1.3 Teoretisk perspektiv
1.3.1 Middelalderisme
Stoper (1997) argumenta que os relacionamentos que dependem, em grau variado da proximidade geográfica, são os principais atores interdependentes que permitem a coordenação, com o intuito de promover a inovação.
Todas as características dos sistemas de inovação apontam a natureza coletiva dos esforços de inovação (LASTRES; FERRAZ, 1999). Para qualquer organização o sucesso reside nas relações com as suas partes externas. Em muitos aspectos, um sistema de inovação é um sistema social, no qual a inovação emerge parcialmente como resultado de uma interação entre atores econômicos; e entender as ligações entre estes atores no processo de inovação é a chave para aperfeiçoar o desempenho.
A inovação é criticamente dependente da forma pela qual os atores se relacionam como elementos de um sistema coletivo de criação e uso do conhecimento (MANLEY, 2003). Ainda segundo Manley (2003), são quatro os principais inputs de inovação nos sistemas contemporâneos:
i) Fluxos de conhecimento: dado o crescente papel do conhecimento na atividade econômica, busca-se medir o poder de distribuição do conhecimento de um sistema específico. Envolve o rastreamento das ligações entre a indústria, governo e meio acadêmico no desenvolvimento da inovação tecnológica e organizacional, com o intuito de identificar e avaliar os principais canais do fluxo do conhecimento, analisar os gargalos existentes e sugerir formas de aperfeiçoamento da difusão do conhecimento;
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ii) Instituições: as instituições definem como o fluxo do conhecimento desloca-se entre os participantes do sistema e a forma pela qual a aprendizagem e a inovação acontecem. Algumas dessas instituições afetam o desempenho dos sistemas de inovação, tais como: os sistemas financeiro, tributário, de direitos de propriedade intelectual (INPI), educacional e de relações industriais.
iii) Competência econômica: os resultados do processo interativo de inovação são função do nível de conteúdo da competência econômica dos agentes dentro do sistema. iv) Aprendizagem interativa: relaciona-se com as múltiplas fontes de conhecimento tácito no processo de aprendizagem. A aprendizagem interativa torna-se essencial à sobrevivência de longo prazo, pois se vincula à capacidade da firma de adaptar- se às circunstâncias de mudança, principalmente às de natureza tecnológica.
Para Asheim (2001), a criação de conhecimento não deriva apenas das atividades de pesquisa e desenvolvimento (P &D). Tigre (2006) destaca a importância do aprendizado cumulativo para o desenvolvimento da capacitação produtiva, organizacional e tecnológica.
[...] As duas primeiras se referem aos recursos utilizados para a produção com determinado nível de eficiência. Envolvem o uso de equipamentos, o desenvolvimento de rotinas, métodos e sistemas organizacionais e a capacidade de combinação de insumos. Já a capacitação tecnológica abarca as habilidades técnicas, o conhecimento individual e o coletivo e a experiência tácita (TIGRE, 2006, p.104)
O aprendizado é cumulativo porque exige um processo de capacitação prévia para que seja possível absorver informações mais avançadas (TIGRE, 2006). Desta maneira, o estoque de conhecimento é utilizado na geração de inovações locais e incrementais (TIGRE, 2006). Um breve resumo das diversas formas de aprendizagem é mostrado no Quadro 5, que evidencia diferentes estratégias e origens (interna ou externa) dos processos de aprendizagem.
QUADRO 5 - Taxonomia dos processos de aprendizado
Aprender ... Características
Fazendo Processo de aprendizado interno à empresa, relacionado ao processo produtivo
Usando Relacionado ao uso de insumos, equipamentos e softwares
Procurando Baseado em busca de informações e atividades de P&D
Interagindo Interno e externo, relacionado às fontes a montante (fornecedores) e a jusante (clientes) da cadeia produtiva
Com “spill-overs” interindustriais Externo, através da imitação e contratação de técnicos experientes de concorrentes
Com o avanço da ciência Externo à empresa, relacionado à absorção de novos conhecimentos gerados pelo sistema internacional de C&T
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No intuito de apreender o papel do aprendizado na economia, Lundvall e Johnson definiram uma taxonomia para os diferentes tipos de conhecimento: saber o que (know-what), saber por que (know-why), saber como (know- how) e saber quem (know-who) (JOHNSON;LUNDVALL, 2001; LUNDVALL, 1996).O Know-what refere-se a fatos e, portanto, aproxima-se do conceito de informação como algo que pode ser traduzido em bits e armazenado. O know-why diz respeito ao conhecimento dos princípios e valores que movem a natureza, a mente humana e a sociedade e que orientam o desenvolvimento tecnológico em várias áreas do conhecimento. O know-how refere-se às habilidades, à capacidade de fazer algo. É tipicamente um tipo de conhecimento desenvolvido e guardado na fronteira entre o conhecimento da firma individual e uma equipe de pesquisa. À medida que aumenta a complexidade das bases de conhecimento, a co-operação entre organizações tende a avançar, o que mostra a importância das redes industriais para compartilhar e combinar elementos do seu know-how (JOHNSON;LUNDVALL, 2001). Quanto ao know-who, “envolve a informação sobre quem sabe o que e quem sabe o que fazer”, assim como a habilidade social de cooperar e de comunicar-se com diferentes tipos de pessoas e de especialistas (JOHNSON;LUNDVALL, 2001, p.13).
Dá-se um destaque especial à proximidade dos agentes e às interações para a aprendizagem, “considerando a natureza social do processo de aprendizagem e a natureza tácita do conhecimento que afetam as possibilidades para desenvolvimento de competências no nível da firma” (CAMPOS et al, 2005, p.54). Assumem importância os fatores não-econômicos e aqueles relacionados à estruturação de regras e práticas socialmente definidas as quais modelam as interações entre os atores e reforçam a importância dos estímulos ao aprendizado provenientes das condições locais (RAPINI et al, 2004).
Ao longo das últimas duas décadas, as abordagens do processo de inovação reforçaram a sua dependência, cada vez maior, dos processos interativos que ocorrem em diferentes níveis, tanto inter-firmas quanto intra-firmas. Há uma imensa contribuição dos teóricos da linha evolucionista que reconhecem que a ação da firma não é isolada – pois interage com outras organizações -, nem determinada apenas pelos elementos do sistema, mas também fruto das relações que se estabelecem entre eles (CONTI, 2005). E, ainda, que a capacitação da firma é fruto do processo de aprendizado ao longo de suas interações com o mercado e com a tecnologia (TIGRE, 2006).
Então se torna crítica a distinção entre informação e conhecimento (CONTI, 2005). Diferentes conceitos de informação já foram abordados anteriormente neste trabalho, tendo sido dada uma ênfase especial à hierarquia de informações proposta por Braman (1999) para lidar com a diversidade de abordagens. Na discussão sobre conhecimento no
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contexto inovativo, a referência básica é a distinção entre conhecimento tácito e explícito, ou codificado, estabelecida por Polanyi57, na década de 1960 e retomada por Nonaka e
Takeuchi (1997).
A codificação do conhecimento permite a sua transmissão, manipulação, armazenamento e reprodução (TIGRE, 2006; NONAKA; TAKEUCHI, 1997). Se por um lado, a codificação e o uso de tecnologias da informação permitem a transmissão do conhecimento apesar da distância (RALLET; TORRE, 1999), por outro, o seu uso e decodificação são fortemente dependentes de capacitação, pois “a codificação cria a possibilidade de transformar informação em mercadorias, mas seu valor será muito limitado para aqueles que não têm a capacitação necessária para compreender e utilizar produtivamente o conhecimento” (TIGRE, 2006, p.104).
Já o conhecimento tácito envolve habilidades e experiências pessoais ou de grupo, sendo de transferência mais difícil (TIGRE, 2006; NONAKA; TAKEUCHI,1997). Por permitir a diferenciação da capacitação entre diferentes empresas, o conhecimento tácito constitui uma vantagem competitiva única. As formas mais comuns de sua aquisição se dão por meio de processos de socialização e através da experiência e/ou contratação de profissionais experientes de outras empresas (TIGRE, 2006; NONAKA; TAKEUCHI, 1997). O conhecimento tácito requer o compartilhamento da experiência comum de trabalho através de relações face-a-face, reforçando a necessidade de uma proximidade geográfica entre os atores (RALLET; TORRE, 1999). Os processos de geração e codificação de conhecimento adquirem uma importância singular, pois
a transformação dos conhecimentos tácitos em sinais ou códigos é extremamente difícil já que sua natureza está associada a processos de aprendizado, dependentes de contextos e formas de interação sociais específicas. Diferencia-se,portanto, o acesso à informação do acesso ao conhecimento, enfatizando-se que a difusão das TIC implica maiores possibilidades de codificação e transferência desses conhecimentos codificados; mas de forma alguma anula a importância dos conhecimentos tácitos, que permanecem difíceis de transferir e sem os quais não se têm as chaves para decodificação dos primeiros (LASTRES;CASSIOLATO, 2003b, p.8).
Além disso, novos conhecimentos são usualmente vagos, de difícil codificação e “grandemente dependente da presença de fatores que facilitam contatos interpessoais entre os atores [...] tais como confiança, relacionamentos pessoais, compartilhamento de valores e habilidade” (CONTI, 2005, p.219). O desenvolvimento de tais fatores é geograficamente
sensível, o que significa dizer que dependem das interações locais entre os atores (CONTI,
2005).
A dinâmica da aprendizagem, em que o conhecimento tácito e o conhecimento codificado se combinam, possui uma dimensão local, não apenas porque o sistema local transforma o conhecimento codificado, gerado fora de suas fronteiras, em conhecimento que pode ser utilizado para a produção local, mas, também, porque
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transforma o conhecimento contextual (ou tácito) em conhecimento codificado, isto é, pela transformação dos fatores locais em vantagens competitivas (CONTI, 2005, p.219-220).
Para Asheim (2001), ao invés de contrapor o conhecimento baseado em P&D ao conhecimento tácito, seria mais relevante falar na base de conhecimento das firmas e na infraestrutura de conhecimento de sucursais (das grandes empresas) e regiões. Segundo o autor, ao pensar dessa maneira, pode-se obter uma compreensão do complexo de interações e de relacionamentos que caracterizam o processo de inovação das firmas em diferentes setores industriais.
Toda atividade econômica é baseada no conhecimento, o qual pode ser formal, codificado (conhecimento científico ou de engenharia) e informal, tácito (consubstanciados em rotinas pessoais qualificadas ou práticas técnicas) ou qualquer combinação disso. A infraestrutura de conhecimento é constituída de uma variedade de instituições e organizações como universidades, instituições de P&D, sistemas de treinamento, produção de conhecimento nas firmas etc (ASHEIM, 2001, p.5)58.
A noção de redes reflete as dinâmicas interativas que envolvem as múltiplas e contínuas conexões, interações e intercâmbios entre os diversos atores ou esferas de uma mesma organização (produção, marketing, P&D). Para Manley (2003), o simples ato de cooperação entre firmas possibilita o surgimento de oportunidades de inovação que traduzem as dinâmicas informacionais e a busca de identidade em redes de produção colaborativa. Shennhar e Adler (1996) afirmam que, para a ocorrência da aprendizagem é essencial que se mantenham os laços com fontes externas de inteligência; portanto, pode- se supor que a interação entre empresas é essencial à inovação. Asheim (2001) enfatiza a visão de inovação como um processo técnico e social, de interação entre as firmas e seu ambiente. Assim define o modelo de inovação como interativo (interactive innovation model), mostrando a pluralidade de tipos de sistemas de produção e de inovação, de processos de coordenação, de práticas informais e instituições formais envolvidos em inovações radicais e incrementais. Conti (2005) ressalta que nas redes locais as práticas de socialização transformam o conhecimento contextual (tácito) em conhecimento codificado.
Ao investigar a importância da proximidade geográfica entre inovadores para a inovação tecnológica, Soon e Storper (2003) analisaram a citação de patentes nos Estados Unidos, no período compreendido entre 1975 e 1997. Procuraram verificar as mudanças históricas na dependência entre os inventores e o conhecimento criado localmente, em três níveis geográficos: no país, nos estados e nas áreas metropolitanas. A citação de patentes foi utilizada como sinalizador do transbordamento de conhecimento (knowledge spillover) e alguns resultados interessantes foram observados. Em primeiro lugar, houve um declínio na porcentagem de patentes pelas grandes firmas, sinalizando um distanciamento do modelo
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linear de inovação. Em segundo lugar, os inventores - classificados como individuais ou portadores de titularidade59, possuem uma dependência acima da média do conhecimento
criado localmente. Tal fato pode justificar-se pelo fato das grandes empresas possuírem recursos para lidarem com os problemas de comunicação à distância, através da construção de redes, no lugar dos pequenos inventores ou pequenas firmas que estão mais restritos aos recursos disponíveis na vizinhança. Em terceiro lugar, o estudo evidenciou que a citação das patentes locais tem crescido ao longo do tempo para todas as categorias de titularidade pesquisadas, o que significa que, apesar do fluxo global de idéias, a proximidade aparenta ter-se tornado mais importante.
Isto reforça a colocação de Lastres e Cassiolato (2003c, p.6) de que “a atividade inovativa torna-se também ainda mais localizada e específica”, e que, apesar das TICs favorecerem novas possibilidades de codificação e difusão de conhecimentos e inovações, o conhecimento tácito encontra-se enraizado nos indivíduos, instituições e ambientes locais e é difícil de ser transferido. Num contexto de competição, a obtenção de vantagens assenta- se no uso produtivo da combinação única e localizada de recursos, os quais “sempre resultam das específicas trajetórias históricas e tecnológicas das regiões e nações” (ASHEIM, 2001, p.2).
Soon e Storper (2003) também concordam que a proximidade tem um papel crescente no processo inovativo. Levantam uma questão sobre o reflexo disso nas políticas públicas, ao sugerir que deve haver alguma razão para pensar que os governos locais deveriam privilegiar atividades que venham a combinar a criação de conhecimento localizado com o encorajamento da difusão não-localizada, no intuito de criar sinergia com as indústrias existentes, independentemente dos resultados poderem ser obtidos localmente ou não. É o potencial representado pelas aglomerações locais para o desenvolvimento e criação de conhecimento localizado.
Lemos (2003) ressalta que as diferentes terminologias utilizadas para designar tais aglomerações têm sido crescentemente apropriadas não apenas na área acadêmica, mas também na formulação de políticas de promoção de empresas, setores, regiões e países.
Os formatos organizacionais que privilegiam a interação e a atuação conjunta dos mais variados agentes – tais como redes, arranjos e sistemas produtivos e inovativos – vêm se consolidando como os mais adequados para promover a geração, aquisição e difusão de conhecimento e inovações (LASTRES; CASSIOLATO, 2003c).
Os diferentes conceitos utilizados para relatar experiências distintas de aglomerações locais serão abordados a seguir.
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O termo “titularidade” (assignee) refere-se à pessoa que tem o direito natural ou legal sobre a propriedade intelectual que foi transferida para ela pelo inventor.