O que poderíamos chamar de eficácia ou capacidade de êxito das práticas culturais como “prevenção” à violência junto a jovens moradores de periferia foi assunto de uma entrevista que foi transmitida85 por um canal de
televisão da cidade de Fortaleza no ano de 2011. O programa Contra Ponto, do canal 15, conduzido pelos apresentadores Alfredo Marques e Lindival de Freitas Jr, ambos advogados, nesse dia recebeu Thereza Cartaxo, psicóloga e coordenadora dos projetos Trilhos Urbanos e Cultura, e Luciano, que trabalhou com ela na coordenação. Os dois projetos foram implantados no “território de paz” do Grande Bom Jardim com recursos financeiros do PRONASCI nos anos de 2009 e 2010, seguindo a proposta do Programa, que Cartaxo descreveu como “preocupação de uma nova forma de superar a violência, porque as formas tradicionais de combate à violência tavam gerando mais violência”.
No final de 2010, com o encerramento dos projetos, Cartaxo e Luciano apresentaram novo projeto para realizar uma segunda edição, mas não tinham recebido confirmação. No programa de TV, argumentaram pela importância de continuidade do projeto e cobraram, publicamente, uma resposta à solicitação de liberação de verba para uma segunda edição do projeto.
A seguir transcrevo três trechos do início do programa, quando os dois apresentadores conversam com Cartaxo. Os três debatem o tema, trazendo à tona argumentos, ideias e valores numa discussão permeada de ambiguidade, ora exaltando os projetos “de cidadania”, ora questionando o seu alcance:
Thereza Cartaxo: Outra coisa que nós tivemos muita preocupação, que é uma das causas que desencadeiam a violência, é exatamente a exclusão cultural e social. Então a gente pegou esses jovens e quebramos muitos paradigma [sic]. Porque você sabe que tem os grupos. Cada grupo, cada bairro desse tem um grupo organizado e que eles não se relacionam. Nós fizemos... Nós levamos esses meninos para o filme Avatar em 3D.
Alfredo Marques: Ah, que ótimo. Olha aqui que negócio engraçado, que eles se reportam aí no filme Avatar [segura uma folha com fotos dos jovens com as faces pintadas de azul, como os personagens do filme]. E é uma nova possibilidade que eles não teriam certamente, porque o filme era caro.
85 A gravação do programa foi hospedada por Luciano em quatro partes no site de vídeos
YouTube. A transcrição acima se refere à primeira parte do programa e pode ser acessada por este URL: https://www.youtube.com/watch?v=tD-penK16yg
Thereza Cartaxo: Alfredo, eles nunca tinham ido, a maioria nunca tinha ido a um shopping, nunca tinha entrado numa sala de cinema. Nós fechamos uma sala, uma sessão pra eles,
Alfredo Marques: Que ele não podia frequentar com um revólver na mão... Thereza Cartaxo: Exatamente.
Alfredo Marques: Aí a situação como muda, o panorama como muda, né? Thereza Cartaxo: E sabe o que aconteceu que me deixou encantada? Esses meninos, que muitos já passaram por... polícia, foram presos, têm B.O., usaram drogas, né... O comportamento deles, exemplar. Nunca levei nenhum segurança. Levei 318 jovens pra esse filme: não teve nenhuma pipoca derramada no chão, não teve uma questão de briga ou conflito! Lindival de Freitas Jr: Eles abraçam uma oportunidade, né?
Thereza Cartaxo: Fomos ao Centro Cultural Dragão do Mar, para o Theatro José de Alencar. Passei o dia com 5 ônibus lá na Casa José de Alencar, todos [os jovens] de gangues diferentes, sem nenhum conflito, sem nenhum segurança. Só com os educadores. Então, essa questão do respeito, quando você respeita, você recebe. Quando você dá, você realmente colhe. Isso aí... Nunca, nenhum jovem, sei lá, invadiu nenhuma sala ou desrespeitou um educador. Eu vou lá no Bom Jardim desde 2007. Sempre fui... Dou a chave do meu carro. “Pegue ali não-sei-o-quê no carro”. Nunca tive medo, trato eles como gente e assim sou bem recebida. Ninguém nasce, eu queria dizer muito, ninguém nasce violento. Eles são vítimas e vitimados da violência.
Lindival de Freitas Jr: E o depoimento deles?
Thereza Cartaxo: Eles já foram violentados pra serem violentos hoje, e a sociedade toda tá implicada nesse processo. Ou a gente cuida disso, ou nós vamos ser refém [sic]...
Lindival de Freitas Jr: Eu acho que nós já estamos sendo reféns, presos nas nossas casas.
[...]
Thereza Cartaxo: O segundo momento desse projeto foi enviado. Nós fizemos um segundo momento do Trilhos Urbanos e ele foi enviado para o Ministério.
Alfredo Marques: Um negócio desse tem que ter continuidade!
Thereza Cartaxo: Agora nesse trâmite legal teriam que pensar o seguinte: enquanto tá nesse trâmite burocrático, o que é que a gente faz? Vai desmobilizar esses jovens todos?
Lindival de Freitas Jr: E quem teria de fazer era a Guarda? A Guarda Municipal quem deveria fazer isso?
Thereza Cartaxo: 48 profissionais envolvidos! Que agora estão desempregados. Fora esses jovens que voltaram a o quê? Voltaram pro meio da rua.
[...]
Lindival de Freitas Jr: Pode ser que, já que o programa aqui também é serviço, fica aqui aos nossos políticos e os deputados federais, tem os senadores, que dizem que gostam de defender a causa pública, que tem esse projeto, Trilhos Urbanos, que está lá no Ministério da Justiça, um projeto que serve para tirar jovens delinquentes das ruas, que qualquer um de nós podemos ser vítimas, né. Muitos deles já foram. E tá lá, tá parado. O projeto... As pessoas voltaram pras ruas.
Alfredo Marques: Um projeto brilhante!
Lindival de Freitas Jr: Projeto tirava os meninos da delinquência. Isso é um retrato do Brasil, Alfredo. É isso mesmo.
Alfredo Marques: Pois é, é lamentável.
Lindival de Freitas Jr: Agora, se fosse um projeto pra uma festa...
Alfredo Marques: Ah! Aí não falta dinheiro. Tá [sic] aí as soluções. Eu levo o banquinho, você leva o violão, e já tem 60 amparado [sic]. [risos]
Thereza Cartaxo, psicóloga de formação, argumenta pela importância de continuidade dos projetos Trilhos Urbanos e Cultura. Na primeira fala transcrita, justifica a preocupação com a programação de atividades culturais dos projetos, pois compreende que a “exclusão cultural e social” é uma das causas desencadeadoras de violência.
Ao longo da entrevista, ela recorre às narrativas de transformação dos jovens participantes, de que falamos anteriormente. Fala de jovens de grupos e gangues diferentes que não se dão bem cotidianamente, mas que, durante as atividades do projeto, comportam-se e não entram em conflito. E, para isso, ressalta: nenhum agente de segurança foi necessário; apenas os educadores estavam presentes. Thereza conta, ainda, sobre a confiança que demonstra ter para com os jovens ao dar-lhes a chave de seu carro, pedindo para que pegassem algo para ela, e argumenta que há uma importância em confiar e “sentir-se de confiança”.
Com o encerramento da primeira edição do Trilhos Urbanos e a demora na aprovação de sua continuidade, Thereza teme pelos 48 profissionais envolvidos e pelos mais de 300 jovens participantes dos dois projetos, que teriam de voltar para “o meio da rua”. Procura sensibilizar os apresentadores e os telespectadores do programa com uma responsabilização generalizada: “a sociedade toda tá implicada nesse processo”.
Os dois advogados exaltam o projeto como “brilhante” e lamentam e condenam a Guarda Municipal pela demora na resposta. A eficácia das narrativas de transformação da coordenadora do projeto com eles é, contudo, envolta em ambiguidade, ora por medo da violência que lhes atinge ou que ameaça atingir- lhes, ora por zombaria de se ter atividades culturais como método.
Os apresentadores generalizam que os jovens andavam com armas, dizem que “nós já estamos sendo reféns, presos nas nossas casas” e que “qualquer um de nós podemos ser vítimas”. O medo é acionado como motivador da continuidade do projeto.
Reconhecem que o projeto “tirava os meninos da delinquência”, dava- lhes “oportunidade”, mas parecem zombar do recurso a práticas artístico-culturais com jovens identificados com práticas de criminalidade ao dizerem “eu levo banquinho, você leva o violão, e já tem 60 [jovens] amparado [sic]”, seguido de
risadas. O medo é acionado como o principal motor de apoio a essas iniciativas, que são encaradas como atividades simplórias, sem considerá-las como intervenções pedagógicas. Há um interesse moral de base individual e de classe em jogo, pressionando o poder público em nome da proteção da população que se sente “refém” de jovens moradores de periferias que são, desse modo, alçados à condição de bandidos em potencial, criminalizados previamente.