3 Ethnic identity and narrative: Establishing a Self and a personal identity
3.2 Migration Narrative and Literature
A Oficina Juventude e Democracia teve duas questões preparatórias e uma questão de encerramento. A primeira delas foi: “1) O que, na sua opinião, deve ser do conhecimento da população sobre a Câmara dos Deputados e o que não é atualmente? Baseie-se na sua percepção e no aprendizado que teve durante esta semana”. A pergunta é um tanto confusa, porque redundante, mas parece focar sobre a imagem que a população tem da Câmara dos Deputados e o que deveria ser alterado nessa percepção a partir do EV. Aparentemente, a intenção é que o aluno olhe para fora de si e pense na população como um todo, verificando quão relevante foi sua experiência no programa. O resultado é que as respostas variam de ênfase sobre a imagem anterior e posterior da Câmara, com soluções pragmáticas, como divulgar melhor o portal e abrir a TV Câmara para sinal aberto, e registro da imagem negativa geral em contraposição a uma imagem positiva construída com ajuda das palestras e atividades, como a acessibilidade, o trabalho intenso e o desconhecimento da complexidade do trabalho desenvolvido no parlamento. Os gráficos abaixo82 ilustram sinteticamente as respostas dadas pelos
alunos:
Gráfico 18 – Conhecimento sobre CD
Fonte: Elaboração do autor.
82 Para tabular as respostas, primeiro geramos uma tabela com duas colunas de dados, onde anotamos, seguindo a pergunta, o (des)conhecimento da população sobre a CD e o que precisa ser revisto pelo povo. Depois, retomamos esses dados e os organizamos em quatro tópicos conforme as respostas recebidas. Por fim, sintetizamos essas respostas identificando as ideias repetidas que são indicadas pelos números. Não há correspondência entre o número de alunos presentes e essas respostas porque nem todos os alunos conseguiram atender aos quatro aspectos observados, alguns deles se detendo apenas na primeira ou na segunda parte da pergunta. Dessa forma, a porcentagem se refere ao total das respostas para o tópico e não para o total de alunos respondentes que é cardinalmente indicado junto ao descritor. O mesmo procedimento foi adotado para as respostas da segunda questão.
10% 10% 10% 70% trabalho inexistente lugar de corrupção espaço exclusivo dos parlamentares
Gráfico 19 – Desconhecimento sobre CD
Fonte: Elaboração do autor.
Gráfico 20 – Aprendizagem sobre CD
Fonte: Elaboração do autor.
12% 25% 12% 13% 38%
Razões/Consequências (8)
É indiferente ao parlamento Processo não é transparente Transformação do parlamento em máquina de fazer leis Distanciamento da CDConhecimento superficial, dado pela mídia 24% 58% 14% 4%
Realidade da CD (29)
O funcionamento político democráticoO trabalho e o esforço dos parlamentares e dos servidores
Disponibilidade de acesso/ Casa do povo
Gráfico 21 – Ações para o conhecimento
Fonte: Elaboração do autor.
Tomadas em conjunto, as repostas poderiam compor, à moda do discurso do sujeito coletivo (Figueiredo, Chiari e Goulart, 2013), o seguinte argumento: Por não conhecer o parlamento, o trabalho do legislativo não ser transparente e a mídia oferecer informações superficiais, a população acredita que ninguém trabalha no parlamento, que é um lugar de corrupção e exclusivo dos parlamentares. Em consequência, faz críticas indevidas, pressiona (juntamente com a mídia) para transformar o legislativo em máquina de fazer leis ou lhe é indiferente, distanciando-se da vida política. A realidade, entretanto, é que o parlamento garante o funcionamento político democrático do País, conta com o trabalho dedicado dos servidores e o esforço dos parlamentares para assegurar, como uma verdadeira Casa do Povo, amplo acesso ao cidadão, o qual não pode esquecer que tudo depende do exercício de seu poder de voto. Para resolver esse estado de desconhecimento, o parlamento deve buscar ser mais transparente, divulgar mais e melhor suas ações, abrindo, por exemplo, o canal da TV Câmara para toda a população; assim como explicitar as condições de seu funcionamento, promovendo o ensino do parlamento nas escolas, maior participação do cidadão em suas atividades e mais programas educacionais próprios, como o EV.
A segunda questão foi: “Qual é o meu papel para difundir o conhecimento sobre a Câmara dos Deputados a outras pessoas? Como posso exercê-lo?”. A pergunta está intrinsicamente ligada à primeira questão, uma vez que supõe que o aluno encontrou alguma coisa que a população não conhece e que deveria conhecer. Dadas as respostas à primeira questão, não surpreende que os alunos tenham lido a pergunta como um chamado e respondido ora assumindo uma posição pessoal que corresponde ao “meu
45%
10% 19%
13%
13%
O que pode ser feito (21)
Divulgar mais e melhor Transparência
TV câmara aberta (sinal mais forte)
Maior participação e mais programas educacionais Ensino escolar sobre parlamento
papel”, ora se propondo divulgar e compartilhar as informações em um efeito multiplicador. Embora todas as propostas sejam no mesmo sentido de promover a divulgação e compartilhamento de informações, há modulações que valem a pena ser registradas, conforme revelam os gráficos abaixo:
Gráfico 22 – Meu papel
Fonte: elaboração do autor
Gráfico 23 – Como exercê-lo
Fonte: Elaboração do autor
Em uma versão sintética, o discurso dos alunos nessa segunda questão é: Meu papel como cidadão participativo é ser mais atuante na cidade em que vivo, multiplicando os conhecimentos recebidos e conscientizando as pessoas sobre a
31% 65% 4%
O papel do aluno (45)
Cidadão participativo Multiplicador Concientizador 49% 10% 13% 11% 17%O exercício do papel (47)
Disseminar os conhecimento informalmenteMultiplicar em ações sociais Participar do EV
Incentivar a participação política de outros
Divulgar imagem positiva da CD
realidade da Câmara dos Deputados. Para tanto, pretendo disseminar meus conhecimentos em conversas informais na família e em rodas de amigos, divulgar a Câmara dos Deputados em projetos sociais, incentivar os amigos a participar do EV, incentivar as pessoas a se informarem no Portal da Câmara dos Deputados e manter contato com os candidatos eleitos e divulgar a imagem positiva da Câmara dos Deputados, destacando sua acessibilidade.
A terceira questão, que é respondida na conclusão da oficina, após a elaboração dos projetos de intervenção, conforme veremos abaixo no relato dos acontecimentos, é, na verdade, uma retomada da atividade feita na manhã do primeiro dia do EV. Trata-se de um fechamento simbólico do EV que funciona como um dos seus mecanismos de avaliação: o aluno chega com uma imagem sobre a Câmara dos Deputados e ao final registra a modificação dessa imagem respondendo: “A Câmara é...”
Gráfico 24 – A imagem da Câmara
Fonte: Elaboração do autor
As respostas, organizadas em sete categorias83, conforme gráfico, mostram que a
imagem da Câmara busca conciliar diferentes perspectivas, predominando uma visão positiva bem diversa daquela mostrada nos esquetes teatrais do primeiro dia do evento, ainda que essa positividade não dispense aspectos críticos. Dessa maneira, temos
83Para tabular os dados, fizemos a leitura de todas as respostas para encontrar as declarações dominantes.
Em seguida, elencamos sete categorias segundo a posição dos alunos, classificando as respostas dentro das sete categorias. Como as respostas se enquadravam em mais de uma categoria, o número total (67) é superior ao número de alunos (40) que preencheram/deram a resposta. A porcentagem se refere às respostas e não ao total de alunos.
15% 5% 21% 18% 13% 21% 7%
A Câmara é...
Formal Crítico-conciliatória Defensiva Conciliatória Institucional Organizacional Crítico-Defensivaempatado no primeiro lugar, um destaque para o caráter organizacional da Câmara dos Deputados, com os alunos revelando-se surpresos com a dedicação e o trabalho intenso de servidores e parlamentares, contrário à imagem mais usual do funcionamento dos órgãos públicos, e com os mecanismos de acesso à Casa que eram desconhecidos pela maioria deles, ao lado de uma imagem defensiva, na qual o povo, mal informado pela mídia que distorce a missão da Casa, desconhece ou não tem consciência da importância e do valor do trabalho que ali se realiza. Em segundo lugar, vem uma imagem que consideramos conciliatória ou ideal, ou seja, os alunos veem a Câmara dos Deputados como um espaço de pacificação social, no qual os parlamentares configuram a diversidade e os interesses da população, um ambiente de fomento às políticas públicas, debate de questões sociais e assuntos pertinentes a toda a sociedade, porque traz as demandas de todos. Em terceiro, encontra-se uma imagem formal, certamente influenciada pelo grande número de alunos do curso Direito, que toma a Câmara dos Deputados como lugar de exercício das funções representativa, legiferante e fiscalizadora, com prevalência da segunda, um órgão composto por representantes do povo que emanam as regras e normas que regem a vida em sociedade. Na quarta posição, a visão é do legislativo como instituição, isto é, um espaço de disputa de interesses e demandas diversas dentro dos princípios da democracia, da qual, aliás, é simbolicamente o coração. As duas próximas posições são modulações de imagens anteriores que julgamos importante distinguir. Temos, assim, na quinta posição uma imagem crítico-defensiva que toma a Câmara dos Deputados como reflexo fiel ou espelho da sociedade, logo se há parlamentares despreparados ou desqualificados para a função é porque assim também é a realidade do povo brasileiro; e na sexta, uma imagem crítico-conciliatória, na qual os alunos se valem de metáforas, como brigas de família, ovelha negra, uma partida de futebol, para registrar a existência de problemas em uma configuração em que o conjunto é positivo, afinal somos todos irmãos ou o juiz do jogo é o povo.
Nem a Revista Estágio-Visita, nem o Diário de Campo Reflexivo são mencionados, direta e espontaneamente, por nenhum aluno durante as entrevistas. Quando provocados a se pronunciar sobre o material instrucional, eles o fazem de maneira geral e elogiosa. É possível, entretanto, rastrear a influência desses textos nas falas dos alunos. Durante uma entrevista, por exemplo, um aluno reclama da focalização
do tema da palestra dizendo: “mas o que eu achei errado, o que eu achei errado mesmo foi ter falado de eleições proporcionais com a reforma política que está acontecendo, devia falar de todos os sistemas eleitorais...” (Aluno 15 – Entrevista). A ligação entre reforma política e sistemas eleitorais está claramente colocada na edição da Revista recebida pelo aluno, mas não foi o objetivo da palestra Eleições Proporcionais, tal como proferida no evento, levando à hipótese de que a fala do aluno possa ser, para além de uma avaliação do caráter restrito ou pouco abrangente da abordagem feita, resultado da frustração de uma expectativa criada a partir da leitura do texto da Revista. Também parte das falas dos alunos nas entrevistas ressurge nos registros do Diário de uma forma mais elaborada, como se observa na fala de um aluno que diz:
a questão é a responsabilidade, porque aqui você está dirigindo uma nação inteira, quase ou mais de 200 milhões de brasileiros, então, de todo o País, a diversidade cultural é muito grande, são ideias totalmente diferentes, então aquilo, não sei se foi ela que falou ontem mesmo, o que parece que está de acordo pra um, pra uma certa cultura, pra outra não está, então é muito difícil você trabalhar com essa diversidade... (Aluno 22 – Entrevista)
e a reflexão que esse mesmo aluno faz no seu diário de campo reflexivo:
Tomar decisões e representar uma nação é algo extremamente relevante e complexo. São várias culturas e diversas as posições perante um mesmo tema. As decisões têm que ser tomadas com muita cautela, pois vincularão todo sistema brasileiro e conduzirão as posições de uma nação. (Aluno 22. Diário de campo reflexivo, dia 25/08/2011, quinta- feira).
Dessa forma, parece ter a razão a coordenação em considerá-los como instrumentos pedagógicos de grande relevância no programa. De fato, a Revista parece cumprir com efetividade o papel de contexto para a edição do programa, estabelecendo uma ligação ou um caminho entre o que o universitário imagina ser o EV e o que ele pode esperar da vivência em Brasília, atuando ainda como elo entre os participantes de edições anteriores e os atuais. O Diário, por sua vez, como mostrado no exemplo, parece ajudar o aluno a refletir, a organizar seu pensamento, sobretudo na avaliação do programa, tal como suposto pela coordenação, para quem o diário de campo reflexivo, como diz o nome, além de espaço de avaliação, “tem o objetivo de promover essas reflexões [sobre o legislativo] acho que em vários momentos” (Organizador 2 – Entrevista).
Já as questões da Oficina Juventude e Democracia são igualmente bem- sucedidas em seus dois objetivos. Como veremos no relato dos acontecimentos, os
projetos elaborados pelos alunos buscam concretizar em ações as respostas que deram para essas questões. Também se verifica que os alunos saem do EV com uma visão modificada, mais ampla e positivada do funcionamento da Câmara dos Deputados, aparentemente comprovando que o objetivo do programa foi cumprido, tal como é expresso tanto por um instrutor, que diz “a ideia não é mudar, mas construir uma visão mais completa... em momento algum eu falo que eles devem abandonar a visão que eles trazem... (Executor 1 – Entrevista), quanto pela coordenação que diz:
e aí existe essa questão se eles devem sair com uma imagem positiva ao final da semana e a minha percepção é... o que eu defendo é que eles não devem necessariamente sair com uma imagem positiva ou negativa, mas que é nosso dever que eles saiam com uma imagem... não com uma imagem, mas com uma concepção mais complexa (Organizador 2 – Entrevista).