Desde a década de 1980 as parteiras da região, que hoje é conhecida como Entorno do DF, parecem esquecidas, como se fossem pessoas sem-voz da e na História recente. De um modo geral, foram envolvidas em silêncios, em um processo resultante do entendimento de ser a reprodução uma função anônima e impessoal, naturalizada como própria e exclusiva do feminino, visão que os estudos feministas se propõem a denunciar.
Para isso, torna-se necessário deslocar o olhar para a questão das relações de gênero, como resposta aos pressupostos do patriarcado que controlam e hierarquizam as atividades e relações humanas, dificultando a valoração das práticas tradicionais de cuidado, que têm como base as experiências do cotidiano das mulheres parteiras e parturientes.
Tal abordagem nos remete à forma de viver e se relacionar das parteiras tradicionais, na qual o momento do parto era e é vivenciado em cumplicidade e com alianças entre as mulheres ali presentes, fortalecendo-se e apoiando-se umas às outras, postura que contribui e implica no silenciamento e desvalorização desse ofício, tendo em vista que se dá no espaço doméstico. Ele se estabelece no valioso poder de velar e acompanhar o processo de parir, quando inclui e oferece suporte emocional necessário a esta vivência plena de ansiedades, respeitando a individualidade da parturiente, sua integridade como ser biológico e sujeito de sua história.
Considerar a complexidade dos processos envolvidos nessas práticas requer a compreensão das relações que ainda se estabelecem entre os membros das comunidades rurais e interioranas. Nesses espaços se concretizam as
interações entre a parteira, a parturiente e suas condições familiares e comunitárias.
Por conta dessa complexa e exigente forma de cuidar, as parteiras eram reconhecidas como dotadas de conhecimentos e práticas dadivosas, de fazer o bem, assistindo mulheres e suas crianças. Assim, foram rotuladas como naturalmente dedicadas às outras mulheres durante o parto, possivelmente em resposta aos dispositivos e regras apreendidos dos discursos hegemônicos que destinavam às mulheres papeis, comportamentos e atitudes pautados pelas idealizações e aprisionamentos de um sistema de gênero que prega, como se fosse uma palavra ou frase repetidas, compondo uma fórmula de interiorização, em enunciados que instituem a imagem da „verdadeira mulher‟, visível em comportamento que se configura como „amoroso‟, como sendo bondosas e devotadas, caracterizando o dom de ser parteira como natural. Tânia Navarro Swain entende que,
Os dispositivos amorosos fundam a imagem da «verdadeira mulher», e repetem incansavelmente suas qualidades e deveres: doce, amável, devotada (incapaz, fútil, irracional, todas iguais!) e, sobretudo, amorosa. Amorosa de seu marido, de seus filhos, de sua família, além de todo limite, de toda expressão de si119.
Nesse sentido, as parteiras pareciam sempre prontas a viverem no esquecimento de si, ao disponibilizar sua atenção e cuidados às outras mulheres que as solicitavam, muitas vezes enfocando a dimensão religiosa de suas vidas, “prontas a se doarem” como evidencia:
Ajudando as criatura pra vim pro mundo, né? Ajudando, por que Deus mandava, né? Porque, tudo o que nóis faz aqui, sem Deus nóis não é nada! Né? Então Deus dava aquela missão pra nóis fazer aquilo. É! (Dana)
Dessa narrativa é possível entender que as parteiras se identificam como pessoas que receberam o dom de partejar, a dádiva de prestar cuidados, a
119 SWAIN, Tânia Navarro. Entre a vida e a morte, o sexo. Labrys, estudos feministas, jun/dez
2006. Disponível em: <http://vsites.unb.br/ih/his/gefem/labrys9/libre/liz.htm>. Acesso em: 17 jun. 2009, p. 05.
partir daí passam a atender as necessidades de outras mulheres que vivenciam o processo de gestar e parir, subjacente ao fenômeno e a prática da reciprocidade, como missão.
Tal perspectiva encontra eco nos estudos de Mauss120 (2008) que
trabalhou com o sistema de dádiva, o potlatch, nas antigas sociedades da Polinésia, Melanésia e Noroeste americano, estendendo-se até a América do Sul. Descreve-o como „sistema de prendas contratuais‟ que se caracteriza por
Dois elementos essenciais do potlatch propriamente dito: o da honra, o do prestígio, o do <<mana>> que confere a riqueza, e o da obrigação absoluta de retribuir essas dádivas sob pena de perder esse <<mana>>, essa autoridade, esse talismã, essa fonte de riqueza que é a própria autoridade.121
Tal percepção é possível de associar à reciprocidade das parteiras tradicionais, ancorada no entendimento de que receberam o dom de partejar, como o „mana‟, como algo que foi recebido e é necessário “dar e retribuir”122.
É possível afirmar que os cuidados disponibilizados pelas parteiras, integram o sistema de conhecimento informal e popular, engendrado nas culturas tradicionais, portanto transmitidos e absorvidos como rituais que estão na base “da sua força mágica, religiosa e espiritual”123
O argumento principal de Marcel Mauss é de que a dádiva, que se constitui em uma ação ou ato de doar-se, produz uma variedade de alianças, quer sejam políticas, religiosas, jurídicas, ou diplomáticas. Aliança que está presente nas relações pessoais de acolhimento afetuoso, frequentemente disponibilizado pelas parteiras.
Diante dessa compreensão, é possível um melhor entendimento da trajetória das parteiras, da resistência e ou da paulatina desqualificação e invisibilização dessas mulheres e suas práticas de cuidados, e possibilita reflexões sobre o ofício do partejar.
120 MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. (...) Op.cit., 2003. 121 Idem, ibidem, p. 65-66.
122 Idem, ibidem, p. 78. 123 Idem, ibidem, p. 67.
Ofício que pode ser entendido como dádiva, como dom recebido, consubstanciando-se em prestações primitivas, em dádiva como ação que abrange “três obrigações: dar, receber, retribuir. (...) Podemos [...] provar que nas coisas trocadas [...] há uma virtude que obriga as dádivas a circular, a serem dadas, a serem redistribuídas”124.
A troca no sistema de dádivas é vista por Mauss como ofertas mútuas, tal como as descreve:
Trata-se, no fundo, de misturas. Misturam-se as almas nas coisas, misturam-se as coisas nas almas. Misturam-se as vidas, e assim as pessoas e as coisas misturadas saem cada qual de sua esfera e se misturam: o que é precisamente o contrato e a troca125.
Tal entendimento faz sentido ao relacionar a oferta das práticas de cuidado das parteiras às noções de dádiva, de aliança, peculiar ao modelo tradicional que o ancora e promove, por considerar que cada um desses compromissos ou obrigações cria um laço de energia espiritual entre as pessoas envolvidas na troca de dádiva. Atribuindo-lhe a existência de uma força que tem relação com o ato de dar e com a coisa dada, denotando a vinculação de almas e à dimensão espiritual, ou à sua expressão simbólica, diferente da noção de troca mercantil e econômica, como na atualidade se compreende.
Ao tomar como base o pensamento de Mauss, é possível elaborar uma analogia, ao considerar o ritual do partejar e as diferentes formas de cuidado realizadas pelas parteiras tradicionais como dádiva, como prestação, que é entendida a partir da “experiência vivida que sensibiliza e fundamenta para a solidariedade, sociabilidade e comunicação, unindo a humanidade”.126
2.2 Recuperação do saber, experiência, tradição, oficio e arte de