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Ao sondar inicialmente o conceito de cultura de paz percebi que os participantes não tinham opiniões sólidas constituídas sobre o assunto, limitando-as a ideias que posso resumir em um “conjunto de ações voltadas para acabar a violência”. O assunto foi posto em debate. Os textos referentes ao tema foram estudados e novas noções foram surgindo. O conceito de cultura de paz, construído coletivamente, passou a ser compreendido como “um conjunto de costumes, comportamentos e ações que visam a valorização da vida na sua mais ampla diversidade” (Grupo Bimba), “promoção da justiça e igualdade social” (Grupo Pastinha) no intuito de “transformar e harmonizar a sociedade (Grupo Besouro), “para que as pessoas tenham uma boa convivência e uma vida digna” (Grupo Aberrê).

Ao refletirem sobre alguns passos para a construção de uma Cultura de Paz, os educadores da AZC apontaram algumas ações nesse sentido, como mudança interna individual, diálogo, a implementação de políticas que proporcionem a compreensão da paz, e em todos dos grupos foi sugerido a viabilização de uma educação para a paz, como elemento fundamental para a superação da cultura de violência existente na atualidade, instaurando-se uma nova cultura, em que a paz seja possível:

Sem uma educação para a paz não haverá consciência e nem mobilização para que a paz seja real (Grupo Bimba).

Educação para a paz, principalmente nas escolas, é fundamental para que se saiba o que é a paz e a Cultura de Paz (Grupo Aberrê).

Educar para a paz é o começo para uma Cultura de Paz. É preciso promover a formação de educadores para a paz que uma cultura de paz possa se tornar realidade (Grupo Pastinha).

Um primeiro passo para uma Cultura de Paz é se reconhecer como vítima e também como propagador de uma cultura de violência; depois disso é procurar se engajar numa educação para a paz (Grupo Besouro).

Para eles, conceitos como respeito, fraternidade, solidariedade, justiça, igualdade, entre outros, só serão mais facilmente viabilizados com a melhoria interior dos indivíduos, proporcionados através da educação. Na ótica dos educadores da AZC, educar para a paz tem conotação com a “reflexão e conscientização de nossas atitudes diante o mundo, pois somos responsáveis por nós e pelo todo” (Grupo Aberrê). É, portanto “o processo que visa a educação do homem para desenvolver valores e atitudes saudáveis em prol de uma convivência mais harmonizada, fraterna e amorosa” (Grupo Pastinha), proporcionando “aos indivíduos o desenvolvimento do seu potencial naquilo que tem de melhor” (Grupo Bimba), para “que nas sociedades exista igualdade, respeito, justiça e mais amor” (Grupo Besouro).

Do pensamento dos grupos participantes da Formação em Cultura de Paz posso deduzir que a educação para a paz tem uma nobre finalidade: o desenvolvimento dos indivíduos e, consequentemente, das sociedades. Essa ideia é encontrada nos estudos de Montessori (2004), quando afirma que todas as criaturas da Terra possuem uma função cósmica a desempenhar, uma missão. Tanto nas grandes, como nas pequenas coisas, homens e mulheres devem estar cientes da tarefa que lhes cabe para o bom andamento do planeta, trabalhando para desenvolver as vias do progresso humano, a inteligência e a moral, os seres humanos estarão assim colaborando na ordem geral da criação. Homens e mulheres, seja qual for o estágio em que se encontrem, são chamados a “participar ativamente da vida da

humanidade” e “devem antes perceber que têm uma grande missão a realizar e preparar-se para ela” (MONTESSORI, 2004, p. 93). “O homem assim preparado, consciente de sua missão no cosmo, será capaz e construir um mundo novo, um mundo pacífico” (MONTESSORI, 2004, p. 94). Nas palavras de Montessori (2204, p. 21) eis a grande tarefa social que nos aguarda:

Colocar em funcionamento o valor potencial do homem, permitindo-lhe atingir o desenvolvimento máximo de seus dinamismos, prepará-lo verdadeiramente para mudar a sociedade humana, fazê-la mudar para um patamar superior.

Não é de se admirar que Montessori (2004), em todo o seu trabalho, mencione uma educação que possibilite o desenvolvimento do que há de melhor em cada indivíduo e convoque as sociedades a se organizar para paz. Para essa educadora, o objetivo dessa educação é nada menos que uma reforma universal, que permitirá o desenvolvimento interior do ser humano, proporcionando-lhe maior clareza de consciência com relação à missão da humanidade, favorecendo a melhoria social. A educação para a paz não se resumiria, portanto a ensinamentos oferecidos na escola: “É uma tarefa que exige esforços de toda a humanidade” (MONTESSORI, 2004, p. 45).

Diante do exposto, posso concluir que para se instaurar a paz, é necessário que os valores da cultura de paz sejam incorporados pela sociedade, para que se tornem realidade e se naturalizem na vida hodierna. O exercício diário desses valores, com a disposição sincera para fazer a paz, seja no pensar, no sentir e no agir é o caminho para uma cultura em que a paz seja uma edificação concreta e perene.

Sendo assim, proporcionar esse processo formativo para os educadores da AZC, foi de extrema importância, pois favoreceu aos participantes a exposição de suas concepções acerca de conceitos e temas pertinentes a uma cultura de paz, assim como a problematização e a construção de novas concepções sobre os assuntos colocados em pauta. Colaborando para se conduzirem, não só no cotidiano de ensino da capoeira como educadores para a paz, como na vida de forma geral. Contribuir para a formação de educadores para a paz é tarefa que julgo fundamental na atualidade, pois creio, assim como Guimarães (2006, p. 14) “que não haverá paz no mundo sem uma educação para a paz”. Nas palavras do autor:

Na realidade em que vivemos, de conflitos e violência, a formação de educadores para a paz é uma contribuição para o patrimônio ético das comunidades onde vivemos, assegurando multiplicadores de cultura e da educação para a paz (GUIMARÃES, 2006, p. 16).

É fato perceptível até agora que a paz não se faz só com palavras. Cientes disso, os educadores da AZC estabeleceram entre si a realização de algumas ações em seus núcleos de ensino, como ponto inicial de suas trajetórias na tarefa de disseminar a paz. No capítulo seguinte apresentamos essas ações, tecendo algumas considerações acerca dos resultados encontrados.

4. DA FORMAÇÃO À AÇÃO: EXPERIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO PARA A PAZ NA