Design Process
Step 7: The Real Minimized Steel Mass and Optimized Cost Ratios In Figure 4.9a the possible diameter and draft combinations for the TLP with
A região de estudo localiza-se na Ponta-do-Abuña, extremo Oeste de Rondônia, fronteira com os Estados do Acre e Amazonas a leste e ao norte, respectivamente, e ao sul com a Bolívia, situando-se entre os rios Abuña e Aquiri, na Amazônia Ocidental.
A região foi ocupada por imigrantes nordestinos no começo do século XX até os anos 50, que para lá deslocaram-se com o intuito de coletar látex de seringueira para produzir borracha vegetal e extrair castanha-do-brasil.
A partir dos anos 1970, com a crise do extrativismo da borracha e a política de integração da Amazônia implementada pelo governo militar, ocorre a venda dos seringais12 a empresas, criadores de gado e ao governo. Trata-se de uma política deliberada de governo, o que vem a calhar com o interesse dos seringalistas13, que devido aos baixos preços da
12
Extensa área florestal composta de várias unidades produtivas voltadas à extração de látex de seringueira. 13
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – UnB
CENTRO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL – CDS
142
borracha nativa e endividados no BASA, estavam ávidos para vender suas propriedades.
Com a venda dos seringais para particulares e para o governo, os seringueiros foram sendo expulsos ou agraciados pelo Incra com um ou dois lotes de terra. Segundo a Sra. Andênia dos Santos Gama, sócia do Reca e ex-extrativista:
“Houve muito empate14 muita luta do sindicato e dos seringueiros pela posse da terra. Os herdeiros seringalistas foram indenizados pelo Incra, mas os seringueiros foram abandonados à própria sorte. Quem resistiu e não foi para os seringais da Bolívia ou para as cidades de Rio Branco-AC, Plácido de Castro- AC e Porto Velho-RO, conseguiu um lote. Esfacelaram as estradas de seringa15 e piques de castanha, “cortando” os seringais no formato de “quadrado burro”. No começo só tinha um picadão e muitas pessoas morriam de malária. Muitos seringueiros que ganharam o lote do Incra não resistiram e venderam a terra para fazendeiros a preços baratos. Dava pra contar muitas histórias do “Aquiri” e do “Abuña”. Depois do sindicato veio a Igreja Católica e as CEB, o Incra, as Associações de Produtores Rurais e o Reca” (grifo nosso).
O Incra “cortou” (demarcou) uma série de seringais: Triunfo, Santa Clara, Extrema, Novo Oriente, Nova Vida, Mucambo, dentre outros e ali instalou o Projeto de Assentamento Agrícola do Alto Madeira, na denominada Gleba Euclides da Cunha. Desde o processo de identificação, discriminação, desapropriação fundiária até a entrega dos últimos lotes demorou cinco anos.
Em 1980 o Incra identificou e discriminou a área. Em 1982 “cortou” os lotes, abriu os primeiros picadões e estradas vicinais e foi entregando os lotes, completando essa etapa em 1985.
As primeiras famílias imigrantes sócias do Reca chegaram em Nova Califórnia na primeira metade da década dos anos 1980. Segundo o depoimento da Sra. Zelinda Sordi, uma agricultora sócia-fundadora do Reca:
14
Organização de resistência ao desmate, feita por seringueiros, que deslocam-se para o local do desflorestamento com toda sua família e postam-se diante dos peões, não permitindo a derrubada da floresta. 15
Pequenos piques abertos na floresta que ligam o espaço entre uma árvore de seringa à outra, onde o seringueiro coleta o látex da seringueira.
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – UnB
CENTRO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL – CDS
143
“No início da década de 80, as propagandas feitas pelo governo são transmitidas para vários estados e trazem migrantes de muitos lugares do Brasil, em busca de terra em abundância e melhores condições de vida. A notícia se espalhou e o povo foi chegando de todo lugar. Foi então que chegaram migrantes do Sul, do Norte, do Leste, do Oeste e do Centro-Oeste. Era uma beleza, era uma alegria! Parecia que tínhamos chegado à terra prometida” (RECA, 2003).
A interação da população nativa (o seringueiro) que permaneceu no Projeto de Assentamento Agrícola do Alto Madeira com a população imigrante (na maioria proveniente do Centro-Sul) foi difícil nos primeiros tempos. A causa foi a grande diferença no modo de explorar os recursos naturais, de trabalhar a terra, as comidas, as músicas, o modo de falar, enfim, culturas e modos de vida distintos.
Mas o que poderia ser um problema transformou-se num fator positivo e a integração de culturas enriqueceu o ambiente dessa sociobiodiversidade. Houve intensa troca de experiências e o aprendizado na valorização da natureza. Chegaram à conclusão que existiam problemas e pretensões comuns. Então se uniram e fizeram o projeto Reca, que tem como principal finalidade a implantação e consolidação de sistemas sócioeconômicos adaptados à realidade e ambiente local, que buscam a melhoria da qualidade de vida de seus associados de modo ecologicamente equilibrado.
Em 1984 o Incra destinou 800 hectares para a instalação do núcleo urbano nas proximidades do Posto de Combustível e de um restaurante às margens da BR-364.
Entretanto, o poder público não se fez presente nos primeiros anos de implantação do Projeto de Assentamento do Alto Madeira. Após “cortar” e distribuir os lotes e destinar a área para a instalação da cidade de Nova Califórnia, o Incra, único órgão público existente na região ausentou-se da região.
No ano de 1986 o governo do Acre interessa-se pela região e instala em Nova Califórnia alguns serviços e infra-estrutura pública como escolas, postos de saúde, gerador de energia e redes de eletrificação, abertura de ruas e algumas estradas vicinais rurais.
Face a essa intervenção instala-se o conflito público entre os estados do Acre e Rondônia e a região passa a ser uma área de litígio. Para a população foi bom por um lado, pois os dois governos passaram a competir investindo na região, mas a indefinição causava
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – UnB
CENTRO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL – CDS
144
muitos transtornos. Havia muita dificuldade na hora de acessar financiamentos, para votar e exigir os serviços essenciais à população, quando um estado jogava a responsabilidade no outro .
O arbitramento sobre os direitos territoriais da região de Nova Califórnia e Extrema foi levado a cabo pelo Supremo Tribunal Federal, a maior corte de justiça do país, no ano de 1996, quando decidiu que a posse daquelas terras ficaria definitivamente com o estado de Rondônia, dando por encerrado o impasse.
A vida dos colonos nos primeiros anos (1984 a 1988) no Assentamento do Alto Madeira foi árdua. As condições ambientais da Amazônia como fortes chuvas, doenças tropicais e a ausência de infra-estrutura e serviços sociais e produtivos expôs a dura realidade e tornou evidente os problemas por que passariam esse povo.
A inexistência de fomento para as atividades produtivas, principalmente crédito financeiro, dificuldades de escoamento e comercialização da produção e o isolamento, levaram muitas famílias à venda ou abandono de seus lotes e migração para as cidades.
O relato da produtora Zelinda Sordi ilustra bem esses tempos:
“Comercialização não existia. Não existia cooperativa nem comércio para comprar os produtos, nem ramais para escoar a produção. Então se plantava para o gasto. A situação foi se agravando. Com as dificuldades financeiras e muita malária, o povo começou a desanimar. Em 1987 muita gente já falava em ir embora. O pessoal começou a se desfazer dos sítios por qualquer troco e voltar às terras de origem. Muita gente já estava indo embora, outros não foram porque não conseguiram ir” (RECA, 2003).
Nos fins dos anos da década de 1960, foi aberta a BR-364. Na década dos anos 1980 a estrada passa pelo processo de terraplanagem e nos finais dos anos da mesma década início dos anos da década 1990 a rodovia foi pavimentada no trecho Porto Velho – Rio Branco.
Em 1985 foi criada a Cooperativa Agrícola Mista do Alto Abuña. Apesar do apoio inicial e ponto de encontro dos produtores, não prosperou mais que dois anos, visto a falta de experiência em organização comunitária dos cooperados e da direção.
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – UnB
CENTRO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL – CDS
145
Aqueles que resistiram resolveram unir-se. Foi assim que em 1987 criam a Associação dos Produtores Rurais da Linha 5 e dos Pioneiros. Com o apoio decisivo da Igreja Católica, a organização dos produtores foi ganhando força.
Essas associações conseguiram auxílio do Governo do Acre e da Igreja Católica (por intermédio da Cáritas Brasileira), obtendo alguns benefícios, como: trilhadeira, peladeira de arroz, carroça, matrizes de gado bovino, animais de tração e conservação de ramais.
Entretanto, os produtores enxergaram e sentiram a necessidade de um projeto de desenvolvimento integral mais arrojado, onde a atividade produtiva se constituísse na mola propulsora direcionada ao avanço sócioeconômico da comunidade.
Em 1988, reunidos, os produtores da Associação da Linha 5 e Pioneiros, sob o amparo da Igreja Católica, por intermédio da Paróquia São José de Nova Califórnia, Diocese de Rio Branco e CPT, elaboraram um pré-projeto de apoio à produção, onde expunham suas intenções.
O projeto denominou-se “Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado - Reca”. Segundo o líder e agrossilvicultor Sérgio Lopes “o projeto Reca surge, então, como uma proposta da Pioneiros, da Linha 5 e da Paróquia da Igreja Católica de Nova Califórnia”.
No mesmo ano apresentaram o projeto Reca ao Banco do Brasil, Banco do Estado do Acre – Banacre e Banco do Estado de Rondônia – Beron, mas não obtêm socorro dessas instituições. Encaminharam estão ao Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais – Ceris, no Rio de Janeiro, que após discutido e reformulado por diversas vezes foi endereçado à Cebemo na Holanda, que enviou um técnico com formação em Engenharia Agronômica para avaliar o pleito.
O Engenheiro Agrônomo Bernardo Krommendijk, da Cebemo, assim relata os fatos:
“Tive a primeira conversa sobre o projeto Reca em 1988, entre outras, com a presença de representantes do Reca e da CPT. Lembro-me que a idéia original era começar um projeto muito grande. Fiquei impressionado com a convicção dos trabalhadores em poder realizar este projeto tão ambicioso e que não tinha igual na região para servir de exemplo. Eu não tinha razão para duvidar da capacidade e da disposição desses trabalhadores e trabalhadoras de iniciar um
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – UnB
CENTRO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL – CDS
146
trabalho inovador, com riscos e incertezas. Um trabalho muito diferente da lavoura branca, a prática mais comum na região, ...tinha confiança no grupo. O sistema de acompanhamento, fiscalização e técnico foi rigoroso, fazendo com que o projeto desse certo” (RECA, 2003).
O projeto Reca foi aprovado pela Cebemo e no início do ano de 1989 os recursos para implementá-lo começaram a ser liberados, oportunidade em que é fundada a Associação dos Pequenos Agrossilvicultores do Projeto de Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado para efetuar seu gerenciamento.
Hoje a vila Nova Califórnia é um distrito de Porto Velho-RO, possuí uma área de aproximadamente 10.000/km2, população de pouco mais de 3 mil habitantes, dos quais aproximadamente 55% residem na zona rural e 45% na zona urbana, localizando-se às margens da BR-364, a 155 km de Rio Branco-AC e 365 km de Porto Velho-RO.