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Para falar sobre a História das Mulheres é importante entender a forma como foram vistas ao longo do tempo, pois como mostra Thomas Laqueur:76

“Durante milhares de anos, acreditou-se que as mulheres tinham a mesma genitália que os homens, só que a delas ficava dentro do corpo e não fora”.

Tal visão permitiu que as mulheres fossem consideradas como um homem imperfeito. Diante disso, o corpo feminino passa a ser concebido como uma entidade natural, engendrando o entendimento de gênero como sinônimo de sexo. Nesse momento, “a anatomia finalmente se transformou em destino”, assegura esse autor, levando à compreensão de que “a mulher é incessantemente „naturalizada‟, ao contrário do homem, de modo geral associado ao domínio da cultura, da ação e do pensamento”, como destaca Fabíola Rohden.77

A autora mostra que, a partir do século XIX, teve inicio um maior empenho por parte de médicos e cientistas para estabelecer claras diferenças de caráter biológico e predeterminado entre os sexos, desencadeando o entendimento do sexo como um elemento natural, responsável pelo destino social de homens como provedores e de mulheres como esposas e mães, ao destacar que: “A medicina vai propor uma releitura do corpo feminino, quando do surgimento da chamada „ciência da mulher‟, cuja origem se encontraria no terreno do interesse pela diferença”.78

Tal explicação fundada na visão biológica, apesar de recente, reverberou para que a mulher fosse relegada a um segundo plano, vista como o

76 LAQUER, Thomas. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro:

Relume-Dumará, 2001, p. 65.

77 ROHDEN, Fabíola. Uma Ciência da Diferença: sexo e gênero na medicina da mulher. Rio de

Janeiro: FIOCRUZ, 2001, p. 35. 78 Idem, Ibidem.

outro, enquanto o homem ocupava o lugar de protagonista da História, o referente.

Passa o determinismo biológico a definir muitas das desigualdades entre mulheres e homens, tendo a medicina e as ciências biológicas como importantes aliadas que, durante muito tempo, subsidiavam as normas sociais quanto às relações de gênero.

É esclarecedor destacar que o século XX se apresentava com a tendência para organizar as relações humanas, desencadeando uma preocupação crescente que se traduziu, como mostra Michel Foucault79, pela

“proliferação das tecnologias políticas que, a partir de então, vão investir sobre o corpo, a saúde, as maneiras de se alimentar e de morar, as condições de vida, todo o espaço da existência”

Diante dessa compreensão sobre os acontecimentos e percepções que constituíram a condição das mulheres na sociedade e as tendências para gerenciar a vida social, é importante apresentar a base do conceito de gênero, que será usado para abordar o reconhecimento da existência de processos sexuados de hierarquização e exclusão, entre os homens e as mulheres, construídos socialmente e produtores de diferentes subjetividades, como destaca Donna Haraway:

Gênero é um conceito desenvolvido para contestar a naturalização da diferença sexual em múltiplas arenas de luta. A teoria e a prática feminista em torno de gênero buscam explicar e transformar sistemas históricos de diferença sexual nos quais ”homens” e “mulheres” são socialmente constituídos e posicionados em relações de hierarquia e antagonismo.80

Visão que nos permite entender a História das Mulheres, Estudos de Gênero e a Teoria de base Feminista, e considerá-las capazes de contribuir para a desconstrução de uma visão desqualificada da trajetória e do ofício das parteiras tradicionais.

79 FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1977, p. 135. 80 HARAWAY, Donna. Gênero para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra.

Enquanto isso, a revista dos Annales abarcava mudanças que contribuíram com a crise dos paradigmas da história positivista, ao propor ampliação do conjunto de fontes, voltando-se para a observação das pessoas comuns, posteriormente possibilitando a incorporação das mulheres à historiografia.

A partir dessa compreensão, passei a discutir sobre as diferentes interpretações dadas às bipolaridades e comportamentos de destaque para homens e mulheres na história, em desdobramento às variadas correntes onde se incluem os (as) historiadores (as) das mentalidades e do discurso, segundo Rachel Pedro e Joana Maria Soihet.81

Na tessitura desse processo, a História Social se preocupa com variadas identidades coletivas e grupos sociais, quando se desenvolvem “a História das Mentalidades e a História Cultural, trazendo a abordagem do feminismo e da interdisciplinaridade, na área dos estudos sobre as mulheres”.82

Nesse particular, pude verificar que, no final da década de 60, as mudanças na historiografia e a crescente onda do feminismo entram para a história ao formularem o campo de conhecimento da História das Mulheres, em resposta ao movimento feminista, com ênfase para abordagens interdisciplinares, que para Perrot:

Tratava-se inicialmente de tornar visível o que estava escondido, de reencontrar traços e de se questionar sobre as razões do silêncio que envolvia as mulheres enquanto sujeitos da história. Isso conduziu a uma reflexão em torno da história enquanto produto da dominação masculina, a qual atuava em dois níveis, nível dos próprios acontecimentos e nível da elaboração deles empreendida pelo relato („story‟ e „history‟).83

No Brasil, essa conjuntura emergente se estende e se fortalece com a articulação do movimento de mulheres e do movimento feminista, que

81 SOIHET, Rachel e PEDRO, Joana Maria. A Emergência da pesquisa da História das Mulheres e

das Relações de Gênero. Revista Brasileira de História. 2007.

82 Idem, ibidem, p. 285.

83 PERROT, Michelle. Escrever uma história das mulheres: relato de uma experiência. Cadernos

participaram ativamente da mobilização nacional em prol da Constituinte (1988), após a opressão vivida com o regime militar desde meados da década de 1960.

No plano político e social, após 1970, no Brasil e no mundo, surgem e se encaminham debates e ações, a partir de iniciativas dos movimentos de mulheres, étnico-raciais, homossexuais e ecológicos que se afirmam e emergem com novas frentes políticas.

Nessa conjuntura, os debates tomam forma e ancoram as perspectivas das lutas femininas e feministas, engendrando linhas de estudos e a consequente institucionalização, “impulsionada pelo diálogo com o feminismo na academia brasileira”.84

Frente a essa compreensão, Sandra Harding coloca o desafio de que as pesquisas feministas proponham uma “reconstrução racional”:

Assim, as vidas das mulheres e de outros grupos explorados podem continuar a fornecer um valioso ponto de partida ou posição de sujeito de onde a pesquisa pode ser desenvolvida para revelar “as práticas conceituais de poder”, como observa Smith.85

Tal impasse fortalece as iniciativas que se propõem a debater e refletir sobre questões femininas e neutralizar os mitos que engendraram alterações nos valores sociais machistas, que ocorreram nas últimas décadas do Século XX. Paulatinamente, foram se configurando em mudanças importantes em todas as áreas sociais, pois dessa tendência resulta rejeição aos discursos essencialistas e aos limites impostos pela noção de relações de gênero, frente ao monopólio cultural dos valores androcêntricos e capitalistas.

Nessa perspectiva, Joan Scott86 destaca a importante contribuição da

História das Mulheres e das historiadoras feministas para desconstruir as linhas

84HEILBORN, Maria Luiza e SORJ, Bila. “Estudos de gênero no Brasil”, in: MICELI, Sérgio (org.)

O que ler na ciência social brasileira (1970-1995), ANPOCS/CAPES. São Paulo: Editora Sumaré, 1999, p. 186. (grifos no original).

85 HARDING, Sandra. Ciência e tecnologia no mundo pós-colonial e multicultural: Questões de

gênero. Tradução CARNEIRO, Elisabeth. Labrys estudos feministas, n. 3, jan/jul 2003, p. 20.

86 SCOTT, Joan. História das Mulheres. In: BURKE, Peter (Org.). A escrita da História: novas

de pensamento que se concentravam no fundamento do sujeito humano universal. Entende que essas historiadoras insistiam em dar notoriedade às mulheres, já que participavam da vida privada e interferiam na vida pública, demonstrando-as como sujeitos políticos, que se movimentavam em diversos contextos e papéis, introduzindo a perspectiva das múltiplas identidades e diferenças, tais como as mulheres negras, índias, mestiças, pobres, trabalhadoras, habitantes de periferias urbanas e de áreas rurais, de dentro e fora do lar.

A partir da década de 1980, novas perspectivas foram arquitetadas. Ampliou-se a denúncia da ideologia patriarcal, quando questiona e problematiza os paradigmas essencialistas, abrindo espaço para inserir as diversas atividades das mulheres, urbanas e rurais, suas diferentes experiências, considerando as condições particulares e os contextos sociais e históricos que lhes serviram de arcabouço.

Assim também o foi para as mulheres que vivem no meio rural, duplamente oprimidas por sua condição de escolarização, classe sócio- econômica, cor e etnia, tipo de vida e atividade que desenvolvem, conforme pode ser visto nas considerações de Conte, sobre a vida das mulheres no campo:

Diante disso, obviamente que o campo era o lugar do maior número de analfabetos, e, se fizermos o recorte com relação às mulheres, pouquíssimas não o eram. Isto, devido ao papel secundário atribuído a elas, e, a naturalização de que lugar de mulher é em casa, com a função criar e educar filhos e filhas, trabalhar muito, justificando a falta de tempo para a participação das decisões em âmbitos maiores na sociedade.87

Diante dessa perspectiva, cabe a reflexão sobre identidades e sujeitos a partir de análises históricas, por suas múltiplas diferenças e diversificadas circunstâncias que as demandam, tais como aquelas relativas às questões dos espaços, urbanos ou rurais, do racismo e das diferenças de classe, onde existem ações misóginas marcantes.

87 CONTE, Isaura Isabel. Educação Popular e Feminismo no Brasil. Revista Espaço da Sophia,

Essas questões se configuram como marca das relações sociais em que viveram e vivem as parteiras tradicionais na região do Entorno do DF.

Sob esse aspecto, este estudo foi desenvolvido na área da História das Mulheres e dos Estudos sobre Gênero, que a partir da década de 1980, torna-se alvo de interesse dos espaços acadêmicos em diversos centros de pesquisa do nosso país.