Fonte: MEC
Assim, estudar as professoras premiadas de Santa Catarina é considerar todos estes fios de ligações. Não é tarefa fácil. O Contexto da Pesquisa é descrito, a seguir, para uma maior aproximação às professoras premiadas – alvos desta pesquisa.
CAPÍTULO 2
O CONTEXTO DA PESQUISA
O objetivo desta parte da dissertação é o de apresentar dados colhidos na trajetória desta pesquisa com o intuito de caracterizar o contexto em que se inserem as professoras premiadas alvos deste estudo.
Nesse primeiro momento caracteriza-se o espaço geográfico onde as professoras premiadas residem e atuam. Essa caracterização está dividida em quatro partes: na primeira parte caracteriza-se o Estado de Santa Catarina; na segunda parte a região Oeste do Estado de Santa Catarina é caracterizada, pois tal região mantém características peculiares em relação ao restante do Estado como, por exemplo, ser uma região basicamente rural; na terceira parte caracteriza-se a cidade de Vargem Bonita, cidade em que as professoras premiadas residem e atuam – a única cidade da região com duas professoras premiadas pelo Prêmio Professor do Brasil; na quarta parte caracteriza-se a Escola em que as professoras atuam como docentes e aplicaram os Projetos Premiados. Finalmente, num segundo momento é caracterizada a Universidade em que ambas as professoras se formaram.
2.1 O Estado de Santa Catarina
Duas partes integram esta caracterização do Estado de Santa Catarina: na primeira parte há uma breve reconstrução histórica, com o intuito de facilitar o caminho do leitor na visualização deste recorte geográfico; na segunda parte são apresentadas ao leitor as diferenças internas do Estado de Santa Catarina, o que pode facilitar o entendimento dos agentes estudados.
O litoral catarinense foi descrito por Cartas geográficas de navegadores de várias nacionalidades desde o século XVI, mas foi em 1529 pela primeira vez chamada de ‘Ilha de Santa Catarina’.
Neste momento histórico havia uma disputa entre Portugal e Espanha por espaço geográfico principalmente visando o Rio da Prata. Os primeiros moradores da Ilha de Santa Catarina foram os índios, náufragos de expedições anteriores além de religiosos que vinham com as embarcações.
A conquista e ocupação portuguesa do Brasil deram-se, de fato, a partir do litoral, ficando a ocupação do grande oeste por conta da atuação bandeirante que, por atrativos e em épocas distintas, penetrou pelo sertão impondo-se às populações nativas. (RADIN, 2001, p.17) Os bandeirantes foram os grandes responsáveis pelo alargamento das fronteiras do território. Ocupando a partir do litoral: Laguna, Desterro, São Francisco em direção do interior do Estado.
Como observado até aqui o litoral catarinense foi o território primeiro habitado, mas mesmo assim sofria de uma grande crise demográfica. A partir deste fato a Coroa portuguesa incentivou habitantes de sua outra colônia Ilhas Açorianas a habitarem a Ilha de Santa Catarina. Compõem-se assim o litoral do Estado de Santa Catarina.
Por outro lado séculos depois o interior do estado pouco habitado torna-se campo fértil para disputas de terras principalmente entre o Paraná e Santa Catarina (a Guerra do Contestado).
Com o intuito de manter ocupado o território de Santa Catarina o Governo Federal incentivou a ocupação do interior do estado por imigrantes italianos e alemães. Forma-se assim um estado com um litoral e um interior com características próprias.
Esta breve reconstrução histórica teve como objetivo apresentar ao leitor as características díspares entre o litoral catarinense e o interior do estado desde a forma como foi colonizada até a diferença de seus habitantes. Mais adiante, com a caracterização específica do Oeste de Santa Catarina, tais diferenças aparecerão mais agudas.
De certa forma, o Estado de Santa Catarina atualmente mantém certa distinção em relação a alguns estados da Federação. Observando os índices nacionais seja no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)27, seja na educação ou na qualidade de vida, o Estado se mantém com bons índices:
Tabela 2 - IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)
IDHM IDHM
LONGEVIDADE
Média Nacional 0,766 0,727
Média Estadual 0,791 0,807
27 O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma medida comparativa que engloba três dimensões:
riqueza, educação e esperança média de vida. É uma maneira padronizada de avaliação e medida do bem-estar de uma população. O índice foi desenvolvido em 1990 pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq, e vem sendo usado desde 1993 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no seu relatório anual.
Fonte: PNUD (2000)
Tabela 3 – Pobreza e Indigência
% de indigentes % de pobres
Média Nacional 16,32 32,75
Média Estadual 5,92 16,24
Fonte: PNUD (2000)
Tabela 4 - Pobreza e Indigência infantil
% de indigentes % de pobres Média Nacional 25,18 45,99 Média Estadual 9,48 24,57 Fonte: PNUD (2000) Tabela 5 - Analfabetismo % 7 a 14anos
analfabetas %10 a 14 anos analfabetas %15 a 17 anos analfabetas mais analfabetas %15 anos ou
Média Nacional 12,36 5,88 4,01 12,94
Média Estadual 3,49 1,06 1,02 5,88
Fonte: PNUD (2000)
Tabela 6– Freqüência à Escola % 7 a 14 anos na
escola % 10 a 14 anos na escola freqüentando o % 7 a 14 anos fundamental
Média Nacional 94,52 94,65 89,92
Média Estadual 96,67 95,95 93,79
Fonte: PNUD (2000)
Tabela 7- Tempo de escolaridade %15 a 17 anos na
escola menos de quatro anos %15 a 17 anos com de estudo %15 a 17 anos no ensino médio Média Nacional 77,72 16,38 34,53 Média Estadual 75,31 6,62 45,43 Fonte: PNUD (2000)
Conforme se pode observar nas Tabelas 2 a 7, o Estado de Santa Catarina supera os índices nacionais de Desenvolvimento Humano. O índice de Santa Catarina também supera o índice nacional em longevidade.
Em relação ao índice de indigência, o índice nacional é três vezes maior comparado a Santa Catarina.
O índice nacional de pobreza é o dobro comparado ao índice ao Estado.
O índice nacional de crianças indigentes é de 25,18 % enquanto que o índice do Estado de Santa Catarina é de 9,48%.
Em relação às crianças pobres o índice nacional é de 45,99 enquanto que o índice estadual é de 24,57, a intensidade de pobreza no estado de Santa Catarina é menor 9,68% que a média nacional.
O analfabetismo tem como média nacional 12,36% entre pessoas de 7 a 14 anos enquanto que Santa Catarina tem 3,49%.
A freqüência na escola entre pessoas de 7 a 14 anos tem a média nacional de 94,52% e a média de Santa Catarina ainda supera com 96,67%.
Observando estes dados percebe-se que há, na maioria dos índices, uma disparidade. A seguir, o interior do estado, mais especificamente a região Oeste de Santa Catarina é caracterizada.
2.2 A Região Oeste de Santa Catarina
O Estado de Santa Catarina é muitas vezes descrito como massa homogênea, com características culturais, físicas e sociais semelhantes, mas o que pude observar através dos anos de estudo deste recorte geográfico são diferenças marcadamente presentes. Começando pela colonização. A capital do Estado de Santa Catarina, por exemplo, teve colonização portuguesa, açoriana, diferente do Oeste do Estado cuja colonização basicamente foi de italianos e alemães, além da presença indígena e cabocla:
A colonização do sul do Brasil deu-se em diferentes momentos e por imigrantes de diferentes nacionalidades.No final do século XIX e início do seguinte, as áreas coloniais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina receberam um contingente de imigrantes italianos que contribuíram significativamente para a sua ocupação. (RADIN,2001,p.9)
Segundo Radin (2001) o Oeste do Estado permaneceu por longos anos sem ser ocupado ou explorado economicamente. A presença das primeiras incursões se deu contra os índios das missões jesuíticas. Os grupos de índios segundo o autor subsistiam basicamente do extrativismo da erva-mate, da madeira e outras pequenas culturas.
No início do século XX com a construção da ferrovia São Paulo/ Rio Grande do Sul houve uma grande propulsão da colonização da região Oeste do estado, funda-se então o município de Joaçaba antes chamado de Cruzeiro:
Na margem esquerda do Rio do Peixe, no início deste século, foi construído a Estrada de Ferro São Paulo- Rio Grande, a qual consideramos o símbolo da penetração capitalista em toda a região. Esta ferrovia tornou-se a grande propulsora da colonização em praticamente todo o oeste catarinense e, de modo especial, das terras do antigo município de Cruzeiro (Joaçaba), criado em 1917, após o acordo de Limites entre os estados de Santa Catarina e Paraná e o fim do conflito do Contestado. (RADIN, 2001, p.169)
Conforme Radin (2001) o Oeste do estado repetiu o modelo de ocupação gaúcho, baseado na pequena propriedade colonial destinada a agricultura de subsistência, este modelo de colonização, segundo o autor gerou condições limitadas de desenvolvimento.
Observamos nas citações anteriores a origem da região Oeste que foi tardiamente ocupada, com população migrante principalmente da Itália, da relação conflituosa com os indígenas que já ocupavam grande parte do território e finalmente do modelo agrário característico da região que o diferencia de outras partes do estado.
Embora o Oeste apresente características peculiares em comparação com outras regiões do estado, quando se fala em região, fala-se também de uma abstração que,, em muitos casos, vem responder a apelos de institucionalização e de interesses político- administrativos:
Uma “região” é, antes de tudo, uma abstração geográfica ou político- administrativa, na maioria das vezes instituída sob critérios políticos para atender às razões (nem sempre razoáveis) da administração estatal.Não pode ser simplesmente confundida, como freqüentemente ocorre, com um povo determinado e muito menos com uma sociedade. Portanto delinear oestinos, tanto como os “litorâneos” ou os serranos, não é mais que circunscrever essas populações nas áreas geográficas oficialmente definidas para cada região. (DE MARCO, 2004, p.6)
Desta forma, entender a realidade do Oeste de Santa Catarina é observar suas nuances em relação às outra regiões do Estado.
O Estado de Santa Catarina é dividido por seis mesorregiões, como se pode visualizar no Mapa 1 apresentado a seguir:
Mapa 1: Mapa das regiões geográficas de Santa Catarina
Legenda: Regiões geográficas de Santa Catarina: (1) Oeste Catarinense; (2) Norte Catarinense; (3) Região
Serrana; (4) Vale do Itajaí; (5) Grande Florianópolis; (6) Sul Catarinense.
Fonte: DE MARCO, 2004.
A região nomeada Oeste Catarinense é uma das seis mesorregiões. Segundo De Marco (2004) esta mesorregião é constituída de 118 municípios e é, territorialmente, a maior das seis, “com uma área de 27.255,5 km, representando mais de um quarto do território total do estado de Santa Catarina”. Ainda segundo o autor, a mesorregião é dividida em cinco microrregiões geográficas, correspondendo a mais de um terço do total dos municípios do estado de Santa Catarina:
Oficialmente, a mesorregião é dividida em cinco microrregiões geográficas, abrangendo 118 municípios, o que corresponde a mais de um terço do total de municípios do estado: Microrregião de Joaçaba (27 municípios): Água Doce, Arroio Trinta, Caçador, Calmon, Capinzal, Catanduvas, Erval Velho, Fraiburgo, Herval d’Oeste, Ibiam, Ibicaré, Iomerê, Jaborá, Joaçaba, Lacerdópolis, Lebon Regis, Luzerna, Macieira, Matos Costa, Ouro, Pinheiro Preto, Rio da Antas, Salto Veloso, Tangará, Treze Tílias, Vargem Bonita e Viderira. (DE MARCO, 2004)
Segundo De Marco (2004), “(...) no Censo da 1991, metade dos habitantes do Oeste residiam na área rural”, houve um aumento da população urbana considerável até 2000
quando a população rural de 50% passou a 37% aumentando entre um Censo e outro 13% de habitantes da área urbana, apesar disso segundo o autor a região Oeste é a que tem o índice mais baixo de aglomeração urbana do estado de Santa Catarina.
Conforme De Marco (2004) a população do Oeste “apresenta uma mínima predominância masculina (50,3%), que a distingue tanto da característica estadual como da nacional: em Santa Catarina, as mulheres compõem 50,2% da população enquanto que no Brasil são 50,8%.” Ainda segundo o autor “Os oestinos, numa ampla maioria (84,2%), autoclassificam-se brancos, numa proporção um pouco menor que a média declarada em todo o estado (89,3%)”. Em relação a religião 82,2 % dos oestinos se declaram católicos apostólicos romanos. Dos oestinos acima de 10 anos segundo o Censo de 2001 48,8% são pessoas casadas. Apenas 6% da população oestina é constituída por pessoas não-naturais de Santa Catarina. Há um aumento de analfabetismo na região Oeste em relação a média do estado, no Oeste 7% são analfabetos enquanto que a média do estado é de 5,3%. Seguindo os dados do estudo observou-se que 66% da população em 2001 formavam população economicamente ativa – PEA a mesma proporção do estado, sendo que deste 66% os homens representam 60% do PEA. Outro dado importante que diferencia o Oeste das demais regiões do estado é que os oestinos segundo Censo ganham 10% a menos que a média catarinense, este percentual chega a 15% quando comparados aos rendimentos das mulheres em relação as média das mulheres no estado. No Oeste em agosto de 2001 50% das pessoas estavam empregadas enquanto que a média do estado é de 70%. Por outro lado o setor agropecuário emprega mais que o dobro do percentual que emprega no estado, o que demonstra que a região é fortemente inclinada a subsistência do meio agrário. O Oeste Catarinense segundo o estudo mantém uma média maior de habitante por domicílio em comparação a média estadual, enquanto que no Oeste é de 3,42 pessoas/família, a média estadual é de 3,36. Nestes domicílios particulares apenas um terço deles são considerado pelo IBGE como adequados, enquanto que a média estadual é de 53%.
A região Oeste. Portanto. numa análise comparativa em relação ao Censo 2000 apresenta em muitos indicadores uma defasagem em relação à média estadual. Segundo De Marco (2004): “(...) Esta situação se manifesta de forma mais evidente no dados sobre a renda, a escolaridade e, também, sobre as condições de moradia de seus habitantes”.
Desta forma esta região no estado de Santa Catarina nos revela possibilidades de estudo que auxiliam a observação de uma razoável diferença entre as regiões que compõem o estado.
2.3 O Município de Vargem Bonita
O município da Vargem Bonita foi escolhido para este estudo pelo fato de ser o único município da região Oeste contemplado por duas vezes com o Prêmio Professores do Brasil.
O Estado é dividido em 36 regionais devido uma política de descentralização. Isto significa que cada uma dessas 36 regionais é responsável pela gestão de um aglomerado de municípios. Nesta gestão incluí-se educação, saúde, assistência social, transporte entre outros. Desta forma o recurso de todo estado é dividido para essas regionais que se responsabilizam à geri-los.
Com relação a educação a cidade de Vargem Bonita pertence à 7ª GERED (Gerência Regional de Educação e Desenvolvimento), com sede na cidade de Joaçaba e reúne 12 municípios (Água Doce, Capinzal, Catanduvas, Erval Velho, Herval D’Oeste, Ibicaré, Jaborá, Lacerdópolis, Luzerna, Ouro, Treze Tílias e Vargem Bonita). À frente da GERED de Joaçaba, está a Sra. Marizete Rasmussen, representante direta do Secretário de Educação do estado de Santa Catarina.
O município da Vargem Bonita possui umas das maiores arrecadações da região, conforme se pode perceber na Tabela 8 a seguir:
Tabela 8 – Índice de arrecadação da região oeste de Santa Catarina Municípios Índice – agosto/08 ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias) FPM (Fundo de Participação do Município) IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) Água Doce 206,504 218,477 8,445 Catanduvas 214,514 218,477 8,772 Ibicaré 101,975 218,477 4,170 Lacerdópolis 116,35 218,477 4,756 Luzerna 117,500 218,477 4,805 Ouro 175,823 218,477 7,190 Treze Tílias 248,972 218,477 10,182 Vargem Bonita 271,011 212,477 11,083 Fonte: FECAM (2008)
Por outro lado apresenta um dos piores indicadores educacionais e sociais da região, como indicam as Tabelas 9 a 14, apresentadas a seguir:
Tabela 9– IDH dos municípios da região oeste de Santa Catarina
Oeste Santa Catarina IDHM IDHM – LONGEVIDADE
Água Doce 0,809 0,832 Catanduvas 0,791 0,777 Ibicaré 0,804 0,818 Lacerdópolis 0,854 0,856 Luzerna 0,855 0,879 Ouro 0,828 0,812 Treze Tílias 0,813 0,813
Município Vargem Bonita 0,791 0,787
Fonte: PNUD 2000
Tabela 10 – Pobreza e indigência (crianças)
% de indigentes % de pobres
Média Nacional 25,18 45,99
Média Estadual 9,48 24,57
Município Vargem Bonita 15,01 39,52
Fonte: PNUD 2000
Tabela 11– Intensidade de Pobreza
Médias
Média Nacional 49,68
Média Estadual 40,74
Município Vargem Bonita 35,80
Fonte: PNUD 2000 Tabela 12– Analfabetismo Médias % 7 a 14anos analfabetas %10 a 14 anos analfabetas %15 a 17 anos analfabetas %15 anos ou mais analfabetas Nacional 12,36 5,88 4,01 12,94 Estadual 3,49 1,06 1,02 5,88 Vargem Bonita 2,71 0,58 0,63 9,18 Fonte: PNUD 2000
% 7 a 14 anos na escola % 10 a 14 anos na escola % 7 a 14 anos freqüentando o fundamental Média Nacional 94,52 94,65 89,92 Média Estadual 96,67 95,95 93,79 Município Vargem Bonita 96,02 94,94 92,34 Fonte: PNUD 2000
Tabela 14 – Freqüência à Escola %15 a 17 anos na
escola menos de quatro anos %15 a 17 anos com de estudo %15 a 17 anos no ensino médio Média Nacional 77,72 16,38 34,53 Média Estadual 75,31 6,62 45,43 Município Vargem Bonita 73,07 11,14 38,38 Fonte: PNUD 2000
Desta forma cabe observar que há uma concentração de renda do município em poder de uma minoria, ou seja, embora a arrecadação seja uma das maiores da região os índices de pobreza aproximam-se dos índices nacionais. Esta concentração de renda caracteriza uma camada da sociedade do município de Vargem Bonita detentora do capital econômico. Estas famílias possuem grandes extensões de terras para cultivo e criações de animais. Este capital econômico foi garantido em muitos casos pela herança deixada pelos colonizadores que no final do século XIX e início do século XX habitaram as terras de Vargem Bonita. Uma dessas famílias pertence à professora Claudia. Seus bisavós, imigrantes italianos, fundaram a cidade.
Há um certo prestigio me parece. Mais a família Roman acho que pelos bens materiais.(Professora Claudia)
A esse respeito, vale lembrar aqui as palavras de Bourdieu (2005):
(...) as diferenças propriamente econômicas são duplicadas pelas distinções simbólicas na maneira de usufruir estes bens, ou melhor, através do consumo, e mais, através do consumo simbólico (ou ostentatório) que transmuta os bens em signos, as diferenças de fato em distinções significativas, ou, para falar como os lingüistas, em “valores”, privilegiando a maneira, a forma da ação do objeto em detrimento de sua função. (BOURDIEU, 2005, p.16)
Este capital econômico, herdado numa cidade onde há uma discrepância entre arrecadação e distribuição de renda, confere à professora Claudia, vantagens de acesso ao capital cultural e social, mantendo-a distinta em relação a outros professores.
O jogo das distinções simbólicas se realiza, portanto, no interior dos limites estreitos definidos pelas coerções econômicas e, por este motivo, permanece um jogo de privilegiados das sociedade privilegiadas, que podem se dar ao luxo de dissimular as posições de fato, isto é, de força, sob as oposições de sentido. (BOURDIEU, 2005, p. 25)
Embora este seja um município do interior do Estado de Santa Catarina, trata-se das camadas superiores desta cidade, que têm um estilo de vida característico segundo Bourdieu (2007, p.164): “a identidade social define-se e afirma-se na diferença”. Portanto, não é possível observar a dinâmica das camadas superiores interioranas com o olhar da metrópole, o exercício de observação deve buscar marcas das diferenças entre as camadas superiores da cidade e as camadas inferiores. Com este olhar é possível demarcar alguns limites. Há, por exemplo, uma reconversão do capital econômico em capital escolar, já que a professora Claudia, em relação aos seus antepassados – tanto os pais, quanto os avós – ascendeu no que se refere ao capital escolar. Embora haja uma diferenciação do capital econômico dos antepassados da professora Claudia, não havia até este momento da reconversão do capital econômico em capital escolar atrelado a ele, a garantia de ascensão social. Conforme Penna (2007) há uma relação entre a escolha profissional e valores relacionados à dedicação e à crença na escolarização como possibilidade de ascensão social. Segundo estudo de Bourdieu (2007) há um aumento bastante rápido da escolarização das crianças filhas de agricultores franceses entre 1962 e 1975. É possível, portanto, supor que também no Brasil tenha havido, em algum momento, um volume considerável de investimentos dos agricultores em escolarizar seus filhos – é o que se pode verificar, mais adiante, com o relato da professora Claudia, sobre o grande esforço de seu avô da para escolarizar todos os filhos.
2.4. A Escola
A escola Municipal Ângelo Anzolin tem pouco mais de uma década.