3.5 Further optimization
3.5.3 Cable stayed bridge solution
Thompson (2011) baseia-se na concepção simbólica de Geertz (1973) para formular a sua concepção estrutural de cultura, uma vez que enfatiza tanto o caráter simbólico dos fenômenos culturais, como os contextos sociais estruturados em que estes se inserem. Nesse sentido, define “análise cultural” como
[...] o estudo das formas simbólicas – isto é, ações, objetos e expressões significativas de vários tipos – em relação a contextos e processos historicamente específicos e socialmente estruturados dentro dos quais, e por meio dos quais, essas formas simbólicas são produzidas, transmitidas e recebidas (THOMPSON, 2011, p 181).
Thompson (2011) ao definir cultura e inseri-la na concepção estrutural, dá especial atenção aos contextos e processos socialmente estruturados, que envolvem formas simbólicas. O autor ainda ressalta que a concepção estrutural é uma alternativa à concepção simbólica, visto que a modifica, considerando-se processos socialmente estruturados.
Na elaboração da concepção estrutural da cultura, Thompson (2011) distingue cinco características que estão envolvidas na constituição das formas simbólicas: “intencionais”, “convencionais”, “estruturais”, “referenciais” e “contextuais”. Novamente ressaltamos que o estudo de Viana (2003) foi seminal no que se refere à aplicação da concepção de Thompson em abordagens tanto da linguística aplicada quanto de línguas estrangeiras.
O aspecto intencional indica que “as formas simbólicas são expressões de um sujeito e para um sujeito (ou sujeitos)” (THOMPSON, 2011, p.183), o que significa que essas formas são produzidas por um indivíduo que expressa aquilo que “quer dizer” por meio dessas formas. No que se refere às intenções de um sujeito – produtor em relação ao significado das formas simbólicas, Thompson faz duas observações: a primeira culmina com a ideia de alguém fazer algo intencionalmente, isto é, quando se pressupõe que fenômenos significativos são produzidos, construídos e empregados por um indivíduo capaz de agir com determinada intenção. A segunda observação tem relação com o “significado” da forma simbólica ou com os elementos que a constituem, isto é, muitas vezes há divergências entre aquilo que o sujeito-produtor “quis dizer” e o que ele realmente “disse”. O autor salienta que essa divergência pode ser mais comum no caso de formas simbólicas não associadas a uma situação dialógica, como, por exemplo, no caso de textos escritos, ações ritualizadas ou obras de arte, cujo sentido ou significado muitas vezes não pode ser explicado por seu sujeito- produtor.
O segundo aspecto característico das formas simbólicas é o “convencional”, que, de acordo com Thompson, significa “a produção, construção ou emprego das formas simbólicas, bem como a interpretação das mesmas pelos sujeitos que as recebem, são processos que caracteristicamente, envolvem a aplicação de regras, códigos ou convenções de vários tipos.” (THOMPSON, 2011, p.185, grifos nossos). O autor informa que o fato de se aplicarem regras, códigos ou convenções quando da produção ou interpretação de formas
simbólicas não significa, necessariamente, estar ciente delas, isto porque os indivíduos as utilizam corriqueiramente, no uso social.
O próximo aspecto de que trataremos e o terceiro abordado por Thompson (2011) como característico das formas simbólicas é o “estrutural”, indicando que “as formas simbólicas são construções que exibem uma estrutura articulada” (THOMPSON, 2011 p.187). Esse tipo de estrutura denominou-se articulada na medida em que é composta de elementos que se inter-relacionam. Para ilustrar esse aspecto, o estudioso aponta o linguista Ferdinand de Saussure que, ao distinguir a língua (langue) da fala (parole) busca isolar a linguagem como um sistema simbólico, um “sistema de signos” para, assim, estudar tanto seus elementos básicos como seus princípios de funcionamento. Com esse exemplo, Thompson (2011), sugere que a análise de um texto pode ser facilitada pela compreensão tanto dos pronomes que o compõem, quanto de suas funções em outros tipos de textos ou usos de linguagem. O autor ainda chama a atenção para o fato de este tipo de análise estrutural ser limitado uma vez que o significado que se transmite pelas formas simbólicas nunca se exaure, isto é, não se esgota. Em outras palavras, Thompson (2011) alerta que as formas simbólicas são representações de algo. Para explicar melhor o conceito, ele aponta o referente (objeto, indivíduo ou situação extralinguística), o que culmina com o próximo aspecto que descreveremos a seguir.
A quarta característica a que faremos alusão refere-se ao “aspecto referencial”. Segundo Thompson (2011) “as formas simbólicas são construções que tipicamente representam algo, referem-se a algo, dizem algo sobre alguma coisa”. (THOMPSON, 2011, p.190). O autor se utiliza do termo “referencial” de forma ampla e para tanto apresenta vários exemplos ilustrativos: uma figura numa obra renascentista pode significar o diabo, a maldade ou a morte; um personagem de uma charge com traços faciais exagerados pode se referir a um indivíduo particular; o pronome pessoal “eu” na frase “eu tenho compromisso com a melhoria das condições dos nossos membros” refere-se a alguém que pronunciou a frase em determinado momento e lugar. A partir desses exemplos, Thompson (2011) aponta que tanto a figura da personagem quanto o pronome, adquirem em cada contexto, uma “especificidade referencial” o que indica que “em uma dada ocasião de uso, uma figura ou expressão particular refere-se a um específico objeto ou objetos, indivíduo ou indivíduos, situação ou situações”. O estudioso salienta que certas figuras ou expressões adquirem essa “especificidade referencial” de acordo com a circunstância em que são usadas como, por exemplo, os pronomes “eu” ou “tu” que ele denomina “termos livremente flutuantes” considerando que se referem a indivíduos específicos atuando em determinados contextos.
Como contraste aos termos citados e que podem apresentar variações de acordo com o seu uso, há também a “especificidade referencial dos nomes próprios” que em certa medida, é fixa.
A quinta característica que Thompson (2011) aponta sobre as formas simbólicas é o aspecto “contextual”. Para defini-lo, o autor retoma que “as formas simbólicas estão sempre inseridas em processos e contextos sócio históricos específicos dentro dos quais e por meio dos quais elas são produzidas, transmitidas e recebidas” (THOMPSON, 2011, p.192, grifos nossos).
Nesse ponto abrimos parênteses para inserir nossa pesquisa e alinhar, portanto, os “processos e contextos sócio históricos específicos” às formas que se veiculam num filme, por exemplo. Os outros destaques da definição de Thompson (2011) também se podem associar ao cinema, de modo geral: sua produção, transmissão e recepção. Vale sublinhar que nesta pesquisa nos ocuparemos especialmente de duas produções e de sua recepção entre um público de aprendizes de ELE. Neste sentido, é importante reproduzirmos a seguinte reflexão de Thompson:
Mesmo uma simples frase, dita por uma pessoa a outra no curso de sua interação diária, está inserida em um contexto social estruturado e pode carregar traços – em termos de sotaque, entonação, modo de expressar-se, escolha de palavras, estilo de expressão, etc. (...) (THOMPSON, 2011, p.192).
Essa ideia foi motivadora quando optamos por selecionar os filmes que fariam parte de nossa investigação, uma vez que nos preocupamos com os contextos sócio históricos específicos que serão abordados na seção da análise dos filmes e, principalmente, a recepção e interpretação de tais “realidades” pelos estudantes. Nessa perspectiva, também citamos:
(...) a maneira como um discurso é interpretado por indivíduos particulares, sua percepção como um ‘discurso’ e o peso a ele atribuído estão condicionados ao fato de que essas palavras foram expressas por esse indivíduo, nessa ocasião, nesse ambiente e de que são transmitidas por esse meio (...) (THOMPSON, 2011, p.192, grifos nossos).
Ainda que Thompson (2011) não se refira a um tipo de discurso específico, podemos associar a esse particular uma interpretação feita por estudantes, acerca do discurso12 que se desenvolve nos filmes selecionados e a percepção desse conjunto de enunciados, bem como as atribuições relacionadas à ocasião e ambiente em que são transmitidos.
12 O termo “discurso” é assumido a partir da concepção de Thompson (2011), não estando associado, portanto,
É importante mencionar que, ao destacar o aspecto contextual das formas simbólicas, avança-se em relação à análise de seus traços estruturais. Parafraseando a ideia, em determinado discurso, fatores como o ambiente, a ocasião, as relações entre o orador e a audiência não são aspectos do discurso propriamente dito. No entanto, podem ser discernidos quando se levam em consideração os processos, instituições e contextos sociais em que o discurso ocorre, se transmite e se recebe. Thompson (2011) destaca ainda, como relevantes nessa análise contextual as relações de poder, formas de autoridade, tipos de recursos, entre outras características, que ele denomina como “contextualização social das formas simbólicas” (THOMPSON, 2011, p.193).
Outro aspecto tratado por Thompson e que apresenta uma relação direta com nosso campo de pesquisa, reside nas regras e convenções ocorridas num campo de interação. Essas regras e convenções podem ser explícitas, claramente formuladas, escritas, ou, por outro lado, implícitas não formuladas, informais e imprecisas. Assim, o autor as considera “esquemas flexíveis” que participam da vida cotidiana dos indivíduos de variadas formas: como algum conhecimento prático ou convenções de boas maneiras, por exemplo. Nesse sentido, acreditamos que o cinema como veiculador dessas formas pode oferecer aos aprendentes um panorama mais amplo acerca de como ocorrem os “esquemas flexíveis” em contextos que muitas vezes não são tratados em sala de aula por diversos motivos.
Thompson (2011) chama a atenção ao paralelo que se pode traçar entre as formas simbólicas relacionadas aos contextos sociais estruturados – e como estes se produzem e recebem – bem como o desenvolvimento da comunicação de massa. É justamente nesse meio que inscrevemos nossa pesquisa, no que concerne à análise de dois filmes do Novo Cinema Argentino e, por conseguinte, a verificação da percepção intercultural de alunos de ELE.
Deve ser levado em consideração, portanto, que a comunicação de massa veicula formas simbólicas e outras expressões significativas. Contudo, quando nos referimos à nomenclatura comunicação de massa, pensamos em meios como jornais, revistas, cinema, rádio e TV. Nosso foco, porém, como já fora indicado, é o cinema e as formas simbólicas que este faz circular, visto que em nosso estudo trata-se, em particular da perspectiva do diretor argentino Carlos Sorín e, em termos gerais, do Novo Cinema Argentino.