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Misatre og Romsdal

In document M@re og Romsdal (sider 41-45)

Como explica Schwartz-Salant, Kohut entendia que o desenvolvimento do self, que havia sido prejudicado na infância pela falta de empatia, poderia ter continuidade na análise, por meio da ressonância empática do analista, que viabilizará a transferência. Assim Schwartz-Salant resume:

Kohut define dois grandes paradigmas da transferência, a que denomina mobilização do self idealizado e mobilização do self grandioso-exibicionista. [...] Ele as considera como formas naturais de desenvolvimento do self, cuja ocorrência precisa ser permitida no decorrer da psicoterapia. [...] Kohut, portanto, enfatiza o potencial positivo e transformativo das desordens do caráter narcisista. (SCHWARTZ-SALANT, 1982, p. 40).

A análise é um vaso que está à disposição para recriar a dimensão do self primário, para re-significar aspectos que não se desenvolveram por falta do espelhamento necessário ao desenvolvimento criativo da personalidade. Espelhar e ser espelhado pode caracterizar o aspecto psicológico mais importante para o desenvolvimento humano.

Nem todos sabem da complexidade da profissão de analista. Ao receber alguém, o analista passa a relacionar-se consciente e inconscientemente com aquela pessoa. Os conceitos de transferência e contratransferência93, que são as ferramentas do seu ofício, exigem da sua alma todo o espelhamento possível. Assim, o processo analítico implica um envolvimento empático que não se faz apenas com o entendimento lógico dos sintomas mais evidentes. A descrição da sintomatologia, na análise, difere bastante da psiquiátrica. Não basta, ao analista, a resolução diagnóstica. Definir com clareza se o paciente é bipolar ou não, se é um

borderline, uma histérica grave, um deprimido grave ou um obsessivo seriamente

comprometido pelos seus rituais, ou, ainda, se é um caso de psicose ou neurose não é suficiente. O comprometimento anímico do analista com o seu analisando

93

A relação analítica expressa-se pelo mecanismo de transferência e contratransferência. A transferência é entendida, pela Psicanálise, como um fenômeno inconsciente que, como o próprio termo diz, transfere à figura do analista conflitos, afetos, idealizações e resistências que foram recalcados por mecanismos de defesa e que serão atualizadas durante a análise. A contratransferência, por sua vez, são as emoções, idealizações, sentimentos que o analisando suscita no analista. A transferência pode ser positiva ou negativa, assim como a contratransferência, que pode ser uma ferramenta ou um empecilho ao fluxo do processo analítico.

envolve esferas muito mais profundas do que apenas a do bom diagnóstico diferencial. Obviamente, um bom diagnóstico não deixa de ser um mapa precioso, e bons diagnósticos nem sempre são fáceis, seja para os psiquiatras, seja para os analistas. Mas o espelhamento que a análise deve propiciar exige do analista devoção e humildade frente a um conflito a ser conscientizado, que se esconde atrás do diagnóstico ou dos sintomas.

O analista estará comprometido narcisicamente com o seu paciente. É o seu narcisismo que estará em jogo. Ele empresta ao processo que se inicia o que tem de mais íntimo, que é o seu narcisismo e, muitas vezes, sua própria fragilidade narcísica. É no envolvimento narcísico de espelhar e ser espelhado e na observação de si mesmo no processo – do quanto se é seduzido, o quanto se observa querendo seduzir, dos sentimentos de inferioridade que afloram, das fantasias de onipotência ou de inferioridade, da angústia de ser abandonado no meio do processo – que o analista obtém suas verdadeiras ferramentas. De alguma maneira, as feridas narcísicas do analista, trabalhadas na sua análise pessoal, viabilizarão sua ressonância empática.

Dessa maneira, a vinculação analítica envolve angústia, ansiedade, raiva e fantasias, eróticas ou não. O verdadeiro espelhamento ocorre, quando a angústia primária se expressa no vínculo analítico, como postula Kohut. O espelhamento, portanto, se faz no reflexo da dor do analisando no corpo do próprio analista, que recebe essa dor e procurará simbolizá-la. É no seu corpo afetivo, portanto, e nas representações que lhe surgem no encontro analítico, que ele pode observar e, portanto, espelhar, o seu analisando. As dinâmicas narcísicas instigadas no analista no processo de análise precisam frequentemente ser observadas, transformadas e conscientizadas por ele próprio, para que, lentamente, os transtornos narcísicos de seu analisando possam ser conscientizados e transformados na direção de seu processo de individuação. Schwartz-Salant nos fala, ao seu modo, sobre esse processo:

Ser espelhado é ser compreendido, é sentir que alguém empaticamente segue nossos pensamentos, sentimentos, experiências etc. Já espelhar outra pessoa requer uma vontade de entrar no seu mundo, suspender o julgamento crítico e refletir o que está sendo oferecido. A necessidade de espelhamento pelo outro dura o tempo de uma vida e representa a

inevitável incompletude que acompanha o crescimento. (SCHWARTZ- SALANT, 1982, p. 60).

A criança interna, na análise, ao se sentir espelhada pela ressonância empática do analista, voltará a se exibir e deverá ser nutrida nos pontos em que o alimento afetivo lhe faltou e ocasionou as feridas narcísicas. As dores narcísicas, descritas como “terríveis” pelos que delas sofrem, são decorrentes de chagas abertas exatamente onde fomos feridos no desenvolvimento de nosso self. Um self ferido não está apenas sujeito às dores narcísicas. Mais do que isso, a estagnação do processo do desenvolvimento do indivíduo como um todo será observada. Assim como uma planta cujo vaso está distante do sol e da água está mais vulnerável aos fungos e ao enfraquecimento de seu organismo, um self ferido e mal nutrido estará aquém de suas possibilidades e terá mais dificuldade na busca de sua realização no que diz respeito ao processo de individuação.

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