2. Methods
2.3 Microeconometric modelling based on discrete choice analysis
Para mostrarmos a influência de Ferdinand de Saussure sobre a Teoria da Argumentação na Língua, criada por Oswald Ducrot e colaboradores, teremos como texto-base o artigo de Ducrot (2006) « A semântica argumentativa pode se vincular a Saussure ? » A partir dele, compreenderemos como foi o primeiro contato do linguista francês com o CLG (2005) e como as noções norteadoras língua, fala, valor e relação foram inseridas em sua teoria.
O contato de Ducrot com o estruturalismo aconteceu em meados da década de 1960. O interesse pela pesquisa linguística despertou no momento em que Ducrot descobriu Saussure. Ao se perguntar se era fiel a Saussure, lembrou-se da noção de
valor que o levou a estudar semântica: « Cada vez que falava de uma entidade, sempre tentei caracterizá-la pelo valor que permitia declará-la, como o trem Genebra-Paris de 8h45, idêntica ao passo que é sempre diferente ». 32 Explicando melhor, podemos afirmar que o trem Genebra-Paris de 8h45 é idêntico porque todos os dias esse trem passa nesse horário. Diferente porque o trem que passa hoje às 08h45 não foi o mesmo de ontem, e nem será o mesmo amanhã, configurando uma situação de enunciação sempre nova, situada no tempo presente. Os valores, dessa forma, estão se modificando, uma vez que as relações são flexíveis.
Relacionando a noção de valor com a ANL e, especificamente, com a TBS, corroborando com o vínculo entre Saussure e a semântica argumentativa, Ducrot (2006) afirma que a Teoria dos Blocos Semânticos é um prolongamento da Teoria da Argumentação na Língua, mostrando seu aprofundamento e sua radicalização. A partir da TBS, Carel e Ducrot (2005) procuraram mostrar que as entidades linguísticas (palavras ou frases) não têm sentido, ou seja, não se poderia exibir uma coisa, material ou física, que não seria ela própria constituída por palavras e que poderia ser considerada como o sentido dessa palavra. Essa afirmação se opõe diretamente ao referencialismo, que mostra o sentido das palavras a partir da realidade dos objetos, e do cognitivismo, que mostra o sentido das palavras evocando representações, sem ser parte constitutiva da palavra, isolando, dessa forma, conceitos, ideias, pensamentos. Ducrot (2006:156) reforça ainda que, ao afirmar que « as palavras não têm sentido », ele se opõe a duas ideias: a ideia de recorte do sentido na realidade ou no pensamento e a ideia de um sentido pré-existente às palavras que lhe seriam logo associadas. Ao explicar as suas recusas, Ducrot afirma que o sentido de uma entidade linguística está intrinsecamente relacionado ao conjunto de encadeamentos argumentativos ligados pela língua a essa entidade. Para ele, esses encadeamentos são sequências de duas proposições ligadas por um conector que pode ser do tipo portanto (DC) e do tipo no entanto (PT).33
Ducrot (2006:156) esclarece que as argumentações em portanto são argumentações normativas e são uma formalização de vários tipos de encadeamentos : a portanto b, a de sorte que b, b porque a, se a, b. Já as argumentações em no entanto
32 “... chaque fois que je parlais d’une entité, j’ai toujours tenté de la caractériser par la valeur permettant de la déclarer, comme le Genève-Paris de 8h45, identique alors qu’elle est sans cesse différente”.
são as argumentações transgressivas e representam os seguintes encadeamentos : a no entanto b, mesmo se a, b, mesmo que a b, a não impede b.
O linguista ressalta ainda que o sentido de uma entidade pode ser compreendido de duas formas: a argumentação externa e a argumentação interna. A argumentação externa se refere a encadeamentos cuja própria entidade é um componente, constituindo tipos de prolongamentos, à direita ou à esquerda, dessa entidade. Exemplificando, Ducrot utiliza os exemplos: X perdoou Y, sendo a argumentação à esquerda X ama Y portanto X perdoou Y e X não ama Y, no entanto X perdoou Y. Na argumentação interna, a entidade é um tipo de paráfrase ou reformulação da palavra, sendo a entidade ausente desse encadeamento. Ambas as argumentações procuram descrever não o objeto designado por uma expressão, mas algumas propriedades dos discursos associadas a essa expressão enquanto prolongamentos ou paráfrases. São esses conceitos (argumentação normativa, argumentação transgressiva, argumentação interna, argumentação externa) que Ducrot irá confrontar com os escritos saussurianos, a fim de verificar se há ou não vínculo entre as duas teorias.
Para mostrar o quanto a ANL é vinculada a Saussure, Ducrot (2006: 159) apresenta o paradoxo saussuriano e discute sobre ele, utilizando-se do trecho a seguir:
Mas eis o aspecto paradoxal da questão: de um lado, o conceito (significado) nos parece como a contrapartida da imagem auditiva no interior do signo e, de outro, esse próprio signo, ou seja, a relação que liga esses dois elementos é também e ao mesmo tempo a contrapartida dos outros signos da língua.
Visto que a língua é um sistema cujos termos são solidários e em que o valor de um só resulta da presença simultânea dos outros... como é que acontece que o valor, assim definido, se confunda com a significação (significado), ou seja, com a contrapartida da imagem auditiva (significante)?... Em outras palavras, para retomar a comparação da folha de papel que se recorta (ver p.157) – não se vê por que a relação entre diversos pedaços A, B, C, D, etc., não é distinta daquela que existe entre a frente e o verso de um mesmo pedaço A/A’, B/B’, etc34.
(Saussure, 2005: 157-159)
34 “Mais voici l’aspect paradoxal de la question: d’un côté le concept nous apparaît comme la contre- partie de l’image auditive dans l’intérieur du signe, et, de l’autre, ce signe lui-même, c’est-à-dire le rapport qui relie ses deux éléments, est aussi et tout autant la contre-partie des autres signes de la langue. Puisque la langue est un système dont tous les termes sont solidaires et où la valeur de l’un ne resulte que de la présence simultanée des autres, ... comment se fait-il que la valeur, ainsi définie, se confonde avec la signification, c’est-à-dire avec la contre-partie de l’image auditive?... Autrement dit, pour reprendre la comparaison de la feuille de papier qu’on découpe (voir p.157), on ne voit pas pourquoi le rapport entre divers morceaux A,B,C,D,etc., n’est pas distinct de celui qui existe entre le recto et le verso d’un même morceau, soit A/A’, B/B’, etc”.
Considerando esse excerto, Ducrot propõe uma reformulação: substituir significação e conceito por significado, e imagem auditiva por significante. A partir dessas alterações, o linguista francês delega ao signo duas funções: a primeira diz respeito ao significante e ao significado, constituintes internos do signo, inseparáveis um do outro, reforçando a coexistência de um e de outro. A segunda trata do conjunto de relações que os unem com os outros signos da língua, ou seja, com as outras relações significado-significante. Ao abordar a TBS, Ducrot enfatiza que a teoria está vinculada ao significado de um signo que engloba determinado conjunto de relações entre signos, cabendo ao significante uma mera função secundária. Assim, a Teoria dos Blocos Semânticos é constituída por relações constitutivas do significado, cujos encadeamentos argumentativos X DC Y e X PT Y estão relacionados ao signo.
Fazendo ainda a relação entre Saussure e Ducrot, temos as relações sintagmáticas. Para Saussure, o valor de um signo mostra que as relações sintagmáticas estão in praesentia, ou seja, estão nas relações entre signos no discurso. Ducrot afirma que essa sintagmaticidade também está presente na ANL, uma vez que a ligação com o signo também é previsto pela língua, formando encadeamentos estruturais: amar DC perdoar, não amar PT perdoar. Por sua vez, a relação com o signo depende também das condições de discurso, formando encadeamentos contextuais: estar de bom humor DC perdoar, estar de mau humor PT perdoar. Percebemos, dessa forma, que a base filosófica saussuriana é, de fato, uma hipótese externa da Teoria da Argumentação na Língua, criando elos entre as noções de língua, fala, valor, relação e expressos nos encadeamentos argumentativos.
Mas, como a noção de valor, presente no CLG pode ser vista na TBS? Ducrot (2006:163) retoma Saussure ao comparar o valor linguístico a partir do valor monetário. O valor monetário apresenta dois sistemas de troca: 1) ele pode ser trocado por outros valores monetários, ou seja, por valores análogos. Por exemplo, troca-se euro por moeda suíça ou por libra. 2) ele pode ser trocado por objetos de ordem diferente, ou seja, por uma cerveja, por exemplo. Para Saussure, esse segundo sistema constitui a relação significante-significado, ou seja, um signo linguístico tem valor a partir de sua relação com outro. Já o primeiro sistema de troca diz respeito à língua, ou seja, não considera as relações entre signos, mas as relações entre um significante e tantos outros, assim como relações entre um significado e tantos outros. Ao considerar o valor a partir desses dois aspectos isolados, Ducrot afirma que o componente semântico da linguística
seria um estudo das relações entre significados, ideia essa defendida por Prieto, estudioso da comutação fonológica e sua aplicação à semântica. No entanto, Ducrot rejeita que esse seja o melhor caminho a ser seguido, defendendo que a TBS está distante dessa perspectiva. Para ele, o sentido de um signo é feito a partir de encadeamentos argumentativos, ou seja, de discursos, portanto de relações entre signos. Sabe-se que os encadeamentos são relações sintagmáticas, in praesentia, sendo o valor assimilado a essas relações com outros encadeamentos. Dessa forma, não se podem negar as relações associativas, in absentia, ou seja, relações de oposição entre um encadeamento e outros. Percebemos que essa concepção reformulada por Ducrot reforça a ideia do CLG de que “tudo é negativo na língua”, por isso, o significado e o significante também o são. Notamos, então, que Saussure criou sua teoria baseada em duas características primordiais: a diferença e a complementaridade. Ambas só são possíveis de serem realizadas porque consideram a noção de valor. Ao retomá-la, Ducrot reitera que, para Saussure, o valor de um signo é um conjunto de relações entre coisas homogêneas. Relações constituídas por significantes ou por significados. Essa manifestação do valor abrange uma outra ordem, apresentando um aspecto acústico e um aspecto conceitual. Para Ducrot (2006: 167), a semântica argumentativa tenta caracterizar o signo linguístico de forma puramente linguística, sem introduzir em sua descrição as manifestações conceituais que são um tipo de projeção. E é essa tarefa que a TBS faz: constrói o significado a partir de encadeamentos argumentativos de enunciados, ou seja, de relações sintagmáticas entre signos linguísticos providos de significante e de significado. De acordo com Ducrot, a TBS engloba a própria linguística, capturando nela o seu sentido mais ‘puro’, destituído de realidades extralinguísticas.
Notamos, nessa seção 1.2.4, que Oswald Ducrot (2006) se serve dos princípios saussurianos, a fim de fundamentar a Teoria da Argumentação na Língua. Através das noções de língua, fala, relação, valor, o linguista francês mostra como a TBS se utiliza dessas ferramentas saussurianas para buscar o intralinguístico. Nas próximas seções, abordaremos especificamente a ANL e como os estudos de Platão e de Saussure são contemplados nessa perspectiva abordada por Ducrot.
Figura 9: Saussure por Ducrot – parte I
Fonte: Figura elaborada pela autora
Nesta figura, temos os conceitos saussurianos de língua, fala, valor e relação incorporados à Teoria da Argumentação na Língua, criado por Oswald Ducrot e colaboradores. A partir desses conceitos-base, a ANL se tornou uma teoria de caráter relacional.
Figura 10: Saussure por Ducrot – parte II
Fonte: Figura elaborada pela autora
Servindo-se dos estudos de Saussure, Ducrot mostra que a TBS é uma radicalização da ANL ao apresentar os encadeamentos em DC e em PT, desconsiderando as realidades extralinguísticas e resgatando os sentidos intralinguísticos. Na seção a seguir, abordaremos o conceito de alteridade de Platão, as noções de valor e de relação saussurianos sob a perspectiva da ANL.
1.3 CONCEITOS DA TEORIA DA ARGUMENTAÇÃO NA LÍNGUA: A