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O ambiente familiar apresenta-se às crianças e adolescentes, como um fluxo de práticas e rotinas, dentro do qual são socializados e construídos significados, signos, habilidades e interações, formando o material de que é feito o estilo singular de cada família e de cada membro que a possui. A família, por ter esse estilo singular, torna-se o eixo organizador do espaço social imediato dos indivíduos, facilitando ou não seu ajuste às dificuldades da vida. (Emde, 1995).

Ribeiro e Borges (2005) enfatizam a importância do afeto físico (toque), do carinho, na interação familiar, e sua relação com o desenvolvimento de seus membros. Segundo os autores, para que uma família “promova o desenvolvimento emocional saudável de seus membros, é importante que o contato físico possa estar presente” (p.37).

Nesse sentido de facilitador nos ajustes, mediante as dificuldades da vida, Baptista (2007a) afirma que o grupo familiar ainda possui uma função importante como grupo social, principalmente no que se refere ao suporte na adversidade, sejam estas relativas às condições econômicas, políticas, sociais, afetivas precárias, como também a violência que, como fenômeno social, tem circundado a família.

Em relação a esse aspecto, Silva (2009) afirma que, quando há violência no interior dos conflitos familiares, a destruição paulatina do sentimento de amparo, amor e autoestima, atinge todos os membros. Pettit (2004), ao revisar a literatura, postula que

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experiências de vidas negativas, incluindo relações com ambientes severos, inconsistências parentais, rejeição pelos pares, entre outras, aumentam o risco de a criança desenvolver comportamentos antissociais e violentos. Assis (1999), em estudo realizado junto a adolescentes infratores, também evidencia a vulnerabilidade familiar desses jovens.

É o mesmo que afirmam Sadowski, Hunter, Bangdiwala, e Muñoz (2004) ao postular em que há diversos fatores que devem ser analisados, na relação entre violência e família, mais especificamente nos âmbitos sociais, comunitário, familiar e individual, já que é crescente o impacto da violência, principalmente nas camadas mais pobres da população, alterando as formas de assumir novos papéis na família. Pois cria referências de risco, mina as crenças na efetividade de projetos de vida e diminui a esperança. Esvaziando a sua objetividade que é dar suporte emocional e afetivo aos adolescentes que, sem suporte familiar, veem-se, muitas vezes, sem perspectivas e acabam por se envolver em atos infracionais.

Kasak (1997) sugere que diversos são os temas relacionados à pesquisa de famílias, tais como: a educação e cuidados das crianças; composição dos subsistemas familiares; relacionamento entre os membros da família com a sociedade; avaliação de comportamentos de enfrentamento (coping), dentre outros possíveis temas. Essas e outras variáveis, tais como a estrutura e o tipo de suporte familiar fornecido aos membros, refletem o modo de agir intra e inter-familiar que vigora em nossa sociedade.

O tema suporte familiar é um construto que ainda não possui uma definição consensual. Em parte, por não existir uma teoria unificadora do funcionamento familiar, e também por não ser fácil definir o que é uma família saudável e disfuncional.

Kirk (2003) situa suporte familiar, em uma definição mais próxima de relacionamentos, cujo indivíduo é beneficiado por meio do contato e das trocas mantidas

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com seus familiares, podendo desenvolver maior resiliência e bem-estar psicológico, e sendo auxiliado na manutenção de respostas mais adequadas, diante de eventos estressores. Lemos e Medeiros (2002) pontuam algumas das funções do suporte familiar, como dar e receber informações, proporcionar auxílio material e emocional, dar às pessoas o senso de amor e valorização, possibilitar a construção e manutenção de uma identidade social, além do auxílio na atribuição de sentido às experiências de vida.

Premissa também corroborada por Ramos (2002), quando afirma que o sentimento de pertencimento, amor e segurança, advindos de um suporte familiar adequado, proporciona maior resistência ao estresse, reduzindo seus efeitos negativos presentes na saúde mental da pessoa. McFarlane, Belíssimo e Norman (1995) definem suporte familiar como manifestações de carinho, atenção, diálogo, proximidade afetiva, liberdade e independência entre os membros da família, podendo ser esse considerado um construto multidimensional e complexo.

Segundo Hill, Fonagy, Safier e Sargent (2003), os mecanismos de funcionamento das famílias refletem, em sua maioria, a conceituação baseada na perspectiva sistêmica, que avalia o suporte familiar, em diversas dimensões, tais como a clareza da comunicação; proximidade, versus distanciamento entre os membros; organização do grupo, em contextos específicos; ligação afetiva, papéis familiares e crenças sobre a representação desses papéis.

Nessa perspectiva, para Bray (1995), os autores que estudam o suporte familiar entram em consenso no que se referem às dimensões que podem ser avaliadas, tais como a comunicação, conflitos, resolução de problemas, vínculo, coesão, afetividade, intimidade, diferenciação, individualização e regras, as quais serão descritas a seguir.

A comunicação seria a habilidade dos membros, em expor de forma clara, verbal ou não-verbalmente, as necessidades, desejos e atenção, colaborando para a solução de

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problemas, vínculo emocional e intimidade entre os mesmos. Os conflitos estariam relacionados às discórdias constantes, entre os membros familiares, agressões verbais e físicas, e estariam relacionados ao estresse familiar, e são opostos à dimensão da comunicação. A resolução de problemas refere-se à habilidade da família em identificar, criar e desenvolver estratégias para as soluções dos problemas que a afligem.

As dimensões denominadas de vínculo, coesão, afetividade e intimidade, retratam a intensidade com que os membros se sentem próximos ou distantes emocionalmente, o quanto dividem seus interesses, amizades, afetos e intimidades, em comum, estando diretamente associadas à confiança e carinho. Já as regras seriam padrões normativos de interação que perpassam pelas funções financeiras, emocionais, motivacionais e de gerenciamento familiar.

Nesse direcionamento de estudos sobre o construto Suporte Familiar, algumas características são bastante investigadas por teóricos e autores que desenvolveram instrumentos de medida de suporte familiar, a exemplo de Olson, Russel e Sprenkle (1983) que, fundamentados na Teoria Sistêmica Familiar, apresentaram um modelo de interação da família, que consiste em três (03) dimensões principais, denominadas coesividade, adaptabilidade e comunicação familiar.

A coesividade relaciona-se aos tipos de vínculos que os membros familiares estabelecem entre si; inclui os processos decisórios, o tempo que passam juntos, os interesses em comum, os limites, o lazer. A adaptabilidade seria a habilidade do sistema familiar em transformar a estrutura de poder e as regras nos relacionamentos, em respostas às situações geradoras de estresse. Já a comunicação familiar seria composta pela empatia, o ouvir, afeto entre os membros da família, proporcionando, ainda, a facilitação das características da coesividade e adaptabilidade.

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Existem inúmeros estudos correlacionados com o suporte familiar, por exemplo, o que associa a traços de personalidade, como apontam Reti, Samuels, Eaton, Bienvenu Costa-Junior e Nestadt (2002), por intermédio de uma pesquisa de acompanhamento com setecentos e quarenta e dois pacientes, acompanhados por psiquiatras, e que possuíam transtornos do eixo I do DSM-IV. Estes reportaram baixo carinho parental e intromissão da família, e possuíam mais traços de neuroticismo, baixa responsabilidade, menos direcionamento de vida e aumento de esquiva de situações de vida.

No mesmo sentido, Santos (2006) encontrou, em uma amostra de trezentos e quarenta e seis universitários, correlação positiva entre afetividade familiar do Inventário de Percepção do Suporte Familiar, socialização e extroversão no Big Five, correlação positiva entre consistência familiar e autonomia, com o fator realização, autonomia com abertura, inadaptação familiar e neuroticismo e, por último, correlação negativa entre afetividade e consistência familiares, com o fator neuroticismo, indicando tais associações entre fatores de personalidade com dimensões de percepção de suporte familiar.

Harris e Molock (2000) associaram o suporte familiar inadequado, com ideação suicida e sintomatologia de depressão, em cento e oitenta e sete estudantes africanos, selecionados por conveniência, já que altos níveis de coesão e suporte familiar estavam correlacionados com baixos níveis de depressão e ideação suicida. Kashani, Canfield, Borduin, Soltys e Reid (1994) associaram suporte familiar com algumas características comportamentais de crianças, ao estudarem cem crianças que realizavam tratamento psiquiátrico ambulatorial Concluíram que aqueles infantes, que possuíam baixa percepção de suporte familiar e social, tinham maiores dificuldades de fixar a atenção, eram mais violentos com os pares, e destruíam mais os bens materiais, além de serem menos cooperativos, em diversas atividades, e de possuírem maiores pontuações em desesperança. A adequada percepção de suporte familiar, bem como a qualidade das relações com os

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pares, também influenciam a autoestima de adolescentes, sendo que o suporte familiar também foi preditivo na qualidade das relações sociais (Franco & Levitt, 1998).

Parker, Tupling e Brown (1979) desenvolveram um inventário denominado

Parental Bonding Instrument, que consiste em um inventário que avalia vínculos

familiares, em duas dimensões principais, chamadas de carinho e superproteção, contrárias às dimensões de indiferença/rejeição e autonomia/independência. Essas dimensões possuem itens relacionados aos comportamentos paternos e maternos de afeto, sensibilidade, cooperação, acessibilidade, indiferença, punição, rejeição, interferência, controle e superproteção, segundo Baptista (Romaro & Capitão, 2007).

Carver e Jones (1992), em um estudo da satisfação do grupo familiar sobre sentimentos e atitudes de interesses e habilidades, entre os seus componentes, utilizaram a escala Family Satisfaction Scale. Trata-se de um instrumento de vinte itens que avalia a satisfação familiar, de acordo com quatro domínios: satisfação geral com a vida familiar e membros familiares; aceitação e afeto entre os componentes do grupo familiar; consistência e previsão de condutas entre os componentes e compromisso; e confiança em relação à família.

No Brasil, Baptista (2005, 2007) desenvolveu um Inventário de Percepção de Suporte Familiar – IPSF, que avalia a percepção que o indivíduo tem do suporte familiar, que recebe de sua própria família (Baptista, Alves & Santos, 2008). Possui três (03) dimensões denominadas de Afetivo-Consistente, Adaptação Familiar e Autonomia Familiar.

A dimensão Afetivo-Consistente investiga a expressão de afetividade entre os membros familiares (verbal e não-verbal), interesse, proximidade, acolhimento, comunicação, interação, respeito, empatia, clareza nas regras intrafamiliares, consistência de comportamentos e verbalizações, além das habilidades na resolução de problemas. A

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Adaptação Familiar avalia a ausência de sentimentos e comportamentos negativos em relação à família, tais como raiva, isolamento, incompreensão, exclusão, vergonha, irritação, relações agressivas (verbais e físicas); além de percepção que os familiares competem, são interesseiros e culpam-se entre si. Já a dimensão Autonomia Familiar refere-se a relações de confiança, liberdade e privacidade entre os membros.

Segundo Benight, Harding-Taylor, Midboe e Duham (2004), os modelos aprendidos no núcleo familiar se repetem nos relacionamentos interpessoais posteriores, na vida dos indivíduos, o que pode explicar a relação entre contexto familiar e a maneira como os indivíduos internalizam e desenvolvem modelos de ação e avaliação com o mundo ao seu redor. É importante ressaltar que é, no contexto de vínculos multifacetados de família – Estado, que se encontram os sujeitos dessa pesquisa.

Devido à complexidade do universo psicossocial dos adolescentes em conflito com a lei, e dos adolescentes que não se encontram em conflito com a lei, o tipo de ligação estabelecida entre o adolescente e a família, longe de ser o único, é apenas mais um aspecto a ser considerado na compreensão de toda problemática envolvida no cometimento do ato infracional. Ao se voltar para a família, como espaço de formação e construção de valores, deve-se aos vários arranjos familiares e à consequente falta de controle parental, fazendo, destes, responsáveis por problemas associados à juventude contemporânea e, consequentemente, aos valores que esses jovens possuem (Moraes, Camino, Costa, Camino & Cruz, 2007).

Ao completar o trinômio Resiliência, Valores Humanos e Suporte Familiar, na tentativa de compreensão da prática do ato infracional cometido por adolescentes, mister se faz descrever a Teoria que embasará toda a análise e discussão dos dados, que é a Teoria da Representação Social.

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