diferentes técnicas e novos instrumentos tecnológicos foram agregados às investigações sobre o processamento da leitura. Em relação à escritura e, mais propriamente à sumarização e produção de resumos os trabalhos parecem ser escassos, em relação a essas inovações. Trata-se das análises dos movimentos oculares durante os processamentos. Esses movimentos podem apontar momentos de maior concentração visual (fixação) em determinadas palavras originados de dificuldades relacionadas aos aspectos morfo-sintático-semântico do texto; por outro lado, podem indicar, também, a dispensa da visualização de outras (salto ou skipping), por identificação prévia e decodificação antecipada, entre outros indícios.
Keith Rayner (1998) fez uma importante revisão dos últimos vinte anos de pesquisa. As primeiras análises sobre os movimentos de olhos em leitura, que evidenciaram que os movimentos oculares não seguem uma seqüência linear nessa atividade, foram feitas em 1879 e se estenderam, de forma observacional, até os anos 20. (Rayner, 1998:372). Até os anos 70, as análises eram feitas dos movimentos em si mesmos. A partir dessa década, passaram a revelar novas perspectivas, relacionadas às atividades cognitivas executadas durante a leitura. Nos últimos anos, com os diversos aparelhos de captura de movimento de olhos (eyetracking), diversas investigações contemplaram novas descobertas, com uma capacidade refinada de análise. É possível, hoje em dia, conhecer minúcias desses movimentos, calculados em milésimos de segundos, ou seja, é possível obter maior precisão na captura e maior facilidade na obtenção de dados (Rayner, 1998).
A revisão de Rayner (1998), por sua abrangência e atualidade, norteará este tópico. Nesse trabalho, o autor descreve os trabalhos mais relevantes desenvolvidos sobre movimentos oculares na leitura, de diferentes autores. Um dos aspectos importantes dessa revisão é o conjunto de conceitos e definições que o fundamentam e que são essenciais para qualquer tipo de estudo referente aos movimentos oculares no processamento leitor.
Após várias décadas de estudos investigativos, pode-se hoje afirmar que os movimentos oculares refletem os processos cognitivos (Rayner, 1998: 372): o
que Salvucci (1999: 1) denominou em sua tese: “Windows to the soul” ou “as janelas da alma”.
Rayner definiu o campo perceptivo da visão limitado a três “campos” ou regiões que caracterizam a acuidade ou agudeza do alcance das imagens: fóvea,
parafóvea e periférico. O campo foveal é onde se encontra a visualização ótima. É
para onde converge a atenção visual, ou o centro da visão; o da parafóvea se estende para cinco graus (5º) para qualquer lado da fixação, é uma área de não tão boa visualização. Neste ponto se percebem aspectos periféricos do objeto que estão mais próximos. O campo periférico da visão é mais deficiente, é uma região mais além da parafóvea, onde se percebem aspectos globais do objeto, mas não em um ponto específico (Rayner, 1998). Movemos os olhos com o objetivo de dirigir a fóvea para a parte do estímulo que desejamos ter como alvo de atenção.
Vários investigadores concordam que a abrangência parafoveal favorece as predições e relacionam as características essenciais dos movimentos de olhos na leitura em: fixações, sacadas (movimento balístico de passagem de um ponto alvo a outro), regressões (ou retornos) e saltos (ou skippings), entre outros movimentos subjacentes (Fernández, 1992; Brysbaert, Driegue e Vitu, 2005; Rayner, 1998; Salvucci, 1999; Cowen, Ball e Dellin, 2001; Richardson, Dale e Spivey, 2007; Macedo et al., 2007).
As fixações são as pausas que se dão em determinados pontos para a visualização e decodificação da informação. Os movimentos sacádicos são movimentos rápidos entre uma fixação e outra. As regressões são retornos a pontos já anteriormente fixados. As regressões podem ocorrer por diferentes motivos que serão explicados mais adiante.
Os saltos, também chamados skippings são sacadas longas a um ponto (no caso da leitura, a uma palavra) além do mais próximo, quando é percebido antes de uma fixação e saltado. Nesse caso, parece não haver necessidade de decodificá-lo. Isso ocorre, principalmente, com as palavras funcionais, que são mais familiares e tendem a ter uma extensão menor que as palavras de conteúdo, além disso, a freqüência com que aparecem em textos facilita sua decodificação
antecipada (Rayner, 1998; Salvucci, 1999; Cowen, 2001; Richardson, Dale e Spivey, 2007; Drieghe, Desmet, Brysbaert, 2007).
As regressões representam uma média de 10 a 15% dos movimentos
oculares de todo processamento leitor. Esses movimentos de retorno podem ser somente a algumas letras à esquerda, até o início da linha ou com uma extensão maior, para linhas anteriores ou para o início do texto, caso haja dificuldade para entender o texto. Uma palavra já fixada pode ser retornada por diferentes motivos: por ser uma palavra estranha, por apresentar alguma irregularidade: semântica, sintática ou morfológica. Também há regressões para ajuste da fóvea, pois a meta da fóvea tende a ser o centro da palavra. Caso o movimento sacádico seja demasiado extenso, que leve a fóvea para uma das extremidades da palavra, a tendência é que haja uma regressão para ajuste. (Nazir et al., 1998; Rayner, 1998; Inhoff et al., 2008.) A intensidade das regressões pode caracterizar o leitor deficiente, enquanto que a intensidade das sacadas pode caracterizar o leitor mais competente (Fernández, 1992; Rayner, 1998: 375).
Não há um padrão exato para avaliação de movimentos oculares, porque os comportamentos variam de pessoa a pessoa e dependem de vários fatores (Rayner, 1998; Kemper e McDowd, 2006).
Segundo Inhoff (1984), as palavras que não são fixadas, que são saltadas, estão claramente resolvidas para o leitor no acesso lexical, e na sua integração do texto. São as palavras “confiáveis”, cujo sentido no texto é identificado previamente. Elas têm grande probabilidade de serem saltadas em detrimento das palavras imprevisíveis (Kennedy, 1998; Kennedy, Murray e Boissiere, 2004; Kennedy y Pynte, 2005). As palavras denominadas de conteúdo - palavras que trazem conceitos ou referências - normalmente são fixadas por mais tempo que as funcionais, principalmente se são específicas - trazem conceitos técnicos, por exemplo (Rayner, 1979- 1998).
O controle da programação dos movimentos dos olhos pode ser considerado um aspecto metacognitivo. Ainda que alguns autores (Drieghe, Desmet, Brysbaert, 2007) tratem a programação visual, em parte, como um
processamento automático do aparelho óculo motor, também aceitam a hipótese de que a maior parte dos movimentos está relacionada a um controle supervisor do processamento leitor. Os procedimentos metacognitivos são os que dirigem a leitura à meta, que, em qualquer caso, é a compreensão leitora.
Neste trabalho, os movimentos oculares serão uma fonte de dados para análise das dificuldades do texto, enquanto refletores de processos cognitivos. Os movimentos relevantes para este estudo e que serão analisados serão as regressões (retornos) e os skippings.
Além dos processos psicológicos de baixo e alto nível e dos movimentos oculares, que se relacionam diretamente com eles, visto que a percepção e os comportamentos visuais são dirigidos, em certa medida, pelas estratégias cognitivas, é mister destacar que todos esses processos são definidos a partir do nível de dificuldade do texto que reflete, por sua vez, o nível de desenvolvimento intelectual do leitor. Esse nível se refere aos conhecimentos vários que demandam da tarefa de ler, compreender e interpretar o sentido de cada parte do texto e a percepção do texto como um todo. O tópico que se segue se dedica a fazer uma explanação sobre este assunto. A partir dele, será mais fácil ampliar as perspectivas sobre a competência leitora e a compreensão, que serão discutidas mais adiante.