Ao realizar o estudo da tragédia de Édipo levando em conta o campo histórico-jurídico, parece-nos claro que Foucault rejeita qualquer aproximação com a leitura freudiana da fábula de Sófocles. Seu esforço por desmistificar a figura edípica passa mais por libertar o herói trágico dos grilhões que o determinam como uma estrutura fundamental da existência humana, ou seja, como uma história primordial e universal do desejo. Influenciado pela série de autores e obras já citadas neste capítulo e por outros trabalhos como L’Anti-Œdipe de Deleuze e Guattari, o filósofo francês assenta as bases teóricas da trama num complexo jogo que se estabelece entre saber e poder, entre conhecimento e política.
É nesse sentido que, para ele, a trama discorre acerca da repressão histórica que pesa sobre os sistemas ocidentais de verdade. Se de alguma maneira estamos submetidos a uma determinação edipiana no Ocidente, esta não é no nível do desejo, como acredita a psicanálise, mas sim no interior de nosso discurso verdadeiro. Refere-se mais a um sistema de coações que sustenta, desde a Grécia, o discurso sobre a verdade e que se expressa a partir da exigência política, jurídica e religiosa de converter o acontecimento num fato conservado definitivamente por meio da comprovação das testemunhas. Édipo é, em síntese, uma história da verdade, em que há um crime que precisa ser desvendado e um criminoso a ser punido, e cada uma das partes da investigação atende rigorosamente às leis áticas da época.
PARTE 2
OEDIPUS TYRANNUS: UMA HISTÓRIA DE SABER E PODER
Cuadrúpedo en la aurora, alto en el día y con tres pies errando por en vano ámbito de la tarde, así veía la eterna esfinge a su inconstante hermano, El hombre, y con la tarde un hombre vino que descifró aterrado en el espejo de la monstruosa imagen, el reflejo de su declinación y su destino. Somos Edipo y de un eterno modo La larga y triple bestia somos, todo lo que seremos y lo que hemos sido. Nos aniquilaría ver la ingente forma de nuestro ser; piadosamente Dios nos depara sucesión y olvido
Jorge Luis Borges
1. INTRODUÇÃO
Uma história de saber e poder: é assim que Foucault descreve a tragédia de Édipo. Consideradas algumas variações de enfoque, esses dois temas são recorrentes em suas interpretações sobre a fábula de Sófocles e, ademais, parece-nos que essa opção teórica está longe de significar uma atitude despretensiosa. Não por acaso, por exemplo, a primeira leitura foucaultiana de Édipo surge no curso Leçons sur volonté de savoir, pronunciado nos anos de 1970- 1971, e situa-se exatamente entre a obra l’Archéologie du savoir, de 1969, e o limiar de seu período genealógico, dedicado ao estudo dos regimes de verdade e de poder. Nesse sentido, as conferências de 1973 pronunciadas no Rio de Janeiro estão também muito próximas da publicação de seu livro de 1975, Surveiller et punir, e um exame um pouco mais atento percebe alguns temas convergentes nos dois trabalhos, tais como as questões judiciais que envolvem a investigação, o exame e a prisão e a problemática acerca do olhar.
Duas perspectivas, ao mesmo tempo antagônicas e complementares, podem ser mapeadas nas análises foucaultianas a respeito da tragédia de Édipo na década de 70. Primeiramente, na
esteira de Nietzsche256, o esforço de Foucault está em invalidar a antinomia platônica entre esses
dois campos, ou seja, “onde saber e ciência se encontram na sua verdade pura, aí não pode mais
existir poder político”257.O que ele pretende é discutir a maneira pela qual, em cada época, o poder
político conspirou com o saber, percebendo de que forma, por um lado, do poder surgem efeitos de verdade, e, por outro, como os jogos de verdade fazem de uma prática ou de um discurso um lugar
de poder258. Por isso, ao afirmar que Édipo é “fundamentalmente o primeiro testemunho que temos
das práticas judiciárias gregas”, sendo “um procedimento de pesquisa da verdade que obedece
exatamente às práticas judiciárias gregas dessa época”259, ele não somente retoma a trama de Édipo
como a narração do nascimento do direito ocidental, mas a assinala, definitivamente, como a problematização de um saber político; talvez a primeira história de saber-poder.
Noutra perspectiva, Foucault reconhece que Édipo significa igualmente uma ruptura entre saber e poder. Ele entende que há, tanto em Platão como em Sófocles, uma desqualificação do poder que se liga a um saber específico, e o que eles combatem é essa tentativa dos tiranos e dos sofistas de tentarem reabilitar a sobreposição do poder com a τέχνη; do poder mágico religioso comum às civilizações orientais, em especial nos impérios assírios. Trata-se uma clara resistência ao modelo social no qual o soberano detinha o poder da mântica, da justiça e da vida política.
256 Dois textos podem servir de referência: aula de 9 de dezembro de 1970 do curso Leçons sur La Volonté de Savoir e a
primeira conferência de A verdade e as formas jurídicas, de 1973.
257
FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas, p. 51.
258
REVEL, Judith. Dictionnaire Foucault. Paris: Ellipses, 2007.
A tragédia de Édipo nada mais é, então, que o ponto de emergência de um longo processo de decomposição que foi se estabelecendo na Grécia acerca da relação entre saber e poder. Ela é o exato momento em que a política se divorcia do saber, para dar origem então ao homem do poder
revestido de ignorância: “cego, que não sabia e não sabia porque poderia demais”260. O que Platão
instaura é um movimento de antinomia entre saber e poder, no qual se valoriza o contato com os deuses e as lembranças contidas na memória, mas nunca a figura do político: “o homem do poder e
do saber, aquele que dominava tanto pelo poder que exercia quanto pelo saber que possuía”261.
Diante dos excessos de Édipo e seu poder em demasia, podemos afirmar com Foucault que há uma nova compreensão de política a partir do século V. Juntamente com a imagem do rei sábio, que sustenta, governa, pilota, endireita a cidade e a livra da peste e da fome, e a sua versão rejuvenescida, o tirano, que salva a cidade, mas o faz desviando-se do oráculo dos deuses, o que desaparece com a história de Édipo é o saber-poder ligado às transgressões e às lutas. E o que aparece no seu lugar é uma noção de poder relacionada diretamente com a pureza, com o desinteresse e com a vontade inocente de conhecer. Não há mais, desde a saga edipiana, a verdade no poder político; este é tido como ignorante, obscuro e cego.
Sem a pretensão de esgotar os sentidos que as noções de saber e de poder adquirem nas interpretações foucaultianas de Édipo, estes elementos teóricos nos ajudam a compreender aquela que parece ser uma das perguntas centrais para Foucault no estudo da tragédia de Sófocles: quais são as formas e os desdobramentos do saber tirânico que surgem com Édipo e que marcam definitivamente as relações entre verdade, poder e direito no ocidente? Nesse sentido, nas páginas que se seguem, nosso objetivo é, com Foucault, intensificar a leitura política do Édipo-Rei, definindo quais são as características, as lutas e os ajustamentos do saber-poder edipiano.
260
FOUCAULT, Michel. A Verdade e as formas jurídicas, p. 50.