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education often depends on the ability of familes to pay, The situation is particularly difficult for a "large portion of rural and indigenous (and black)

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Uma leitura superficial pode imaginar que Foucault dedica à Esfinge um valor simplesmente literário, ou seja, ele compreende que a função dessa figura no interior da tragédia se limita a assinalar a passagem entre o Édipo fugitivo de Corinto para o Édipo reinante em Tebas. Mas podemos constatar que suas análises nos remetem para muito mais do que isso. Nas poucas vezes em que a Esfinge é mencionada em seus textos, parece assumir uma finalidade muito própria: Édipo é posto à prova e vence seu maior desafio. E para que isso ocorra, sua grande arma é a inteligência (γνώµη). É o que lemos na conferência de 1972, quando ele diz que “Édipo se gaba: é sozinho, é ele

mesmo (αὺτός) que pôde resolver o enigma da Esfinge. Ninguém lhe tinha ensinado nada”544. Vale

lembrar que essa ideia serve de espelho para os primeiros versos, nos quais o sacerdote clama pelo saber de Édipo para combater o monstro que ameaça a cidade: “Porque tu livraste a cidade de Cadmo do tributo que nós pagávamos à cruel Esfinge; sem que tivesses recebido de nós qualquer

instrução”545.

E se Édipo se sente confiante para não dar a devida importância ao saber dos deuses e do profeta, é porque, no momento decisivo, ele soube ouvir e interpretar a pergunta mortal da Esfinge. Segal salienta que ainda que, em Ésquilo e Sófocles, o enigma da Esfinge se constitua como uma parte fundamental do drama de Édipo, é somente o segundo que apresenta o herói lutando contra esse tipo de adivinhação. Nesse sentido, os enigmas se transformam numa importante chave de leitura das tragédias escritas por Sófocles, pois eles permitem que o autor contraponha a inteligência

humana à percepção inspirada e não científica de qualquer forma de profecia546. Não temos dúvida

de que para Foucault, o texto trágico constrói a reputação de Édipo baseado na perspicácia de sua

resposta à Esfinge547. E mesmo que o sacerdote sugira que um deus o ajudou548, ele não se cansa de

insistir que resolveu sozinho: “à minha inteligência recorri”549.

Conta-se que a Esfinge começou a assediar Tebas como vingança de Hera contra Laio, por atos que ele havia cometido com o jovem Crisipo. Por isso, todos os anos, os governantes eram obrigados a enviar para ela seus melhores jovens, suas vítimas preferidas, a fim de que eles enfrentassem seus terríveis enigmas. Caso eles não soubessem responder, eram imediatamente mortos. Isso fazia com que a cidade, ano após ano, perdesse a maior parte de seus habitantes juvenis. Quando entra pelas portas de Tebas, Édipo é apenas um jovem viajante sem rumo, que

                                                                                                                         

544

FOUCAULT, Michel. Le Savoir d’Œdipe In: FOUCAULT, Michel. Leçons sur La Volonté de Savoir, p. 239, tradução nossa.

545 SÓFOCLES. Édipo Rei, 35-37.

546 SEGAL, Charles. Oedipus Tyrannus, p. 32-37. 547

Ver em Foucault, por exemplo, Le Savoir d’Œdipe, p. 230 e A verdade e as formas jurídicas, p. 47.

548

SÓFOCLES. Édipo Rei, 38.

algum tempo antes havia assassinado um homem e quase toda sua comitiva na encruzilhada. Mas o que ele vê justifica o terror no rosto da população: um monstro com cabeça e seios de mulher, corpo e patas de leão. O regente Creonte, substituto de Laio no trono e naquele momento detentor absoluto do poder, imagina que o estrangeiro belo e de porte audaz pode ser a oportunidade de livrá-los daquele mal. Como recompensa, oferece em casamento sua irmã, a rainha Jocasta.

Na tradição grega clássica, o nome Σφίγξ deriva do verbo Σφίγγω, que significa estrangular; referência direta ao tipo de morte aplicada pela Esfinge às suas presas. Uma outra interpretação diz que, em realidade, ela rapta e devora suas vítimas. Independente disso, e para além de todo sangue e violência que a tragédia edípica carrega consigo, a iconografia vascular grega apresenta, quase que exclusivamente, um duelo de sabedoria entre Édipo e a Esfinge. O que vemos é que ele avança com um gesto ligeiro e seu rosto expressa doçura e mansidão, contrariando a missão suicida que acabara de aceitar. Sua testa não franze, gesto comum aos que fazem esforço para entender, mas está lisa, como alguém que controla e domina a situação, enquanto ela, que em nada se parece com o monstro canibal e homicida descrito nos mitos, aparece próxima, olhando fixamente para seu interlocutor. Os vasos gregos nos mostram que pouco da etimologia que faz da Esfinge um demônio da morte está visível na tragédia de Sófocles, e isso pode significar uma escolha consciente do autor.

O enigma, para Sófocles, não está desconectado do fundo trágico da história. Ele revela a fortaleza e a fraqueza humana e aponta para Édipo como o mais contraditório dos homens: aquele que combina, numa intensidade impressionante, inteligência e ignorância. E se ele se torna apto para responder à Esfinge, é porque, em sua natureza, habita um ser igualmente oculto. Segal observa que a mais antiga forma de enigma que conhecemos usa os pés para perguntar sobre as diferentes gerações da humanidade. E a resposta é tanto “homem” como “Édipo”. No primeiro caso, é a precariedade e a natureza mutável dessa criatura solitária, que usa a mente para mudar seu modo de locomoção à medida que progride ao longo da vida. No segundo caso, Édipo, autoconsciente e inteligente, é o solucionador de seu próprio enigma. O nome dele, em uma possível etimologia, sugere o significado de sua resposta (oida, “eu sei”, e pous, “pé”), isto é, “aquele que conhece o

mistério dos pés”550.

Em La Naissance d’Œdipe e, Bollack destaca a importância da Esfinge para a obra de

Sófocles:

Édipo resolve o enigma e mata a Esfinge. Imediatamente, ela mesma se precipita em sua morte. Desde muito tempo, pois, a vitória, é resultado de um saber. Para compreender Sófocles, importa perguntar-se qual é o sentido do saber superior de Édipo na tragédia. Essa cena de enfrentamento, a mais heroica, se perfila na distância da peça como sinal de uma eleição551.

                                                                                                                         

550

SEGAL, Charles. Oedipus Tyrannus, p. 32-37.

No decorrer da história antiga, a Esfinge assume variados tipos. Um deles, bem comum e

citado por Sófocles no Édipo-Rei, é a da cadela cantora (ῥαψῳδὸς κύων)552. No imaginário grego, a

cadela é uma perseguidora, que pode ter sido enviada a Tebas para castigar Laio por sua culpa. Existe também a denominação de animal insolente, que, sendo do gênero feminino, desafia os homens da cidade e os mata. O que se constata, no entanto, é que com arrogância ela vence os cidadãos com um duelo de intelecção que utiliza o enigma.

Um monstro assassino, com aparência de mulher não é algo estranho à mitologia grega. Juntamente com Górgona e Equidna, a Esfinge se enquadra no grupo de seres femininos ferozes, raptor de almas, de natureza depredadora e infernal, que com suas asas e garras leva a vítima para a terra dos mortos. Sem embargo, animais como esses carregam consigo uma sabedoria oculta, que se expressa pelo canto (αοιδέ) e que quase sempre, ao mesmo tempo, encanta e arruína. Nesse sentido, ela, que associa a esfera da poesia e da morte, aproxima-se das sereias cantoras de Ulisses, que, com belíssimas vozes, primeiramente seduzem para depois aniquilar. Ambas têm em comum que suas vozes superam muito a linguagem humana. E quando algum homem escapa ileso de seu poder cantor, algo acontece: elas se precipitam do lugar de onde estão para a própria morte. A Esfinge, bem como as sereias de Ulisses, promove, com suas vítimas, encontros de caráter ambíguo, pois são portadoras simultaneamente de Eros e Tânatos; do abraço sedutor e da morte eminente. É o que se vê, por exemplo, em alguns dos antigos vasos gregos, como em obras pictóricas modernas, que insinuam que, entre Édipo e a cadela cantora, há um encontro erótico.

A Esfinge integra um conhecido e difundido modelo narrativo na história de Sófocles. Ela serve como um ritual de passagem, no qual o herói é obrigado a derrotar o monstro para obter acensão social, passar da idade juvenil para a adulta, de celibatário para casado, de estrangeiro para rei. Por isso, mais do que manter um embate sangrento entre os dois, característica comum à fase precedente ao mito, o poeta promove uma batalha que se desenvolve em torno das palavras e da escuta.

E por que Édipo pode escutar a Esfinge? Bettini e Guidorizzi553 observam que o herói de

Sófocles é possuidor de dois nascimentos, o que lhe garante duas naturezas. A primeira delas é a de ser filho de rei e destinado a converter-se também em rei. Nascido no palácio de Tebas. Civilizado, vivendo entre casas, homens, deuses, templos, comércios, animais. A segunda natureza é a selvagem. Dado para morrer no Citerão, envolto em panos e amarrado pelos pés. Nascido outra vez, mas agora entre as feras, as tocas, os nômades, as ninfas, as árvores. Édipo é duplo: um ser com duas caras, homem e animal ao mesmo tempo. Ele “[...] será sempre um homem em parte marginal,

                                                                                                                         

552

SÓFOCLES. Édipo Rei, 392.

um ser que, justamente por esse motivo, sabe interpretar as vozes dos animais e, portanto, é capaz

de compreender a pergunta da Esfinge, animal falante”554.

                                                                                                                         

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