Podemos entender, portanto, que todas estas características levantadas até aqui como componentes fundamentais da noticiabilidade é o conjunto de elementos dos quais uma organização jornalística se utiliza para controlar a quantidade e o tipo de acontecimentos que devem se tornar notícias (WOLF, 1992). Entretanto, mesmo que determinados valores, competências e o contexto da organização nos possibilite compreender a produção das notícias, é necessário ainda, pela própria característica profissional, que haja um guia que auxilie nessa seleção na prática do fazer jornalístico. Segundo Wolf (1992) este guia seriam os valores notícias.
Os valores notícia utilizam-se de duas maneiras. São critérios de selecção dos elementos dignos de serem incluídos no produto final, desde o material disponível até à redacção. Em segundo lugar, funcionam como linhas-guia para a apresentação do material, sugerindo o que deve ser realçado, o que deve ser omitido, o que deve ser prioritário na preparação das notícias a apresentar ao público (WOLF, 1992, p. 83).
Partindo dessa ideia, é possível considerar que dois dos valores essenciais para a escolha da notícia é o da relevância e atualidade. A relação estabelecida entre as duas estão na base de todos os outros valores notícia. A relevância, um conceito complexo e bastante diverso, é descrita por Corrêa (2009) como a um sentido pragmático que orienta a presença do agente no mundo cotidiano, ou seja, é o que ele seleciona como importante para orientar suas ações na vida. No entanto há muitas formas de se fazer isso, sugerindo que a noção de relevância está muito mais ligada às questões de contexto culturais e sociais.
Quando analisamos detalhadamente a noção de relevância vemos que esta é uma qualidade que não emana directamente do acontecimento, como se o acontecimento se conseguisse isolar a si próprio como acontecimento. A relevância de um acontecimento é atribuída em função de contextos sociais e culturais (CORRÊA, 2009, p. 07).
Pensar, portanto, ainda que brevemente, na projeção de alguns tópicos sobre a sustentabilidade das cidades em detrimento de outros, nos jornais, por exemplo, é explorar a problemática para além dos fatos em si, e entender o sentido que estes fatos alcançam dentro da produção dos discursos na prática jornalística. Isto sugere compreender o fenômeno a partir desta interseção entre o campo do jornalismo e as conjunturas nas quais ele está inserido.
A noção de atualidade, por outro lado, parece ser de mais fácil assimilação. Está ligada em primeira instância à temporalidade na qual o acontecimento relevante precisa estar temporalmente próximo ao público, para se tornar jornalístico. No entanto este fato precisa ser, para este mesmo público, relevante para ser atual, sugerindo uma dependência entre as duas noções. Além disso, como sugere Corrêa (2009), a ideia de atualidade temporal também está ligada a uma construção social específica. Neste contexto, o autor destaca que:
Não se trata de simplesmente afirmar que um evento e o correspondente enunciado que se lhe refere é actual e relevante – isto é que existe urgência no seu conhecimento – porque os media informativos os anunciaram como tal: o evento terá uma actualidade que resulta da novidade da ocorrência que descreve e do impacto que o enunciado tem nas condições contextuais que o rodeiam (CORRÊA, 2009, p. 15).
Diante desta orientação dada pelo princípio da atualidade e da relevância, as narrativas jornalísticas acabam por configurar, deste modo, importantes formas de percepção da realidade. A incorporação da atualidade e da relevância pelo jornalista, ocorrida no âmbito das práticas e experiências profissionais, se transforma na consolidação de critérios indispensáveis para a prática de um dito “bom jornalismo”.
Na visão de Traquina (2005) estes valores-notícia acabam construindo nos jornalistas uma forma de ver específica, que privilegia a visão bipolar da realidade. Esta visão tenta encontrar sempre dois polos opostos dentro de determinado tema, no qual se enfoca o lado positivo e o negativo, pró e contra. Tal fenômeno ajuda a entender, por exemplo, por que muitas vezes os jornalistas não conseguem fazer notícias mais profundas sobre determinado assunto, optando por enfoques mais dramáticos.
Há, no entanto, uma distinção entre valor notícia de seleção e valores notícia de construção. O valor notícia de seleção seria o valor que servirá de critério para determinar o que de fato merece ou não merece o tratamento jornalístico, ou seja, é ou não é notícia. Aqui temos, portanto, a morte de uma pessoa notoriedade do indivíduo envolvido, a proximidade do fato com o público, a relevância do fato, o tempo, a notabilidade (tangibilidade) do fato, o conflito ou controvérsia, a transgressão de regras (infração) e o “escândalo” como exemplos. Por outro lado, dentro do contexto de produção da notícia: a disponibilidade para a cobertura do acontecimento, o equilíbrio no número de abordagens sobre o fato, a concorrência com outras empresas jornalísticas e o dia noticioso (quantidade de fatos com muitos valores notícia) são outros valores com os quais o jornalista seleciona os fatos que irá tratar (TRAQUINA, 2005).
Já os valores de construção são critérios utilizados pelos jornalistas para a inclusão de determinado elemento de um fato na construção de uma notícia, ou seja, os elementos destacáveis dentro de um acontecimento que darão “qualidade” à notícia que irá ao público. Neste sentido Traquina (2005) nos aponta alguns destes valores de construção, tais como: a simplificação dos fatos, amplificação dos fatos ou de suas consequências, a relevância do fato (dar sentido ao fato), a personalização dos fatos (destaque para as pessoas envolvidas) e por fim o reforço do caráter dramático dos fatos. Desta forma, acontecimentos que permitam operacionalizar estes valores são vistos como noticiosos.
É importante que percebamos que há uma espécie de valoração dos assuntos a serem tratados na mídia. A questão da sustentabilidade cidades, por exemplo, e a infinidade de temas que evoca, como a questão do destino adequado dos resíduos sólidos, habitação adequada, melhoria da qualidade de vida, acesso a recursos hídricos, dentre outros, são temas que não corresponderia às expectativas destes valores ao menos que estivesse envolto de intrigas que sejam interessantes aos media. Mas também não se pode desconsiderar as implicações específicas do contexto no qual se produzem a notícia, o que torna estes valores muito mais flexíveis em determinadas situações.