6.3 Deep learning models
6.3.2 Model scores with sorted input features
A presente investigação trata da Censura e da Banda Desenhada. Ao abordar a primeira num contexto histórico preciso cruza com a segunda no mesmo contexto histórico. Não é possível falar de uma e ignorar a outra . Nem conveniente isolá-las em compartimentos
32
Vide Arons de Carvalho, A censura à Imprensa na Época marcelista, [...]
33
Sem pretender ser exaustivo ver Isabel Forte, A censura de Salazar no Jornal de Notícias: da actuação da Comissão de Censura do Porto no Jornal de Notícias durante o governo de António de Oliveira Salazar, Coimbra, Edições Minerva Coimbra, 2000; pp. 105-117; Joaquim Cardoso Gomes, " Os censores do 25 de Abril : o pessoal político da censura à imprensa" Jornalismo e Jornalistas,nº 57, Jan/ Jun 2014, pp.6-34.,; Ana Cabrera ( coord.) Censura Nunca Mais. A censura ao Teatro e ao Cinema no Estado Novo, Lisboa, Aletheia Editores, 2013 e idem, Marcello Caetano: Poder e Imprensa, Lisboa, Livros Horizonte, 2006, António Tavares Proênça, A Censura durante o " Estado Novo" e a sua execução : A imprensa periódica na região tradicional, histórica e cultural da " Beira Baixa" segundo os documentos existentes no Arquivo da Censura, Dissertação de Mestrado, FCSH/UNL, 1992 , Lisboa , policopiado, vol.I e II ; Álvaro Costa de Matos e Pedro Bebiano Braga, " Jornalismo Gráfico e Censura no Estado Novo. Uma aproximação ao problema a partir do bissemanário humorístico " Os Ridículos" , Jornalismo e Jornalistas, nº 49 Abr/ Jun, 2009,pp.51-65.
Gonçalo Pereira Rosa , O Inspector da Pide que Morreu Duas Vezes e outras gaffes, triunfos e episódios memoráveis do século XX na imprensa portuguesa, Lisboa, Editorial Planeta, 2017.
34
Vide Francisco Rui Cádima, Salazar, Caetano e a Televisão Portuguesa, Lisboa, Editorial Presença, 1996
35
Vide Luís Reis Torgal, coord, O Cinema sob o olhar de Salazar, Maia, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2011
36
Vide Comissão do Livro Negro do Fascismo, A política de Informação no regime fascista, 2 vols. Lisboa, Presidência do Conselho de Ministros, 1980.
estanques . Mas se os estudos históricos sobre a censura em Portugal seguem o seu caminho e ganharam carta de alforria, o mesmo não ocorre com a BD. Não é uma simples curiosidade historiográfica ou um acidente de percurso. É um aspecto essencial com refrações relevantes em matéria de fontes, da interpretação das mesmas, da bibliografia disponível e em geral no modo como podemos trazer à luz do dia uma faceta da cultura popular que ajuda a explicar, à sua escala , um ou outro ponto mais controvertido ou menos estudado da História de Portugal do século XX .
Num campo tão difuso como o da história da BD em Portugal, ocorre perguntar do que foi realizado e por quem. E do mesmo passo interrogar do sentido e resultados dessas avulsas empreitadas. Uma história sem protagonistas ? Uma história apolítica ? Uma meta-narrativa de densidade corporativa e alcance microscópico?
Desde logo impõe-se registar a existência de um conjunto extenso, complexo, desigual e diversificado de estudos sobre a BD em Portugal. E nem por esses estudos serem dificilmente localizáveis , se lhes pode retirar mérito e relevância.
Os estudos históricos de referência em História da Cultura em Portugal , quer apontem para a Literatura quer para a Pintura , quer mesmo para as Artes Gráficas só incidentalmente aludem ao tema37. Os ensaios de referência de história política e social , ou de forma mais ampla de História “geral” de Portugal, não têm uma linha sobre o assunto38. E mesmo os dicionários de História de Portugal, gerais ou sectoriais, só muito incidentalmente referem circunstâncias ou protagonistas ligados à Banda Desenhada39.
37
Contudo investigações sobre ilustração e sobre ilustradores portugueses com sugestivas reflexões sobre iconografia e iconologia e aproximações à conexão texto/imagem, que é uma das dimensões da Banda Desenhada, podem encontrar-se em António Ventura , O Imaginário Seareiro, Ilustradores e Ilustrações da Revista Seara Nova(1921-1927), Lisboa, Instituto NAcional de Investigação Científica, 1989, pp. 149 e ss " e em José Augusto França , A Arte em Portugal no Séc. XX, Lisboa, Livros Horizonte, 2009 e Rafael Bordallo Pinheiro, O português Tal e Qual, Lisboa, Livros Horizonte, 2007
38
Vide as obras recentes de Bernardo Vasconcelos, Nuno Monteiro e Rui Ramos , História de Portugal , Lisboa, A Esfera dos Livros, 2013 e António Costa Pinto e Nuno Goncalves Monteiro, dir. , História Contemporânea de Portugal , 5 vols, Lisboa, Objectiva, 2012-2015.
39
Vide António Barreto e Maria Filomena Monica, cord. Dicionário da História de Portugal , Suplemento. vol. 8, Porto , Livraria Figueirinhas , 1999 onde a entrada sobre "Imprensa de Educação e Ensino" tem uma vaga referência ao "Mosquito", "Senhor Doutor" e "Papagaio", e o único ilustrador com colaboração em publicações infanto-juvenis considerado é Stuart Carvalhais . A história da caricatura tem um estatuto similar, pese embora os esforços de Osvaldo de Sousa no sentido de a resgatar do esquecimento sejam notáveis. A " magnum opus " na matéria são os 5 volumes da História da Arte da Caricatura de Imprensa em Portugal, vol. I ( Na Monarquia 1847/1910), 1998, vol. II( Na República, 1910/1933),1999, vol. III ( No Estado Novo, 1933/1974),1999, vol. IV ( Na democracia 1974/2002) , 2002, vol. V (Cronologia, Dicionário Biográfico, Índices) 2002 ,Lisboa, Humorgrafe, SECS, Edição integrada nas Comemorações Nacionais dos 150 anos da caricatura em Portugal. Alguns dos caricaturistas identificados nestas obras são também autores de BD razão pela qual a sua consulta se revela útil para quem pretenda estudar a 9ª Arte em Portugal.
As palavras introdutórias de um dos raríssimos trabalhos académicos sobre Banda Desenhada , escritas vão para 30 anos mantêm-se , no essencial , actuais :
" A história da banda desenhada portuguesa está por fazer. Com excepção de referências em algumas obras e de artigos publicados em revistas e jornais, não existe um corpus dedicado exclusivamente à banda desenhada"40.
Nessa mesma obra ,em nota de apresentação, A.H. Oliveira Marques, centrava o estudo da história da Banda Desenhada no âmbito da História da Arte e alertava para a urgência em " publicar um corpus completo da banda desenhada portuguesa"41
O ilustre historiador dava conta, nos anos 80, da relevância da História da BD infantil e não infantil porque através dela " encontramos a história dos temas, dos "tropos", tão reais na banda desenhada como na literatura clássica do passado e do presente" . E acrescentava : " Apercebemo-nos dos variados objectivos que com essas histórias se pretendiam : objectivos moralizadores, religiosos, políticos, sociais ou simplesmente de mera distracção. Verificamos a sua evolução ao longo dos tempos e o marco importante que em tal evolução representou a proclamação da República"42.
Ora, apesar do apelo de Oliveira Marques, que , num passo ousado para a época , não receou comparar a Banda Desenhada com a Literatura Clássica, o certo é que a comunidade científica portuguesa pouco cuidou do seu alvitre.
Uma das razões para este prolongado eclipse, tem que ver, justamente, com o afastamento da academia do objecto de estudo. Em Portugal são escassas as dissertações ou teses que tenham directa ou indirectamente como tema a Banda Desenhada . Desde logo há um pressuposto que decorre da tardia recepção académica do tema, mesmo a nível internacional . Só para dar um exemplo, a primeira tese de doutoramento sobre " comics" foi submetida em 1958 na New York University43. E só a partir dos anos 80 do sec. XX os estudos sobre " comics" , " Bande dessinnées" ou " fumetti" passaram a ter estatuto próprio nos EUA, na Grã Bretanha , em França ou em Itália, registando-se, todavia, desde essa época um crescendo de relevância investigativa que cruza várias áreas de saber, da Literatura às Artes, passando pela História.
40
Vide João Pedro Ferro, História da Banda Desenhada Infantil Portuguesa, Das origens ao ABCzinho, Prefácio de A.H. Oliveira Marques , Lisboa, Editorial Presença, 1987, p. 13.
41
Vide João Pedro Ferro, História da Banda Desenhada Infantil Portuguesa [...] p. 12
42
Vide João Pedro Ferro, História da Banda Desenhada Infantil Portuguesa,[...] p. 11
43
Vide Jean Paul Gabilliet, Of comics and men, A cultural history of American Comic Books, Mississipi , University Press of Mississipi, 2010, p. 297
A história cultural da Banda Desenhada e o debate acerca do seu estatuto enquanto objecto histórico-cultural é uma discussão em aberto com inúmeros pontos controvertidos .
Alguns desses pontos servirão de tema para as considerações que se seguem, a saber : a sua difícil consagração como objecto cultural, a complexa afirmação de um discurso historiográfico sobre a BD e a rarefacção da sua legitimidade académica .
Em suma o que se pretende não é uma reflexão estética e artística da Banda Desenhada, das suas obras ou autores- embora essa apreciação possa incidentalmente ter lugar - mas antes uma aproximação histórico-cultural da BD em Portugal , ou melhor qual o seu lugar, enquanto manifestação artística e cultural e com refracções sociais e políticas , na História Contemporânea de Portugal.
Por outro lado a reclamação de Oliveira Marques formulada vai para 30 anos, quanto à exigência de um " corpus" da BD portuguesa, acabou por ter eco44. Não foi a academia, a " universidade portuguesa", a dar-lhe resposta, é certo. Mas não podemos regatear elogios aos que nas últimas décadas construíram esse "corpus" material e sobre ele trabalharam45 . Falamos da republicação de obras perdidas nas páginas amarelecidas de vários revistas e jornais, que viram a luz do dia em versões graficamente recuperadas e em alguns casos reelaboradas46. E sobretudo dos ensaios, estudos, entrevistas ou índices que contribuíram para interpretar e catalogar esse "corpus" documental .
As tentativas de inventariar essa realidade têm sido bem sucedidas, ainda que contemplem suportes os mais variados47. De início as notas biobibliográficas de autores e
44
O acesso às “ fontes” primárias pode concretizar-se desde logo na Biblioteca Nacional onde muitas ( embora não todas) publicações periódicas infanto-juvenis estão acessíveis. Complementarmente são importantes a Bedeteca da Câmara Municipal da Amadora e nela o Centro Nacional de Banda Desenhada e Ilustração ( que contém vários Arquivos particulares de criadores e coleccionadores como Eduardo Teixeira Coelho , José Ruy Pinto ou Geraldes Lino) , a Bedeteca da Câmara Municipal de Lisboa e a Hemeroteca Municipal de Lisboa.
45
Aliás as tentativas da "Universidade" nos domínios da Banda Desenhada nem sempre tiveram a melhor recepção : veja -se o texto muito crítico de António Dias de Deus, " Os relativos universitandos" Diário Popular, 9/11/1990, p. 27
46
Muitos dos clássicos da BD portuguesa, viram a luz do dia ainda nos anos 80 através da colecção " Clássicos da BD portuguesa" da Editorial Futura. Também algumas publicações periódicas nos anos 80 e 90 republicaram essas obras, como é o caso, a título exemplificativo, das "Lendas Japonesas" de José Ruy reeditadas nos Cadernos de Banda Desenhada, nº 1, Janeiro de 1987 e originariamente publicadas na 2ª série de "O Papagaio" em 1949/1950 . Aliás, no caso de José Ruy, um dos seus maiores sucessos editoriais e uma das obras de referência da BD portuguesa " A Peregrinação", inspirada em alguns episódios da obra de Fernão Mendes Pinto, veio a ser editada em albúm em 1982 com alterações por reporte à versão original publicada em 1957-59 no Cavaleiro Andante, vide João Paulo de Paiva Boléo e Carlos e Carlos Bandeiras Pinheiro, Das Conferencias do Casino, cit. p. 145
47
Veja-se a bibliografia constante em António Dias de Deus, Os Comics em Portugal, Uma história da Banda Desenhada, Lisboa, Cotovia, Bedeteca de Lisboa, 1999, pp. 346- 350, que é constituída quase
heróis surgem discreta e anonimamente nas páginas das revistas da especialidade 48. Depois vão-se tornando mais regulares e sobretudo mais informadas. Surgem já nos anos 80 do século passado, em paralelo com as primeiras feiras e exposições de BD, com destaque para as organizadas pelo Clube Português da Banda Desenhada49 e pelas Câmaras de Lisboa e Amadora50, traduzindo-se em estudos temáticos sobre desenhadores, argumentistas ou revistas sobre forma de catálogos das exposições. É por essa época que nasce a Bedeteca de Lisboa, que agregando o seu propósito bibliográfico ao da divulgação, dá corpo a um conjunto de publicações relevantes na matéria. Do mesmo passo a criação do Centro Nacional da Banda Desenhada e Ilustração e mais tarde a Bedeteca, ambos na Amadora, constituem-se como pontos fundamentais de irradiação da produção ensaística da BD entre nós. Paralelamente a criação de Suplementos dedicados às Histórias em Quadrinhos nos jornais , como são os casos de "A Capital" e do "Correio da Manhã", de par com a multiplicação de "fanzines", o mais importante dos quais ( e o mais antigo à data de hoje) o Boletim do Clube Português da Banda Desenhada, deram impulso decisivo aos estudos sobre a BD . Surgem depois várias exposições, cujas catálogos são obras de referência imprescindíveis, a saber as duas promovidas pela Fundação Calouste Gulbenkian/ Centro de Arte Moderna, respectivamente sobre os nos anos 1914-1945 e Anos 40-Anos 80, a promovida no "Centre Belge de la Bande Dessinnée", no ano 2000 organizada pela Bedeteca de Lisboa. E finalmente importa referir a actividade editorial das Edições Época de Ouro, na recuperação do valioso património "bedéfilo" das revistas periódicas infanto-juvenis, no quadro de um revivalismo associado
exclusivamente por artigos em jornais, revistas e fanzines. Aliás pela nota introdutória de Leonardo de Sá fica a saber-se que " Os Comics em Portugal" tiveram a sua origem em artigos na secção Quadradinhos do jornal “A Capital” ( entre os nºs 449 de 7/4/88 e 617 de 1/7/91).
48
No início dos anos 50 o " Mundo de Aventuras" ensaia breves apresentações dos seus autores e desenhadores e mais tarde já no início dos anos 70 quer o "Tintin" quer o " Jornal do Cuto" dão espaço às " histórias e técnicas da Banda Desenhada"
49
De referir a primeira grande exposição de BD em Portugal " 100 anos de Histórias aos Quadradinhos em Portugal. Um panorama da Banda Desenhada Portuguesa, Catálogo da Exposição na FIL, 10- 10 de Fevereiro de 1978 ( texto de A. Dias de Deus ). Ainda A Banda Desenhada e a sua acção pedagógica, catálogo da exposição na Sociedade de Belas Artes, 10-13 de Abril, 1978
50
A primeira exposição do que é hoje o mais relevante evento de BD em Portugal o Festival Internacional de BD da Amadora, realizou-se a 8 de Novembro de 1990. Mas não é o mais antigo. Em 1985 no Porto nasceu o Salão Internacional da BD no Porto promovido pela Associação com o mesmo nome. O Festival BD/ Sobreda marcou o calendário bedéfilo nos anos 80 e 90. Em Lisboa o Salão Lisboa BD teve a sua primeira edição em 1998 e mais recentemente Beja realiza um Festival de dimensão internacional que vai conquistando cada vez mais relevância no panorama nacional. Registe- se ainda que o mais importante evento de BD na Europa , O Festival Internacional de BD de Angoulême em França , decidiu convidar os criadores portugueses pela primeira vez em 1998. Vide Carlos Pessoa, Roteiro Breve da Banda Desenhada em Portugal, Lisboa, CTT, 2005 pp. 120-121
à revista " O Mosquito " e ao legado que deixou na geração nascida nos anos 30 e 40 entre nós.
Importa não esquecer, porque também são fontes relevantes de estudo para a BD portuguesa, os inúmeros "fanzines"51 que no imediato pós 25 de Abril viveram a sua época de oiro mas que ofereceram assinalável resistência nos últimos 40 anos. Se é certo que o seu propósito foi e é o de revelar novos autores, não deixaram de publicar estudos e ensaios sobre a História e as técnicas da BD52
E já na transição do século e sobretudo nos últimos anos multiplicaram-se os " sites" e " blogs" que na " net" vão dando voz a desenhadores e argumentistas e a seu modo reconstruindo a história da BD em Portugal .
Nesse contexto é fácil entender o papel residual, para não dizer quase inexistente, da produção académica , ou seja, a que oriunda das universidades procura investigar e reflectir sobre a história da BD entre nós. Esta situação não deixa de ser paradoxal. Na verdade, o volume de informação sobre BD é hoje muito significativo, como vemos, espalhado por inúmeros meios e fontes, sendo possível afirmar-se que o levantamento dos principais autores portugueses de BD está feito e as características e história das mais relevantes publicações também está razoavelmente estudado . Mas nesse labor a Universidade está ( quase) ausente .
É um facto que na última década a BD constituiu tema para algumas abordagens universitárias . Mas apesar de tudo muito residuais.
E a generalidade dos poucos trabalhos académicos sobre o tema não são de História. É o caso da tese em "Estudos Portugueses", defendida por Rui Zink na Universidade Nova 53 e que terá sido o primeiro Doutoramento que teve a Banda Desenhada em Portugal como tema central. Mas, ao invés , é em História , a primeira dissertação de Mestrado sobre a BD portuguesa, da autoria de João Pedro Ferro e já referida . Depois têm sido apresentados vários trabalhos de investigação em que a Banda Desenhada se estuda na perspectiva pedagógica , didática ou dos estudos de política educativa54. E podem
51
" Aglutinação anglo-saxónica das palavras "fan" e "magazine" , termo internacional aplicável a qualquer publicação amadora mais ou menos especializada num aspecto particular da cultura popular, realizada geralmente com pouco meios por apaixonados altruístas" Vide Leonardo de Sá , Dicionário Universal da Banda Desenhada, Pequeno Léxico Disléxico, Lisboa, Pedra no Charco, 2010, p. 81
52
Vide Carlos Pessoa, Roteiro Breve [...] pp. 90-91
53
Vide Rui Zink, Literatura Gráfica, A Banda Desenhada Portuguesa Contemporânea, Lisboa, Celta, 2000.
54
Vide, entre as duas dezenas de teses e dissertações sobre o tema, Cristina Manuela Branco Fernandes Sá, A Banda Desenhada: Uma linguagem narrativa ao Serviço do Ensino do português ( Língua Materna) . Tese doutoramento em Didáctica na Universidade de Aveiro, 1995, policopiado, 3 vols.
também arrolar-se dissertações e teses que abordam directa ou indirectamente a BD , não necessariamente em Portugal , em Antropologia , Ciências da Informação e Documentação, Literatura Comparada, Estudos Americanos, Estudos Feministas etc55 O ensaio de Rui Zink até pela sua natureza pioneira merece destaque. Não se trata de uma obra que tenha como objecto a história da BD em Portugal. Delimita a sua intervenção entre 1968 e 1994, recorrendo a algumas obras seleccionadas para reflectir sobre a natureza da Banda Desenhada e a sua inserção no campo da literatura gráfica, procurando salvar a BD do seu estatuto de menoridade procurando associá-la a uma forma de expressão artística colada à narrativa literária.
Na verdade o autor procura demonstrar que" a escrita é um aspecto fundamental de um texto de BD, tanto na sua criação como na sua fruição" concluindo que o estatuto da BD é o de literatura gráfica56
Será certamente um esforço que vem sendo percorrido por vários autores que no próprio campo da BD procuram realçar produtos diversos : um associado a uma cultura popular de massas de baixa qualidade e outra mais erudita e com caução de qualidade. Um exemplo do segundo seriam as " narrativas gráficas" , cujos exemplos paradigmáticos citados são os das obras de Will Eisner, Robert Crumb ou Taniguchi. Os últimos 20 anos assistiram ao paulatino desenvolvimento das obras de BD catalogadas como " narrativas gráficas", com a entrada de editoras literárias clássicas neste campo.
Ora pese embora os sinais, mais evidentes na última década, de uma lenta penetração da BD na Universidade portuguesa, a verdade é que os estudos históricos não lhes têm dado particular atenção.
Não é possível avançar para a História da BD em Portugal, traçar-lhes os contornos e iluminar a sua influência em outros campos da História, designadamente na História da Cultura e das Artes e mesmo na História Política e Social, sem meia dúzia de obras de referência e o sem número de pequenos estudos e ensaios deixados de forma dispersa em jornais, revistas, catálogos, fanzines e "blogs"57.
55
Consulta realizada ao Repositório Científico de Acesso Aberto Em Portugal www.rcaap.pt. em Julho de 2018
56
Vide Rui Zink, Literatura Gráfica [...] .p. 267
57
São pioneiros os estudos relativos aquela que pode considerar-se a primeira BD portuguesa , Leonardo de Sá e António Dias de Deus, Apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro sobre e Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb pela Europa, edição facsimilada , 1996 , Leonardo de Sá, Raphael Bordalo Pinheiro : Aos Quadradinhos , Catálogo da Exposição, Lisboa, Bedeteca de Lisboa, 1996
As primeiras e ainda hoje impressivas tentativas de historiar a BD portuguesa de forma global , valorizando particularmente os aspectos iconográficos , são os álbuns editados nos anos 90 pela editora Época de Ouro 58. Os cinco álbuns editados , coordenados por Carlos Costa e Sousa Santos, recuperaram antigas aventuras sobretudo publicadas em "O Mosquito" e dois dos álbuns são dedicados, justamente, aos 60 anos do famoso "insecto". Mas fizeram-se acompanhar por um conjunto de textos assinados por muitos especialistas