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Afirmámos antes que boa parte do esforço de elaboração de uma História da BD em Portugal resulta de uma aproximação micro-histórica . E acrescentámos que mais do que o grande retrato, orientado no sentido de fornecer as grandes tendências , as escolas artísticas , as várias épocas o que prevalece é abordagem de pormenor assente nos autores, nas publicações, nas personagens. E em parte, também, parece verificar-se um investimento nos instrumentos metodológicos dessa corrente historiográfica : a redução da escala de observação, o paradigma indiciário, a narrativa como modo específico da escrita histórica e uma particular especificidade nas fontes e na sua interpretação. Demos aliás alguns exemplos dessa utilização.

Chegou o momento de levar essa intuição a sério. Talvez que essa aproximação e sobretudo a utilização de alguns dos seus instrumentos metodológicos permitam entender melhor como nasceu e funcionou o momento censório infanto-juvenil no Portugal do Estado Novo.

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O mundo das publicações periódicas infanto-juvenis , das histórias em quadrinhos é sem dúvida o mundo da cultura popular, como vimos . Como o cinema, a televisão ou a literatura popular ( a “pulp fiction”, por exemplo ) são fontes da chamada história social e projectam-se de formas mais ou menos intensas nas sociedade e culturas onde são consumidos. O chamado “ historical turn” nos estudos culturais colocou o assento tónico nas relações entre cultura popular e contextos históricos. De um lado a cultura popular é vista como um instrumento de controlo social através do qual os membros da sociedade aprendem valores, atitudes e comportamentos . Mas também reflecte a sociedade na medida em que é o espelho dos gostos culturais e dos valores . O facto de lidarmos com consumos relativos a menores, e é um facto que a BD foi historicamente consumida por menores , torna os “ comics” numa manifestação ainda mais potente de cultura popular 118

.

Um dos tópicos da abordagem deste ensaio e não seguramente o menos relevante é perceber de que modo as “ histórias em quadrinhos” veiculadas pelas publicações periódicas em análise tiveram algum papel na configuração imaginativa das crianças portuguesas do séc. XX. E isto na formulação retocada ou diminuída resultante das intervenções censórias que estudaremos. Ou se quiser e colocando o problema em outra perspectiva : conseguiu a cultura popular das “ histórias em quadrinhos” prevalecer sobre as estratégias censórias ? E com isso que uso dar a este “fragmento de história perdida”119

na evolução do Estado Novo nos anos 50 e 60 ? Esta parte do debate talvez possa ganhar com a aproximação micro-histórica.

Comecemos por colocar a questão fundamental que a não ser respondida satisfatoriamente pode encerrar a discussão . Como pode um paradigma historiográfico relativamente datado ( anos 70 e 80 do sec. XX) no contexto das teorias da História, manter-se actual ? Importa não esquecer que os textos e as obras de referência da responsabilidade de Carlo Ginzburg, Giovanni Levi , Natalie Zenon Davis , Gene Brucker , Judith Brown entre outros nascem nessa época .

A resposta talvez possa começar por ser dada reconhecendo na mais recente investigação de Jill Lepore intitulada " The Secret History of Wonder Woman" 120- justamente um contributo para a história dos “ comics” e nessa medida da Cultura Popular norte-

118

Assim James Chapman, British Comics a Cultural History , London Reaktion Books, 2011, p. 12

119

Vide Martin Baker, Haunt of Fears, A Strange History of the British Horror Comics Campaign, Mississipi, Mississipi University Press, 1992, p. 2

120

Vide The Secret History of Wonder Woman, New York, Knopft, 2014, vencedor em 2015 do American History Book Prize

americana - a recuperação do paradigma da micro-história e sobretudo a utilização dos seus principais contributos teórico-práticos.

Ao lado do “Super-homem” , de “Batman” , do “Homem Aranha” e de mais alguns super-heróis, " Wonder Woman" constitui uma personagem de referência da história norte-americana da banda desenhada . Uma história de verdadeira cultura popular que tem merecido dos historiadores contemporâneos um tratamento cada vez mais dedicado e intenso. A personagem surgiu em 1941, em versão "comics" mensal e depois em " strips" nos jornais e foi desde logo um grande sucesso comercial e de público ( mantendo-se ininterruptamente até hoje ) .

Sabia-se até agora de uma vaga ligação desta heroína ao mito das Amazonas, povo de mulheres guerreiras , que entroncava bem na necessidade em oferecer às raparigas norte- americanas um bem sucedido e popular modelo de valentia e afirmação feminina. Sabia-se também do criador da série ,William Moulton Marston( 1893-1947), que assinava Charles Moulton e que terá escrito todos os argumentos da série até falecer em 1947.

Mas muitos outras particularidades ficavam por explicar. Algumas destas interrogações vieram recentemente a receber uma nova interpretação pela revelação de aspectos desconhecidos da vida de Marston . A responsável por estas revelações é conceituada e multipremiada uma professora de História da Universidade de Harvard, Jill Lepore121. A autora é considerada uma especialista em História americana dos séculos . XVII e XVIII, com dezenas de livros publicados e não menor número de prémios e distinções, sendo esta a sua primeira incursão na História do sec. XX .

O que importa ver é se, no essencial, esta escavação histórica das origens de "Wonder Woman" e o surpreendente resultado que dele se alcança , se obteve pela aproximação ainda que parcial dos pressupostos da micro-história.

A ideia fundamental em "The Secret History " é a de que a criação de Wonder Woman se deveu a um propósito eminentemente político . E que a jovem amazona foi pura e

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Jilll Lepore é actualmente " David Woods Kemper ´41 Professor of American History " na Universidade de Harvard. Obteve um Ph.D em Estudos Americanos pela Universidade de Yale em 1995. É membro da "American Academy of Arts and Sciences" , da "American Philosophical Society" e vice presidente da "Society of American Historians" . Algumas das suas obras , todas elas premiadas, incidem sobre a História da América dos secs. XVIII e XIX : " The Name of War: King Philips´s War and the Origins of American Identity , New York , Knopf, 1998, vencedor do Bancroft Prize, do The Ralph Waldo Emerson Ward e do Berkshire Prize, New Yor Burning: Liberty, Slavery and Conspiracy in Eighteenth -Century Manhattan , New York, Knopf, 2005 vencedor do Anisfield - Wolf Award "for the best no-fiction book on race "e finalista do Pultizer Prize; Book of Ages : The Life and Opinions of Jane Franklin , Nova Iorque, Knopf, 2013 , vencedor do Mark Lynton History Prize e finalista em 2013 do National Book Award for Nonfiction. Vide http://scholar.harvard.edu/jlepore/home.

simplesmente inspirada em Margaret Sanger122. O propósito político foi o da reafirmação do feminismo na sociedade norte americana, que havia esmorecido , pelo recurso à imagem da mais importante feminista do seu tempo , justamente Margaret Sanger . Esta foi responsável pela fundação da primeira clínica de controlo da natalidade nos EUA , em Brooklyn, e activíssima divulgadora dos métodos contraceptivos e da medicina reprodutiva. A sua aventurosa vida, que envolveu nos anos 20 do século passado, uma passagem pela prisão por distribuir publicamente contraceptivos, terá servido de modelo para " Wonder Woman".

Segundo Jill Lepore a mensagem explicitamente feminista de “Wonder Woman” permitirá preencher um vazio histórico no movimento feminista norte-americano que se registaria entre os anos 20 e os anos 60 do sec. XX . Escreve a Autora: " A história de “Wonder Woman” permaneceu secreta. Esse secretismo levou a uma distorção não só de “Wonder Woman” mas também do curso da história das mulheres e da sua luta por iguais direitos. “Wonder Woman” não começou em 1941 quando William Moulton Marston entregou o seu primeiro argumento ao editor Sheldon Mayer . (...). A luta pelos direitos das mulheres não evoluiu em ondas. Wonder Woman é o produto do sufragismo, do feminismo e dos movimentos pelo controlo da natalidade de 1900 e 1910 e tornou-se uma fonte dos movimentos feministas e pela libertação da mulher nos anos 60 e 70. A luta pelas direitos das mulheres tem sido um rio(...) "123

Mas qual terá sido a conexão que Jill Lepore encontrou para associar Margaret Sanger a Wonder Woman ? Aí só o brilho dedutivo da historiadora- cuja caução académica é indiscutível- e o seu exaustivo trabalho de pesquisa nos podem convencer.

Reconstruindo a vida pessoal e o percurso profissional de Marston pela mão de Lepore , encontramos um retrato fascinante.

Marston formou-se em Direito mas acabou por se doutorar em Psicologia na Universidade de Harvard e foi aí que tomou contacto com a literatura feminista e as

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Margaret Sanger ( 1879-1966) é considerada uma das figuras máximas do movimento feminista dos EUA particularmente activa na defesa dos direitos ligados à reprodução feminina e ao controlo da natalidade( interrupção voluntária da gravidez, métodos anti-concepcionais , planeamento familiar). Fundou a " American Birth Control League" , actual " Planned Parenthood Federation of America"e o seu activismo feminista é responsável por profundas alterações legislativas e jurisprudenciais que consagraram direitos fundamentais da mulher ( talvez o momento mais significativo e simbólico seja a decisão do Supremo Tribunal dos EUA , Griswold v. Connecticut de 1965 que legalizou a utilização de métodos anti-concepcionais) . Vide para uma biografia recente Jean H. Baker, Margaret Sanger. A Life of Passion , Hill and Wang, 2012

123

ideias de Emmeline Pankhurss e Margaret Sanger, a que desde logo aderiu124 . Estudou depois com o famoso psicólogo alemão Hugo Munsterberg, que curiosamente defendia a inferioridade das mulheres... o que só reforçou as suas convicções feministas ( e que Lepore sustenta ser a inspiração do arquirrival de "Wonder Woman", o perverso Dr. Psycho) 125. Enquanto estudava com Munsterberg inventou o teste da pressão arterial sistólica que constituiu a base do mais tarde famoso detector de mentiras ( invenção da qual não chegou a obter qualquer proveito material)126 .

Mas na academia Martson ensaiou um sem número de experiências no campo da psicologia sensorial, escreveu livros sobre a emoções humanas e defendeu a ideia de que os impulsos da vida sexual considerados desviantes , como por exemplo o apetite sexual pela dominação ou pela submissão , são não só normais, como "neuronais", ou seja, resultam do funcionamento regular do sistema nervoso127.

A fama de "guru" da psicologia levou-o a trabalhar para as Forças Armadas americanas, a ser contratado por Hollywood como consultor especializado quanto aos aspectos emocionais dos argumentos cinematográficos - sustentando a superioridade da mulher no relacionamento amoroso- . Até que , após ter elogiado o papel dos "comics" na educação das crianças norte-americanas- em entrevista conduzida por Olive Byrne que já então era sua amante, como a seguir se verá - veio a ser convidado pelo então fundador da DC Comics como um espécie de relações públicas da Editora.

Não tardou a propor a criação de um "super mulher" que se tornou desde logo um sucesso de vendas.

Mas o mais curioso provém da vida pessoal de Marston e é isso que permite a Lepore encontrar o " missing link" com Margaret Sander .

Após a sua graduação em Harvard, Marston casou-se com uma mulher muito pouco convencional chamada Sadie Elizabeth Holloway . Mais tarde quando dava aulas na Universidade de Tufts encontrou uma estudante de nome Olive Byrne por quem se apaixonou e que era sobrinha de Margaret Sanger . Apresentou então à sua mulher um ultimato : "ou Olive vive connosco ou o casamento acabou". Acabou por ter filhos das duas mulheres , todos vivendo na mesma casa. As crianças tinham três pais : " Both mommies and poor old Dad " como dizia Marston128. E quando alguém, mais curioso,

124

Vide Jill Lepore, The Secret History of Wonder Woman [...], pp. 8 e ss

125

Vide Jill Lepore, The Secret History of Wonder Woman […]pp. 24 e ss

126

Vide Jill Lepore, The Secret History of Wonder Woman[…],pp. 161 e ss.

127

Vide Jill Lepore, The Secret History of Wonder Woman[…], pp. 134

128

perguntava acerca desta estranha combinação conjugal na casa de Marston dizia que Olive era sua cunhada. Este trio doméstico, que hoje chamaríamos de " poliamoroso", manteve- se até à morte de Marston . Mas depois disso Sadie e Olive viveram juntas com os filhos de ambas e de Marston até ao fim das suas vidas .

É esta complexa e estranha mistura de ideologia , vida pessoal e circunstâncias de tempo e lugar , que estão na origem da "Wonder Woman" segundo Jill Lepore. Por um lado, um contexto geográfico e temporal ( II Guerra) propício ao surgimento de uma personagem feminina com super poderes , dando continuidade a “Superman” e “Batman” , surgidos em 1938 e 1939 respectivamente , por outro as convicções feministas de Marston , alimentadas por um misto de admiração por Margaret Sander ( cuja sobrinha era sua amante) e pela sua convicção quanto à superioridade da mulher do ponto de vista emocional e afectivo . Mas a tudo isso se somou a sua própria experiência pessoal "poliamorosa" e as características dos que com ele conviviam . A esse respeito Lepore identifica vários aspectos que caracterizam a personagem de “Wonder Woman” directamente inspirados na vida e nas ideias de Marston : a) um dos super poderes de “Wonder Woman”, o famoso laço que obriga os inimigos a falarem verdade, será uma variante do detector de mentiras) ; b) os braceletes de metal que evitam o fogo inimigo , outro dos super poderes, são idênticas às que Olive usava; c) as expressões típicas de “Wonder Woman” como " suffering Sappho!" emulam a adoração de Sadie Holloway pela poetisa grega129;

Persiste, contudo, um ponto controvertido e que não deixa de poder ser considerado contraditório. Como compatibilizar as situações em que “Wonder Woman” surge nas suas aventuras amarrada e confinada como uma visão feminista de libertação e de defesa dos direitos das mulheres ? A verdade é que Marston era muito preciso com os ilustradores acerca do modo como as cordas e as correntes deveriam prender Wonder Woman ou os seus adversários : " This whole panel will lose its point and spoil the story unless these claims are drawn exactly as described here" 130 .

Lepore interroga-se e responde que toda a iconografia feminista- que estava bem presente nas marchas , nos protestos e nos panfletos ilustrados - exibiam a mulher aferrolhada, presa a grilhetas e cadeados . Seria a expressão teatralizada da ideia de que

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Vide Jill Lepore, The Secret History of Wonder Woman[…],pp.210 e ss

130

sem direito a voto a mulher é escrava do homem. Muitas feministas do início do século representavam a luta das sufragistas como quebrando as correntes que as amarravam.131 Quando Marston morreu, apesar de Olivia se ter oferecido à DC Comics para continuar a assegurar as histórias de Wonder Woman, a série acabou por ser entregue a outros argumentistas132.

E rapidamente se transformou numa caricatura daquilo que tinha sido a ideia original de Marston: juntaram-na à poderosa Justice Society of America, com “Batman”, “Green Lantern” e outros super-heróis mas a sua missão deixou de ser a luta pelos direitos da mulher para aspirar a ser modelo ou estrela de cinema133 !

Chegados aqui importa ver de que forma esta investigação se filia na micro-história. E não parece difícil concluir afirmativamente.

Desde logo porque há um ponto comum em todas obras de Jill Lepore : serem excelentes paradigmas da apelidada "micro-história". Foi aliás a própria quem, num artigo de 2001134 - apresentou um manifesto em defesa da micro-história por confronto com o género histórico da "biografia" assente em 4 pontos : a) ao contrário da biografia o pressuposto da micro-história quanto à história de vida individual reside na sua força alegórica para representar a cultura no seu todo; b) o interesse da micro-história reside na resolução de pequenos mistérios na vida de certa personalidade como meio para explorar dada cultura; c) a biografia tem que ver com proteção da intimidade, enquanto que na micro-história todo o esforço é empregue para ressuscitar a vida dos que não deixaram registos abundantes( ou que deliberadamente apagaram esses registos); d) os biógrafos tendem a identificar-se com os biografados enquanto que os micro-historiadores tendem a julgá-los .

Ora a verdade é que a história da vida de Marston e os avatares de uma personagem de banda desenhada, bem que poderiam caber numa nota de pé de página de qualquer ensaio sobre a História dos "Comics" nos EUA. E contudo a forma como Jill Lepore acedeu e interpretou as fontes a que teve acesso - muitas delas totalmente inéditas- permite-nos ver com outros olhos a história do feminismo norte-americano no século XX . E é esse passo historiográfico que dá asas à fascinante biografia de Marston . E nesse labor de escavação histórica Jill Lepore acolheu-se à lareira dos instrumentos metodológicos que

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Vide Jill Lepore, The Secret History of Wonder Woman[…]p. 234

132

Vide Jill Lepore, The Secret History of Wonder Woman, […]p.260

133

Vide The Secret History of Wonder Woman, […], p. 271

134

Vide Jill Lepore " Historians who love too much : Reflections on Microhistory and Biography" The Journal of American History, vol. 88, nº 1, (Jun 2001), p.130

há mais de 30 anos Carlo Ginzburg, Giovanni Levi e outros teorizaram e puseram em prática . Designadamente a redução da escala, o paradigma indiciário - que em Jill Lepore assume uma dimensão verdadeiramente "sherlockiana" - e o cuidado colocado na narrativa histórica, que balança sempre entre o relato cronológico dos factos e o seu enquadramento contextual, fazendo de " The Secret History of Wonder Woman" um digno sucessor dos clássicos da micro-história 135.

A micro-história tem sido identificada como uma corrente historiográfica surgida essencialmente nos meios universitários italianos nos anos 70 e 80 do século passado, embora com refrações mais tardias em França, na Alemanha e nos EUA, caracterizada pela redução e aproximação da escala de observação dos fenómenos históricos, concentrando-se em personagens, locais, acontecimentos secundários e marginais, por confronto com a "Grande História" ou a "História Total". Contudo, esta definição peca por simplista , já que quer os casos concretos que correspondem a investigações paradigmáticas da " micro-história" como por exemplo "Il formaggio e i vermi"( 1976) de Carlo Ginznurg ou a " L´Ereditá Imantterialle" "( 1985) de Giovani Levi, quer a densificação teórica que os cultores da micro-história vêm fazendo, são muito mais do que exercícios de aproximação óptica. Há nesta inovadora aproximação à História , muito particularmente à história cultural e social , um reflexão e uma resposta à crise das ciências sociais no último quartel do século XX que ao pressuporem a generalização , ela própria o resultado das grandes e abstractas narrativas, ignoravam ou distorciam as realidades observadas a nível individual, sobretudo quando essas realidades escapavam ao padrão das assinaladas generalizações.

Nessa perspectiva , a aproximação da micro-história às fontes foi desenvolvendo um arsenal muito próprio de utensílios metodológicos , propostas analíticas e métodos específicos de investigação: o paradigma indiciário , a insistência no contexto ou o recurso à narração como método de escrita histórico, são alguns exemplos.

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A rede de historiadores que adoptam a metodologia da " micro-história" mostra-se hoje em dia dinâmica e activa, como o comprovam, entre outros , o "Center for Microhistorical Research" na Reykvajik Academy , ligado à Universidade Nacional da Islândia que alimenta um bem informado portal - www. microhistory.eu - e a muito recente edição da revista italiana " Contesti- Rivista di Microstoria". Ver o ensaio de, Sigurdur Magnusson & M. Istvan Szijarto, What is Microhistory ? Theory and practice. London, Routledge, 2013 e ainda Giovanni Levi, " Sulla historia . Interviste" , Contesti, Rivista di microstoria, nº 2( 2014)

Ou seja, mais do que ter nascido de textos teóricos- o que não impede a existência de algumas reflexões teóricas de referência136- a micro-história foi e é sobretudo uma prática historiográfica que produziu um número significativo de obras. Essas obras, escritas por historiadores muito distintos, nas suas formações e origens geográficas e cujos objectos de estudo são também muito variados, permitem determinar pontos comuns.

Giovani Levi identifica, entre outras, como principais questões comuns as seguintes : "redução da escala (...) o pequeno indício como paradigma científico, o papel do particular( sem se opor ao social) , atenção à recepção e ao relato, uma definição específica do contexto e a rejeição do relativismo"137.

Ainda que os trabalhos de micro-história sejam hoje comuns a verdade é que o impulso inicial se deve fundamentalmente a um grupo de historiadores italianos , entre os quais são

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