Na primeira etapa de nossa pesquisa, bem como no projeto apresentado ao Programa de Pós-Graduação, foi sustentada a intenção de mapearmos e aprofundarmos o debate em torno de todos os movimentos de mulheres trabalhadoras rurais – fossem eles mistos ou autônomos – que estivessem articulados estadualmente em Minas Gerais.
Como já apontamos anteriormente, a complexidade no que se refere às formas organizativas, história, estratégias de articulação dos três movimentos atualmente organizados em MG nos revelou, por um lado, um limite que a própria pesquisa encontrava de cumprir uma análise de todos esses movimentos e, por outro lado, apontou para possibilidade de aprofundamento a partir do questionamento de um processo histórico vivenciado por um grupo de mulheres rurais, de modo que a nossa delimitação metodológica e analítica não ficou mais centrada em um ou outro movimento. Nesse sentido, o ponto nodal de nossa discussão amparou-se numa questão que, ao longo de nossa inserção em campo, materializou-se com grande força e proporção, qual seja, o questionamento de porque uma organização das mulheres dentro do movimento misto que consolidou significativos trabalhos na base, com reconhecimento e grande repercussão nacional teve seu trabalho fraturado dentro e a partir das lógicas conflituais do MSTTR, e a partir daí quais estratégias de rearticulação têm sido acionadas para sua organização em outros espaços, dentre eles em um movimento autônomo. Com esse núcleo central, fez-se necessário aprofundar na dinâmica de
constituição, organização, e ruptura que as lideranças organizadas na CEMTR vivenciaram entre os anos de 1989 e 2002 – período em que é composta por uma grande maioria de lideranças de esquerda e cutistas. Além disso, foi preciso também considerar os elementos das dinâmicas dos movimentos autônomos e a experiência da CEMTR a partir de 2002 como contraponto para analisarmos a experiência dessas lideranças no movimento misto no que se refere à construção de suas trajetórias políticas, e à sua construção identitária a partir do enfrentamento das relações de poder.
Passamos, assim, a uma apresentação dos três movimentos articulados no Estado de Minas Gerais, quais sejam, o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC); a Rede de Intercâmbio de Mulheres Trabalhadoras Rurais; a Comissão Estadual das Trabalhadoras Rurais da FETAEMG (CEMTR). Segue abaixo uma breve apresentação e contextualização desses movimentos16:
Movimento de Mulheres Camponesas (MMC)
O MMC é um movimento autônomo que, em Minas Gerais, é composto majoritariamente por mulheres da Região do Vale do Rio Doce. O MMC está organizado em diversos Estados do Brasil e integra a Via Campesina17, que é uma
articulação internacional de movimentos sociais rurais. Como veremos mais no próximo capítulo, o MMC tem sua história integrada à organização de grupos de mulheres que fizeram parte da ANMTR (Articulação Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais) e foi um esforço realizado a partir de 2004 de união de diferentes organizações autônomas de mulheres rurais do país. Um dos propósitos centrais do MMC é sustentar um espaço onde as mulheres tenham autonomia e soberania sobre as decisões e ações do movimento na luta contra o neo-liberalismo, o capitalismo e o patriarcado. Atualmente, suas principais frentes de luta são a previdência social, a campanha por alimentos saudáveis – com
16 Destacamos que no próximo capítulo nos deteremos mais profundamente na apresentação
desses três movimentos, considerando elementos de sua dinâmica de organização e de sua história.
17 Em Minas Gerais, os movimentos que integram a Via Campesina são: MMC, MST, MAB, MPA,
debates em torno da agroecologia, da soberania e segurança alimentar – e o combate à violência contra as mulheres.
Rede de Intercâmbio de Mulheres Trabalhadoras Rurais
A Rede de Intercâmbio é um movimento autônomo de trabalhadoras rurais atuante em diversas regiões do Estado e composto por lideranças que estiveram, em sua grande maioria, articuladas na CEMTR da FETAEMG entre 1989 e 2002. O grupo se formou pela necessidade, detectada pelas lideranças, de organização e de intercâmbio de suas experiências em âmbito estadual, já que, em função da ruptura sofrida dentro da FETAEMG, o espaço da Federação não lhes possibilitava mais essa articulação. As integrantes da Rede estão ligadas aos STTRs de seus municípios e, estadualmente, algumas delas estão articuladas na FETRAF18. No entanto, o discurso de suas integrantes é enfático para o fato que a
Rede não possui vínculo com as organizações estaduais como a FETRAF, a CUT e tampouco a FETAEMG. Seu propósito mais amplo é constituir um espaço de encontro entre lideranças de diversas regiões para democratizar informações, construir projetos e ações coletivas e socializar experiências de mulheres de diferentes movimentos de trabalhadoras rurais. As lideranças da Rede se encontram periodicamente em Belo Horizonte na sede do Movimento do GRAAL no Brasil, parceiro indispensável para a articulação e consolidação do grupo. Atualmente, as reuniões trazem a preocupação de algumas integrantes em institucionalizar o grupo, conferindo-lhe estatuto jurídico, questão essa que vem sendo amplamente debatida.
Comissão Estadual das Trabalhadoras Rurais (CEMTR - FETAEMG)
A CEMTR é composta por um grupo de trabalhadoras rurais organizadas dentro da FETAEMG, prevista em estatuto e integrante da diretoria executiva desta
18 A FETRAF Brasil é uma organização sindical de âmbito nacional, ligada a CUT, com Federações
em diversos estados do Brasil e que se organiza desde 2004 como representante dos agricultores familiares.
instituição. A Comissão existe desde 1989 e, atualmente, tem representantes em todos os pólos de atuação da FETAEMG em Minas Gerais19, e também integra a Comissão Nacional de Trabalhadoras Rurais da CONTAG. Pela CEMTR, já passaram representantes de pelo menos dois grupos de articulações políticas antagônicas que participaram da direção da Federação na época em que houve processos de composição entre a esquerda e o campo conservador (1990-2002) e na época em que apenas o setor conservador permanece (de 2002 em diante). Atualmente, os trabalhos da Comissão são organizados a partir de alguns pontos trabalhados pela pauta da Marcha das Margaridas20, com foco no combate à
violência contra as mulheres e na área da saúde. A CEMTR se organiza em Comissões regionais e locais de trabalhadoras rurais buscando encorajar a sindicalização das trabalhadoras rurais com vistas ao acesso aos benefícios previdenciários.
Após essa breve apresentação dos movimentos sociais que integram nossa pesquisa, re-apresentaremos as perguntas que organizaram nossa inserção em campo e a análise do material. Como veremos, construímos, ao longo da pesquisa, conhecimentos que expressam a forma de compreensão da realidade social e política do mundo atual apresentada anteriormente, de modo que as questões de pesquisa também refletem um caminho metodológico e analítico dialogado entre a teoria e a realidade das trabalhadoras rurais.
1) Sob quais significados psicossociais se consolidou a construção da identidade política das trabalhadoras rurais no que se refere ao estabelecimento de fronteiras políticas entre um Nós x Eles e, portanto, nas relações de poder vivenciadas por elas em sua trajetória de organização no MSTTR? Qual a relação destes significados com a sua organização e com a ruptura dos trabalhos da CEMTR, bem como na trajetória de luta de suas lideranças?
19 A FETAEMG está organizada em 12 Pólos regionais e congrega cerca de 500 STTRs. Dados
consultados no site da instituição: www.fetaemg.org.br
20 A Marcha das Margaridas é uma mobilização de mulheres trabalhadoras rurais de amplitude
nacional, que acontece em Brasília, com o objetivo de mobilizar trabalhadoras rurais, denunciar, propor e negociar junto ao governo federal políticas públicas para o setor. As Margaridas, que na última Marcha somaram em torno de 40.000, são assim chamadas em homenagem à líder sindical paraibana Margarida Alves, assassinada em agosto de 1983, e que teve uma trajetória de luta pela reforma agrária e pelos direitos de trabalhadores/as do campo.
2) Como estes significados psicossociais incidiram na constituição de suas bandeiras de luta, na mobilização de recursos materiais e simbólicos e na articulação de discursos e práticas relacionadas à dinâmica igualdade/diferença? Estes significados revelariam um jeito de fazer política informado por sua experiência como mulheres trabalhadoras rurais?
3) Como o movimento materializa práticas e discursos em acordo com um projeto de sociedade e de desenvolvimento de forma a modificar práticas e agendas político-institucionais?
Em acordo com o nosso objetivo e com o convite feito a nós para a reconstrução de uma rede da organização das mulheres trabalhadoras rurais e considerando que esses aspectos são subsídio para analisar aspectos psicossociais envolvidos na dinâmica de participação política das trabalhadoras rurais, organizamos nosso caminho metodológico em dois planos distintos, mas que se entrelaçam e estão inter-relacionados entre si:
Plano 1: Retratos de Movimentos Æ refere-se a dinâmica dos movimentos – história, bandeiras de luta, estratégias de organização, acesso a recursos materiais e simbólicos;
Plano 2: Vidas em Movimento Æ elementos da trajetória das lideranças nos processos de luta política.
Com essa organização, buscamos construir um espaço metodológico e analítico psicossocial ou sociopsicológico, que não se limita a análises macro-sociais e tampouco se reduz de forma a psicologizar a experiência de luta das mulheres nos detendo apenas no âmbito subjetivo, da biografia pessoal, ou, como alguns autores preferem, no seu aspecto micro-social (Sautu et al, 2005). Pelo contrário, consideramos fundamental experimentar a construção de um espaço que pudesse gerar análises a partir de um ponto de vista sociopsicológico (Prado, 2007).
Diante das questões apresentadas como pontos centrais de nosso trabalho, somada à compreensão do problema epistemológico e sócio-político da produção de conhecimento, e nosso esforço em considerar a dinâmica de interação entre os
planos dos movimentos sociais e da construção das trajetórias das lideranças, entendemos ser importante fazer uma breve reflexão de como essas duas dimensões estiveram em interação durante a pesquisa, bem como das ferramentas metodológicas que lançamos mão na tecitura dessa rede.
3.3 Tecer trajetórias, reconstruir uma rede: os retratos e as vidas em