2. BACKGROUND
2.1 Biology of the Red King Crab
2.1.5 Migrations
Mais recentemente, Perini, em sua “Gramática do português brasileiro”, dedica um pequeno capítulo ao Tópico e à topicalização. Segundo o autor, o Tópico tem a função de delimitar o assunto principal do enunciado (PERINI, 2010). O Tópico não necessariamente é o primeiro elemento do enunciado (apesar de o ser na maior parte das vezes), mas é o elemento ao qual é dado algum tipo de relevo, assinalado sintaticamente. Para ele, a topicalização pode ser de tipo sintático ou discursivo.
Por Tópico sintático entende-se uma expressão que é colocada em relevo através de uma das seguintes estratégias: deslocamento à esquerda, construções passivas e construções clivadas. Nos dois primeiros casos, a expressão em Tópico tem também uma função sintática dentro do enunciado, que pode ser sujeito (no caso das passivas), ou outras funções (objeto,
adjunto) no caso das construções de deslocamento à esquerda. Os Tópicos sintáticos podem ser verbais, nesse caso, aparecem em construções (pseudo)clivadas, como em: “o que ele fez foi limpar a cozinha”.
Os Tópicos discursivos são aqueles que ocorrem sempre na primeira posição dentro do enunciado e são seguidos por uma oração sintaticamente completa, ou seja, o Tópico não é um dos complementos do verbo. Segundo Perini, construções com pronome cópia são um tipo de topicalização discursiva. Perini ainda considera como Tópicos discursivos aqueles que ocorrem em enunciados do tipo: “Essa minha barriga, só jejum.” Segundo o autor, nesse caso não há como analisar nem o Tópico e nem o restante do enunciado de acordo com as categorias tradicionais, pois “temos em mãos uma frase organizada segundo funções e papéis temáticos desconhecidos”, e “não existe uma teoria que dê conta das construções de Tópico discursivo em mais detalhe do que isso” (PERINI, 2010, p.335).
6.3 O TÓPICO NA TEORIA DA LÍNGUA EM ATO
O objeto de estudo deste trabalho é a unidade informacional de Tópico, assim como definida pela perspectiva da Teoria da Língua em Ato (CRESTI, 2000, 2010). O Tópico é uma unidade informacional definida por sua função, perfil prosódico e distribuição relativa ao Comentário. Funcionalmente, o Tópico é definido como o campo de aplicação da força ilocucionária expressa pelo Comentário, ou seja, define um domínio de relevância em relação ao qual o ato de fala pode ser adequadamente interpretado. Entonacionalmente, é uma unidade com perfil entonacional de tipo prefixo44 (HART et al., 1990), com foco
entonacional à direita, melodicamente subordinada ao Comentário. É a única unidade, além do Comentário, que recebe foco entonacional. Distribucionalmente, é uma unidade que, necessariamente, precede o Comentário, ainda que não necessite ser adjacente a este. O Tópico pode ser integrado por outra unidade de Tópico ou por um apêndice e pode ainda ser escandido em mais de uma unidade entonacional.
O Tópico não cumpre uma ilocução e, portanto, não é interpretável em isolamento. É concebido segundo a perspectiva da atitude do falante perante o interlocutor (como o Comentário), mas apresenta um ponto de vista de tipo cognitivo, estabelecendo uma relação semântica e anafórica com o conteúdo do Comentário (CRESTI, 2000).
Segundo Cresti, o Tópico (assim como o Comentário), é produzido em uma unidade prosódica dedicada, que possui um acento principal e um núcleo prosódico (que corresponde à proeminência mais relevante). Um padrão Tópico-Comentário corresponde à sequencia de duas proeminências prosódicas, identificando dois focos semânticos. O foco sinaliza o ápice semântico de uma expressão linguística, a qual pode desenvolver a função informacional de Tópico ou de Comentário. O foco é uma função semântica, então não se confunde com a noção de Comentário, que possui uma definição pragmática (ilocutória). Não existe Tópico ou Comentário sem um foco semântico, que deve ser marcado através de uma prominência prosódica (CRESTI, 2010).
A unidade de Comentário é a origem e o centro da informação. A unidade informacional de Tópico é o campo de aplicação da força ilocucionário do Comentário. O Tópico permite que a ilocução seja distanciada do contexto situacional extralinguístico e seja referida ao conteúdo cognitivo do próprio Tópico. O Tópico contextualiza, linguisticamente, a ilocução, fazendo com que ela seja direcionada ao âmbito semântico fornecido pelo Tópico. Sem o Tópico, a força ilocucionária do Comentário é aplicada no contexto pragmático (linguístico e extralinguístico). Em resumo, o Tópico funciona como uma substituição linguística do contexto pragmático, o que permite que o Comentário seja removido do seu contexto pragmático. Assim, o Tópico pode ser definido em termos de uma relação de aboutness pragmático em vez de um aboutness semântico, como defendido por Chafe (1975).
Outro aspecto importante que diferencia a abordagem da Teoria da Língua em Ato dos demais panoramas teóricos é que esses últimos normalmente permitem a análise informacional dos enunciados em que a informação é apresentada na forma de uma proposição, o que nem sempre acontece em dados da fala espontânea. O poder explicativo de teses que se baseiam nessa ideia deixa muitos dados sem possibilidade de análise, daí a conclusão de Perini (2010) de que não é possível analisar construções por ele descritas como Tópico discursivo.
Examinemos mais detalhadamente dois exemplos em contexto mais amplo de produção. Na situação em questão, os informantes BEL e BAL estão decidindo a melhor forma de arrumar um equipamento dentro de uma mochila. Na interação do exemplo 6.1, BEL refere-se à uma pequena bolsa e sugere que seja utilizada para guardar as pilhas:
Exemplo 6.1 - bfamdl02 [1]-[15]: *BEL: que que fica aqui //ÁCOMÁ
*BAL: eu tô pensando ainda //ÁCOMÁ
*BEL: mas tipo <assim /ÁINTÁ cê nũ> [/2]ÁEMPÁ cê nũ sabe /ÁCMMÁ ou cê comprou e nũ <tem> //ÁCMMÁ
*BAL: <&he /ÁTMTÁ olha só> //ÁCOMÁ <não> /ÁINPÁ isso aí veio da mochila //ÁCOMÁ
*BEL: ah //ÁCOMÁ <uai> //ÁCOMÁ
*BAL: <veio como parte> +ÁEMPÁ olha só //ÁCOMÁ *BEL: <talvez as pilhas /ÁCOMÁ não> //ÁPHAÁ
*BAL: <que que eu tava pensando &a [/6]ÁEMPÁ que que> eu tava pensando aqui //ÁCOMÁ &a [/1]ÁEMPÁ não //ÁCOMÁ as pilhas /ÁTOPÁ eu coloquei aqui //ÁCOMÁ as recarregáveis /ÁTOPÁ tão aqui //ÁCOMÁ
*BEL: ah /ÁCMMÁ tá //ÁCMMÁ
Nesse trecho de diálogo, os informantes iniciam a interação discutindo sobre a utilidade de um certo objeto (uma bolsa). Em dado momento, BEL sugere que dentro dessa bolsa poderiam ser guardadas as pilhas utilizadas no equipamento. BAL, para explicar onde guardou as pilhas, sente a necessidade de estabelecer o âmbito de aplicação para a ilocução cumprida pelo Comentário “eu coloquei aqui” e, por esse motivo, enuncia “as pilhas” como o Tópico desse enunciado. Logo na sequência, BAL quer falar de um outro tipo de pilhas (recarregáveis), que são guardadas separadamente. Naturalmente, o informante precisa especificar para o interlocutor que o Comentário “tão aqui” refere-se a outra entidade (“as recarregáveis”), para que o enunciado seja compreendido adequadamente, do contrário, a força ilocucionária seria provavelmente descarregada sobre o elemento cognitivamente ativado na mente do interlocutor.
De modo geral, em uma interação fortemente ancorada no contexto interacional, há pouca necessidade de usar enunciados com Tópico. O Tópico ocorre mais frequentemente quando, situacionalmente, o âmbito de aplicação da força ilocucionária não é dado. Por isso, o Tópico ocorre mais em interações de tipo monológico, já que, em tais situações, é preciso estabelecer o campo de aplicação da ilocução textualmente. O exemplo acima mostra como isso pode ser necessário no diálogo: em situações em que é necessário identificar para o interlocutor qual é o escopo da ilocução.