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12 — Abaqus Model

12.1 The Model

Conforme demonstrado, pelos dados apresentados na pesquisa quantitativa, os índices aparentemente desordenados dos produtos em fluxo contínuo pesquisados seguem uma lógica metódica, que se utiliza de marcos temporais para organizar o espaço de informação jornalística, dotando-o de sentido e função. São produtos que abrigam diferentes gêneros jornalísticos e múltiplas temporalidades, em um conjunto integrado de conteúdos em plataformas fechadas para o público em geral e voltadas para um segmento de assinantes dispostos a pagar por informações especializadas e precisas.

A composição das telas desses produtos, que utilizam símbolos iconográficos e recursos de edição, como a mudança de cores, para destacar determinadas unidades de informação, forma um contexto de interpretação. A interface gráfica característica, que reproduzimos nos print screens já inseridos nesta pesquisa, diferencia-se frontalmente dos sites e portais usuais na internet. Estes contam com arquitetura mais ampla e variada, que envolve design e ferramentas tecnológicas diversas, para conferir hierarquia aos conteúdos editados, seja inserindo-os na primeira tela das home pages ou destacando-os com fotos e vídeos. Nos produtos que pesquisamos, não há uma página correspondente às home pages e sim uma sequência de títulos que se atualiza automaticamente e assemelha-se às áreas conhecidas como ―Últimas Notícias‖ nos sites da internet.

A estreiteza dos recursos de edição jornalística utilizados nas plataformas pesquisadas, o que não significa dizer que não sejam sofisticadas e tecnologicamente de ponta, condicionam outros caminhos de hierarquização jornalística. A rigor, foram detectados os mecanismos que podem conferir destaque ou não a determinadas unidades de informação

selecionadas pela redação, o que se materializa com a mudança de cor dos títulos, a adoção de chapéus ao nomear os conteúdos e o manejo da iconografia – para distinguir piscas, assinalar matérias recomendadas ou já lidas, no caso, com o sinal de verificação. Existem inúmeras possibilidades de combinação de noticiosos e outros informes não jornalísticos nessas plataformas, de acordo com a preferência dos usuários, aspectos que não exploramos na nossa pesquisa, que teve outros objetivos a cumprir.

O ambiente de informação montado nas plataformas em tempo real pressupõe que os seus usuários sejam capazes de decodificá-lo de acordo com seus interesses específicos. Em outras palavras, a possibilidade de oferecer aos usuários uma gama variada de conteúdos somente adquire sentido por intermédio da ação do receptor, que poderá escolher as informações que lhe interessam mais de perto. Assim como poderá usufruir das técnicas de edição de coberturas em tempo real, largamente utilizadas nos produtos pesquisados para economizar tempo e garantir informações com mais rapidez.

Do ponto de vista do emissor, a que a nossa pesquisa se vincula, o desafio que fica nítido no acompanhamento dos produtos Broadcast e Valor PRO é o de aliar rapidez nas coberturas em tempo real com exatidão na prestação de informações. O esforço na aceleração da produção das notícias, enquadradas na categoria informativa, estende-se também à produção de conteúdos interpretativos e opinativos. A inserção de cenários e análises, assim como colunas e comentários, pontua os índices noticiosos no decorrer de todos os horários pesquisados. Na nossa avaliação, isso significa que esses conteúdos diferenciados estão ligados ao ritmo da produção dos conteúdos da categoria informativa, interpretando e explicando os acontecimentos à medida que vão sendo registrados nas coberturas factuais.

O pisca, que caracterizamos como um título sem um texto correspondente e que antecipa informações mais completas fornecidas mais adiante, pode ser considerado um gênero jornalístico típico das coberturas em tempo real – aquelas que se baseiam no texto escrito e não em transmissões ao vivo de áudio e vídeo. O grau de fragmentação da informação exercitado nesse formato transcende o que se observa nas notícias tradicionalmente publicadas em veículos impressos, também caracterizadas pela fragmentação, conforme estudos mencionados. Por isso, consideramos correto caracterizar que as coberturas em tempo real produzem informações ultrafragmentadas, que acentuam o caráter desconexo e anistórico, apontado como referência na produção de notícias jornalísticas em geral.

Procuramos também analisar o formato dos piscas frente às técnicas do lide e da pirâmide invertida, predominantes no jornalismo desde o século XIX. Nesse aspecto, é

possível afirmar que as sequências de piscas com informações ultrafragmentadas obedecem, na maioria das vezes, a linha cronológica do desenrolar das coberturas. Mesmo que haja a preocupação – como é possível verificar na seção em que abordamos as entrevistas com os profissionais jornalistas – de detectar as declarações e dados mais importantes, dificilmente se escapa à cronologia da cobertura pela rapidez com que os piscas são editados. O formato de pirâmide normal, que atende justamente a uma estrutura cronológica, conforme descrito anteriormente, ajusta-se à realidade que encontramos nos produtos pesquisados. Novamente cabe destacar, nas características distintivas desses noticiários, a ultrafragmentação como técnica fundamental de informação jornalística.

Além disso, consideramos, com base nos estudos revisados, que a pirâmide invertida é o modelo que mais se identifica com o fazer jornalístico em que a intervenção do profissional aparece de forma evidente e reconhecida, a ponto de se considerar este modelo um marco na profissionalização e no reconhecimento dos saberes do ofício do jornalista. A técnica de inserir as informações ultrafragmentadas em ordem cronológica nos produtos pesquisados pode, assim, contrariar os próprios cânones do jornalismo que conhecemos a partir do século XIX, ao minar a autoridade profissional na produção noticiosa que remete a procedimentos mais literais e automáticos. Tivemos oportunidade de problematizar essas questões nas entrevistas realizadas, em que discutimos também a questão do furo jornalístico e sua apropriação – ou não – pelos profissionais.

Consideramos críticas as duas questões, isto é, a subversão da pirâmide invertida e a autoria difusa dos furos jornalísticos, para o entendimento da maneira como os serviços em tempo real são percebidos no meio jornalístico. Em complemento, detectamos em nossa pesquisa a tentativa de contextualizar e interpretar as informações prestadas no formato ultrafragmentado, pela presença expressiva das unidades de informação enquadradas nas categorias interpretativa e opinativa, em meio a uma torrente de conteúdos da categoria informativa. A afirmação de que é expressiva a presença dos conteúdos interpretativos e opinativos pode ser respaldada pelo número de unidades de informação encontrado nessas duas categorias – uma média diária de 43 textos no Broadcast e de 37, no Valor PRO – mais do que na proporção em relação às unidades da categoria informativa.

Existe uma dinâmica de descontextualização, no momento da divulgação do fragmento da informação, e de recontextualização, que ocorre na confecção da nota ou notícia mais completa sobre o fato noticiado sumariamente no pisca. Esse processo abrange ainda a elaboração de análises e cenários, que vão preencher as lacunas de contextualização e dar maior significado aos acontecimentos focados pelas coberturas em tempo real. Os conteúdos

da categoria opinativa, se adotarmos uma escala de significação e sentido nos textos dos produtos pesquisados, completam o ciclo jornalístico com maior carga de subjetividade.

Na metodologia que utilizamos, ficamos restritos aos aspectos formais desses conteúdos, como a caracterização de colunas assinadas e individuais ou blogs de cunho autoral, suficientes, no entanto, para definir que se trata de um espaço diferenciado, ocupado pelos profissionais que atuam nesses produtos. O grau de autonomia com que exercem seu ponto de vista sobre os acontecimentos, em relação às políticas corporativas das empresas de mídia a que pertencem, não foi avaliado por não se inscrever no escopo desta pesquisa. Também não nos debruçamos sobre a identidade desses pontos de vista em relação aos interesses dos mercados financeiro e corporativo a que se dirigem os produtos.

O que procuramos destacar é que, mesmo nesses espaços especializados e voltados para um público profissional, o jornalismo praticado não se limita ao registro dos fatos, traduzidos pelos piscas, mas se estende a outras categorias e gêneros complementares para formar um conjunto integrado, conforme apontado. A existência de unidades de informação nas categorias interpretativa e opinativa nessas plataformas comprova essa afirmação e abre perspectivas para tornar mais complexa a percepção sobre o jornalismo que se exercita nessa esfera. Significa que fugimos da noção simplificada de que os produtos em fluxo contínuo, com coberturas em tempo real, se limitam ao registro sumário e impreciso dos fatos.

A convivência da produção acelerada da informação jornalística com um grau marcante de precisão – índice de erros inferior a 1% do total de unidades de informação pesquisadas – demonstra a capacidade de os jornalistas ocuparem espaços como esse de forma qualificada e profissional. Consideramos que o desafio de evitar o erro é inerente ao exercício da temporalidade no jornalismo. Em vários momentos históricos, como na emergência dos jornais diários no século XIX, estabeleceu-se uma relação causal entre a exiguidade do tempo e a maior imprecisão da informação jornalística. Daí a importância que julgamos merecer a tentativa de medir a incidência de erros de informação e edição nas plataformas em tempo real, que representam o suporte em que se verifica o ritmo mais acelerado que conhecemos no jornalismo baseado na escrita.