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O cinema é ainda em nosso paiz, a forma mais prestigiada de divertimento, para o público em geral. A multiplicidade dos seus aspectos, favorecida anda mais nos últimos anos, pelas vantagens que o som trouxe ao écran, deu ao cinema raízes inarrancaveis do coração do público.
A Semana63 Ao trabalhar com o cinema durante a Segunda Guerra deve-se mencionar o mérito da indústria criada em torno do ícone produtor de filmes que se tornou Hollywood e a criação dos símbolos humanos que se transformaram em astros e estrelas cultuados em várias partes do globo.64
A produção cinematográfica desenvolvida nos Estados Unidos criou um sistema de divisão industrial que envolveu desde a produção, distribuição e exibição e incorporou diversos países. O Brasil passou a ser rota importante para essa indústria durante o segundo conflito que, em grande parte, consumiu os filmes vindos da grande fábrica de ilusões.
No final da década de trinta do século XX, na cidade de Belém, o cinema era uma das formas de lazer mais freqüentadas pela população citadina, sendo os filmes produzidos pela indústria cinematográfica de Hollywood os mais exibidos nas salas de projeção e, também, os mais apreciados. Nota-se nas fontes pesquisadas a euforia causada nos fãs pela passagem das estrelas cinematográficas na cidade e pela exibição de suas películas nos cinemas.
As produções cinematográficas norte-americanas eram as grandes referências artísticas para os leitores dos jornais e revistas da época. Meneguello (1996), ao trabalhar com o cinema hollywoodiano, destaca as várias etapas inclusas na produção e exibição de um filme. O consumo por parte do público dava-se de diferentes formas, pois assistir a película nos cinemas fazia parte de um ritual que começava com as publicações na imprensa, os cartazes, os artistas em destaque.
63 A Semana – Belém, 23 de fevereiro de 1939, nº 1024.
64 Na história do cinema americano, Hollywood formou-se em torno do conflito existente entre as grandes
produtoras e os produtores independentes, que buscavam autonomia na produção e comercialização de filmes no mercado cinematográfico dos Estados Unidos. Sendo assim instalaram-se no Sul da Califórnia concentrando a produção cinematográfica dando visibilidade para Hollywood “no principio de 1920, quando se falava em fitas
Nas décadas de 1930, 40 e 50, o cinema norte-americano ocupou uma posição estável como produção cinematográfica. Cinema comercial, de instalação, sedimentação e superação de talentos, manteve-se como dono de bilheterias e, em larga medida, dono de escolhas estéticas, além de assumir-se como referencial para uma platéia mundial de milhões de pessoas. Esta constatação torna no mínimo incompleto referir-se ao Brasil (ou à América Latina) dos anos 40 e 50 sem dar-se conta da inserção deste cinema nos debates, referenciais estéticos e comportamentais deste período.65
A inserção dos filmes norte-americanos nos cinemas brasileiros foi conquistada após a primeira guerra mundial e alcançou grande repercussão durante as décadas de 30, 40 e 50. Em Belém, os debates e referenciais estéticos e comportamentais são bastante visíveis quando analisados a partir da imprensa local, sendo que o glamour criado em torno dos astros e estrelas era a primeira forma de chamar a atenção do público local que, ao ler os anúncios nos periódicos, podia ver em destaque a foto tirada do filme com o rosto das estrelas, bem como os cartazes dos filmes nas salas de projeção e a vida desses grandes atores e atrizes, que apareciam na imprensa com realce para os “fans” da cidade de Belém.
A revista A Semana trazia na sua contracapa a foto de artistas de Hollywood, geralmente os que estavam estrelando filmes nas salas de projeção da capital paraense, ou a reportagem intitulada “Para o álbum dos fans”, que vinha com a foto do artista e um pequeno texto biográfico. A revista dava muita importância para o estilo de vida dos atores e atrizes dos filmes a serem exibidos, mas também possuía uma coluna sobre o cinema brasileiro escrita pelo correspondente da revista no Rio de Janeiro Milton Lacerda; e outra intitulada Focando escrita por Everaldo, que retratava o cinema e suas estréias na cidade.
As matérias sobre cinema sempre eram direcionadas para os seus apreciadores “e foi assim, para prazer dos fans da sétima arte, que fomos ouvir o
director gerente da Referida Empreza sobre os sucessos a serem apresentados breve nas telas de seus cinemas”66. Os fãs ditavam quem eram os artistas do momento, quem estava em evidência, ou mesmo aqueles artistas que eram os mais queridos pelo público.
de cinema norte-americanas, já se começava a usar o nome Hollywood para descrever um lugar, uma gente e, como disseram muitos com o passar dos anos, um estado de espírito”. SKLAR, op. cit., p. 85-105.
65 MENEGUELLO, Cristina. Poeira de estrelas: o cinema hollywoodiano na mídia brasileira das décadas de 40
e 50. Campinas: Editora da UNICAMP, 1996.
A Semana publicou no dia 06 de maio de 1939 uma reportagem sobre a atriz
Sylvia Sidney destacando sua vida, sua carreira artística e seus principais filmes. Ao anunciar o novo filme da atriz mencionou “proximamente, vamos tornar a ver a
‘Namorada do Pará’ como é conhecida Sylvia Sidney, em Belém”.67 Assim a atriz era conhecida na imprensa da capital paraense, sendo que no jornal Folha do Norte, de 12 de maio de 1939, o título da reportagem sobre a estréia do filme nos cinema Olímpia e Iracema foi “A ‘Namorada do Pará’ resurge em um grande film – ‘Vive-se
uma só vez’ – hoje, no Olympia e Iracema”.68
Baseado no gosto do público belenense a reportagem destacava a performance de Sylvia Sidney na cinematografia, tornando-a a “namorada do Pará” devido à preferência pelos seus filmes: “o público paraense que adora Sylvia Sidney vae ter, á noite de hoje, a grande satisfação de revela no film que vem sendo apontado unanimemente como o seu melhor desempenho ‘Vive-se uma só vez’.69
Para as reportagens e anúncios dos filmes a serem lançados nas salas de projeção da cidade os destaques se davam para as estrelas principais e sua constelação acompanhante. Fossem homens ou mulheres o direcionamento dos anúncios tinha a idéia de alcançar o público fã dos (as) artistas e incentivá-los a assistirem as exibições “(...) Sylvia Sidney está formidável de sinceridade nesse film
impressionante em que ella tem de novo a seu lado Henry Fonda (...) o público não resistirá ao desejo de applaudir Sylvia Sidney”.70
Tanto no jornal quanto na revista, Sylvia Sidney era apresentada como a “estrellinha” adorada pelos fãs belenenses. Ir às salas de projeção e assistir ao seu ator ou atriz preferidos fazia parte da rotina de muitos apreciadores de películas. É o que sugerem as palavras do redator da revista ao tratar sobre o processo de consolidação do cinema no Brasil e na cidade de Belém.
Jurandir (1960) descreve a primeira sessão de cinema assistida pelo personagem do seu romance Alfredo, que veio do interior paraense para a capital do Estado (Belém) estudar. Alfredo conhecia o “famoso” cinema Olímpia somente através dos relatos de sua mãe e sonhava um dia ir a capital assistir a uma sessão.
67 A Semana – Belém, 06 de maio de 1939, nº 1024. 68 Folha do Norte – Belém, 12 de maio de 1939, p. 03. 69 Ibid. 12 de maio de 1939, p. 03.
E pela primeira vez no cinema! O cartaz, lido e relido, à porta do Odeon, Largo de Nazaré, berrando: ‘O Furacão’, em série, Charles Hutchison no papel de Robert Darrel. Arrojo! Temeridade! Denodo! (...) Alfredo montava na motocicleta de Robert Darrel atrás dos bandidos, lá se ia-que-ia, tão tamanha velocidade, desce, sobe, voa, voando sempre, e debaixo de tão tamanho silêncio, correria danada mas tão mudo, mudo. Só aqui em baixo, quase de não se dar conta, a musiquinha pinicando quieto, quieto. A artista a mesma em dois papéis, pra cá, pra lá, era nos beijos, beijos no bigodinho, o da quadrilha, beijo no bichão da motocicleta, uma beijaria doida. E Alfredo arriscava o rabo de olho pro lado na d. Inácia, a filha, a prima... Os olhos! Os bugalhos das três no escuro, puxados pra tela!desconfiou que a d. Emília tinha o beiço caído ou de bico no ar, aparando a beijarama... mas eis que a motocicleta salta alto, rompe a tela, eivém de novo, um raio e o violino pingando devagarzinho as suas gotas na maior maciota enquanto moto e bandido lá vai! É um precipício... Acendeu a luz, acabou. Só na outra quinta feira ‘O Furacão’ continuava.71 Na motocicleta imaginária do personagem principal (o nome do artista, Charles Hutchison, dava importância para o personagem) da série. Alfredo passeou, realizou a experiência de sua primeira vez em um cinema. A reflexão feita pelo autor retratou a sensação de qualquer pessoa que fosse pela primeira vez ao cinema nas décadas iniciais. A vivência construída dentro das salas, o sentimento de possuir as mesmas qualidades do ator (arrojo, temeridade, denodo) e os romances construídos nas telas pelos personagens instigavam o desejo de ser ou estar parecido. O silêncio mostrava a concentração em torno da tela e da trama do filme; os olhos “esbugalhados” de atenção ou os beiços caídos querendo capturar um beijo do mocinho ou da mocinha tornavam a película uma excelente diversão que poderia ser trazida para a realidade.
Os filmes apresentavam novos modelos de vestimenta, produtos industrializados, bem como palavras utilizadas nas películas, que se incorporavam no cotidiano da população citadina, tais como “Girls... Uma palavrinha que veio
revolucionar o mundo e criar uma nova técnica do trato com as mulheres”.72 A palavra “girls”, que na sua tradução para o português significa garota, assumiu outra significação em relação a sua utilização, pois o que definia ou representava moça no termo saxão, no aspecto mais inocente e literal, passou a representar no Brasil a mulher bonita e envolvente que aparecia nos filmes.
Ora, ahi temos um produto típico do cinema. A garota travessa, surgida dos desenhos de Betty, porejando saúde, cheia de curvas, que não são adiposidades, e dispostas a “topar” uma convivência menos cheia de freios
71 JURANDIR, D. op. cit. p. 76.
e breques. Essa disposição tem que ser coerente; até na indumentária. Seriamos incapazes de considerar “girl” a menina que se veste como uma dama, com todo o rigor do “chic” francez. A “girl” típica tem de estar levemente vestida, esportivamente encadernada. O sapato de cortiça, a “soquete”, o linho claro, o chepeuzinho equilibrado, sem recruscomanto, no cocuruto, eis a “girl” “made in Hollywood”.73
O perfil feminino apresentado pelos filmes “made in Hollywood” demonstrava uma mudança ocorrida nos aspectos culturais de um Brasil em transformação que, até então, estava ligado culturalmente às influências européias até a Primeira Guerra Mundial. Contudo, as diversas mudanças que aconteceram durante as décadas de vinte e trinta tiveram como característica importante o cinema norte- americano, que alterou determinadas formas de comportamento da mulher brasileira, que antes tentava seguir o modelo cultural francês.
A mulher “girl” assumiu aspectos esculturais despojados, eternizando o estilo norte-americano de vida propagado pelos filmes, definindo como seria a nova forma de cultuar o corpo feminino, sendo cheia de curvas e revelando uma garota mais independente. Tornava-se irresistível com uma vestimenta mais leve e sensual, pois assim era repassado para os “fans” o preito às beldades cinematográficas hollywoodianas.
Esse artigo intitulado “Cineminha” foi transcrito do jornal Estado de Minas pelos redatores da revista por “se casar igualmente às bonecas de Belém...”. Do mesmo modo como se casava com as bonecas de Belém e Minas Gerais, poder-se- ia estender para as outras capitais brasileiras essas características incorporadas à cultura de consumo dos produtos norte-americanos.
A respeito da veneração criada em torno das estrelas dos filmes, destaca-se Morin (1989) como interlocutor das discussões sobre a sedução no cinema.74 O autor principiou seu trabalho discutindo a mudança ocorrida nos primeiros anos de vida do cinema, que se caracterizou pelo reconhecimento das personagens cinematográficas em detrimento dos atores e atrizes. Contudo, a partir da segunda década do século XX ocorreu uma mudança e as estrelas tornaram-se a atração principal dos filmes.
Essa mudança transformou o culto ao personagem para o culto aos atores e atrizes, demonstrando o grande significado das várias facetas apresentadas pelas
estrelas em ascensão em seus filmes e fora deles, tornando-se, dessa forma, alvos de discussão em volta de suas vidas. Fossem heróis ou vilões, mocinhas bondosas ou vamps sugadoras de almas, o estereotipo criado para cada astro ou estrela de
Hollywood contribuiu para consolidar o star system.
A estrela não é idealizada apenas em função do seu papel: ela já é, pelos menos potencialmente, idealmente bela. Não é somente glorificada por sua personagem, ela também a glorifica. Os dois suportes míticos, o herói imaginário e a beleza da atriz, se interpenetram e se conjugam.75
Ao analisar o papel desempenhado pelos artistas de cinema na sociedade podem-se apreender representações imaginárias e culturais desenvolvidas pela indústria cultural na construção de mitos que serviram de modelo para as gerações das décadas de 30, 40 e 50. Na cidade de Belém a beleza das estrelas anunciadas nos cartazes dos filmes ou nos artigos veiculados na imprensa servia para aguçar e estimular os admiradores a assistirem as sessões, em que as grandes estrelas foram as principais personagens.
Caminhando paralelamente com o star system, os produtos industrializados e culturais chegavam às várias partes do país, destacando-se os produtos indumentários, que geralmente eram os mais ressaltados nos anúncios e artigos de cinema.
Acresce que um filme de Kay Francis é, infalivelmente, um rico figurino de Modas, um contínuo desfile de maravilhas em indumentária feminina. E como estamos em plena mudança de estação, “Segredos de uma atriz” é ainda um filme que as fans vão ver por obrigação, afim de nele, vendo Kay Francis, formar excelentes planos para radical transformação de guarda- roupa particular.76
A ênfase do artigo da revista era a atriz Kay Francis, entretanto o rico figurino utilizado no filme pela estrela fazia parte da propaganda do filme para atrair público, especialmente o feminino. Analisando-se o artigo fica explícito o interesse do filme e da revista em propagar uma transformação, não apenas no vestuário, mas também na cultura de consumo dos produtos industriais norte-americanos, sendo que a
74 MORIN, Edgar. As estrelas: mitos e sedução no cinema. Tradução: Luciano Trigo. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1989.
75 Ibid. p. 27.
“obrigação” das “fans” de assistir ao filme teria como propósito a reformulação de seus trajes cotidianos para uma tendência exposta no filme.
Dessa forma, sonhar ou imaginar-se sendo estrela de Hollywood fazia parte do dia-a-dia de diversas mulheres belenenses. Para elas, ir às salas projeção e assistir nas películas aos desfiles de modas das atrizes, ler na imprensa o glamour do estilo de vida, dos casamentos e relacionamentos com os atores em evidência era algo almejado pela maioria.
Você gosta muito de Hollywood. Sonha, pensa e imagina-se em Hollywood. Onde quer que você vá e onde quer que esteja, a sua imaginação está toda voltada para lá. Tudo você vê com aspectos de Hollywood; o céu, a terra, a paisagem. Quando faz a ‘toillete’ o espelho dá-lhe a impressão dos grandes ‘studios’ e o seu perfume representa a fragrância dos jardins maravilhosos de Hollywood. Quando sai para o bordado ou para a aula de corte, nas manhãs de sol, você supõe que vai para filmagem, em Hollywood. Se um amiguinho lhe fala, nesses momentos de suave devaneio, você tem a impressão de que ouviu a voz de Clark Gable ou de Nelson Eddy, em Hollywood. Suas amiguinhas tornam-se insípidas, para você, porque elas nem sequer sabem pronunciar direito a palavra Hollywood (...)77
O artigo denominado “Uma palavra pra elas”, de Gibran de Montanabi, descreve como o cinema estava voltado para criar ilusões a respeito de estilos de vida, sendo Hollywood a grande produtora de sonhos que levava mulheres, crianças e homens a criarem mitos, heróis e heroínas que transpunham as telas para se fixarem na sua imaginação.
O autor transpôs para o seu artigo a imaginação feminina relacionada à Hollywood. Por isso, imaginar as vozes de Clark Gable ou Nelson Eddy ou estar indo para as filmagens nos “studios” fazia parte do culto aos astros e ao espaço caracterizado como sendo referência para a cinematografia mundial. Esse devaneio alimentado pela indústria cultural proporcionava ao star system lugar cativo na fantasia e aquelas que não participavam da moda advinda com os filmes tornavam- se excluídas, ou “insípidas”. Contudo, o devaneio possuía raízes na realidade que logo vinha à tona ao chegar ao seu lar.
(...) Você diz emocionada: que bom se isto fosse Hollywood! Mas por último Você volta para casa, minha amiguinha. A imaginação se recolhe, fugidia, como uma lágrima furtiva. O seu irmãozinho chora, Você o atende
carinhosa, deixa escapar um lânguido suspiro e depois cai na realidade, vendo bem distante e inacessível a cidade de Hollywood.78
Os efeitos criados a partir da indústria cinematográfica hollywoodiana sobre o público local fizeram-se sentir na imprensa através de artigos, crônicas, e anúncios que demonstravam a participação do cinema na vida citadina. Por isso, para o autor, o devaneio apresentado por qualquer mulher que desejasse ser estrela em Hollywood logo acabaria ao voltar para a realidade, onde teria que cuidar da casa ou do irmão pequeno, confirmando o quanto era distante e inacessível esse sonho. No entanto, essa ilusão perdurava na volta ao cinema para assistir mais um filme.
Assim, todos os dias o jornal Folha do Norte e aos sábados a revista A
Semana divulgavam os filmes em exibição na capital paraense, mostrando nos
anúncios as fotos das cenas dos filmes tendo como destaque os atores e atrizes que os estrelavam. Procuravam ressaltar nas fotos o enredo das películas, geralmente os dramas e histórias de amor eram os preferidos para atrair a atenção dos que freqüentavam as salas de projeção.
Os artistas tiveram grande importância para a consolidação do cinema e durante a Segunda Guerra Mundial serviram para diversos propósitos políticos, emocionais e de propaganda dos países envolvidos no conflito. Fossem elas utilizadas na política de boa vizinhança ou na propaganda beligerante norte- americana, as estrelas aproveitavam seu carisma para cooperar com os esforços de guerra e comover as platéias adeptas dos ideais democráticos.
Em Belém, as informações chegavam por telégrafo e eram repassadas pela imprensa para a população, sendo que antes de setembro de 1939 a movimentação armamentista dos países europeus já preocupava o mundo, pois uma guerra parecia iminente.
No meio de tantas notícias de guerra e de allianças guerreiras, de grandes esquadras que tomam posição no assustado mediterrâneo, de novas classes chamadas as armas pelos governos facistas, do nervosismo dos pequeninos paizes dos Balkans, que não sabem ainda para que lado se virar, no meio de toda essa tragédia internacional contada diariamente pela imprensa, um telegrammazinho irônico e malicioso veiu trazer um acontecimento amável, bem differente dos outros.79
78 A Semana – Belém, 16 de setembro de 1939, nº 1048.
79 Folha do Norte – Belém, 12 de maio de 1939, p. 03. O artigo tem como título “O casamento de Greta Garbo”
As notícias sobre a “tragédia internacional” pela qual passava o continente europeu eram veiculadas diariamente pelos periódicos de Belém com bastante ênfase. Apesar disso, as reportagens sobre os artistas pareciam confortar os momentos conturbados e o telegrama diferente falava sobre o casamento de Greta Garbo.
Não se trata mais de ódio, mais de amôr. Não se trata de desunião entre os povos, mas de união dum homem e duma mulher. O telegramma dizia apenas que Greta Garbo vae casar. Apaixonou-se mesmo pelo maestro Stokowski, essa paradoxal careteira da tela, que no cinema era uma labareda e fora dele um sorvete de manga, muito louro e muito frio.80
Um pequeno telegrama publicado para os fãs da estrela, que servia para consolar diante de tanto horror espalhado pelo mundo. O ódio e a desunião,