7.3 One scan to find them
7.3.3 The final frontier: Collider limits
Entre as condições que proporcionam uma atmosfera youth-friendly para uma conversa colaborativa entre jovens no contexto de grupos fo- cais, está também a forma como o moderador desempenha a sua função de inquirição, ou seja, a forma como conduz e controla a participação dos jovens perante os temas a abordar, e como gere a sequência das res- petivas intervenções no sentido de promover a fluidez da conversa. Exis- tindo abordagens mais ou menos estruturadas e padronizadas relativa- mente à forma de exercício do papel do moderador nos grupos focais, consoante os objetivos desta técnica no contexto do desenho de pes- quisa, o facto é que à medida que a técnica se foi desterritorializando dos estudos de marketing e apropriada pelas ciências sociais, o valor da padronização e da diretividade da ação do moderador foi sendo ques- tionado (Morgan 2001).
O excerto anterior é um breve exemplo do papel do moderador nos vários grupos focais realizados ao longo da pesquisa «Tornando profissões de sonho realidade»: a intervenção do moderador é residual, assumindo o próprio Emanuel a condução das perguntas a Élio, com base no seu conhecimento prévio. A moderação dos grupos focais foi, de facto, orien- tada no sentido de perturbar o menos possível a iniciativa dos jovens, deixando o debate acontecer sobretudo através da troca de argumentos. O objetivo da equipa de pesquisa, em termos de moderação, foi sobre- tudo estimular a conversa entre os jovens, mais do que desenvolver uma conversa com os jovens.
Optando por uma perspetiva mais compreensiva do que diretiva na condução dos grupos focais, a atuação do moderador foi no sentido de
facilitar a discussão, mais do que entrevistar os vários participantes. Ten- tando não assumir para si a orientação do debate através da colocação de questões, de forma sequencial, formal e diretiva, o desempenho do moderador fez-se pautar pela flexibilidade, deixando, em grande medida, a sequenciação das temáticas e das próprias questões ao longo do grupo focal a cargo dos jovens, deixando o grupo ganhar a sua própria dinâ- mica. Esta postura era, desde logo, transmitida aos participantes no início do grupo focal, aquando da pergunta «quebra-gelo» – a primeira questão à qual os participantes respondem, suficientemente vaga e envolvente para captar o interesse destes na interação e no debate daí para a frente:
Moderador: Gostávamos de saber a vossa opinião sobre se vos parece que, hoje em dia, há cada vez mais jovens a querer ser futebolistas. [...] O que é que vocês acham?
Afonso: Fala! [dirige-se a Rubim]
Moderador: Podem falar à vontade. Pela ordem que quiserem. [sorrisos] Vamos falando, conforme as coisas que se forem lembrando, vão dizendo. É mesmo isso que pretendemos.
Rubim: Eu acho que não, porque antigamente as crianças brincavam mais na rua, a jogar futebol ou fosse o que fosse, e hoje em dia acho que os jovens passam mais tempo em casa, agarrados ao computador, e vejo cada vez menos a quererem jogar futebol. Na nossa idade e mais velhos, sim, vejo muitas pessoas que queriam ser [...] futebolistas. Hoje em dia vejo menos. É a minha opinião.
A opção por uma postura menos diretiva do moderador no grupo focal não significa, de forma alguma, acreditar que a sua intervenção na produção dos dados discursivos seja menos ativa, mais neutra e impes- soal. Ainda que menos intrusivo na sua atuação, o moderador-facilitador deve estar sempre atento (e agir em conformidade) à forma focalizada e produtiva como a dinâmica de discussão se desenvolve considerando os objetivos da pesquisa, através da introdução de novas questões que apro- fundem e explorem pontos de vista concretos, do relançar de temas ex- plorados superficialmente, da colocação de questões provocativas no sen- tido de polarizar discussões mais frouxas ou, pelo contrário, de gerir momentos mais (in)tensos sem descartá-los, estando atento a distinções e tensões que possam ser analiticamente úteis. Como referido por Bar- bour (2007), as situações de discórdia entre participantes devem ser po- tencializadas como recurso analítico, devendo o moderador pedir aos participantes que reflitam sobre as razões pelas quais têm pontos de vista diferentes. Se tal gerar um momento de tensão, uma estratégia eficaz para o desbloquear é tentar fazer um ponto de síntese, como aconteceu en-
quanto alguns jovens aspirantes a DJ refletiam sobre os critérios de «su- cesso» no mundo da música de dança:
Moderador: Um ponto de situação [...]: o que é ter sucesso? Vocês esta- vam a falar de coisas diferentes. Se calhar o Cristóvão está a falar de sucesso enquanto [...] ter uma carreira mais longa…
Cristóvão: Sim, ter uma carreira. Qualidade, eu nem questiono. Isso, cada um é que sabe.
Moderador: E o exemplo que o Filipe estava a dar, pareceu-me que tinha mais a ver com a popularidade, com o dinheiro que se recebe...
Filipe: Pois, depende do que é que se fala de sucesso. Moderador: Então vamos lá…
Cristóvão: Sim. Para mim sucesso – acho que é igual para eles – é uma pessoa conseguir viver – é aquilo que já dissemos...
Sálvio: Sim, viver da música.
Cristóvão: ... ser-se profissional, viver-se inteiramente daquilo. Depois há vários níveis de sucesso: há o sucesso local, o sucesso não sei quê, o sucesso mundial, o sucesso universal.
Este é o tipo de ação do moderador que muito dificilmente se conse- gue planear previamente, sendo muitas as decisões que têm de ser toma- das no decorrer do processo de interação grupal. Neste sentido, a opção menos dirigista do grupo focal não significa desvalorizar a existência de um guião prévio que controle a focalização temática que a técnica pres- supõe. Mas a presença do guião deve ser mitigada no decorrer da discus- são. Se na tradição de aplicação dos grupos focais o entrevistador não devia desviar-se da sequência de questões que havia sido concebida, no nosso trabalhou privilegiou-se uma forma flexível de lançar as questões, numa sequência estruturada com base na coerência argumentativa e nar- rativa dos conteúdos interativos dos membros do grupo.
Trata-se de uma sequência mais próxima de uma conversa entre pares, onde poderão ser desvelados dados que, numa entrevista individual, se- riam mais difíceis de obter, devido à pluralidade de estímulos reflexivos a que o jovem participante está sujeito (todas as afirmações que se vão fazendo e não apenas a pergunta do entrevistador) e ao contexto legiti- mador que pode fazer emergir posições sentidas como singulares pelo próprio e, como tal, discretamente silenciadas no contexto de entrevista individual (Hollander 2004). É neste sentido que alguns autores (Johnson 1996; Magill 1993; Race et al. 1994) advogam o grupo focal como técnica radical de empoderamento e mudança social, ao possibilitar a transcen- dência do individualismo quotidianamente sentido, quando viabiliza
que determinadas dificuldades ou problemas sentidos como individuais adquiram uma consciência coletiva na sua articulação com problemas estruturais.
A partir do lançamento da questão inicial, os participantes vão pro- gressivamente passando para outros aspetos relacionados com o foco te- mático em estudo, sempre que possível por sua própria iniciativa, res- pondendo de forma fluida às questões antecipadas no guião, em articulação com outras que os pesquisadores não haviam previsto. Desta forma, os jovens envolvem-se na própria condução dos momentos de inquirição, importante na criação de uma atmosfera de confiança, em- patia e interesse mútuos em participar naquele momento, sem condicio- nar demasiado os aspetos abordados. E serve ainda, em certa medida, para testar a coerência e a adesão dos aspetos previstos no guião à reali- dade que nos propomos estudar. Um exemplo da fluidez com que as questões do guião são trazidas ao debate pelos próprios participantes, sem intervenção dos entrevistadores, aconteceu num grupo focal com jovens futebolistas, em que Duarte introduziu na discussão uma das di- mensões que os pesquisadores haviam incluído nos guiões, a eventuali- dade de ser necessário prescindir de algumas vivências para investir na sua formação, neste caso, futebolística:
Duarte: Mas depois também entra um bocado no nível psicológico. Tam- bém só consegue alcançar essas oportunidades quem tem uma boa capaci- dade de aguentar... por exemplo, abdicar de certas coisas. Nós que estamos aqui abdicamos de imensas coisas para podermos ter, um dia, a nossa opor- tunidade. E os que lá chegam abdicaram, de certeza, de muita coisa para conseguir lá chegar.
Moderador: E abdica-se de quê? Afonso: De festas, saídas. Ivo: Família, amigos. Duarte: Família, amigos. Afonso: Férias.
Duarte: Principalmente a família. É a parte que sofre mais.
Por outro lado, esta postura mais flexível tem de ser conjugada com o tempo disponível dos seus participantes. Quando recrutados para um grupo focal, os participantes têm de saber de antemão quanto tempo terão de disponibilizar, cabendo ao moderador equilibrar a espontanei- dade da interação com o facto de ter de orientar a discussão no sentido de elencar um espectro mais amplo possível de pontos de vista, gerindo os tempos de intervenção dos vários participantes. Daí que, na prepara-
ção de qualquer grupo focal, seja muito importante construir guiões te- máticos realistas, que orientem o seu desenrolar num tempo previamente determinado.
Adotando uma postura compreensiva, o guião de um grupo focal tende a ser composto por poucas questões mas suficientemente amplas para gerar interações produtoras de dados densos e abrangentes, e enca- rado pelo moderador como um guia flexível cuja aplicação deve ser ge- rida considerando o foco temático da pesquisa em curso, a articulação entre os pontos de vista enunciados pelos participantes, o número destes e o tempo previamente combinado. Por outras palavras, a aplicação desse dispositivo artificial de indução dialógica num grupo focal deve munir- -se de artifícios de naturalidade que façam soar a tarefa de dar a palavra como uma conversa de grupo.
Esta é uma competência que se ganha com o tempo e a experiência de pesquisa. É percetível nas transcrições dos grupos focais como os pri- meiros momentos de inquirição geraram respostas mais curtas por parte dos jovens e mais dirigidas ao moderador. No entanto, à medida que foi decorrendo o trabalho de campo, o desempenho da moderação foi ge- rando respostas cada vez mais longas, e exigindo cada vez menos inter- venção do moderador.
Importante é também saber administrar os tempos de intervenção dos vários participantes no sentido de condicionar participações mais impo- sitivas e dominantes, e criar espaço para a participação de membros mais silenciosos, eventualmente com posições distintas ou minoritárias. O moderador não deve permitir a nenhum elemento dominar o grupo focal com as suas intervenções, devendo não apenas facilitar a comuni- cação entre os participantes, como também encorajar a participação dos elementos mais reticentes, criando as condições de interação propícias à expressão de diferentes pontos de vista, mesmo minoritários e em con- tracorrente, a fim de cobrir o tema o mais extensivamente possível.
Não que seja imperativo todos os elementos responderem a todas as perguntas ou, sequer, que todos participem com o mesmo nível de ati- vidade. Mas é importante que o moderador se aperceba de situações onde, no desenvolvimento das discussões, possa haver dinâmicas inter- pessoais que inibam algum participante de transmitir o seu ponto de vista. Isto exige do moderador, por um lado, especial atenção a partici- pantes que sobrepõem a sua voz – literal ou metaforicamente – a outros que estejam discretamente silenciosos, ou que tentam intervir sem o conseguir. Por outro lado, deverá ter também especial habilidade para, sem ser sentido como indelicadeza ou obrigação, dar a palavra a quem
não se sente confortável para, ou não está a conseguir expressar o seu ponto de vista, potenciando que a sua participação venha enriquecer o debate.
Frequentemente, isto implica que o moderador esteja visualmente atento a vários aspetos da linguagem não-verbal dos participantes, como gestos, posturas corporais ou expressões faciais indicativas de convergên- cia ou divergência, concordância ou discordância, tentativas de completar pontos de vista incompletos, de densificar opiniões, etc. Sorrir, expressões de incredibilidade ou desacordo como acenos de cabeça, agitação ou desconforto corporal enquanto alguém está a falar, tentativas de inter- romper outro participante, etc., são gestos comuns a que o moderador deve estar atento, para que as vozes e as opiniões mais marginais se façam ouvir. Como Joaquim (19 anos), que tinha algo a acrescentar ao que os colegas diziam, mas que, por ser tímido, não estava a conseguir fazer a sua voz ouvir-se; ou como o Samuel (23 anos), que tem uma posição di- ferente do resto dos colegas quanto à perspetiva de ir trabalhar para fora de Portugal; ou ainda como Matilde (22 anos), aspirante a cozinheira que, após várias tentativas para intervir, aproveita a oportunidade dada pelo moderador. Se o moderador não tivesse identificado atempada- mente algumas reticências nas suas posturas e expressões, possivelmente estes jovens não teriam dado a sua opinião, uma vez que o restante grupo estava todo a responder no mesmo sentido, gerando consensos entre si:
Sálvio: Para já tem que gostar de música, não é? É o principal, acho que é... Leonardo: É o principal de tudo.
[Joaquim sorri]
Sálvio: É o principal disto...
Filipe: É verdade. Isto parece um bocado estúpido, mas há pessoas que se metem nisto e não... [faz uma expressão que indica que ou as pessoas não gostam
de música ou que não sabem no que estão a meter-se]
Sálvio: Não gostam, se calhar, tanto. Joaquim: Eu vou pôr aqui uma questão.
Cristóvão: Nem é o gostar, é [que] não têm aptidão. Filipe: Não têm paciência. Eu nem sei bem o que é. Moderador: O Joaquim tem uma coisa para dizer.
Joaquim: Eu acho que hoje em dia as pessoas estão muito enganadas. [...] Há muita gente a querer ser DJ, mas há uma separação: muita gente é DJ por moda, mas é um DJ amador, não chega a [...] trabalhar como nós esta- mos a trabalhar para isso. Eu acho que isso de muita gente querer ser DJ é verdade, mas não chegam a trabalhar assim tanto [para atingir esse objetivo].
Tatiana: É para ganhar experiência. Hélder: Sim.
Tatiana: Depois voltar para cá, que eu quero viver em Portugal. Só que, se calhar, durante uns anos ganhar experiência noutros países e depois vol- tar.
[César diz que sim com a cabeça]
Moderador: Toda a gente... concorda com isto? Renato: Sim. Sim.
Moderador: Se calhar ali o Samuel não acha tanta graça, pois não? Samuel: Não. Acho que depende. Eu vou trabalhar agora e depois, se cor- rer bem, vou, se calhar, apostar cá.
Moderador: Matilde?
Matilde: O que eu ia dizer é: porque é que vocês estão a subentender que as perspetivas das pessoas jovens que querem seguir esta área são a fama e o dinheiro, se essas não foram as vossas ambições ao virem para aqui?
Leonel: Eu não estou a dizer que é isso no geral, mas, se calhar, é algo que vai motivar os miúdos a vir. Eu não vim com nada dessa perceção. [...] Eu vim aqui porque gosto de cozinhar. [dirige-se a Matilde]
Matilde: Pois, lá está, acho que, no fundo, ninguém que está aqui veio com essas intenções. Porque é que estamos a presumir que na geração a se- guir à nossa, que tem no máximo cinco anos de diferença de nós, já estão mais influenciados com isso?
Estas situações exemplificam como, de facto, no contexto de grupo focal o papel do moderador é facilitar a emergência de diferentes pontos de vista, e encorajar os participantes a questionarem-se mutuamente, a posicionarem-se perante outros pontos de vista e, em última instância, a explicarem-se uns aos outros. Isso pressupõe tratar os vários participantes não apenas como informantes-locutores – através da colocação sequencial de perguntas previamente preparadas que mais não criam senão um campo superficial de interação – mas como verdadeiros interlocutores, ati- vamente ouvidos e interpelados numa relação de diálogo permanente e mutuamente significativo.
O tradicional «primado da boa pergunta» no desenvolvimento da pes- quisa empírica submete-se, assim, ao «primado da boa resposta», a qual só é obtida perante um moderador que não se limite a replicar passiva- mente perguntas previamente preparadas, mas que as formula como re- sultado de uma atitude de escuta ativa (Back 2007, 23; Bourdieu 1993, 906). É esta atitude atenta, interessada e curiosa perante o que está a ser dito que, tornada competência, permite ao moderador seguir continua - damente os discursos dos vários participantes de um grupo focal e, ao mesmo tempo, encorajá-los a ir mais longe, improvisando adequada- mente novas questões e/ou introduzindo novas temáticas eventualmente mais pertinentes do que as que estavam previstas.