Resiliência refere-se a comportamentos adaptados em resposta a fatores de risco. Deste modo, para falarmos em resiliência, a condição de risco deve ser imprescindível, pois não é possível afirmar que uma pessoa está sendo resiliente, se o risco não estiver presente, ou seja, se não estiver em jogo a habilidade da pessoa para enfrentar a situação.
O conceito de risco tem suas raízes no comércio marítimo de séculos atrás, mediante os constantes desastres e perdas de mercadorias, surgiu, então a necessidade de
80
quantificar o risco destas perdas potenciais, investindo em seguros de prêmios e benefícios (Masten & Garmezy, 1994).
Cientificamente, os primeiros estudos sobre risco foram realizados no campo da epidemiologia e medicina, focando os padrões de doenças e os fatores que as influenciavam em determinadas populações (Lilienfeld & Lilienfeld, 1980). Evolutivamente o sentido e a forma de medir risco foram se modificando, considerando a sua atual aplicação no campo da saúde mental, e nas questões sociais.
Diversos pesquisadores empreenderam estudos sobre eventos indicadores de risco para o indivíduo. No desenvolvimento infantil, há estudos com experiências estressoras, tais como: divórcio dos pais (Emery & Forehand, 1996), abuso sexual/físico contra a criança (Habigzang, Koller, Azevedo & Xavier, 2005; Lisboa, 2002), pobreza e empobrecimento (Cecconello, 2003; Luthar, 1999a), desastres e catástrofes naturais (Coêlho, Adair & Mocellin, 2004; Yule, 1994), guerras e outras formas de trauma (Garmezy & Rutter, 1993).
Na pesquisa de Antoni e Koller (2000) sobre indicadores de risco, que se constituem em dificuldades para a família e a comunidade, foram listados, na família, o descontrole emocional, a falta de responsabilidade e de diálogo, drogas, ausência dos pais, violência doméstica e na comunidade, transição da infância para a adolescência e ausência de redes de apoio. Outro estudo realizado por Trombeta e Guzzo (2002), com adolescentes de baixa renda, identificou, como fatores de risco: o baixo nível de escolaridade dos pais, desemprego, renda familiar baixa, falta de infra-estrutura básica para a moradia, e um alto índice de aglomeração nas moradias.
Assim, os fatores de risco afetam a capacidade de resiliência, uma vez que esses aumentam a susceptibilidade do indivíduo param resultados negativos, em seu desenvolvimento. Dentre as variáveis que podem ser mencionadas, como possíveis fatores
81
de risco, estão: 1) níveis e número de exposições a eventos estressores; 2) sentido atribuído ao evento estressor; 3) acúmulo dos fatores de risco; 4) cronicidade dos eventos; e 5) níveis de tolerância ao estresse (Pesce, Assis, Santos & Oliveira, 2004).
Trombeta e Guzzo (2002) enfatizam que os fatores de risco, embora aumentem a probabilidade do estresse, não são preditores de psicopatologias. Premissa também corroborada por Koller e Antoni (2004), ao ressaltarem que a relação das pessoas com os eventos estressores passam por diferentes graus de ocorrência, intensidade, frequência, duração e gravidade. Nesse sentido, o impacto desses eventos estressores, nos indivíduos, são também determinados pela forma como eles são percebidos.
Yunes e Szimanski (2002) destacam que os fatores de risco sempre devem ser pensados como processo, e não como variável em si, e os relacionam com todos os eventos negativos de vida, os quais, quando presentes, aumentam a probabilidade de o indivíduo apresentar problemas físicos, sociais ou emocionais. Premissa também corroborada por Canelas (2004, p.49), ao afirmar que os fatores de risco estão relacionados com inúmeros eventos negativos de vida, e operam de maneiras diferentes, em diferentes fases do desenvolvimento dos indivíduos, não constituindo “em uma variável por si só, devendo serem pensados sempre como um processo”.
Para Masten e Garmezy (1985), a presença de fatores de risco presume a existência de uma probabilidade estatística, em uma determinada população, para o desenvolvimento de alguma desordem. Desse modo, o risco tem um potencial para predispor pessoas e populações a resultados negativos específicos. Um resultado negativo ou indesejado refere-se à manifestação de uma doença ou algum comportamento desadaptado. No entanto, somente a partir do resultado provocado em determinada pessoa, pode-se afirmar se o fator de risco teve ou não efeito sobre ela.
82
Tradicionalmente, o risco era concebido unicamente em termos estáticos, como um fator que predispunha a um resultado negativo (Cowan, 1996). Desse modo, a simples presença de um fator de risco já era suficiente para se prever consequências indesejáveis. A pobreza, por exemplo, era considerada um fator de risco relacionado com consequências negativas para famílias e crianças. Atualmente, há uma visão mais dinâmica sobre o risco, atribuindo a ele uma conotação de processo.
Desta forma, o risco passa a ser percebido como uma variável, vinculada diretamente ao resultado provocado, ou seja, para um indivíduo, um evento pode ser enfrentado como perigo; e para outro, como um desafio (Yunes & Szimanski, 2002). Neste sentido, a pobreza pode desempenhar um papel de risco para determinadas famílias e para outras não, dependendo da existência de fatores que moderem seus efeitos.
No que se refere ao baixo nível socioeconômico, esta é uma das variáveis socio- demográficas mais investigadas em pesquisas, sobre fatores de risco (Luthar & Zigler 1991). De acordo com Garmezy e Masten (1994) e Cecconello (2003), o baixo nível socio- econômico constitui uma forma de adversidade crônica. Para os autores, uma adversidade crônica manifesta-se lenta e gradualmente, e sua intensidade pode variar de moderada a alta; porém, sua duração é longa, caracterizada pela possibilidade de comprometer o potencial de desenvolvimentos dos indivíduos.
Koller e Lisboa (2007) alertam para o fato de que não se pode tomar a pobreza como fator de risco, a priori, de maneira descontextualizada, pois, em países considerados pobres, como é o caso do Brasil, pessoas com maior poder aquisitivo, consideradas ricas, podem ter experiências estressoras e de risco, ao sentirem medo de serem sequestradas, assaltadas ou violentadas.
Não há, também, consenso quanto ao número de eventos negativos de vida, necessários para afetar a capacidade de resiliência do indivíduo. Célia e Souza (1999)
83
comentam que ter mais do que quatro eventos negativos na vida elevam a condição de risco. Outros autores, como Garmezy (1991), Luthar e Cushing (1999), consideram importante saber não apenas como o indivíduo vivenciou determinada situação, mas como a situação afetou o indivíduo.
Vinay, Esparbés-Pistre e Trap (2000) dizem que falar de resiliência implica em falar não apenas dos riscos impostos pelas circunstâncias vividas pelo indivíduo, mas também reconhecer a presença, neste mesmo ambiente, de certos fatores que podem proteger o ser humano, atenuando ou neutralizando os efeitos negativos dos riscos e viabilizando a construção da resiliência.