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2. BACKGROUND

2.3 King crabs and fishing gear

2.3.5 Location of bait

Na perspectiva da Teoria da Língua em Ato, a identificação das unidades informacionais não deve basear-se em critérios restritivos em função do tipo de conteúdo locutivo, mas sim na identificação da função que uma determinada unidade delimitada prosodicamente cumpre dentro do enunciado. Isso significa que não se pode partir da concepção de que o Tópico, por exemplo, deve ser necessariamente preenchido por sintagmas nominais, ou que a informação nele contida deva ser informação disponível (dada) para o ouvinte. Ao contrário, apenas após a identificação da função informacional é que se deve verificar quais são os correlatos morfossintáticos e semânticos que a unidade apresenta.

O procedimento então é partir da identificação da função informacional para depois passar ao estudo das suas formas, movimento contrário daquele empregado em grande parte dos estudos funcionalistas, em que normalmente se parte de uma forma morfossintática para então identificar as suas possíveis funções. A vantagem da análise realizada utilizando-se esse procedimento é permitir a descoberta de formas não previstas e, com isso, alcançar uma descrição mais profunda do fenômeno (função) em estudo. Conforme será demonstrado nas seções seguintes, o PB apresenta grande variabilidade quanto às estruturas que podem cumprir a função de Tópico.

8.2.1 Preenchimentos morfossintáticos

A unidade de Tópico pode ser linguisticamente preenchida por diversos tipos de sintagmas, não existindo, em princípio, restrições de natureza morfossintática para as expressões que podem ocorrer em Tópico. A única condição para que uma expressão possa ser utilizada como Tópico é a de que estabeleça um domínio de referência (real ou hipotética) identificável pelo interlocutor e em relação a qual o ato de fala deve ser compreendido.

Os resultados relativos aos correlatos morfossintáticos do Tópico em PB são apresentados na Tabela 8.4. Através do levantamento em todos os Tópicos da amostra, foi possível identificar as estruturas sintáticas que podem desempenhar a função de Tópico. Normalmente, o preenchimento da unidade de Tópico é realizado através de sintagmas cujo

núcleo é um item lexical nominal (39,7%), ou verbal (37%). Sintagmas preposicionados (12,5%), adverbiais (10,3%) e adjetivais (0,5%) ocorrem com frequência bem menor em comparação com os dois primeiros.

Tabela 8.4 - Preenchimento morfossintático dos Tópicos

Tipo de preenchimento Frequência %

Total 600 100,0%

Sintagmas nominais 238 39,7%

Substantivos (com ou sem determinantes ou especificadores) 136 57,1%

Pronomes pessoais e de tratamento 36 15,1%

Demonstrativos 30 12,6%

Nomes próprios 25 10,5%

Pronomes Indefinidos 7 2,9%

Numerais 4 1,7%

Sintagmas verbais 222 37,0%

Oracionais - núcleo com forma finita 131 59,0%

Oracionais - núcleo com forma infinitiva 16 7,2%

Oracionais - núcleo com forma no gerúndio 11 5,0%

Sentenciais 64 28,8%

Sintagmas preposicionados 75 12,5%

Sintagmas adverbiais 62 10,3%

Sintagmas adjetivais 3 0,5%

Os Tópicos podem ser preenchidos com sintagmas nominais (substantivos e pronomes), sintagmas preposicionais, sintagmas adverbiais, sintagmas adjetivais e sintagmas verbais; estes últimos podem apresentar como núcleo uma forma finita ou infinitiva (gerúndio, particípio, infinitivo impessoal).

Os Tópicos verbais podem ainda ser expressos por sintagmas verbais oracionais (como orações temporais e hipotéticas) ou frasais (em que o núcleo tem todas as suas valências preenchidas) (SIGNORINI, 2003). As estruturas mais complexas (frasais) tendem a ocorrer predominantemente em interações monológicas: 33 ocorrências dos 64 Tópicos sentenciais ocorrem em monólogos; 20 ocorrem em diálogos e 11 em conversações. Vejam- se os exemplos 8.6 e 8.7.

Exemplo 8.6 - bfammn03 [20]:

 *ALO: mas os filho também nũ são fácil também /=TOP= juntou os filho todo /ÁCMMÁ foram lá e trouxeram o corpo na força //ÁCMMÁ

Exemplo 8.7 - bfammn01 [50]:

 *MAI: tava chegando no terreiro /ÁCOBÁ e aí a mulher viu a enorme da cobra

que lá envinha atrás dele /=TOP= ea fechou a porta //ÁCOMÁ

Nas subseções seguintes são apresentados detalhamentos e exemplos de cada tipo de preenchimento morfossintático.

8.2.1.1 Tópicos nominais

Os Tópicos com núcleo nominal são os mais frequentes (39,7%). Podem ser estruturalmente bastante “leves”, como exemplificado em 8.8, ou mesmo apresentar estruturas mais “pesadas”, como nos casos em que o núcleo nominal é seguido de sintagma verbal relativo, como mostra o exemplo 8.9.

Exemplo 8.8 - bpubcv02[16]:

 *CAR: aqui /ÁPHAÁ mas /ÁDCTÁ a [/1]ÁEMPÁ a prefeitura /=TOP= &he /ÁTMTÁ &he /ÁTMTÁ já levou lá //ÁCOMÁ

Exemplo 8.9 - bfammn05 [53]

 *CAR: a única coisa que eu fiquei muito triste que eu não falo perto dela

/=TOP= Maira /ÁALLÁ é que /ÁAPTÁ quando fez oito dia que ela tava com a

gente /ÁTOPÁ eu /ÁSCAÁ não falo perto dela /ÁPARÁ porque /ÁSCAÁ isso ela não sabe /ÁPARÁ é que /ÁSCAÁ &he /ÁTMTÁ a mãe /ÁTOPÁ mandou buscar porque tinha vendido ela por seiscentos reais //ÁCOMÁ

O exemplo 8.9 é um caso extremo, mas representa o fato de que, dentre os Tópicos cujo preenchimento é um sintagma nominal, 15 ocorrências (6% dos Tópicos nominais) apresentam uma oração relativa subordinada ao núcleo nominal.

Os Tópicos nominais também podem ser preenchidos por nomes próprios, conforme mostra o exemplo 8.10.

Exemplo 8.10 - bfamdl03 [87]

O exemplo 8.10 ainda ilustra outro dado interessante: 192 dos 600 Tópicos analisados (32% dos Tópicos) são iniciados por uma conjunção. Isso parece ocorrer mais quando o Tópico encontra-se na primeira posição dentro do enunciado (em 69% das ocorrências de Tópico iniciada por conjunção essa unidade é a primeira do padrão informacional).

Sobre esse ponto, é importante considerar que, na fala, as conjunções apresentam funções variadas e frequentemente diferentes daquelas com que são empregadas na escrita. As funções das conjunções na fala espontânea estão relacionadas à posição em que ocorrem no enunciado. Assim, o valor linguístico de tais operadores varia de acordo com as três seguintes posições dentro do enunciado (CRESTI, 2005):

i) Posição inicial: o item ocorre após uma quebra prosódica terminal ou então no início de um turno dialógico. Essa posição está relacionada às funções pragmáticas de abertura do turno ou de ligação entre unidades autônomas (os enunciados). Essa função é diferente daquela da coordenação ou subordinação sintática através de operadores lógicos que se encontra na escrita.

ii) Posição articulada: o item ocorre logo após uma fronteira prosódica de tipo não terminal. Nessa posição, as conjunções coordenantes mantém uma função semelhante à da escrita, porém os elementos coordenados não são os sintagmas, mas as unidades informacionais. Já as conjunções subordinantes em posição articulada tem, principalmente, a função de conectar unidades de informação acessórias (como Apêndices e Parentéticos).

iii) Posição linearizada: nesse caso, o item faz fronteira com outras palavras dentro da unidade prosódica. Nesse caso, as conjunções coordenantes normalmente são parte de construções formulaicas, enquanto as conjunções subordinantes cumprem efetivamente a função de subordinação sintática entre os elementos da unidade tonal.

Com base nessa descrição, parece que as conjunções em posição inicial do enunciado, as mais comuns encontradas na unidade de Tópico, exercem uma função pragmática de abertura de turno ou de ligação entre enunciados, não representando um sinal de coordenação ou subordinação sintática52.

52 Veja Raso e Mittmann (2012) para uma discussão mais ampla sobre as marcas de complexidade na elaboração textual na fala espontânea e as suas funções pragmáticas.

Além de substantivos, pronomes pessoais e demonstrativos também ocorrem no Tópico, como mostram os exemplos 8.11 e 8.12 respectivamente.

Exemplo 8.11 - bfamdl03 [104]:

 *LUZ: aqui o' /ÁCNTÁ eu topei cum caminhão aqui /ÁCOBÁ o dia que eu vim sozinha /ÁPARÁ ele /=TOP= fazendo a curva /ÁAPTÁ subindo /ÁTOPÁ me &es [/2]ÁEMPÁ me espremeu ali /ÁCOBÁ quase que eu caí na vala //ÁCOMÁ

Exemplo 8.12 - bpubdl02 [20]

 *JAN: essa aqui /=TOP= que < cor cê tem > //ÁCOMÁ

A distribuição dos diferentes preenchimentos dos Tópicos nominais de acordo com a tipologia da interação pode ser vista no Gráfico 8.2. Nessa distribuição, fica clara a distinção do uso do Tópico nos diálogos e nos monólogos. Os diálogos que compõem a amostra são caracterizados por situações nas quais os participantes estão engajados em algum tipo de atividade, e o discurso é construído em função dessas atividades. Assim, é muito compreensível que a maior parte dos demonstrativos esteja presente nesse tipo de interação.

Esses dados permitem compreender que, em situações dialógicas, muitas vezes, o Tópico se faz necessário para desambiguar a que referente aplica-se a ilocução realizada, em uma situação em que, contextualmente, há vários candidatos possíveis (como ilustra o exemplo 8.12 ).

Gráfico 8.2-Distribuição dos Tópicos nominais por tipo de núcleo

substantivo pronome pessoal nome próprio demonstrativo pronome indefinido numeral 36 9 16 5 1 1 40 4 2 22 6 3 59 23 7 3 0 0

Os demonstrativos ocorrem nas gravações:

a) bfamdl01 (2 ocorrências): duas moças fazem compras no supermercado; b) bfamdl02 (3 ocorrências): dois colegas organizam o equipamento de gravação; c) bfamdl03 (1 ocorrência): casal faz viagem de carro;

d) bfamdl05 (7 ocorrências): corretor mostra apartamentos à irmã; e) bpubdl01 (1 ocorrência): engenheiro e pedreiro constroem um muro; f) bpubdl02 (8 ocorrências): moça compra sandálias em loja.

Além dos demonstrativos, também os pronomes pessoais (como também os nomes próprios) muitas vezes têm a função de desambiguação do referente sobre o qual se aplica a ilocução, como mostra o exemplo 8.11. Na descrição do evento realizada por LUZ, há dois referentes (a própria falante e um caminhão). Note-se que a ordenação dos elementos na sentença que abre o enunciado apresenta a própria falante (“eu”) como referente em posição linearizada na posição inicial da unidade prosódica; na unidade seguinte, a falante continua sendo o referente principal da ação; para que a ilocução expressa por “me espremeu ali” seja efetiva, a falante precisa mudar o foco de atenção do referente já estabelecido cognitivamente como relevante para a ilocução por outro. Com isso, a falante precisou instaurar o referente “caminhão” como um Tópico, nesse caso, retomando-o na forma pronominal “ele”.

Nos casos de Tópico preenchido por pronome indefinido, esses relacionam-se a referentes recuperáveis ou identificáveis pelo ouvinte. Um caso exemplar é apresentado no exemplo 8.13, no qual se lê um trecho de diálogo em que os falantes conversam sobre vagas para professor ofertadas em um concurso público.

Exemplo 8.13 - bfamdl03 [139-154]:

 *LUZ: <ah /ÁINPÁ são duas /ÁCMMÁ pra> mesma //ÁCMMÁ coisa //ÁCOMÁ são duas vagas /ÁSCAÁ pro mesmo /ÁSCAÁ tema //ÁCOMÁ

*LAU: não /ÁCOMÁ Luzia //ÁALLÁ

*LUZ: nts //ÁCOMÁ ahn /ÁPHAÁ <nũ entendi então não> //ÁCOMÁ <repete /ÁCOMÁ por favor> //ÁCNTÁ

*LAU: <uma> /=TOP= <é Arte e Tecnologia> da Imagem //ÁCOMÁ *LUZ: sei //ÁCOMÁ

*LAU: departamento /ÁTOPÁ Artes Plásticas //ÁCOMÁ *LUZ: sei //ÁCOMÁ <e essa é pra> adjunto //ÁCOMÁ

*LAU: <a outra> +ÁTOPÁ essa é pra adjunto //ÁCOMÁ *LUZ: ahn //ÁCOMÁ

*LAU: e a outa /=TOP= basta ter título de mestre /ÁCOBÁ e é pra /ÁSCAÁ <fotografia> //ÁCOMÁ

Há apenas 4 ocorrências de Tópicos preenchidos com numerais. Desses, os 3 dados que ocorrem em diálogo são pertencentes a um mesmo padrão de Lista de Tópicos (ver seção 8.3.2). Nessa Lista de Tópicos, os numerais identificam horas, criando um domínio de referência temporal para a ilocução. O outro dado é reproduzido aqui no exemplo 8.14, que apresenta um fragmento de uma conversa entre amigos que jogam sinuca. O numeral não é utilizado como quantificador, caso em que não poderia operar como Tópico, e sim como um nome.

Exemplo 8.14 - bfamcv03 [106-111]:

 *TON: <aí> //ÁCOMÁ agora é só matar aquela <ali e dar> [/1]ÁSCAÁ

*CAR: <mata> o onze /ÁCMMÁ depois mata o quinze /ÁCMMÁ <e perde com o treze> //ÁCMMÁ

*TON: / <matar um &se [/3]ÁEMPÁ dar uma senuca> na [/1]ÁSCAÁ na [/1]ÁEMPÁ <na [/1]ÁEMPÁ na> [/1]ÁEMPÁ atrás da quinze /ÁCMMÁ <e ocê> //ÁCMMÁ *CAR: <treze> //ÁCOMÁ <treze> /=TOP= que aliás é um número de sorte /ÁCOMÁ

né //ÁPHAÁ

Com esses exemplos, é possível começar a perceber que a estrutura informacional está associada à elaboração cognitiva do discurso falado em função da sua eficácia comunicativa, ou seja, pragmática. As necessidades comunicativas irão definir de que forma a informação deverá ser codificada funcionalmente (Tópico, Comentário, Apêndice etc.). Já os preenchimentos morfossintáticos das unidades informacionais dependerão da elaboração do texto em si que vai sendo desenvolvido pelo falante. A função informacional encontra-se em um nível de processamento cognitivo distinto e mais básico em relação à escolha lexical e às relações morfossintáticas entre os constituintes que compõem o texto das unidade de informação.

8.2.1.2 Tópicos verbais

Os Tópicos preenchidos por sintagmas verbais também podem apresentar muita variação. Conforme mostrado na Tabela 8.4, 88% dos Tópicos verbais apresenta como núcleo uma forma finita (somando-se os 59% de Tópicos oracionais e os 28,8% de Tópicos sentenciais), 7,2% tem um verbo no infinitivo no núcleo do sintagma, e apenas 5% apresentam um verbo no gerúndio como núcleo. O exemplo 8.15 ilustra um Tópico oracional com núcleo verbal finito.

Exemplo 8.15 - bpubmn01[4]:

 *SHE: &co [/1]ÁEMPÁ / como eu já tinha dito /=TOP= né /ÁPHAÁ anteriormente hhh /ÁAPTÁ &he /ÁTMTÁ a maior dificuldade /ÁTOPÁ é o número de [/1]ÁSCAÁ de alunos /ÁSCAÁ em sala /ÁCOBÁ e /ÁDCTÁ o número de aulas //ÁCOMÁ

O núcleo sintático do Tópico também pode ser preenchido por formas verbais não finitas (infinitivo impessoal e gerúndio). O exemplo 8.16 contém dois Tópicos em que o núcleo é um verbo no gerúndio. Em ambos os casos, os sintagmas verbais são sintagmas verbais limitativos, que constituem um recurso retórico típico para delimitar, para o ouvinte, o domínio em relação ao qual o conteúdo do Comentário deve ser interpretado.

Exemplo 8.16 - bfamcv01 [2]:

 *GIL: < ô /ÁCNTÁ mas > /ÁDCTÁ voltando à questão /=TOP= falando em [/2]ÁEMPÁ

e também falando em povo mascarado /=TOP= esse povo do Galáticos é

muito palha /ÁCOBÁ eu acho que es nũ deviam mais participar /ÁCOMÁ e < tal > //ÁUNCÁ

O exemplo 8.17 apresenta um Tópico preenchido por um verbo no infinitivo. Exemplo 8.17 - bpubmn01 [21]:

 *SHE: &estu [/1]ÁEMPÁ &he /ÁTMTÁ trabalhar no Estado /=TOP= com língua estrangeira /ÁAPTÁ é lutar contra a maré //ÁCOMÁ

O Gráfico 8.3 mostra a distribuição dos tipos de funções lógicas dos sintagmas verbais de acordo com a tipologia da interação. Excluem-se dessa representação os

sintagmas verbais sentenciais e os SV nominais (orações substantivas). Como pode ser observado, há uma maior frequência dos sintagmas verbais temporais nos monólogos.

Gráfico 8.3 - Distribuição dos Tópicos verbais por tipo de função lógica do sintagma verbal

causal concessivo condicional conformativo modal final limitativo temporal

2 2 22 2 0 2 3 13 2 0 25 0 2 1 2 13 5 0 11 3 0 3 0 29

convers ação diálogo monólogo

Nas interações de tipo monológico, é muito comum o desenvolvimento de tipos textuais como narrativas e descrições. Em tais casos, é sempre necessário explicitar a referência temporal a que pertencem os Comentários realizados, já que o tempo da ação comunicativa (momento de fala) é, frequentemente, diferente do tempo do discurso. Veja-se o exemplo 8.18.

Exemplo 8.18 - bfammn03 [100-101]:

 *ALO: aí /ÁPHAÁ quando é três anos atrás mais ou menos /=TOP= chega um filho dela /ÁTOPÁ perto de mim /ÁAPTÁ falou assim /ÁINTÁ ô Aloysio //ÁCOM_rÁ minha mãe morreu //ÁCOM_rÁ

A distribuição inversa é observada quanto aos sintagmas verbais condicionais, que predominam nas conversações e diálogos. Os sintagmas verbais condicionais instauram referências a situações hipotéticas, que devem ser imaginadas pelo ouvinte como restrições para a validade daquilo que é enunciado no Comentário. A maior recorrência condicionais em diálogos e conversações provavelmente é devida ao maior número de explicações presentes nessas interações, já que, muitas vezes, para explicar algo, é necessário dar exemplos de situações hipotéticas. É particularmente notável a ocorrência de 12 desses Tópicos no texto bfamcv04, em que um grupo de colegas explica para uma das participantes como se deve jogar “Imagem e Ação” (exemplo 8.19).

Exemplo 8.19 - bfamcv04 [283]:

 *BRU: <se for> uma palavra composta /=TOP= né /ÁPHAÁ por exemplo duas palavras /ÁINTÁ cê faz assim //ÁCOMÁ

Os demais tipos de sintagmas verbais apresentam uma frequência muito baixa para que sejam feitas considerações a respeito de sua distribuição.

8.2.1.3 Tópicos preposicionais, adverbiais e adjetivais

Conforme exibido na Tabela 8.4, o Tópico pode ainda ser preenchido por sintagmas preposicionados (12,5%), sintagmas adverbiais (10,3%) e, mais raramente, por sintagmas adjetivais (0,5%).

Exemplo 8.20 - bfammn04 [5]:

 *REG: no carro /=TOP= eu ficava /ÁINTÁ co Haroldo /ÁPARÁ corre /ÁCOM_rÁ Haroldo //ÁALL_rÁ

O exemplo 8.21 mostra um enunciado com Tópico preenchido por um sintagma adverbial.

Exemplo 8.21 - bpubcv01 [225]:

 *EMM: antes /=TOP= que que a gente fazia //ÁCOMÁ

Por fim, os Tópicos preenchidos por sintagmas adjetivais são exemplificado em 8.22.

Exemplo 8.22 - bfamcv01 [16]:

 *LUI: <escroto> /=TOP= < e como > ele era amigo dos caras /ÁTOPÁ a galera meio que tomava /ÁSCAÁ as dores //ÁCOMÁ

8.2.2 Propriedades semânticas do Tópico

Segundo a Teoria da Língua em Ato, uma expressão, para que possa ser utilizada em posição de Tópico, deve corresponder a um certo domínio semântico que seja identificável pelo interlocutor, identificando, por exemplo, pessoas, lugares, situações hipotéticas. Nesses casos, o Tópico é classificado como referencial, pois especifica entidades relevantes à ilocução. Os Tópicos também podem ser de tipo avaliativo, quando ligam o valor ilocucionário do enunciado ao julgamento pessoal do falante (CRESTI; MONEGLIA, 2010).

No subcorpus do C-ORAL-BRASIL informal, a distribuição em relação à classificação referencial versus avaliativo é a apresentada no Gráfico 8.4.

Gráfico 8.4 - Distribuição dos Tópicos referenciais e avaliativos

conversação diálogo monólogo

92,1% 90,4% 89,4%

7,9% 9,6%

10,6%

referencial avaliativo

Os Tópicos de tipo avaliativo são menos frequentes que os referenciais. Enquanto os Tópicos referenciais especificam as dimensões espaço temporais (reais ou hipotéticas) sobre as quais a força ilocucionária deve ser descarregada, os Tópicos avaliativos fornecem um ponto de vista a partir do qual deve ser interpretada a validade da ilocução.

Vejamos o exemplo 8.23, em que a sobrinha de Carlos Drummond de Andrade narra uma situação vivida por ela ao seu neto:

Exemplo 8.23 - bfammn02 [28-41]:

 *DFL: quando eu falei no nome do papai /ÁTOPÁ ele falou /ÁINTÁ mas pera aqui /ÁCOM_rÁ dona Flávia //ÁALL_rÁ a senhora /ÁTOP_rÁ é de Itabira /ÁCOB_rÁ &he /ÁTMTÁ com um pai com esse nome /ÁCOB_rÁ que que ele é do Carlos Drummond de Andrade //ÁCOM_rÁ falei /ÁINTÁ irmão //ÁCOM_rÁ ué /ÁPHA_rÁ mas sio' fala isso com essa <tranquilidade> //ÁCOM_rÁ eu falei assim /ÁINTÁ <ah /ÁEXP_rÁ todo> mundo tem tio <hhh> //ÁCOM_rÁ

*DFL: não /ÁINPÁ é só que eu nũ tenho um tio /ÁCOMÁ né //ÁPHAÁ

*DFL: eu falei /ÁINTÁ eh /ÁEXP_rÁ pois é /ÁEXP_rÁ mas ele é igual [/3]ÁSCAÁ pra

mim /=TOP_r= ele é igual a dos outros <hhh> //ÁCOM_rÁ

*LUC: <hum hum> //ÁCOMÁ exatamente //ÁCOMÁ

*DFL: ao tio Enius /ÁCOBÁ ao tio [/2]ÁEMPÁ ao tio Duílio /ÁCOBÁ e <tal> /ÁCOBÁ ao tio Público //ÁCOMÁ

*LUC: <hum hum> //ÁCOMÁ

*DFL: pra <mim /=TOP= é &di [/2]ÁSCAÁ é indiferente> //ÁCOMÁ

No trecho, a falante DFL utiliza os Tópicos avaliativos (grifados) para marcar que as afirmações “ele é igual a dos outros” e “é indiferente” não são absolutas. Como o trecho demonstra, as afirmações só são válidas a partir da perspectiva individual da falante: da perspectiva das pessoas em geral, Carlos Drummond de Andrade não é considerado um indivíduo comum, que não se diferencia dos demais; já na perspectiva da falante, ele é igual a todos os seus outros tios.

O exemplo 8.24 mostra dois outros Tópicos avaliativos (grifados). Exemplo 8.24 - bfamcv01 [150]:

 *GIL: bem /ÁCNTÁ enfim //ÁCOMÁ é //ÁCOMÁ pra próxima taça /ÁTOPÁ a gente tem que também mandar um e-mail //ÁCOMÁ &f [/1] tipo /ÁINTÁ é quase como se fosse pedindo &des +ÁEMPÁ não pedindo desculpa /ÁCOBÁ mas assim /ÁINTÁ falando /ÁCOBÁ que essa [/1]ÁSCAÁ a próxima vai ser diferente /ÁCOBÁ em tais e tais aspectos /ÁCOMÁ e tal //ÁAPCÁ porque +ÁEMPÁ

*LUI: não //ÁCOMÁ e [/1]ÁEMPÁ e [/1]ÁEMPÁ e [/1]ÁEMPÁ e principalmente

/=TOP= convocando a galera /ÁCOBÁ falar assim /ÁINTÁ o’ /ÁCNTÁ galera

/ÁCOBÁ negócio seguinte /ÁINTÁ tá pensando em organizar um torneio /ÁCOBÁ e a gente quer /ÁSCAÁ que vocês participem /ÁSCAÁ da organização /ÁCOBÁ <mandando representante> +ÁCOBÁ

*LEO: <e acima de tudo /=TOP= eu acho que a gente tem> que chamar os times que /Ái-COMÁ tipo /ÁPARÁ o [/1]ÁEMPÁ realmente os times que /ÁSCAÁ merecem a [/1]ÁSCAÁ a nossa //ÁCOMÁ

No exemplo 8.24, os dois Tópicos avaliativos operam de modo semelhante. Eles apresentam um julgamento do falante sobre o conteúdo dos Comentários (o de que a ideia exposta no Comentário é de particular importância para quem fala), ao mesmo tempo, indicam que o conteúdo ilocucionário deve ser entendido pelos ouvintes a partir da mesma perspectiva adotada pelos falantes.

Os Tópicos referenciais são os mais frequentes. Em relação a esses, é possível fazer uma correspondência entre as estruturas morfossintáticas e certos conteúdos semânticos: sintagmas nominais tendem a identificar pessoas; sintagmas preposicionais são mais comumente utilizados para fazer referência a lugares, juntamente com os sintagmas