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Assim como o nascimento, a morte é um evento importante. Só que ao contrário das alegrias trazidas pela vida, a morte normalmente é cercada da

dor da perda de um parente querido ou de um vizinho e amigo. O evento merece celebração, a depender da natureza da morte e de quem é o defunto. O padre José Artulino Besen em sua obra sobre os sertões do São Francisco, narra uma encomenda de corpo:

“Na casa, o drama solitário. Eram três irmãs, velhinhas. Uma chorava. A outra, de voz grave (depois me disseram com muita sutileza que não era nem uma coisa nem outra), a acalmava: ““fortaleza irmã!”” Na velha casa de adobe, piso de terra, entulhada de mais adobes, sacos, sacarias e objetos de montaria... estavam sozinhas. Chegou a hora! ...Acheguei-me à Narcisa. Numa cama de paus, couro de boi por colchão, recurvada, paralisada pelas dores, gemia os mesmo ais que gemera ao longo de 76 anos...dei-lhe a absolvição. Quando recitou o sinal da cruz, Narcisa gemeu e falou dolorosamente: ““padre, qual foi o pecado que eu fiz sem saber pra não conseguir me benzer?”” Com mais esta dor, Narcisa foi insistindo até os olhos se fecharem. Enquanto a vela ardia em suas atrapalhadas pelo rosário, mais uma vida de apagou. Lá fora tudo igual: homens, mulheres, bêbados e crianças continuavam no seu nada fazer.”162 Assustado pelas práticas cotidianas nas caatingas, o catarinense Padre José narrou nessa obra seus vários anos de trabalho nas comunidades de Oliveira dos Brejinhos, Ipupiara e Brotas de Macaúbas. Com seu olhar de fora do lugar, narrou ricas estórias em detalhes, algumas carregadas do espanto característico daqueles que adentram as caatingas pautados nas referências do sul e sudeste do Brasil. Narra inclusive algumas passagens sobre os moradores da serra do Cigano, cujo ritual de encomenda do corpo sofreu poucas modificações ao longo do tempo.

Os rituais fúnebres são preparados pela pessoa após alcançar certa idade, algo em torno dos sessenta e cinco anos. A partir de então, começa a tecer uma série de preparativos para o momento da morte: desde a confecção dos trajes típicos até providenciar animais que serão abatidos na ocasião, servindo de alimentação para os participantes do velório, além de armazenar provisões como farinha, tapioca, milho, feijão e arroz. Muitas pessoas demoram quinze, vinte anos se preparando para o momento que consideram importante. Mesmo sem apresentar problemas de saúde, as pessoas se preparam, fazem recomendações, ditam cartas e anotações que serão lidas na posteridade.

162 José Artulino Besen. Nos Sertões do São Francisco – recordações do mundo sertanejo.

Morando em São Paulo havia cerca de 20 anos, a velha Joana, como era conhecida, já preparava sua morte havia 10 anos: quando fora passear em sua terra, no povoado do Cercado, mandou sua comadre Chica preparar-lhe a mortalha. Comprou tecido azul cor do céu, bico de renda, mandou forrar botões, comprou um terço novo, benzido pelo Frei Luís163 e uma imagem

pequena de Santa Luzia. Trouxe para São Paulo, mas temia morrer por aqui. Tinha como sonho ser enterrada na sua terra, um cemitério cheio de mato no povoado da Tapera, onde estão enterrados seus pais e seu filho Liberato que morreu vítima de feitiço. Todos os anos ela tinha a esperança de ir morrer na Bahia. Arrumava muitos sacos de roupas usadas e lá ia ela para o Cercado. Todo ano ela dizia que esta seria sua última viagem. E foi assim por mais de dez viagens. Tempos atrás sofreu um aneurisma cerebral, vindo a ficar internada por três meses. Saindo de lá, espalhava com muito orgulho que os médicos atribuíram sua ótima recuperação à sua dieta à base de buriti e mingau de puba, mas o fato é que ela se recuperou muito bem e viveu por mais oito anos, quando em 2002 veio a falecer de enfarte.

Joana já havia encomendado seu caixão, quando um filho a repreendeu severamente: “mãe, aonde é que a senhora vai guardar esse troço?” Morando num

quarto e cozinha, não havia muito espaço nem para as pessoas, quem diria para um enorme caixão de madeira. Desse modo ela desistiu da idéia, mas comentava com pesar: “não queria dar trabalho pra ninguém, já queria deixar tudo aqui guardadinho”. Preparar para a morte num centro urbano como São Paulo, requer

adaptações: não se compra em qualquer esquina uma mortalha; é necessário preparar alguém para realizar a cerimônia. É necessário investir o tempo e a dedicação de uma pessoa disposta a aprender as rezas e ladainhas; não se pode armazenar um caixão em casa, sem que cause transtornos. 164

Seu velório165 teve que ser realizado aqui em São Paulo, em virtude da família

não dispor de recursos para transportar o corpo para a Bahia. Como faleceu em casa, seu corpo foi para um hospital público para os procedimentos de

163 O Bispo da Barra Dom Luís Cappio é conhecido desde a década de setenta na região.

Muitas pessoas lhe atribuem milagres e poderes de santo.

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Narrativas fornecidas por E.L.S., 51 anos, filha de Joana.

rotina. Dispensado da autópsia, seu corpo descansava no banco de cimento do hospital. Todos aguardavam a presença do pessoal da funerária. Entre muito choro, gritos de desespero e saudade reuniam-se filhos, netos e outros parentes. De repente alguém lembra da indumentária, a mortalha e todo o aparato preparado em vida para esse momento especial. Mas retruca uma filha evangélica: “para que essa palhaçada, ela já está morta! Agora é um corpo!” Essa frase

causou um grande reboliço no ambiente. Alguns esconjuravam! “Que absurdo!

Como é que fala assim com a mãe que em vida deixou tudo preparado: a mortalha, a santa, as orações e até o terço”. Muita discussão, quando de repente, um grande susto:

ouve-se um grito! E uma entidade se apossa de uma das filhas: “é o finado

Justino”! Reconhece alguém. A pessoa apossada pela entidade começa a falar

com voz diferente: “será que é preciso eu estar aqui agora para vocês respeitarem a

vontade de Joana?”. Todos se assustam e ficam quietos. A entidade dá seu

recado e vai embora. Todos partem rumo à sentinela.

Nesta noite ninguém dorme. É preciso fazer sentinela para o defunto. Alguém corre na casa e pega a indumentária, guardada numa mala velha embaixo da cama. Uma das filhas se encarrega de vestir a mãe. O corpo é então levado para o velório. Lá passa a noite. As filhas levam garrafas e mais garrafas de café, bolo, salgadinho. Revezam-se para a vigília ao corpo. Nessa hora todos que estão na presença do corpo choram. O tempo não pode ser observado nessa ocasião: dia e noite são iguais. Já passa das onze da manhã quando alguém requisita a presença de um padre. “Mas onde a gente arranja padre por aqui?” Uma hora depois, lá estava o padre para realizar a missa de corpo presente e encomendar a alma da finada. Todos se reúnem em torno do corpo. São mais de cinqüenta pessoas entre parentes, amigos, conhecidos, todos conterrâneos. Posteriormente, foi necessário fazer uma “vaquinha” para pagar o velório, que havia saído muito caro, pois, segundo o administrador do local, nunca um corpo tinha permanecido por tanto tempo naquele velório. A chamada sentinela costuma ser um evento que tradicionalmente dura 24 horas. Durante esse tempo todos fazem visitas e choram o defunto, principalmente se o finado é possuidor de bens. Ainda em vida, reserva-se um animal para a sentinela. O hábito de servir alimentação e bebida é muito comum, tornando a sentinela um

evento bem concorrido: “ mal o dono fecha os olhos, apagam os do animal e começa a cerimônia regada por muita carne, arroz, feijão, farinha e cachaça”166.

Esta prática vem se tornando cada vez mais rara. Nas sedes dos municípios, por exemplo, ela é pouco utilizada. Servir alimentos nessa ocasião tem mais a ver com a razão prática. Normalmente as pessoas residem distantes umas das outras, chegando a ser vários os quilômetros que as separam. Com o intuito de manter todos ao redor do defunto, a alimentação e a bebida servem muitas vezes como estímulo para que lá se permaneça.

Em todas as localidades estudadas durante a pesquisa, há um cemitério, exceto o Cercado que enterra seus mortos no cemitério da Tapera, comunidade vizinha. Não se pratica mais a cova solta ou em fazendas, como era costume. Agora, todos são enterrados com o conhecimento da sede que faz o controle. Estas medidas foram tomadas em virtude das fraudes no sistema de aposentadoria, quando muitas famílias não informavam a morte de um aposentado, visando continuar a receber o benefício. Mesmo nas comunidades mais isoladas, esse registro é feito. A morte de “anjos”, crianças recém-nascidas, que até pouco tempo eram sepultadas em caixas de sapato, hoje são controladas tanto pela Pastoral da Criança quanto pelos agentes de saúde.

O cerimonial da morte é cercado por cuidados específicos que ficam a cargo dos companheiros da comunidade. Para os familiares essa não é uma hora de resolver problemas, mas de chorar a perda. Há ainda, as companheiras que choram os defuntos: são sempre as mesmas e se encarregam de rezar as ladainhas e os cânticos, chorar pelo defunto, mesmo que ele tenha sido em vida um desafeto seu.

O evento da morte está marcado pelo controle do Estado e dos grupos intermediários. Já o controle do nascer nem sempre é feito. Ainda hoje muitas famílias deixam de registrar seus filhos. A prática tem se tornado mais rara, por

166José Artulino Besen. Nos Sertões do São Francisco – recordações do mundo sertanejo.

serem as famílias agora beneficiadas pelos programas de renda mínima: bolsa escola, renda família, cestas básicas, tíquete, fome zero e outros.

4. REFLEXÕES SOBRE O PROCESSO DE DESARTICULAÇÃO E DISSOLUÇÃO DA