5. THE INTERVIEWS
6.3 A model for FC&RHT innovation: Bricolage integrated with science
O trabalho de análise dos dados se volta para a formação discursiva de médicos especialistas com experiências clínicas diversificadas, para o discurso dos ouvintes que acreditam que o médico sanará todas as suas dúvidas e para as breves sequências discursivas da entrevistadora. Assim, busca-se ordenar e organizar as falas por meio de um processo de desconstrução dos enunciados contidos nas entrevistas. Os recortes (ou fragmentos) que se originaram nos campos
discursivos dos enunciados dos sujeitos em estudo foram extraídos a partir de cada entrevista.
A escolha desse campo teórico – AD - justifica-se pelo fato dele nos permitir a reflexão sobre as contribuições significativas entre o homem, a história e a sociedade, e assim interpretar a relação do homem com a sua realidade. Por intermédio deste processo de desconstrução das falas, pôde-se chegar aos diferentes lugares a partir dos quais os sujeitos falam, e que foram divididos em :
1. A formação do discurso do paciente ouvinte - Neste temário, estão incluídos os motivos pelos quais um sujeito telefona a uma rádio, talvez seu único canal de expressão, para resolver problemas de saúde, as fantasias desta expectativa e as possíveis discrepâncias com a realidade que o discurso médico lhe mostra. Seu discurso mostra um desconhecimento sobre o funcionamento do corpo humano.
2. O lugar do médico – É a posição que o médico ocupa dentro da Rádio Maria, uma Rádio Católica, e a influência desse lugar na sequência discursiva com o paciente ouvinte, ao incorporar o discurso da ciência e sustentar a identidade de alguém que fala em nome dela com autoridade.
3. O lugar da entrevistadora psicóloga – Como entrevistadora, assumi um posicionamento de líder da discussão quando necessário, propondo problematizações e questionamentos. Algumas vezes, fiz a ponte entre a emoção do ouvinte e a razão do médico, especialmente quando os ouvintes manifestavam o medo da doença e o médico não lhes dava a atenção por eles idealizada.
Houve convergências em todas as entrevistas: por parte dos pacientes ouvintes, a falta de um diagnóstico preciso em consultas anteriores em hospitais públicos; e por parte dos médicos especialistas, a certeza particular de que eram dotados de sabedoria maior que outros profissionais afins da área de saúde.
3. INTERPRETAÇÃO E ANÁLISE DOS DISCURSOS
Em vez de tomar a palavra, gostaria de estar a sua mercê e de ser levado muito para lá de todo o começo possível.
Michel Foucault
- PRIMEIRA ENTREVISTA – Dr. Nasser, neurologista
Postura da entrevistadora – Inicio o Programa apresentando o neurologista Dr. Nasser aos ouvintes e comunicando o tema proposto para aquele dia, escolhido segundo a conveniência do profissional e a realidade dos ouvintes: déficit de atenção. Ao apresentá-lo, enfatizo: “Eu trouxe um presente. Ninguém pode perder.”
Assim que o neurologista inicia as falas da construção de um quadro de sintomas, é por mim interrompido: “O senhor nem começou a falar e temos uma ligação. Não falei que hoje seria um presente de Deus?” Exagero na importância do médico, divinizando sua presença. Também como estratégia de marketing do programa, para a chamada dos ouvintes, tento persuadir, buscar credibilidade e influencio os ouvintes a respeito das vantagens de escutar esse ser quase “divino”, criando novos significados para os discursos.
E continuo: “Com quem estou falando?” No decorrer das entrevistas, encontramos uma atitude comum a todas, que tem o significado da abertura de uma porta para as pessoas adentrarem, ou seja, antes de iniciar o diálogo, é perguntado o nome da ouvinte e onde mora, já que cada uma representa a voz coletiva de um grupo perfeitamente localizável. Fica-se conhecendo o grupo sociocultural, o sexo e também pode-se deduzir as necessidades que a motivaram.
Para Foucault, nesse momento estou fazendo a política que cabe ao Estado. Para este autor, o cuidar/descuidar da vida do homem enquanto espécie é questão do Estado através da biopolítica.
A primeira ouvinte do Dr. Nasser, por exemplo, respondeu: “É Maria, do Setor P-Sul.” O médico então conversa com a Maria, o que constrói entre ambos uma relação de amizade simulada, transmite confiança e oculta um poder do médico ao reconhecer a identidade da ouvinte.
Maria diz que seu filho, “que sempre estudou em escola particular, tem uma dificuldade na caligrafia.” A ouvinte nos remete à imagem de que só aluno de escola pública poderia apresentar dificuldades, entre elas, a letra ilegível, denotando, portanto, que o conhecimento, a educação, o desenvolvimento do ser é associado ao poder financeiro que a escola particular representa. Para a Maria, seu filho é “diferente”: estuda em escola particular, embora more no P-Sul.
O médico neurologista responde que ele é médico e a “ dificuldade na escrita é tremenda, isso não significa que, necessariamente, seja um problema.” A ouvinte responde que seu filho justifica a escrita ruim porque vai ser “doutor”. E completa, falando ao médico: (...) ”vocês escrevem bem, agora nas receitas que vocês gostam de misturar um pouquinho”.
Postura do médico e da ouvinte - Ambos consideraram a escrita ruim uma característica do médico – saber médico – fato que isenta o problema do significado real. O significado da “letra ruim do médico” foi sendo negociado pelos dois no decorrer da entrevista. Ao falar que seu filho tem má caligrafia porque vai ser doutor, a ouvinte passa a considerar a situação como normal e como um padrão que deve continuar se repetindo. Afinal, aquele que sabe tudo tem caligrafia ruim.
Continuando, o neurologista Dr. Nasser diz que o menino necessita de uma avaliação neurológica, em primeiro lugar, e insiste por 4 vezes que a ouvinte procure um neurologista para avaliar a letra ruim de seu filho. É importante observar que o médico é neurologista e reconhece que tem a letra ruim, mas insiste que o menino deve procurar um neurologista para avaliar o motivo da má caligrafia.
Postura do médico - Tem o poder de conduzir a interação, de manter o controle do assunto e insiste na procura por um neurologista, enfatizando a importância da sua especialidade, como se fosse a única capaz de esclarecer e de curar todos os sintomas. Denota o discurso de um grupo que quer ser dominante e
quer expandir a sua posição, ou seja, apenas o que valoriza a auto-identidade do médico é considerada. Pode-se, então, perceber, neste caso, a ambição da cura.
O neurologista sugere à ouvinte que procure esse especialista em hospitais públicos, ao que a mesma reclama: “Eu não consegui, vai demorar muito”, ou seja, o hospital público é a representação do negativo. Procurar a saúde pública é submeter-se a rituais de humilhação.
A segunda ouvinte a participar do Programa chama-se Maria do Carmo, de Planaltina. Queixa-se de dor na coluna e diz: “ Queria saber o que eu devo fazer, um meio, porque médico nenhum me tira essa dor.” Dr. Nasser novamente indica uma avaliação neurológica. Depois, sugere a ela uma consulta no ambulatório de dor crônica, no Hospital de Base, ao que Maria do Carmo responde com indignação, quase pânico: “Não, não, Hospital de Base, não. Eu trabalhei lá durante 29 anos.” A indignação da ouvinte e cidadã significa: “Não, com essa política de saúde, não.” “Com esse mau gerenciamento do Estado, não.” “Com aquela enorme fila de pacientes, não.” “Com médicos estressados devido à carga de trabalho, não.”
Maria do Carmo continuou: “Já fiz vários tratamentos(...) Há 29 anos(...) Aposentei, vim para casa e a dor aumentou. Academia, não adiantou. Fisioterapia, não adiantou. Eu não sei qual o medicamento que eu tomo.” O médico então, de novo, sugere que ela procure um neurologista. E a ouvinte responde, submissa, desiludida e insatisfeita: “Tudo bem, doutor.”
Postura da ouvinte – A ouvinte encarou essa conversa como uma oportunidade para falar de sua dor e o médico fez uma abordagem clínica, distante. Esse desencontro de estilos conversacionais causou, na ouvinte sofredora, ansiedade e frustração. Seu discurso oscilou entre a formulação de queixas e a submissão completa, devido ao grau de dependência a esse “deus” intocável. Médico e paciente não chegaram a um consenso, o que levou a ouvinte à insatisfação. Ela só queria um medicamento para aliviar a dor, como se pode deduzir pela fala transcrita.
Postura do médico – É o neurologista quem sugere o encerramento da discussão. O exercício do poder médico se manifesta ignorando sistematicamente o
desejo da paciente de saber qual o medicamento a tomar. O discurso médico novamente redefine e reduz a complexidade dos fatores de saúde da ouvinte como todos solucionáveis pela sua especialidade – a neurologia. Embora o médico tenha falado a partir de uma posição de autoridade, em função do lugar que ocupa na rede institucional, tal posição se revelou paradoxal, pois ao mesmo tempo em que lhe oferece um status de figura admirada, também faz dele depositário de um imaginário de onipotência. Não conseguiu corresponder à expectativa dessa ouvinte. A qualidade do atendimento foi diretamente proporcional à qualidade do relacionamento que se estabeleceu no discurso.
A ouvinte narrou vários tipos de problemas. O que se observa é uma paciente desejando e buscando uma maior atenção por parte de seu cuidador. O médico, por sua vez, demonstra evitar esse encontro como uma forma de fugir da própria fragilidade e impotência diante dos anseios de Maria do Carmo.
Terceira ouvinte – Patrícia –
Moradora do Setor O. Conta que seu filho só é bom em matérias que não precisam de raciocínio. Tem dificuldades em Matemática e caligrafia ruim.
Postura do médico - Novamente impera o modelo biomédico. Rotula a doença do filho de Patrícia como hiperatividade e déficit de atenção. Diz que os sintomas são devidos a problemas neurológicos e, outra vez, redefine a complexidade dos sintomas como todos solucionáveis por um neurologista. Desqualifica o saber da psicologia ao dizer: “O déficit de atenção não é um problema psicológico.” Não atenta para um aspecto mais humanizado, valorizando a interdisciplinaridade para analisar o indivíduo em todos os aspectos biopsicossociais. E a inserção do profissional psicólogo como revestido de significado para a análise em questão foi totalmente desqualificada por duas vezes. A identidade do profissional psicólogo foi representada pelo médico como futilizada e fragilizada, no que a ouvinte concordou e acreditou, afinal era um médico que lhe falava.
Acompanhemos as falas, as quais transcrevo por considerar significativas:
Patrícia – Isso.
Dr. Nasser – É muito desatento? Patrícia – Muito desatento.
Dr. Nasser – Qualquer distração, ele perde a conexão? Patrícia – Igualzinho o senhor está falando.
Dr. Nasser – Ele não para quieto?
Patrícia – Parece que o senhor está adivinhando.
Dr. Nasser – Quando está fazendo um dever, fica toda hora levantando? Patrícia – Fica.
Dr. Nasser – Sugiro então um neurologista. Patrícia – Eu vou procurar.
Postura do médico - Dr. Nasser detém o controle hegemônico das falas. É o neurologista quem regula as estruturas de participação, o conteúdo, a organização sequencial dos tópicos na conversação. A ouvinte fala somente em resposta às perguntas impostas por ele, que estruturam não só o que a ouvinte fala, mas também quando, como e em que ordem ela fala. É o exercício do poder médico que o capacita também a obter da ouvinte a promessa de procurar um neurologista. Novamente a crença no discurso médico se manifesta.
Postura da ouvinte - Repete literalmente a fala do médico. Mostrou-se totalmente partidária do discurso médico. Inúmeras vezes reforçou positivamente o significado médico como verdade absoluta, confirmando que a mídia tem grande poder de persuasão, tornando, então, seus ouvintes vulneráveis à doutrinação. A consulta foi friamente encerrada pelo médico sempre com a mesma fala: “Então procure o neurologista. Vamos atender outras colegas suas.” É o exercício do poder médico de conduzir a interação e sinalizar o fim da fala.
Dr. Nasser e eu completamos o período de 50 minutos desenvolvendo o tema déficit de atenção, pois nós dois, apresentadora e convidado, somos conjuntamente
responsáveis pelo fluxo do discurso durante o programa. Cada um, a partir de seu sistema de restrições, enfatiza elementos diferentes do discurso: o médico com seu olhar clínico; e a psicóloga com seu olhar para o social, o humanístico.
- SEGUNDA ENTREVISTA – Dr. Negrão, clínico geral
Posição da psicóloga entrevistadora – Inicio o programa apresentando o Dr. Negrão, clínico geral, com especialização em tabagismo. A primeira ligação demora e preciso interagir com o entrevistado.
Dirijo-me aos ouvintes, antes do médico, falando a eles sobre a importância de hábitos saudáveis e do não fumar. Aproprio-me do discurso do médico e inscrevo-me num espaço discursivo onde pré-existem noções de saúde e doença, já que o objeto de interesse do psicólogo também é a saúde e, principalmente, o bem estar do ser humano. Encontro os sentidos prontos, só confirmo as teorias repetindo enunciados já ditos, ou seja, o sentido no meu discurso se apoia sobre sentidos já existentes produzidos na formação discursiva com a qual me identifico por possuir um curso de especialização em Psicologia Clínica da Saúde, como já falei.
Para Foucault, esse é o meu saber, que se define pela possibilidade de utilização e apropriação que o discurso me oferece ao mostrar o imaginário sobre o cigarro e sobre o sujeito que fuma. Imagens de saúde e doença atravessam o meu dizer. Minha posição, posição do sujeito que fala, é a do sujeito sadio, posição de quem sabe tratar do outro – que está doente.
Posição do clínico Dr. Negrão – Demonstrando menos poder que os demais profissionais médicos, diz que não se considera um especialista, pois qualquer médico pode tratar o tabagismo, doença causada pelo uso do tabaco. Discorre sobre as doenças que o cigarro causa, sobre as substâncias que o compõem, sobre as estatísticas de mortes causadas pelo tabaco, sobre os programas existentes para auxílio aos fumantes que desejam abandonar o vício, e, principalmente, sobre as propagandas de cigarro que circulam na mídia voltadas para o público jovem.
Dr. Negrão tenta mostrar que a doença está presente na mão que segura um cigarro, mas não é revelada. É marcada pela ausência, pela não-fala. É um significado implícito.
O conhecimento do médico é socialmente distribuído e diferentemente apropriado pelos diversos ouvintes da Rádio Maria, favorecendo a diversificação de significados e uma pluralidade de conhecimentos. Dr. Negrão direciona valores tentando provocar alterações nas identidades dos sujeitos. A imagem que o sujeito do discurso tem do sujeito fumante está associada com câncer, infarto, AVC, ou seja, com doenças. Em alguns momentos o médico referiu-se ao fumante como “usuário”, designação que tem um efeito de sentido em que parece existir maior participação do sujeito. A escolha dessa designação parece mais relacionada com o sentido de “hábito” do que de doença, mas, de fato, os dois sentidos coexistem.
Dr. Negrão chamou a atenção para o processo de construção da nova representação social do tabagismo – doença. Antigamente, a representação social era hábito, estilo de vida. Através desse processo, cria-se novos significados e imagens do objeto: o tabagismo é, ao mesmo tempo, um hábito que traz consequências danosas à saúde e uma doença. Observa-se, então, a evolução do tabagismo como patologia.
A primeira ouvinte, Sara, de 40 anos de idade, é uma ex-fumante há 10 anos. Adquiriu o vício aos 14 anos de idade. Segundo o Dr. Negrão, idade é importante no tratamento do tabagismo.
Posição da ouvinte – Como ex-fumante, Sara realiza a fala a partir do discurso médico, com propostas de consenso entre os sujeitos, de interesse mútuo. E como ex-fumante julga-se autorizada, ainda que ilusoriamente, a produzir significados e interpretação a respeito do vício. A ouvinte fala que depois de tentativas ineficazes para abandonar o cigarro, buscou ajuda em Deus, pedindo que a libertasse do vício, atitude comum nos ouvintes da Rádio Maria. O médico, então focado na doença, ignorou a fala da ouvinte que, para ele, era irrelevante. É o exercício do poder médico que se manifesta. Dr. Negrão tenta mudar o tópico, repetindo perguntas fatuais como a idade da ouvinte e o tempo de duração do vício. Sara usa estas perguntas como uma oportunidade para falar mais do auxílio de Deus. Cada um, a partir de seu sistema de restrições, enfatiza elementos diferentes
do discurso. Enquanto o médico quer destacar a paráfrase técnica da cura do tabagismo, Sara quer destacar que sem Deus não há cura. A ouvinte identifica-se plenamente com o discurso religioso, mobilizando saberes provenientes do senso comum e da moral. Revela o conhecimento de como funcionam os que têm alguma crença, em contraponto com os que não têm crença. Reforça o papel da Rádio Maria em sua vida como agente transformador – fala novamente ignorada pelo médico. Mesmo assim, foi a ouvinte quem encerrou a discussão sobre a fé, mudando o tópico conforme sua vontade. O médico então, aparentemente dando atenção a Sara, diz: “Um minutinho só, Sara, para os ouvintes que agora são teus ouvintes – ouvintes da Sara.” A ouvinte encerra sua participação e o médico fala: “Vou complementar o que você falou e você vai ficar ouvindo.”
O médico é o representante da ciência com poder de cura, e a ouvinte passou esse poder somente a Deus, o que fez com que o médico interrompesse a ligação por estar incomodado com a idéia de que somente Deus cura.
O médico então muda sua proposta, talvez devido ao fato de estar em uma rádio católica e de ter ouvido o testemunho da fé da paciente, e fala sobre o significado da fé como fator de cura para as doenças. Sara marcou um novo rumo para o discurso médico que, a partir daí, permitiu uma identificação com os sentidos de um outro domínio discursivo: o religioso.
A segunda ouvinte, Maríndia, de 35 anos, queixa-se que é fumante há 15 anos, e acha muito difícil parar de fumar. Aponta a solidão e a falta de prazer como motivação para fumar. Ao designar o cigarro como um tipo de prazer, ressalta, de alguma forma, um aspecto positivo do vício. A ouvinte fala que fuma por compulsão, mesmo sabendo que ficará com dentes amarelados e “malcheirosa”, o que aponta para um efeito de sentido que supõe aquele que fuma como alguém passivo frente a um objeto que assume o controle.
A ouvinte diz: ”Li que é carência afetiva. Moro sozinha. Fumo e continuo sozinha e carente”. O sujeito fumante encontra no cigarro o objeto que completa sua falta, mas quando encontra o objeto, tentando preencher sua falta, através dele, a acentua.
O médico despede-se da ouvinte e diz a ela que continue no ar que a apresentadora, que é psicóloga, iria conversar com ela, reconhecendo, com esse gesto, o papel da psicóloga como auxiliar no tratamento das doenças.
Posição da entrevistadora – Explico a Maríndia que no discurso dos fumantes existe uma série de imagens e representações que constituem o discurso a favor do cigarro, onde o prazer que ele propicia é, no imaginário, uma solução mágica às dificuldades da existência. Na prática, o que se procura no fumar é um impossível, ele não preenche a falta. Nada preenche a falta imaginariamente.
Ao encerrar o programa, reportei-me ao livro escrito pelo Dr. Negrão sobre o deixar de fumar, com a preocupação de não fazer propaganda, já que a Rádio Maria não é autorizada a fazer anúncios comerciais. Dr. Negrão encerrou seu discurso falando sobre a incorporação das atividades de escritor. A influência que ele deseja ter na educação como um todo pode ser entendida como maior solicitação de poder.
- TERCEIRA ENTREVISTA - Dra. Hanna – oftalmologista
Dra. Hanna, especialista em glaucoma e estrabismo, realiza sua fala utilizando recursos discursivos do campo técnico-científico para explicar o glaucoma, como se a Medicina fosse uma ciência exata. Por exemplo: “Existe glaucoma primário de ângulo aberto, glaucoma de ângulo fechado, glaucoma de pressão normal e o glaucoma agudo.”
Postura da entrevistadora – Visivelmente ansiosa, pois a linguagem científica inibe a participação dos ouvintes. Devido ao fato de o rádio não ter a presença da imagem, precisamos despertar o interesse dos ouvintes por meio de discursos atraentes para que eles se coloquem numa postura de escuta atenta. Com estilo informal, busco naturalizar a fala, para estabelecer empatia com os ouvintes e aproximar ao máximo a linguagem técnica da médica ao vocabulário dos possíveis participantes. Receio haver um desencontro entre médico e ouvinte paciente nesta tarde, por não estar sendo considerada a realidade sociocultural na comunicação.
Postura da médica – Sente-se incomodada por ter de reorganizar as falas devido aos meus questionamentos, e a cada nova explicação, repete: “Como eu já havia dito anteriormente...” Mesmo assim, nos novos dizeres ainda usa um linguajar totalmente técnico, sem levar em consideração que a maioria dos ouvintes, devido ao nível cultural pouco desenvolvido, podem não estar familiarizados com termos clínicos, pois não tiveram acesso ao seu saber. E ela continua com seu discurso: