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Heidegger divergiu a partir das considerações da fenomenologia pura de Husserl. Os fenomenólogos de modo geral continuaram, por métodos às vezes diferentes, seguindo em busca da compreensão do fenômeno. Castro (2013) traz para o campo a possibilidade de pensar a Comunicação como meio de observação da vida vivida, considerando que a dimensão maior da comunicação é também seu ambiente quotidiano. Ele explicita a relação da fenomenologia com a própria existência comunicacional, e não somente com a experiência social, ainda que a Comunicação fosse condição básica desta. Sua observação aponta uma condição existencial, declarada por Heidegger, para a constituição de estudos no âmbito da Comunicação Social.

Em seu artigo ―Fenomenologia da Comunicação em sua Quotidianidade‖, Castro observa em primeiro lugar a condição de apreender o que é ―quotidiano‖ para Heidegger:

Para compreender o que significa, em Heidegger, a ideia de quotidiano, ou de quotidianidade, é preciso observar que, para o filósofo, ela não é análoga às ideias de ―vida quotidiana‖ ou de ―vida comum‖. Para Heidegger, seria a estrutura constitutiva original e incontornável de todo ser-no-mundo. É o universo do ser-com-outros, no qual o ser-com-outros sempre prevalece sobre o ser-a-si-mesmo que se poderia ser, de outro modo. (CASTRO, 2013. p. 24).

Assim sendo, a comunicação se dá numa esfera de compreensão existencial da vida, inclusive na condição social que sigo reafirmando aqui. A existência, para Heidegger, se dá numa esfera de autenticidade ou inautenticidade, em que o sujeito identifica ou não um sentido da vida, sentido este que é a priori obscurecido nesse ―quotidiano‖ para o ente (sujeito) que o filósofo chama de Dasein. Para Cerbone,

Heidegger usa essa locução idiossincrática, que é composta de ―Da-―, significando ―aí‖, e ―-sein‖, significando ―ser‖, a fim de excluir tantas suposições e preconceitos quanto possível, concernentes ao tipo de entes que nós mesmos somos. Outros termos, tais como ―homem‖, ―ente humano‖, ―homo sapiens‖, assim por diante, já carregam conotações de anos de circulação na filosofia, teologia, antropologia, psicologia e biologia, para nomear alguns, que podem se mostrar problemáticos (...). O Dasein é o lugar para começar a responder a questão sobre o ser porque ele, diferente de outros tipos de entidades, sempre tem uma compreensão do ser: entes humanos são entes para quem as entidades são manifestas em seu modo de ser. Isso não significa que nós já temos uma concepção desenvolvida sobre o que é ser (...), mas, em vez disso, nossa compreensão e em grande medida implícita e pressuposta, o que Heidegger chama ―pré-ontológico‖. (CERBONE, 2012. p. 69).

Por sua vez, Castro mostra a importância de outro aspecto da filosofia existencial de Heidegger, a queda. A queda traz o ser para o contexto do mundo em que ele se absorve das ―funcionalidades‖ do mundo, por assim, dizer. ―É o universo do se, se é, se faz, se vê, se sabe... Nesse estar-junto o Dasein se torna anônimo, se eclipsa‖. (CASTRO, 2013. p. 24). Como ressalta Castro,

É assim que se produz o fenômeno da queda (Verfallenheit), a auto- identificação do Dasein como mais uma coisa-no-mundo. É a queda que leva ao encobrimento do ser e à inautenticidade do Dasein. No mundo da queda, do ser encoberto e inautêntico, tem-se a ilusão de que se tem ―individualidade‖, ―identidade‖ etc, quando tudo isso, efetivamente, não passa de um encobrimento, de uma fuga, das questões existenciais que se colocam ao Dasein. (CASTRO, 2013:p. 25).

A queda antecede a compreensão de ―falatório‖ (Gerede), que é o termo que interessa do ponto de vista da filosofia existencial de Heidegger para a compreensão da Comunicação, como algo que não está ligado à sua condição de efetividade ou eficácia nos processos ―funcionais‖, mas como aspecto real que possibilita um encobrimento dos aspectos do ser-no- mundo, ou na revelação destes aspectos, servindo a uma condição existencial, de posicionamento em relação à vida. Como sugere Castro, novamente,

O mundo do se permite as ilusões do Dasein. É um mundo cômodo, que lhe exime de formular as questões sobre sua existência e, assim, de dissimular, na metafísica da vida comum, sua pretensão de integralidade, totalidade e

identidade. A dispersão entre os outros lhe confere um abrigo, equivale ao fazer parte de um coletivo de incógnitos, a estar no seio da manada. (Ibidem. p. 26).

O Dasein é um ente para quem ―o ser é um tema‖, e sua condição de estar no mundo se produz através do cuidado, sendo este constitutivo de três modos: ambiguidade (Zweideutigkeit), curiosidade (Neugier) e falatório (Gerede). O falatório seria uma condição de existência do ser no mundo, proveniente da queda, em sua condição de estar no mundo sob os efeitos da quotidianidade do Dasein, em que, positiva ou negativamente, as coisas ditas não estão ligadas a uma condição de autenticidade do ser. Como diz Heidegger, a partir da citação de Castro:

A comunicação não partilha a relação primária do ser com o ente sobre o qual ele está falando, o ser-com-outros se envolve em um falar-como-outros e em uma preocupação com aquilo que está sendo falado. Nessa situação, tudo o que importa é aquilo que está sendo falado. O que se diz, o dito e a dicção, se empenham, nessa situação, como os garantidores da autenticidade e da adequação (da objetividade) do falar e da compreensão (HEIDEGGER, 1976, p. 223-224 apud CASTRO, 2013: p. 36).

Ainda observando a análise de Castro sobre Heidegger podemos citar o autor:

No falatório, portanto, a garantia da autenticidade, da adequação e da objetividade daquilo que é dito, não dependem daquilo que seria autêntico, adequado ou objetivo em relação ao ser do ente referido, mas, exclusivamente, do dizer, do dizendo, do dito, da dicção. (CASTRO, 2013: p. 36).

Sabendo que a condição de autenticidade de Heidegger está ligada à compreensão do mundo, principalmente, a partir da proximidade da morte, sua fenomenologia ganha ares de existencialismo, de compreensão da vida para a vida. Assim sendo, cada vez mais difícil de ligá-la a uma condição legítima de campo sobre processos comunicacionais baseados em funcionalidades e eficácias de processos administrativos e/ou institucionalizados de comunicação. Heidegger nos serve do ponto de vista sempre possível da compreensão não- metafísica da Comunicação, possibilitando nos reinserir no contexto dos debates acadêmicos as questões ―existenciais‖ da condição comunicacional, mexendo com as afirmações instituídas e legitimadoras de um status quo.

Essa potência, que pressuponho presente neste trabalho, está, explícita ou implicitamente, presente também nas obras de Derrida (1994) e Maffesoli (2001), aqui referenciados. No claro posicionamento em relação a nosso objeto, pretendendo que ele seja

autêntico das condições em seu estar no mundo. Em sua relação local/global, e sua compreensão.