-se aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. (CHA UI: 2000, p. 60).

Como foi forjada essa idealização do Brasil como um lugar abençoado por Deus, paradisíaco, onde todos são felizes e têm certeza de um futuro promissor? Marilena Chaui, em Brasil: mito fundador e sociedade autoritária lançado por ocasião das comemorações dos 500 anos, desmonta o mito fundador brasileiro, o qual aponta o país como destinado a um futuro magnânimo. Segundo a autora, esse mito se sustenta em três pilares: a sagração da natureza, a

sagração da história e a sagração do governante.

A sagração da natureza refere-se à visão do paraíso e a identificação da terra

brasilis com o lugar descrito no livro do Gênese. As descrições de Caminha e de

Colombo reforçaram a crença de haverem descoberto o paraíso terrestre. O próprio termo novo mundo porta o sentido de retorno à perfeição do paraíso perdido, como se pode observar em alguns símbolos nacionais, a exemplo da nossa bandeira e do nosso hino. Nossa bandeira, por exemplo, ao invés de simbolizar uma nação conquistada pelo povo e identificada com a “coisa pública”, representa nossa natureza paradisíaca, a imagem de um povo ordeiro e promissor, cujo futuro já foi destinado. Essa representação da nação esvazia de seu sentido histórico e político, ao contrário das bandeiras revolucionárias tricolores de alguns países europeus.

O imaginário paradisíaco contrasta com a realidade do trabalho infantil na carvoaria

A sagração da história é a identificação da nossa história com o tempo cósmico (natural e divino) em oposição ao tempo épico (histórico e humano), narrado nas profecias de salvação e redenção da escatologia judaico-cristã. Nela, o tempo sagrado impera o tempo profano e o organiza, de modo que o futuro já se encontra desde sempre definido como destino a ser cumprido, independente da ação humana.

Por último, a sagração do governante, cujo elo é o direito divino dos reis, o qual legitimou a monarquia absolutista que sustentou a ascensão da burguesia urbana e a expansão do capital mercantil. Segundo esse direito, o rei se colocava acima da lei, não sendo representante dos governados mas de Deus, e dono da terra patrimonial, isto é, da pátria. Este é um tipo de poder hierarquizado, juridicamente sustentado na teoria do favor, que legitima a distribuição cargos burocráticos, sesmarias ou títulos de fidalguia por meio de favores ou venda. Chaui acredita que,

essa concepção aparece na política brasileira, na qual os representantes, embora eleitos, não são percebidos pelos representados como "seus" representantes e sim como representantes "do E stado" em face do povo, o qual se dirige aos representantes para solicitar favores ou obter privilégios (CHA UI: 2000, p. 86).

Esse princípio constituiu-se em um dos elementos formadores da noção naturalizada de poder e da crença de que o governante é o salvador dos governados. Ambas favoreceram a forma populista de governo. Fundou-se, assim, a prática autoritária no país, a visão naturalizada da desigualdade social, a neutralização dos conflitos e contradições sociais, políticas ou econômicas. Esta difundiu-se a partir de uma imagem de um povo cordial, pacífico e ordeiro, unido em torno da utopia do progresso e de um futuro promissor. Esses são os ingredientes de uma fórmula que mantém a desigualdade social, a concentração de renda, o desemprego, a cultura senhorial, os privilégios, a corrupção. Práticas consideradas naturais e normais.

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