4. Estado de la cuestión
4.3. A modo de epílogo. Algunas conclusiones sobre el Estado de la Cuestión
No decorrer da pesquisa, na busca por compreender como os (as) professores (as) avaliavam a situação das meninas/vítimas de esccalpelamento no retorno à escola, à comunidade ou ao bairro, foi possível identificar nas narrativas de outros professores – agora do Ensino Médio, que convivem com alunas/vítimas que já passaram pelo processo de reinserção escolar – que os sentidos e significados atribuídos ao corpo da menina/vítima estavam diretamente relacionados à representação da falta de cabelo e aos transtornos que esta mutilação causa na vida dessas meninas.
Triste, constrangedor - e eu acredito -, não morreu a feminilidade dela, não esta morta, mas assim como arranca o cabelo, arranca um pedaço dela, um pedaço da mulher, porque essa sensualidade da mulher também está voltada para a estética, e o
cabelo é um ponto muito fundamental que a gente observa na sensualidade feminina. No momento que isso acontece com esta mulher, com esta jovem, com esta moça, arranca um pedaço dela; não é só aquela parte que ela perde, é um pedaço assim, como eu posso dizer? Um sentimento que ela passa e, com certeza, ela procura fugir e se esconder, como de uma maneira de se esconder daquela realidade e é algo que vai fazer uma diferença pra ela muito grande; é algo que afeta o lado psicológico, é preciso trabalhar muito bem isso, daí, apesar que ela passa naquele momento a não se aceitar mais; assim como ela não se aceita, ela pensa também que os outros não irão aceitá-la e diz:“ah! para mim acabou”.Por quê? Porque a gente lida muito com a questão da beleza, da estética e, para a mulher, isso com certeza é uma situação muito difícil; e para um homem, também, que de repente sofre um acidente, e a parte estética dele é afetada, um rosto queimado... então, geralmente o ser humano tem o isolamento como fuga justamente pra não se apresentar daquela maneira como uma imagem pra sociedade. Eu vejo assim , mas, pra mulher, é muito difícil, por isso que tem que ser entendido esse lado. Eu digo sempre assim que, pra mulher, na sociedade, apesar de todos os avanços, de todas as conquistas, tudo...se ela, naturalmente como Deus criou, já é difícil, imagina assim ela ter um algo a mais, que é tão significativo pra ela, lhe tirar uma beleza estética.
Ao estruturar seu relato, Alfredo reconhece que o fato de uma menina/mulher não ter cabelos é, ‘com certeza, triste e constrangedor’. Se, para o homem, uma mutilação que possa afetar a sua estética tem efeito destruidor para sua autoimagem, para a mulher essa mesma situação é ainda muito mais difícil, ‘por isso que tem que ser entendido esse lado’. Talvez sob esse prisma, devêssemos nos perguntar, antes de tudo, por quê e em que momento determinadas características físicas (cabelos longos) tornaram-se marcas tão significativas e definidoras das identidades femininas?
É justamente nesse momento que o resgate histórico realizado no capítulo III desse estudo se justifica para podermos compreender que o corpo não possui em si nenhum sentido intrínseco se desvinculado do contexto social, cultural e político de cada época. Ou seja, não há nada de “natural”, “normal” ou “universal” na forma como vivemos e percebemos nosso corpo, mas ele possui uma estrutura simbólica e mutante que varia de uma cultura para outra. O corpo, portanto, é lócus de produção e expressão cultural, onde foram e são projetadas variadas representações histórico-social-discursivas – midiáticas, religiosas, médicas, legais, pedagógicas e escolares, entre outros, as quais servem para elucidar, significar, moldar, punir e disciplinar o corpo em diferentes tempos e espaços, e que ainda constroem cotidianamente as pedagogias utilizadas para civilizar, ditar padrões de comportamento, saúde, vigor, vitalidade, juventude, beleza e força, conforme as imposições culturais, estéticas, higiênicas e morais de cada grupo, dentro do espaço e tempo de cada sociedade.
O corpo visto sob esta ótica torna-se a “corte de julgamento”, objeto de imaginários e representações, o “porto” onde se ancoram todas as identidades sociais de gênero, de raça, nacionalidade, de classe etc., moldadas no âmbito de uma cultura. Neste contexto, o corpo, visto sob esta perspectiva, possui uma carga simbólica que pesa sobre sua existência,
tornando-se arena de luta numa relação de poder, onde se travam no campo das representações as batalhas decisivas para impor significados, padrões próprios e sentidos particulares de determinados grupos em detrimento de outros.
É através desse complexo investimento histórico-social-discursivo, exercido sobre o corpo feminino, que a menina/mulher escalpelada é excluída do padrão de “normalidade” estabelecido pela sua cultura. Não foi somente um tucho de cabelo que ela perdeu, mas foram- lhe arrancados os atributos fundamentais da existência corporal feminina ribeirinha, toda uma carga simbólica em que se ancora sua feminilidade, conforme subentende-se nas entrelinhas do discurso do professor, ou seja, o que revela pelo discurso não dito, ao afirmar que, ‘pra ela, “naturalmente” como Deus a criou, já é difícil (o fato de ser mulher, frágil e subalternizada numa sociedade machista), imagina assim ela ter um algo a mais (cabelos) que é tão significativo pra ela, lhe tirar uma beleza estética’. Esse traço marcante da desigualdade de gênero, subentendido no relato de Alfredo, refere-se ao reconhecimento dessa situação – tema que mais adiante ele volta a abordar ao afirmar que:
A dificuldade, em todos os sentidos, é porque a gente vê assim, porque hoje, apesar de todos os avanços, o mundo é muito machista; a sociedade ainda é machista, temos que admitir a sociedade é machista. Tu podes me perguntar: “Alfredo, tu és machista? Eu digo: “Olha, acredito que, sem perceber, acabo sendo, mesmo querendo me policiar; às vezes, acabo sendo e justamente porque nós ainda não nos desvinculamos de alguns costumes, de algumas raízes que estão ainda no nosso passado; mas isso aí é com o tempo, esse tempo tem que ser trabalhado bem - cada um, assim como eu deixei, e sou menos machista hoje, como o meu pai, que foi menos que meu avó -, eu espero que meu filho seja menos machista do que eu. Entendeu? (Prof. Alfredo - Barcarena)
O professor reconhece, portanto, que vivemos em uma sociedade machista e que, mesmo sem perceber, admite que acaba repetindo comportamentos internalizados, perpetuando valores e reproduzindo-os mesmo sem ter consciência desse discurso histórico, oficial e hegemônico que padroniza, normaliza, disciplina, silencia e oculta os corpos e suas subjetividades. Isso reafirma o pensamento de Louro (2000), ao afirmar que não somos apenas receptores das ideologias dominantes hegemônicas ou das crenças coletivas, mas somos também os produtores dessas representações; somos nós que fazemos nossas próprias instituições através de uma rede de representações formadas a partir do contexto em que vivemos.
Retomo aqui as inquietações que deram origem a este estudo quando reconheço que os professores não estão isentos de juízos de valores, de estereótipos machistas oriundos da cultura vigente ou do peso da concepção religiosa dualista que despreza os corpos, deixando- nos à mercê de todo esse universo cultural que termina por influenciar os apressados julgamentos que se fazem sobre os corpos dos/as alunos/as. Considerando-se ainda que o
espaço escolar é lugar privilegiado para a transmissão de todo esse sistema de representações, através dos saberes e rotinas pedagógicas, dos currículos prescritos e/ou praticados, das experiências comuns do dia a dia com professores e colegas no estabelecimento das relações interpessoais, ancoro-me em Louro (2000) para afirmar que as identidades e as subjetividades corpóreas desses(as) alunos(os) serão tatuadas pelos valores, regras sociais e padrões comportamentais e estéticos que irão constituir um modo específico de pensar e pensar-se, muitas vezes alheio a sua própria vontade.
É nesse universo que o corpo da menina não escapará ileso dessas marcas, pois o escalpelamento não mutila somente o corpo que expõe as cicatrizes biológicas, mas também mutila psicologicamente estas meninas/mulheres, que sofrem ao retornarem ao convívio social e escolar, devido ao estranhamento e preconceito provenientes das marcas sociais que o acidente provoca e que perduram na vida cotidiana na comunidade, na escola, em sala de aula, delimitando as fronteiras de suas relações interpessoais e passando a constituir desse momento em diante parte significativa de sua nova identidade e subjetividade.
Estas são questões delicadas que desafiam o trabalho docente, uma vez que os professores não dispõem de conhecimentos teóricos ou tratos profissionais para criar estratégias que possam promover a reinserção social e escolar da menina/vítima, nem tampouco para entender os significados das marcas das desigualdades que estes corpos carregam e como elas se apresentam no cotidiano escolar. Para Arroyo (2014), a saída para que possamos repensar a docência, as didáticas, os tempos, espaços e convívios escolares seria incluirmos nos currículos de formação um olhar mais aprofundado de tratos profissionais sobre o desenvolvimento humano, proporcionando a reflexão sobre as questões que permeiam os comportamentos corpóreos de nossos alunos, buscando compreender como “vão construindo suas identidades, como vão se formando no diálogo com seus corpos e com esse emaranhado de imagens negativas que pesam sobre seu gênero, sua raça, sua etnia e sua condição social” (ARROYO, 2014, p.127).
VII COMO OS PROFESSORES VÊEM AS MENINAS: VÍTIMAS SUJEITOS DE DIREITOS
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“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma de nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares”
Fernando Pessoa
Considerando que será através das trocas interativas, das práticas e representações sociais, conceitos e imagens, e ainda das percepções compartilhadas e transmitidas do seu grupo que as meninas/vítimas de escalpelamento irão tecendo suas novas identidades corpóreas, busco neste capítulo analisar como os (as) docentes identificam a situação de exclusão ou de inclusão dessas meninas no processo educacional. Ou seja, saber quais os significados que estão sendo atribuídos em nossa cultura à marca ou aparência dessas meninas vítimas de escalpelamento no espaço escolar.
Ancorada nos estudos de Tardif (1991), que concebe a prática educativa enquanto interação quando ressalta a natureza profundamente social do ato educativo, intenciono apreender por meio da visão dos professores como vem se estabelecendo a relação entre os/as professores/as e as meninas/vítimas, assim como a relação destas com todas as pessoas envolvidas nas relações escolares, argumentando que é na pluralidade existente no espaço escolar que as diferenças são construídas.