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...porque eu sei, pode ser que pra um monte de gente o cara pode ser o melhor cara do mundo, num monte de sentido, um bom pai, um bom profissional, enfim fazer alguma coisa extremamente importante pra nação..., mas a partir do momento que ele é gay aquele valor vai, vai.., não tem valor....(Pery, 42 anos, filhos com nove e

doze anos).

Com o objetivo de compreender os processos subjacentes à manutenção de segredo

e à revelação para os filhos do relacionamento homoafetivo por parte do pai, realizamos

um estudo qualitativo por meio de entrevistas individuais e em grupo com dezessete homens pais, entre 32 e sessenta anos, que mantêm envolvimento homoafetivo.

Nossos participantes formam um grupo bastante heterogêneo com relação ao tema que nos propomos analisar, se posicionam de forma distinta com relação à opinião sobre revelação e segredo, são diferentes ao se definirem homoafetivamente; alguns nem mesmo acreditam na existência dessa nomenclatura. Como grupo têm ainda profissão, faixa etária, nível socioeconômico bastante diversos. Essas diferenças, ao contrário de dificultar, somam e enriquecem nossas considerações, nos dão a dimensão de como não há mesmo uma só forma de ser homem e pai com relacionamento homoafetivo. Tampouco há apenas uma atitude diante do segredo e da revelação: sequer existe uma revelação total e amplamente procedida e nem mesmo alguém que se mantenha em absoluto segredo.

A masculinidade, a paternidade e a ideologia heteronormativa são aspectos inseparáveis neste trabalho sobre revelação da homoafetividade do pai para seu filho. Esta é uma das linhas-mestre de nosso estudo.

Diante de uma constatação inegável de envolvimento amoroso e afetivo com o mesmo sexo, os homens deste estudo passam a perceber que não é mais possível continuar com a vida heterossexual que até então levavam.

Para a maioria de nossos participantes essa tomada de consciência veio de forma mais tardia, na idade adulta, quando já eram pais.

A despeito de identificarem algum interesse pelo mesmo sexo em sua juventude, atribuíram-no a uma fantasia natural aos homens. Eles seguiram o que é esperado para

todos os rapazes, cresceram, foram educados e partilharam do ideário heteronormativo na construção do masculino: se interessaram, namoraram e se apaixonaram por mulheres. Eles afirmam que foram felizes com a família que construíram, foram apaixonados pela mulher mãe de seus filhos. A tomada de consciência de sua orientação homoafetiva surge tardiamente e de forma intensa, quando se percebem novamente envolvidos e apaixonados, mas desta vez por um homem.

Alguns outros participantes, os dois pais que adotaram, disseram que se tornaram conscientes de sua orientação homoafetiva um pouco mais cedo, na fase de adulto jovem. Embora também tenham tido envolvimentos e namoros com mulheres na juventude, se dão conta que não devem se casar, pois se percebem apaixonados por um homem.

Os participantes que se assumem mais tardiamente, depois de concretizarem sua paternidade em relações heterossexuais de envolvimento e paixão, se orgulham da família que constituíram, e não referem envolvimentos heterossexuais como uma forma de camuflarem sua homoafetividade, ao contrário: esta, quando surge, deflagra um período de intensa crise interna e conflitos em sua vida afetiva, amorosa e familiar. Se divorciam (alguns imediatamente, outros mais tarde), o que desencadeia, por sua vez, outras conseqüências – conflitos a serem administrados – em suas relações com os filhos e familiares. Até então ele esteve emocional e afetivamente envolvido numa troca afetiva satisfatória com a mãe de seus filhos; seu casamento e parentalidade foram percebidos como atitudes naturais, já que se trata de um homem. Ser pai nessas condições é poder realizar seu desejo e destino de homem indo além disso, já que possibilita o cuidar de outro, este sim seu grande projeto como homem.

Parece-nos inquestionável que um homem possa querer ser pai, e nos parece também irrefutável que a homossexualidade não seja impeditivo para a paternidade. Atualmente, os homens podem até prescindir de uma relação heterossexual e tornarem-se pais, via inseminação, barriga de aluguel ou adoção. Assim a paternidade, a realização do desejo de ser pai, presente nos homens de qualquer orientação sexual, transcende e independe disso ser ou não um atributo da heterossexualidade, ou dos aspectos prescritos de valores heteronormativos da sociedade e da família.

Compreendemos com este estudo que este homem é simplesmente e antes de tudo pai, como muitos outros homens de sua mesma posição e nível. Não há nada de diferente na forma como ele exerce essa paternidade, nada o difere de outros pais, são “pais modernos

atuais”. Mesmo porque o que pode se pode destacar é que a homoafetividade é um aspecto de sua sexualidade, de sua masculinidade e até de certa forma cindida de sua relação com os filhos, pelos próprios temores homofóbicos internalizados, pela constante necessidade de se defender por sentir-se ameaçado da perda daqueles privilégios do masculino hegemônico e porque sua própria imagem de homem e de pai foi construída dissociada de sua homoafetividade.

Esta constatação é válida para os dezessete homens e pais deste estudo, até mesmo para os que adotaram, já que eles também afirmam que seus primeiros anos de vida como homem foram marcados pela mesma luta interna, buscando não perder aqueles privilégios heterossexistas da masculinidade hegemônica. Sua orientação homoafetiva foi um aspecto pessoal a qual resistiram, sofreram para integrar em sua personalidade, à medida que se percebiam diferentes do que era prescrito para os homens e pais em seu grupo, em sua família e mesmo internamente.

Existem numerosas prescrições com as quais esse homem depara internamente para que proceda a uma profunda revisão de suas relações com homens: com o homem que seu pai representou no decorrer de sua vida e desenvolvimento como homem; com o homem que ele pensa que deve ser para os filhos que tem e com o homem com o qual se relaciona homoafetivamente. Sua existência, sua experiência o faz perceber que deve ir contra a ordem, que é heterossexual para a masculinidade e parentalidade.

Perceber-se diferente ameaça algo que é naturalizado para ele, homem das camadas dominantes; ele depara com uma condição que precisa ser sistemática e internamente negociada. Esse é um confronto interno bastante marcado por aspectos próprios da construção da masculinidade e sua superação deve forjar novos caminhos, ressignificações e redefinições dele mesmo, que não acontece sem sofrimento, sem luta interna.

Entendemos que um homem que toma consciência de sua homoafetividade deve fazer uma revisão de sua própria concepção de masculinidade e paternidade. Esse movimento, embora não prescinda dos demais atributos a ele associados, é interno, pessoal, psíquico. Ser um homem que se mantém num relacionamento homoafetivo, ter de se ver como um homem e transmitir ao filho essa constituição masculina da qual se vê um modelo confronta os valores internalizados que o definiam como um homem, que até então era sua essência. Ele derruba crenças, perde convicções, revê seus valores e apegos, mas também amplia, cresce, ganha, porque se fortalece indo contra o preestabelecido, fazendo

valer quem é de fato. É um auto-reconhecimento, um processo de auto-aceitação, bastante intenso e com nuances de cada personalidade.

A ideologia heteronormativa e a tentativa de garantir a manutenção dos privilégios do masculino hegemônico são componentes observáveis em toda dinâmica de revelação e manutenção de segredos. O grande temor na revelação da homoafetividade de um homem que é pai e desponta como um dos resultados mais específicos desta pesquisa é o medo da perda de seu valor como um homem, de seu status naturalizado.

A dinâmica de manutenção de segredos e revelação para os filhos da homoafetividade por parte do pai é um dos pontos cruciais de convergência de seus assuntos masculinos, está por isso carregada de significados interiorizados sobre o que é a essência de sua masculinidade, que, por sua vez, foi engendrada na ideologia heteronormativa que prescreve como devem ser as relações familiares, a parentalidade e a educação de filhos.

O caminho desse pai desde se perceber, se aceitar, se assumir, para então se preparar para se revelar ou não aos filhos é um processo longo e, em geral, marcado por sofrimento psíquico. É individual e pessoal, passa pelo assumir a própria homoafetividade para depois caminhar em direção à revelação. Compreender a dinâmica de manutenção de segredos e revelação nos dá um pouco da dimensão dessa luta interna, dos medos que são mobilizados e de como cada pai vai encontrando suas saídas e se reorganizando.

Falar ou não para os filhos sobre sua homoafetividade pode ser uma decisão definitiva ou temporária, que pode ou não estar pautada em segredos ou ser entendida como privacidade. Alguns pais avaliam como desnecessário contar, revelar; aparentemente não guardam segredos, porque não se preocupam com essa informação, não têm receio de seu conteúdo, embora também não se revelem. Eles auferem uma conotação privativa ao conteúdo dessa informação. Os segredos pressupõem que existe algo a ser escondido, que não pode ser revelado, porque engendra vergonha, ao passo que a privacidade diz respeito à proteção e à exposição desnecessária.

Alguns pais se mantêm em vida dupla, permanecem casados com mulheres, porque acreditam que devam preservar sua própria homoafetividade e vivê-la de forma clandestina. Não conseguem se abrir sobre isso, o que gera muito sofrimento, apesar de ser plenamente possível uma criança crescer e se desenvolver de modo satisfatório independentemente da estrutura que a família possa ter. O motivo que apontam para esse confinamento numa homoafetividade clandestina, para manterem segredo sobre ela, é a

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