Van Ek (1986) apresenta o exemplo de descrição de competência comunicativa que agrega dois componentes aos quatro já citados no item anterior, desenvolvidos por Canale
e Swain (1980), a saber: (a) competência sociocultural e (b) competência social. No tocante à competência sociocultural, é importante considerar que a atuação linguística deve ocorrer de acordo com as regras sociolinguísticas do contexto em que sucede. Em relação à competência social, o autor afirma que o aprendiz deve reconhecer formas de categorizar e expressar a sua própria experiência, entre outras maneiras de interagir socialmente.
Didaticamente, este talvez seja o modelo mais detalhado de competência comunicativa. Ademais, o autor alerta que esses seis componentes não devem ser considerados isoladamente.
Canale e Swain (1980) agregam à competência sociolinguística, componentes socioculturais, que deveriam ser estudados após a parte gramatical de um idioma estrangeiro, afirmando que se pode dar ênfase, primeiro, à correção gramatical e comunicação significativa. Dessa forma, a comunicação se organiza conforme as necessidades básicas da comunicação do estudante e tanto as funções comunicativas aprendidas quanto o contexto social contribuem para uma boa adequação linguística.
O Conselho de Europa, na publicação do Marco Comum de Referência para as línguas (2002) aponta que o conhecimento da sociedade em que se fala o idioma a ser aprendido é um dos aspectos do conhecimento de mundo. Não por outro motivo, deve merecer a atenção dos aprendizes de uma LE, especialmente porque algumas situações podem não fazer parte de seu conhecimento/ experiência prévios e, portanto, pode ter interferências de estereótipos, entre outros aspectos.
Dessa maneira, adaptando as características culturais distintivas de uma sociedade, presentes no Marco Comum de Referência para as línguas31 (2002, p. 100, 101), que podem ser amoldadas a qualquer outra situação de ensino de LE (não apenas ao contexto europeu), observamos seis grandes eixos e seus devidos desdobramentos:
1. A vida diária, por exemplo:
- comida e bebida, horários das refeições, modos à mesa; - feriados;
- horários e práticas de trabalho;
- atividades de ócio (preferências, esportes, hábitos de leitura, meios de comunicação). 2. Condições de vida, por exemplo:
- níveis de vida (variações regionais, sociais e culturais); - condições de moradia;
- medidas e acordos de assistência social.
3. As relações pessoais (incluindo relações de poder e solidariedade), por exemplo: - estrutura social e as relações entre seus membros;
31 Embora o texto do Marco Comum de Referência para as Línguas tenha tradução para os diversos idiomas da
União Europeia e, portanto, também para o português, optamos por fazer uma tradução para o português do Brasil, de maneira a obter unidade no que se refere à escrita deste trabalho.
- relações entre os sexos; - estruturas e relações familiares; - relações entre gerações;
- relações em situações de trabalho;
- relações com as autoridades, com a Administração... - relações de raça e comunidade;
- relações entre grupos políticos e religiosos.
4. Os valores, as crenças e as atitudes com respeito a fatores como os seguintes: - classe social;
- grupos profissionais (acadêmicos, empresariais, de serviço público, de trabalhadores qualificados e braçais);
- riqueza (ganhos, recebimentos, heranças); - culturas regionais;
- segurança; - instituições;
- tradição e mudança social;
- história (personagens e acontecimentos representativos); - minorias (étnicas, religiosas);
- identidade nacional;
- países, estados e nações estrangeiras; - política;
- artes (música, artes visuais, literatura, teatro, canções e músicas populares); - religião; - humor. 5. A linguagem corporal. - gestos; - expressões faciais; - posturas;
- contato visual (piscadas, por exemplo); - beijo, aperto de mãos;
- distancia entre os interlocutores (se permanecem próximos ou distanciados).
6. As convenções sociais (por exemplo: receber e oferecer hospitalidade), entre as que se destacam: - pontualidade;
- presentes; - vestimenta;
- aperitivos, bebidas, comidas,
- convenções e tabus relativos ao comportamento e às conversações; - duração de uma estadia;
- despedida.
7. O comportamento ritual em áreas como as seguintes: - cerimônias e práticas religiosas,
- nascimento, casamento e morte,
- comportamento do público e dos espectadores em representações e cerimônias públicas; - celebrações, festividades, bailes, discotecas, etc.
Quadro 5 – Características culturais distintivas de uma sociedade segundo o Marco Comum de Referência para as línguas (2002. p. 100 e 101).32
32 1. La vida diaria, por ejemplo:
- Comida y bebida, horas de comidas, modales en la mesa. - Días festivos.
- Horas y prácticas de trabajo.
- Actividades de ocio (aficiones, deportes, hábitos de lectura, medios de comunicación). 2. Las condiciones de vida, por ejemplo:
- Niveles de vida (con variaciones regionales, sociales, culturales). - Condiciones de la vivienda.
- Medidas y acuerdos de asistencia social.
3. Las relaciones personales, (incluyendo relaciones de poder y solidaridad); por ejemplo: - Estructura social y las relaciones entre sus miembros.
- Relaciones entre sexos.
É importante pensar que, ao planejarmos uma aula com conteúdo sociocultural, sejam apresentados aos alunos os eixos mais relevantes do Quadro 5, com o intuito de se guiar o aprendiz a perceber as diferenças e/ ou semelhanças culturais, relacionadas ao entorno estudado.
Para Kramsch, os termos “cultural” e “social” são como dois lados da mesma moeda, quando se trata de fatores socioculturais, constituindo “o quadro natural do ensino e da aprendizagem de línguas estrangeiras” (KRAMSCH, 2009, p. 116). No entanto, outros pesquisadores não fazem a distinção entre os dois termos. Para a autora, entretanto, um deles expressa a diacronia e o outro a sincronia que situa a língua no cerne das sociedades que a utilizam para se expressarem por meio de discurso.
- Relaciones entre generaciones. - Relaciones en situaciones de trabajo.
- Relaciones con la autoridad, con la Administración... - Relaciones de raza y comunidad.
- Relaciones entre grupos políticos y religiosos.
4. Los valores, las creencias y las actitudes respecto a factores como los siguientes: - Clase social.
- Grupos profesionales (académicos, empresariales, de servicios públicos, de trabajadores cualificados y manuales).
- Riqueza (ingresos y herencia). - Culturas regionales.
- Seguridad. - Instituciones.
- Tradición y cambio social.
- Historia; sobre todo, personajes y acontecimientos representativos. - Minorías (étnicas y religiosas).
- Identidad nacional.
- Países, estados y pueblos extranjeros. - Política.
- Artes (música, artes visuales, literatura, teatro, canciones y músicas populares). - Religión.
- Humor.
5. El lenguaje corporal. El conocimiento de las convenciones que rigen dicho comportamiento forma parte de la competencia sociocultural del usuario o alumno.
6. Las convenciones sociales (por ejemplo, respecto a ofrecer y recibir hospitalidad), entre las que destacan las siguientes:
- Puntualidad. - Regalos. - Vestidos.
- Aperitivos, bebidas, comidas.
- Convenciones y tabúes relativos al comportamiento y a las conversaciones. - Duración de la estancia.
- Despedida.
7. El comportamiento ritual en áreas como las siguientes: - Ceremonias y prácticas religiosas.
- Nacimiento, matrimonio y muerte.
- Comportamiento del público y de los espectadores en representaciones y ceremonias públicas. - Celebraciones, festividades, bailes, discotecas, etc.
Ao delinearmos as definições traçadas por Kramsch (2009) em seu artigo O componente cultural na linguística aplicada, constatamos que a cultura oral ou escrita, tanto no sentido popular, individual como intelectual, seja ela de grandes acontecimentos ou de fatos cotidianos, designa ao menos duas maneiras de se conceber uma dada comunidade social que ocorre por meio das:
a) Ciências Humanas – associada à representação de grupos sociais e suas atribuições acerca de produções como: obras de arte, literatura, instituições sociais ou objetos da vida cotidiana e mecanismos usados para garantir a transmissão desses bens a outras gerações.
b) Ciências Sociais – a autora cita Howard Nostrand, que chama cultura como “a base de toda significação” e a isso, relaciona atitudes, crenças, visões de mundo, comportamentos e lembranças comuns aos membros dessa comunidade.
No tocante a essas duas definições, a autora aponta um impasse relacionado a um aspecto primordial: que a cultura material e o compartilhamento de conhecimento não são aquisições naturais. Por esse motivo devem ser compreendidos por meio da linguagem, daí a importância da abordagem da cultura no ensino de idiomas. Dessa forma, pode-se afirmar que “a língua desempenha um papel crucial não apenas na elaboração, mas também na evolução da cultura.” (2009, p. 117). Nesse sentido, podemos afirmar que, tanto a língua como a cultura, se complementam em suas funções.
Levantadas as acepções do conceito de cultura, de interculturalidade, as implicações do ensino de LE na contemporaneidade, o ensino de ELE no Brasil, e a competência intercultural pertinentes a este trabalho, trataremos, a seguir, das definições de identidade, perspectivas identitárias e representação, essenciais para esta investigação.