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Mixture parameter estimation for sneutrino detection

5.3 Boosted learning

5.3.3 Mixture parameter estimation for sneutrino detection

Introdução

Conversar é dos atos sociais que, provavelmente, têm produzido mais dados na pesquisa em sociologia. Desde a simples «conversa etnográfica», informal, que ocorre como parte dos processos de observação de campo desenvolvidos pelo pesquisador, até aos protocolos mais ou menos for- malizados de entrevista, individual ou grupal, as «conversas» induzidas pelo pesquisador com os sujeitos de estudo têm sido dispositivos meto- dológicos privilegiados na pesquisa qualitativa em ciências sociais.

Apesar da sua natureza dialógica, esses dispositivos não são equipará- veis a simples conversas quotidianas. Como já foi argumentado anterior- mente (Ferreira 2014, 982-983), qualquer situação de entrevista corres- ponde a uma situação excecional de comunicação verbal, em circunstâncias que envolvem um encontro privado sujeito a regras explicitas de anoni- mato e confidencialidade da informação partilhada; localizado no tempo e no espaço, e sempre a pedido do investigador; e formalizado em torno de papéis claros, onde cabe ao entrevistador lançar questões sobre os tó- picos que lhe interessam e aos entrevistados dar resposta às solicitações do primeiro.

Está, no entanto, entre as «artes e manhas do entrevistador» saber apla- car os dispositivos de excecionalidade dessas circunstâncias (formalidade, guião, gravadores, câmaras, instalações, etc.), e armar-se dos artifícios de naturalidade que levam a que os interlocutores sintam essa interação como um momento de conversa interessante, mais do que interessada ou até interesseira. Descontração e discrição na manipulação dos equi- pamentos, empatia e abertura ao outro, disponibilidade na escuta e es- pontaneidade na pergunta, são atitudes do entrevistador no sentido de suscitar a colaboratividade e o empenho dos interlocutores na situação

de entrevista, para que esta se torne num diálogo mutuamente relevante e significativo (Ferreira 2014, 986-987).

Este é um desafio com particularidades acrescidas quando a investiga- ção tem jovens como sujeitos de pesquisa. Isto porque as experiências juvenis com dispositivos dialógicos de inquirição por parte de adultos significativos, como pais ou professores por exemplo, podem ser asso- ciadas a dispositivos adultocêntricos de avaliação ou de controlo social através da pergunta. Podem também ser experiências (pres)sentidas pelos jovens como envoltas em paternalismo, pois muitas vezes as instituições que mais de perto os enquadram pretendem ouvir as suas vozes, mas de uma forma mais consultiva do que deliberativa. Este quadro de expe- riências juvenis pode redundar em efeitos de «relutância» (Adler e Adler 2001) ou até mesmo de não cooperação dos jovens na partilha de dis- cursos densos perante determinados dispositivos formais de inquirição, nomeadamente quando estes são operados a partir de adultos.

Tornar esses dispositivos o mais youth-friendly possível foi um desafio encarado desde o início do projeto «Tornando profissões de sonho reali- dade: transições para novos mundos profissionais atrativos aos jovens».1

O objetivo central desse projeto foi conhecer como são socialmente pro- duzidos as aspirações, os projetos e os trajetos de formação e inserção profissional de jovens envolvidos em «novas profissões de sonho» – no- meadamente nas ocupações de DJ, cozinheiro, modelo e futebolista.

O estudo desenvolveu-se segundo protocolos de natureza qualitativa, onde a reflexividade discursiva dos jovens envolvidos teve um lugar pri- vilegiado de análise.2De forma a estimular essa reflexividade, acionaram-

-se sequencialmente duas técnicas clássicas de produção de dados discur- sivos através de dispositivos dialógicos de inquirição – o grupo focal,

1Financiado pela FCT, PTDC/CS-SOC/122727/2010. Para uma descrição mais deta- lhada do projeto, bem como para acessar aos instrumentos metodológicos usados e prin- cipais produtos, ver o website http://newdreamjobs.wix.com/dreamjobs

2Em articulação com o foco discursivo, também se exploraram protocolos de obser- vação direta e de captação de imagens em vídeo, em momentos de aprendizagem e de avaliação dos jovens nos contextos de formação que foram objeto de estudo. O principal objetivo para o recurso à observação e captação de imagens foi ter acesso às práticas con- cretas e incorporadas dos jovens no exercício prático das suas ocupações, de difícil acesso através da reflexividade discursiva produzida através de técnicas dialógicas de inquirição. Esse material imagético também permitiu a realização do documentário Para além da

Fama: Bastidores de Novas «Profissões de Sonho» (online no Youtube), usado na disseminação

e no debate dos resultados deste projeto de uma forma mais acessível e adequada a públicos não académicos, nomeadamente públicos juvenis. Para uma discussão sobre este tipo de produto no âmbito académico ver, neste livro, a contribuição de Maria João Taborda.

numa primeira fase, e a entrevista individual, numa segunda fase. Pro - curou-se que cada uma dessas técnicas, na especificidade das suas condi- ções de aplicação, produzisse dados de natureza diferenciada mas com- plementar, no sentido de abordar diferentes aspetos do objeto de estudo. Considerando a experiência de trabalho de campo nesse projeto, da- remos especial relevância à forma como a técnica de grupo focal foi apli- cada e articulada com a técnica de entrevista individual, no sentido não apenas de gerar dados de natureza analiticamente distinta, mas também de, no decorrer do processo de pesquisa, propiciar as condições necessá- rias para o estabelecimento de uma relação de confiança institucional e interpessoal entre jovens e pesquisadores, favorável à partilha de narrati- vas densas sobre o exercício dessas quatro «novas profissões de sonho», as suas motivações, expectativas e percursos de formação e inserção pro- fissional. Este texto propõe, assim, refletir sobre os objetivos metodoló- gicos e os cuidados técnicos tidos no contexto da preparação e aplicação de grupos focais, no sentido de propiciar aos jovens participantes condi- ções de interação que permitam a mitigação do contexto de exceciona- lidade inerente a essa técnica e, desta forma, torná-la o mais youth-friendly possível.

O grupo focal é uma técnica específica de produção de dados discur- sivos em contexto grupal que começou por ser desenvolvida no campo dos estudos de comunicação, publicidade e marketing, onde acabou por estabelecer um corpus canónico de regras próprias e relativamente padro- nizadas, orientado sobretudo por princípios de economia de tempo na pesquisa exploratória sobre hábitos de consumo e teste de produtos e marcas (Barbour 2007, Bloor et al. 2001, Krueger e Casey 2000, McDo- nald 1993, Morgan 1996). Quando transferidos para o contexto das ciên- cias sociais, a partir de meados dos anos 1980, muitos dos preceitos ca- nónicos estipulados para a condução de grupos focais começaram a ser revisitados e reconsiderados, no sentido de as suas potencialidades heu- rísticas serem plenamente aproveitadas com diversos tipos populacionais (Morgan 2001; Smithson 2000), nomeadamente juvenis (Weller 2006). Considerando a relevância social, sociologicamente constatada, das dinâmicas de grupo de pares nesta fase do percurso de vida, o grupo focal revelou-se, de facto, uma técnica muito heurística na produção de dados discursivos entre os jovens que participaram no estudo «Tornando profis- sões de sonho realidade», justificando a reflexão sobre vários efeitos dessa técnica à luz da especificidade da condição juvenil dos sujeitos pesqui- sados.