O aspecto Comunhão de bens e trabalho é de fundamental importância, pois é preponderantemente a partir dele que se estrutura o projeto Economia de Comunhão. Este aspecto engloba a comunhão dos bens e o conceito que a Obra de Maria tem sobre a
economia, o trabalho e a pobreza (Lubich 2004:71). No entanto, para se compreender como essas dimensões da vida são entendidas pelo MF, é necessário partir da compreensão de Deus como sendo Amor, o que vincula este primeiro aspecto ao primeiro ponto da espiritualidade acima citado.
Desde o início do Movimento, de fato, o amor a Deus se manifestava de forma concreta no amor ao próximo. Num primeiro momento, este amor fora dirigido de forma mais direcionada aos pobres, aos que haviam sofrido as conseqüências da guerra. Com o passar do tempo e com o exercício de colocar em prática as palavras do Evangelho, aquele primeiro grupo logo entendeu que o amor possuía características universais, deveria ser dirigido a todos, indistintamente:
E foi, talvez, por este amor exercitado continuamente, que entendemos como o nosso coração não devia dirigir-se somente aos pobres, mas a todos os homens, sem distinção.
Sim, podíamos dar de comer aos que têm fome, de beber e de vestir, mas havia também pessoas que deviam ser instruídas, aconselhadas, suportadas, e outras que precisavam de orações... (Lubich 1984:38)
Pode-se concluir que a experiência de comunhão de bens atuada pelo Movimento dos Focolares possui a novidade de ter sido estendida para fora dos muros dos conventos. É uma comunhão praticada também, e majoritariamente, por leigos. O espaço social em que se concretiza esta comunhão é a própria sociedade. Quando se afirma que esta comunhão foi estendida para fora dos muros dos conventos, não se pretende dizer que é uma prática que não considera este tradicional modo de viver a comunhão. Ele é, de certa forma, englobado, contido nesta comunhão mais ampla e mais leiga. De fato, na Obra de Maria há dois tipos de comunhão dos bens: uma, completa, portanto total, feita pelos focolarinos e focolarinas, semelhante à comunhão praticada no campo das ordens e congregações religiosas, pois os focolarinos e focolarinas colocam todos os seus bens totalmente em comum; outra, medida de acordo com as possibilidades de cada um, realizada pelos outros membros do Movimento, inclusive religiosos e religiosas. A comunhão é praticada tendo por fundamento a liberdade de cada pessoa e não existem taxas ou valores estipulados, com exceção dos focolarinos/nas que, conforme o que foi dito anteriormente, colocam em comum todos os seus bens. Ademais, na concepção do Movimento, o dar, portanto, o colocar em comum, compreende tanto a doação de bens quanto a doação – comunicação – das necessidades. Isto é, também a necessidade apresentada – de um determinado bem ou serviço – é considerada um ato de doação que integra o circuito da comunhão dos bens.
Uma outra característica fundamental da prática da comunhão dos bens no Movimento dos Focolares, que remonta à sua origem, em Trento, é o fato de ela ter sido introduzida como expressão social do amor e da fraternidade. Tanto que uma das metas primitivas da comunidade nascente era erradicar a pobreza na cidade de Trento, principalmente nas condições do pós-guerra. Não se trata da opção pela pobreza ascética característica de muitas outras espiritualidades da Igreja Católica, mas sim de uma renúncia por amor. Renuncia-se a um bem por amor a quem não o possui, colocando em ação a circulação das riquezas e das necessidades.
Desde o princípio a comunhão dos bens constituiu-se num uso ativo dos bens. Não se tratava apenas de desfazer-se deles, nem simplesmente doá-los, limitando-se a isso. Praticava-se uma partilha contínua, sistemática e organizada, estimulada pelo desejo ardoroso de viver o Evangelho de um modo nem intimista e tampouco carnal. Almejava-se um compromisso em fazer dessa partilha a base concreta para uma vida comunitária com um desejo profundo e explícito de um maior equilíbrio social. (Sorgi 1992:63)
A meta de colaborar na construção de um maior equilíbrio social sempre esteve presente no modo de viver dos membros dos Focolares, porém conforme o que foi dito anteriormente, como resultado da caridade colocada em prática no cotidiano das pessoas.
Da caridade florescia o desejo de um maior equilíbrio social.
Nós possuíamos;... os pobres, não. Os ricos possuem;... os miseráveis, não.
Por que não despojar-nos espontaneamente do que é supérfluo – nós que podemos nos privar de pouca ou muita coisa – e destiná-lo aos que morrem de fome e de frio, até elevar com todas as ajudas possíveis, sugeridas pela caridade, o seu nível social? (Lubich 1984:37)
Neste trecho de Lubich é importante notar que, além da comunhão derivar da atuação do amor ao próximo – da caridade26 –, ela visava, desde os primórdios, a emancipação da pessoa também no que se refere à questão financeira.
Uma primeira sistematização da comunhão dos bens aconteceu em 1948. Lê-se em um escrito desta data, publicado no vademecum27 do primeiro aspecto:
Foi neste último Natal que uma de nós teve a maravilhosa idéia de pedir à espontaneidade das pessoas a atuação de um plano semelhante àquele dos primeiros cristãos... Que cada um doasse tudo o que possuísse, do qual poderia se privar sem causar danos a si mesmo e às próprias exigências “evangélicas”. Algo possível de
26 Caridade, na concepção dos Focolares, não se reduz ao ato de assistir quem está em dificuldade, como, por exemplo, dar esmolas, mas tem por significado o amor praticado em todas as esferas da vida humana; a concretização do “mandamento novo” de Jesus: «Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros» (Jo 13,34).
27 Em 1983, foi publicado, no âmbito do Movimento dos Focolares, um vademecum de sete volumes, cada um deles dedicado a um dos aspectos da vida concreta da Obra de Maria.
ser feito entre nós, educados a uma totalitariedade de vida no cumprimento prático do grande preceito: “Ama o Senhor teu Deus com todo o coração...” (Lc 10,27). Cada um levaria o que possuísse a mais, sobretudo em dinheiro, e se comprometeria a dar uma soma estabelecida por ele todos os meses.
Com o dinheiro recebido seriam ajudadas, mensalmente, as famílias pobres; e esta delicada tarefa seria regulada com toda caridade e discrição.
O objetivo era chegar ao ponto de não existir mais nenhum pobre entre nós, que todos tivessem o necessário para viver.
O resultado da soma obtida e do compromisso mensal foi inimaginável e conseguiu, já no primeiro mês, atender 30 famílias. (Guella; Basso; Venturini 1983:19-20) [tradução nossa].
Não se tem notícia da duração desta comunhão sistematizada. Provavelmente ela se desdobrou e se concretizou na comunhão que se realiza no interior das ramificações do MF de acordo com cada um de seus regulamentos específicos. É importante perceber que esta comunhão se deu e se dá no nível interpessoal, ou seja, os bens colocados em comum se originam da renda pessoal de quem pratica tal comunhão.
O aspecto do vermelho contém outras dimensões, como o trabalho, a pobreza e a Providência. Considerando-se o âmbito desta dissertação, procurou-se destacar o que tem relação com a comunhão dos bens. Neste sentido, este estudo não vai tratar da questão do trabalho nem da Providência e, em relação à pobreza, ressalta o fato de que ela não é vista como um fim em si mesmo, mas como meio de se estabelecer a comunhão entre as pessoas, pois comporta o desprendimento e a doação, sempre por amor.
É importante ressaltar que a pobreza não é um fim em si mesmo, ela deve construir o Reino de Deus entre nós, compor, a partir de um mosaico dividido em peças, um único desenho que une a todos. (Guella; Basso; Venturini 1983:27) [tradução nossa].
Este aspecto, o vermelho, contém também o projeto Economia de Comunhão, ao qual será dedicado o próximo capítulo, com o intuito de apresentar a sua origem, história, constituição e principais elementos: características, categorias e princípios.