Ao comparar as teorias de Kernberg e Kohut, Schwartz-Salant (1982, p.39) assinala que Kohut entende que, no indivíduo narcisista, não há perturbação no self, cuja natureza seria essencialmente positiva, mas apenas uma espécie de estagnação ou de confusão em sua evolução. Mesmo sendo o self narcisista uma estrutura arcaica, para Kohut ela é sólida. Para Kernberg, por sua vez, a estrutura do self “é perturbada de modo fundamental”. Segundo Schwartz-Salant, ele tinha uma imagem bastante negativa da desordem narcisista e considerava que ela piorava com a idade. A visão geral de Kernberg converge com minha observação clínica em muitos pontos, os quais salientarei oportunamente, após apresentar melhor os conceitos de Kohut.
Kohut deixou grandes contribuições para o entendimento da psicodinâmica que envolve o narcisismo. Para ele, o narcisismo surge no início da vida e nos acompanha até o último momento. De acordo com o estudioso, o narcisismo é um “investimento libidinal no self” (KOHUT, 1971, p. 243).
Entendo que o que Kohut chamou de self é uma sensação de unidade que nos mantém vivos e com o sentimento de pertencer a nós mesmos. Assim Kohut define o self:
[O self é] nosso senso de ser um centro independente de iniciativa e percepção [...], de estarmos integrados com nossas ambições e ideais mais centrais [...], e nossa experiência de que nosso corpo e nossa mente formam uma unidade no espaço e um continuum no tempo. (KOHUT, 1988, p.165).
É muito importante que fique claro que o self é um “senso de ser um centro independente de iniciativa e percepção”. Esse senso é um atributo do ego, e não o ego em si. É um aspecto do ego, algo que é vivido e sentido por intermédio do ego. Poderia ser dito que esse senso de ser um centro independente é o senso do eu – o “eu sou”, tão pronunciado na tradição judaico-cristã – Jesus disse: “Antes de Abraão, eu sou” (João 8, 58).
relações. Relações especulares, isto é, relações que refletem, como espelhos, o iniciar do self da criança. Podemos observar que uma criança de cerca de dois anos possui um precário senso de si. Ela não pronuncia “eu quero”, mas sim “dá”, ou “você quer”, ao expressar o seu desejo. Lembro de um menino que dizia “você quer um brigadeiro”, quando ele queria o doce. Ele estava acostumado à pergunta de seus pais: “Você quer brigadeiro?” Ele ainda não tinha noção do eu. Ele ainda não estava apto a dizer “eu quero um brigadeiro”. O seu médico, muito sensível, falou aos jovens pais dele: “Não deixe que ele vá para a escola antes que saiba dizer ‘Eu quero isto’ ou ‘Eu quero aquilo’”. O pediatra parecia ter total consciência de que, antes de a criança se separar de seus pais, seria importante que ela tivesse um centro em si mesma, ou, nas palavras de Kohut, “um senso de ser um centro independente de iniciativa e percepção” que a levaria a dizer “eu quero algo”, ou “eu sou”.
Assim, é no começo da vida que a configuração psicológica se estrutura. Passamos a nos pensar, a nos refletir e a nos sentir ao interiorizarmos as figuras mais próximas e formadoras desse self. As distorções especulares podem transformar um anão em um gigante, ou um gigante em um anão. As ambições mais profundas de reparação narcísica do ser humano têm a sua gênese numa construção do self. Kohut, sabiamente, definiu como self-objetos os objetos do mundo externo que passaram a ser objetos do mundo interno. O self-objeto é um conceito de valor inestimável. Com acuidade psicológica, podemos observar quando o self de alguém está estruturado no ideal que essa pessoa tem de seu pai ou de sua mãe, ou, mais precisamente, quando o self da pessoa está ancorado em um self-objeto idealizado.
Kohut amplia o conceito de self de modo a torná-lo mais claro. Fala, então, do self bipolar. Allen Siegel discorre sobre algumas ideias de Kohut:
O self é a configuração central na Psicologia de Kohut. A principal hipótese, a de que as configurações primárias que formam o self são devidas às relações da criança com os seus self-objetos, deriva do trabalho de reconstrução com os seus analisandos adultos. Esse trabalho levou-o a inferir que o movimento do self nuclear da criança, partindo de fragmentos isolados até chegar ao self coesivo, depende da responsividade dos self- objetos da criança às suas necessidades específicas de desenvolvimento. [...] Uma das configurações, o self grandioso, refere-se ao primeiro self- objeto, o materno, que funciona como espelho, cujas respostas aceitam e confirmam o narcisismo exibicionista da criança. A outra configuração, a
imago parental idealizada, envolve a fusão com um self-objeto idealizado,
que traz um sentimento de perfeição, segurança e completude para o self. Essas duas configurações são componentes da configuração superior que Kohut chama de “self bipolar”. (SIEGEL, 2005, p. 183, grifos meus).
Kohut se dedicou ao estudo do narcisismo partindo da Psicanálise e da observação empírica e, pela ressonância empática na clínica, observou o funcionamento da mente. Dessa observação, resultou que o self possui um aspecto grandioso, ligado à ambição, e outro aspecto de idealização, ligado às imagos parentais. Para ele, então, o self é bipolar. Age como uma balança em que a configuração idealizada irá conter e delimitar o polo grandioso. Esse ajuste se dá por meio da frustração ótima da polaridade grandiosa, que evitará, como visto no estudo da Psicologia de Edinger91, que a inflação do ego vigore no desenvolvimento da personalidade. Para Kohut, a gênese das deformações do self está justamente no desequilíbrio entre essas polaridades.
Siegel comenta o desenvolvimento saudável da criança que consegue fazer a síntese adequada entre esses dois polos:
O self bipolar contém dois polos, um de ambições, outro de ideais. O narcisismo saudável, expansivo e exibicionista da criança constitui um polo. No desenvolvimento normal, o narcisismo associado a esse polo evolui para aquilo que, finalmente, será vivenciado como ambições. O anseio por fundir- se com um self idealizado e estabilizador, controlador de tensões, cria o outro polo. No desenvolvimento normal, o narcisismo idealizado associado a esse polo evolui para aquilo que, finalmente, será experienciado como ideais condutores. (SIEGEL, 2005, p. 184).
O surgimento do eu necessita do ajuste fino daqueles que apresentam o mundo ao bebê, cujo self é carente de self-objetos, isto é, de pessoas que irá interiorizar e que, mais tarde, o conduzirão para a vida social mais complexa. Os pais deverão acolher a necessidade de exibição de seu bebê e espelhá-lo para que ele ganhe confiança em si mesmo e desenvolva a ambição de conquista do mundo externo que, aos poucos, vai se descortinando. Um mundo que começa com a mãe, depois com o pai, e que cresce ao se ampliar na família. Um mundo que cresce em círculos, em esferas sociais que vão sendo integradas na composição da identidade,
à medida que a criança vai idealizando e introjetando as figuras primárias que acolheram suas idealizações.
A ideia de Kohut de um self-objeto é de extrema importância para o entendimento do processo da formação do self, pois, para ele, o sujeito passa a carregar as projeções de modo tão intenso, que esses objetos se fundem à sua noção de eu. Pai e mãe, portanto, passam a ser self-objetos. O desenvolvimento do self se faz das partes para o todo; de aspectos fragmentados, como ilhas de Consciência, à aglutinação no self coesivo, conferindo ao sujeito a sensação de centralidade e permanência no tempo e no espaço.