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Elementos sobrenaturais, mesclados com a religiosidade católica estão presentes nos sistemas de crença da região. Esses sistemas de crença fazem parte de uma série de elementos presentes no imaginário, compostos pelas dimensões inconscientes em consonância com aspectos da realidade. Suas sobreposições e manifestações estão presentes para além do tangível, encontrando substrato nos territórios imaginários, onde quer que se estabeleçam seus domínios.

A crença no sobrenatural parece percorrer parte das localidades caatingueiras. Em algumas delas os elementos sobrenaturais aparecem de forma marcante. No Cercado todos já ouviram, já viram ou conhecem alguém próximo que já teve experiência com o sobrenatural. Os relatos a seguir representam crenças nas entidades mágicas e demoníacas que cercam o imaginário local. Muitos deles contendo elementos de contenção e regulação das normas sociais e morais.

“ Moço, livuzia atrapalha muito a nossa vida por aqui. Tem noite que chega um de madrugada e diz: essa noite na casa de fulano ninguém dormiu um pingo labutando com livuzia. Só quando alguém dava um defumador é que a livuzia passava”152.

“Liberato filho de Joana, esse mesmo eu sei que morreu foi porque mandaram amarrar o rastro dele. Foi caçar no tabuleiro, ficou uns dias pelo mato, tava com sede e no sol quente e aí chupou uma melancia quente. Foi voltar de lá já com febre e cambaleando. Disseram que era estupor, que tinha pegado um ramo, mas não foi nada disso. Ele tinha uma inquisira com um fulano que não posso falar o nome e aí esse fulano mandou amarrar o rastro dele. Moço, esse rapaz não podia dar um passo. O pé inchou que nem um pilão. Quase apodreceu e aí ele não agüentou e morreu, mas o povo ficava falando também que ele morreu porque meses antes achou uma cabeça com cabelo lá no cemitério velho, porque veio a enxurrada e desenterrou uns defuntos e aí ele achou a cabeça e jogou na pedra que espatifou. Foi um barulhão. Passou uns meses e aí ele adoeceu e morreu153”.

“Moço ali naquela serra tem mistério demais! Eu nunca vi livusia, o que vi mesmo foi uma bola de fogo na serra. O sol já estava entrando e aí de repente vem aquele clarão, aquela bola de fogo. Chamei Zezão e fomos ver o que era. Quando chegamos perto o fogo foi abaixando e diminuindo, abaixando, abaixando atrás de uma moita e de repente sumiu. Pois no lugar daquela moita ninguém tinha mais coragem de chegar perto. Esses dias os engenheiros da mineradora foram lá, botaram uma máquina pra cavar no lugar. Disseram que tinha minério bom, mas aí não demorou muito e a máquina quebrou. Quebrou que não funcionou foi nada e aí eles desistiram. Eu não via livuzia, via um barulho de chave, via passada, via vulto, mas acho que não era livuzia. Acho que era visagem, eu tenho esse dom de ver certas coisas, mas coisas do cão ou do romãozinho eu não vejo não”154.

152A.L.S., 38 anos, moradora do Cercado. 153

N. B. S., 62 anos, morador do Cercado.

“Lá pela roça de Domingo tinha e ainda tem o porcão. Ele só ataca a gente certa. Gente que fez coisa errada, que chamou a pelada ou fez pacto com o cão. Esses dias ele deu uma carreira em Orlei porque dormiu com mulher dos outros. Eu mesmo não vi o porcão, mas ele é um porco grande, alto e preto com os dentões. Quebra galho de caju, quebra galho de jatobá e corre demais e se o camarada não tiver uma perna ligeira ele pega. Isso é velho! Já vejo o pessoal contar do porcão desde que sou menino”155.

“Esse povo bebe umas cachaças e aí a coisa fica feia. Vão pros bailes montados no lombo dum burro magro, eles mesmos tão magros de comer pouco e aí na beira das estradas vêem livuzia. Volta pra casa e vêem livuzia debaixo dos pés de manguba, vêem livuzia nos córregos, vêem em todo canto. Eu mesmo não vejo livuzia porque estou com Deus. Rezo demais. Rezo pra todo tipo de Santo. Peço o livramento, faço minhas novenas e aí com o poder de Deus e a água que eu trouxe da pia de batismo do Bom Jesus, eu guardo nesse vidro. Aí eu tenho o livramento, mas eles que pensam em mulheres dos outros, que vivem na bebedeira, eles vão ver livuzia”156.

Para resolver os problemas causados pela livuzia e assombração, existe a necessidade da presença daquele capaz de lidar com elas. Mas esta é uma tarefa para poucos, uma vez que os ensinamentos devem ser transmitidos livremente pelo mestre ao discípulo de sua escolha, sendo que não cabe ao discípulo a escolha de exercer ou não o ofício. Ser “curador” ou “feiticeiro” não é uma escolha. Antes trata de ter sido escolhido, o que normalmente é encarado como uma “bênção”, uma “dádiva” que é construída lentamente, através de ensinamentos, recolhimento, orações e rituais específicos. Atualmente Cristóvão é o mais importante líder religioso da região. Filho de Zé Rodrigues, importante curador que transmitiu em vida seus ensinamentos ao filho. Entretanto, Cristóvão não se denomina curador ou feiticeiro. Prefere ser encarado como uma espécie de “mentor religioso” das pessoas que o procuram em busca de ajuda. Trabalha com a doutrina espírita de Alan Kardec, ensinando também os usos das ervas e plantas medicinais.

“Cristóvão157 começou tocando sanfona. Quando era solteiro tocava sanfona. Vivia disso: um convidava pra tocar num baile, outro convidava pra tocar numa festa de santo e pagava uns mirreis pra ele. Ele foi tomando gosto e aí se tornou o melhor sanfoneiro dessa região. Mas teve que deixar o ofício porque quando seu pai morreu ele herdou essa missão de Zé Rodrigues:continuar ajudando o povo nas beberagem e nas oração. Ele começou assim: rezava um, rezava outro, uma mordida de cobra aqui, um quebranto ali, uma dor de dente, espinhela caída e hoje ele já faz operação invisível. O trabalho dele é muito diferente do trabalho do pai dele. Não mexe com coisa da pintura do sujo. Só com coisa boa, ele tem uma missão espiritual, essas coisas de espiritismo, mesa branca, né? Não entendo muito disso, mas sei que é diferente. Vem gente de toda redondeza falar com ele. É só bater o olho, já diz o que

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B.T.S., 74 anos, morador da Tapera.

156B.T.S., 74 anos, morador da Tapera.

157 Cristóvão é atualmente o mais importante “curador” da região. Filho de Zé Rodrigues,

“curador” já falecido que até a década de oitenta, atendia a todas as localidades situadas em cima das Serra do Cigano, Vereda e Retiro. Foi discípulo de Nego de Ló, o mais importante “feiticeiro” da região.

a pessoa tem. Aí ora, reza, prepara as beberagens e aí a pessoa fica melhor. E ele não cobra nada, mas a pessoa sempre dá um agrado que pode ser um frango, ovos, algum dinheiro, peças de roupas usadas porque ele tem meninos demais e agora tem até neto. As filhas dele estão parindo logo e nem casaram.Mas é assim mesmo. Eu sei que se não fosse ele nem sei o que seria daquele povo pobrezinho”158.

Na hierarquia do poder conferido a um líder religioso, a figura o feiticeiro encontra-se no topo. Dentre suas principais habilidades estão: o poder de curar doenças físicas, espirituais e mentais; o poder de provocar a morte de pessoa ou animal; o poder de “responsar” alguém, ou seja, quando uma pessoa é roubada, o feiticeiro tem como saber quem foi o autor do roubo; o poder de influenciar o pensamento e decisões dos outros; o poder de provocar chuva; combater fogo e curar mordida de cobras, dentre outros. Num segundo plano figura o curador, normalmente aprendiz do feiticeiro, cujos poderes são menores do que o primeiro, mas também são considerados relevantes, como: curar determinadas doenças físicas, espirituais e mentais; poder de tirar quebranto; de influenciar as decisões dos outros, num nível menor; poder de rezar animais quando doentes; poder de produzir remédios a partir de ervas, raízes e plantas medicinais, dentre outros. Ao lado do curador, está o macumbeiro, cujos poderes são parecidos, entretanto, cabe ao macumbeiro, realizações que o curador não faz. Dentre elas:“amarrar o rastro” de uma pessoa; arruinar uma plantação; provocar a morte de uma pessoa ou animal. Para os moradores da região, o macumbeiro é uma figura enigmática, capaz tanto de provocar “o bem” quanto “o mal”, o que acaba isolando a pessoa e afastando-a das demais atividades do grupo. Uma mescla de preconceito e medo povoa a relação entre as pessoas do lugar e o macumbeiro, visto como alguém que “sabe o que você pensa”, é capaz de provocar-lhe o mal, caso não goste de você. A correlação entre preconceito racial e medo do macumbeiro também está presente em outros rituais que transmitem a religiosidade africana. Nesta área específica da Chapada Diamantina os cultos oriundos de cultura africana são tidos como algo que faz parte da “pintura do sujo”, ou seja, algo demoníaco, portador do mal. Rituais africanos encontrados na região de Andaraí, Lençóis e Mucugê como o Jarê, por exemplo, são banidos pela população da Serra do Cigano.