A metodologia estabelecida no Manual de Oslo tem servido também de base para levantamentos sobre o desempenho inovador da indústria brasileira, a Pesquisa de Inovação Tecnológica, realizada desde 2002 pelo IBGE e que apresenta um quadro abrangente da PD&I industrial no Brasil.
Em sua 5a edição, o estudo mais recente compreende o período de 2009 a 201119 e tem tornado possível não apenas caracterizar o processo de inovação nas empresas brasileiras como fazer comparações com outros países. Tais conceitos são úteis para avaliar os resultados das pesquisas e construir um quadro comparativo da PD&I na indústria brasileira, pois ajuda a identificar as fragilidades do país e a estimar a distância que o separa da fronteira tecnológica.
De forma geral, esses levantamentos estão amparados numa concepção ampliada do processo de inovação, que incorpora os processos de difusão tecnológica, as fontes diversificadas de informação utilizadas pelas empresas em suas atividades inovativas e as complexas interações entre estas e os demais agentes que participam da geração e do uso dos novos conhecimentos. Anteriormente, o foco recaia exclusivamente sobre os esforços de P&D, associados aos gastos empresariais e aos recursos humanos alocados nessas atividades (HOLLANDA, 2010). Hollanda ressalta, porém, que a aplicação do conceito ampliado de inovação envolve maior imprecisão do que a do conceito de P&D, gerando alguma dificuldade para a uniformização das informações concedidas pelas empresas e a comparação dos resultados.
Considerando a indústria brasileira em seu conjunto é ainda limitado o número de empresas que inovam no Brasil.
Assinala Sandra Hollanda que, no período 2003 a 2005, do universo de mais de 91 mil empresas industriais consideradas na Pintec, apenas 2.956 (3,2%) introduziram produtos novos e pouco mais de 1.500 (1,6%) processos novos para o mercado nacional. Na grande maioria das cerca de 33 mil empresas industriais brasileiras classificadas como inovadoras no período, os produtos e processos eram novos apenas na ótica interna da empresa e não do mercado nacional (HOLLANDA, 2010).
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Esses resultados, segundo Hollanda, apontam a predominância dos esforços de modernização e atualização tecnológica nos processos de inovação realizados no País e se diferenciam daqueles observados em outras economias com grau de desenvolvimento próximo ou superior ao da economia brasileira, com taxas de inovação para o mercado significativamente mais elevadas que as nacionais.
Observando-se apenas o setor industrial, verificou-se crescimento sistemático da taxa de inovação nas quatro edições da Pintec – de 31,52% para 38,11% –, tendo sido registrada a queda para 35,56% no período 2009-2011. Isso significa que cerca de um terço das empresas consideradas teria introduzido pelo menos uma inovação de produto ou processo no intervalo de tempo considerado, conforme ressalta a autora. Embora muito inferior aos índices do conjunto de países industrializados mais inovadores, essa taxa coloca o Brasil em posição relativamente confortável, próxima a países como Espanha e França (HOLLANDA, 2010, p. 107-108).
É hoje assente na doutrina que a inovação é um processo complexo e incerto, que não depende direta ou exclusivamente da realização das atividades de pesquisa e desenvolvimento. Hollanda recorda que estudos de filiação schumpeteriana sobre inovação iniciados nos anos 90 atestam que grande parte das iniciativas bem-sucedidas de introdução de novos produtos e processos não tem origem em P&D (Id., p. 113). São diversificadas as fontes de informação relevantes a que as empresas recorrem para identificar oportunidades de mercado e inovar, não se limitando apenas a P&D.
Por um lado, a realização de atividades de P&D não assegura que os esforços de inovar serão necessariamente bem-sucedidos, pois o êxito de uma estratégia de inovação depende de conjunto mais amplo de competências por parte das empresas, que envolvem desde a capacidade de mudança organizacional, conhecimento do mercado, até a detenção de outros ativos complementares. Por outro lado, tendem a fortalecer a capacidade de as empresas identificarem novas oportunidades tecnológicas e de mercado, além de gerarem externalidades para todo o conjunto da economia.
Cabe ainda notar que, quando se trata de PD&I, a tendência predominante nas empresas é buscá-las em outras fontes além do ambiente acadêmico. Segundo dados da IBM Global CEO Study, a universidade situa-se apenas em 9o lugar na preferência das empresas
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em se tratando das fontes preferenciais para idéias inovativas, atrás de empregados, parceiros comerciais, clientes, consultores, competidores unidades internas de vendas e de P&D (Figura 4).
Fonte: IBM Global CEO Study (765)
Figura 4 – Fontes mais Importantes de Ideias Inovativas
Levantamento recente realizado pela Mckinsey, “R&D Strategies in Emerging Countries”, corrobora essa percepção, indicando que 54% das empresas consultadas realizam preferencialmente investimentos internos em P&D, dedicando a parcerias com fornecedores 18% dos investimentos e a universidades e parceiros acadêmicos meros 13% (Figura 5).
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Fonte: Mckinsey Quarterly – R&D Strategies in Emerging Countries
Figura 5 – Preferência das Empresas na Alocação de Investimentos em P&D O Brasil não está distante dessa realidade. Dados da Pintec de 2011 mostram que as universidades e centros de pesquisa não são a principal fonte de PD&I, nem mesmo os parceiros preferenciais para as empresas (Figura 6).
Portanto, embora se reconheça que grande parcela das inovações não deriva direta e imediatamente das atividades de P&D, as diferenças observadas na dimensão das empresas que realizam essas atividades no Brasil são indicativas da menor capacitação tecnológica do setor industrial brasileiro.
A despeito desse quadro, as leis de fomento à PD&I no Brasil ignoram essa realidade e voltam-se predominantemente para o fortalecimento da relação universidade-empresa, deixando as empresas desprovidas de meios de apoio à inovação, sobretudo aquelas de maior porte. Essa é um dos principais motivos pelos quais os incentivos fiscais ganham importância no cenário da PD&I para médias e grandes empresas, como se verá adiante.
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Fonte: Pintec 2011/IBGE
Figura 6 – Principais Fontes de Informação e Parcerias para PD&I nas Empresas