Para compreendermos a lógica desenvolvida pelo filósofo grego, tomaremos como base de nossa reflexão o capítulo Aristóteles e a forma demonstrativa da ciência56, presente no livro Os filósofos e a ciência (Wagner,2002), que trata dos filósofos e dos pensadores que contribuíram para o desenvolvimento da ciência e suas ramificações.
Contextualizando, Aristóteles foi aluno de Platão e contestava muitas ideias advindas de seu professor. Platão tentou descrever a exigência demonstrativa da ciência através de sua forma, mas somente Aristóteles conseguiu realizar essa tarefa. Outra concepção díspar entre professor e discípulo é que Platão havia excluído da ciência a observação sensível e Aristóteles resgatou-a, vinculando à ciência a natureza e os seres vivos. Outra noção divergente é a de que, para Platão, a natureza é uma mera narração real, enquanto para Aristóteles a natureza é o objeto de um verdadeiro discurso científico. Ao contestar e questionar seu mestre, Aristóteles define e cria um novo tipo de ciência em que se tem a observação da natureza e a aplicação de um procedimento demonstrativo dessa observação, em que se denota a origem empírica do conhecimento. Dessa forma, as ciências da natureza são ciências de observação e seus objetos de estudo são o real, a natureza e o observável.
Figura 23: Lógica de Aristóteles e Platão
Fonte: Figura elaborada pela autora
Nesta figura, temos a representação da lógica de Aristóteles e da lógica de Platão. Enquanto a lógica de Platão se caracteriza como uma ciência demonstrativa sem
observação sensível, contemplando a narração real, a lógica de Aristóteles aborda uma ciência demonstrativa com observação sensível, contemplando o discurso científico. Podemos notar o quanto a lógica do discípulo (Aristóteles) se diferencia da do mentor, evidenciando como os estudos da ciência eram passíveis de mudança.
Para demonstrar a lógica e como ela funciona, Aristóteles divide a ciência em três categorias: as ciências práticas, as ciências produtivas e as ciências teóricas. Cabe às duas primeiras o princípio de movimento interior, de objeto móvel e à terceira, um princípio exterior, um objeto imóvel. O papel das ciências produtivas (como a medicina) é obter o conhecimento das causas e uma teoria. Baseando-se nessa teoria, essas ciências são capazes de produzir soluções para diferentes problemas. Já as ciências práticas improdutivas são assim denominadas porque elas consideram a ação, ação essa que depende do ser humano. Como ciências improdutivas, temos a política e a ciência a ela subordinada, a estratégia, a economia e a retórica57. Uma diferença fundamental entre a ciência produtiva e a ciência teórica está na capacidade de produzir e de agir sobre a matéria. Assim, a primeira pensa, concretiza e realiza, a segunda filosofa e procura persuadir.
Ao tratar das ciências teóricas, Aristóteles as divide em três: a física, a matemática e as teologias, evidenciando o homem a partir de diferentes perspectivas:
O homem é um e indivisível enquanto homem. Primeiramente, o matemático aritmético estabeleceu uma unidade indivisível e somente a partir daí concluiu aquilo que chega ao homem enquanto indivisível. O matemático geométrico não o examina nem enquanto homem nem enquanto indivisível, mas enquanto sólido.58
Com esses dois pontos de vista, temos a aplicação da matemática às substâncias naturais, em que se obtém a abstração das propriedades naturais dos corpos, mas os teoremas são aplicados à abstração, e o processo inicial de abstração da matemática pura, em que se expõe como se separa aquilo que não o é. Através da matemática, Aristóteles sustenta que o homem é uma propriedade das coisas, e a partir dele se retira a matemática como unidade indivisível. A matemática (assim como o homem) se torna
57 A retórica de Aristóteles será tratada na seção 3.2.1
58 « Car l’homme est un et indivisible en tant qu’homme. L’[arithméticien] a d’abord posé une unité indivisible et c’est seulement ensuite qu’il a examiné ce qui arrive à l’homme en tant qu’indivisible. Le géomètre ne l’examine ni en tant qu’homme ni en tant qu’indivisible mais en tant que solide ». (Wagner, 2002 :599).
um número como pluralidade mensurada pela unidade. Frege (apud Wagner, 2002) contesta a concepção de Aristóteles e afirma que o número é a extensão de um conceito, de forma alguma são propriedades reais abstratas das coisas naturais.
Percebemos aí que, para se chegar a uma conclusão ou definição matemática, tanto Aristóteles quanto Frege servem-se do ser humano para embasarem suas concepções. Aristóteles mostra, no entanto, que os seres matemáticos existem fora da mente humana, na natureza, sem serem substâncias independentes dos corpos. Ao afirmar que os seres matemáticos existem nos corpos naturais e é o matemático que os abstrai pelo pensamento, ele deixa claro que o seu posicionamento é oposto àquele de Platão em que os seres matemáticos são realidades separadas dos corpos sensíveis e têm existência própria. Notamos, assim, que, para Aristóteles, uma ciência se forma quando a abstração e a materialidade convergem. Com essa noção, o filósofo grego configura a estrutura demonstrativa da ciência, afirmando que a ciência é uma aptidão a ser demonstrada, ou seja, é uma capacidade demonstrativa e consiste no conhecimento da causa. Ratificando o que queremos dizer, utilizaremos excertos do próprio filósofo: “Chamamos saber o fato de conhecer alguma coisa por uma demonstração. Chamo demonstração um silogismo científico, e chamo científico o domínio daquilo que sabemos.”59 A partir desse enunciado, notamos que a descoberta significativa de Aristóteles em relação à lógica está na concepção de conhecimento por demonstração e essa demonstração é uma forma de silogismo, que apresenta a seguinte estrutura:
Se A pertence a B, e se B pertence a C, então A pertence a C. E obedece à seguinte ordem: afirmações iniciais→dedução→silogismo.
Concretizando, temos os seguintes enunciados: A= Todo homem é mortal
B= Sócrates é homem C= Logo Sócrates é mortal
59 « ...Nous appelons savoir le fait de connaître quelque chose par une démonstration. J’appelle démonstration un syllogisme scientifique, et j’appellle scientifique ce par la possession de quoi nous savons. »
Notamos, então, que a validade da dedução depende da relação entre sujeitos e predicados e não da relação entre as orações. É a partir dessa cadeia que o silogismo funciona e se dinamiza, e Aristóteles consagra sua lógica. A lógica demonstrada por esse silogismo configura qual é o seu papel: evidenciar que a linguagem é objetiva e bem estruturada, daí tudo pode ser facilmente depreendido. No livro dedicado à Teoria dos Blocos Semânticos, Ducrot (2005) mostra como ele se beneficiou do quadrado aristotélico para elaborar os blocos semânticos60 e a noção de sentido intralinguístico através da interdependência semântica. Na seção a seguir abordaremos como Ducrot utilizou, inicialmente, alguns recursos da lógica para explicar o sentido.61
Figura 24: Ciências e Silogismo
Fonte: Figura elaborada pela autora
60 A Teoria dos Blocos Semânticos em contraste com a Teoria dos Topoi será abordada no capítulo 5. 61 Enfatizamos que Ducrot tem conhecimentos sobre a lógica, a matemática, as ciências exatas em geral, mas não pode ser designado como lógico ou matemático. O linguista francês é um estudioso da língua e tem amplo conhecimento da filosofia, e foi a partir dela que percebeu que a lógica não serve para uma teoria semanticista. A seção a seguir abordará como alguns recursos da lógica foram adaptados pela ANL. No capítulo 5, veremos que a Teoria dos Blocos Semânticos conservou o intralinguístico em detrimento do extralinguístico e da lógica apresentada na Teoria dos Topoi.
Nesta figura, podemos perceber que a ciência concebida por Aristóteles é dividida em três categorias: ciências práticas, ciências produtivas e ciências teóricas que tratam de assuntos diferentes, mas fazem surgir a ciência demonstrativa, onde o silogismo é criado, tendo a estrutura afirmações iniciais, dedução, silogismo. Veremos, na seção a seguir, que Ducrot adota um novo ponto de vista sobre a lógica, concebendo-a a partir da linguagem, contrariando o ponto de vista sobre a lógica de Aristóteles, que considera a realidade.