2. Forskningsdesign og metode
2.3 Metodevalget sine sterke og svake sider – noen refleksjoner
Antes de estabelecermos quaisquer juízos conclusivos, lembremo-nos de que as considerações a seguir estão condicionadas a uma perspectiva exotópica que procura, mormente, analisar E1, E2 e E3 em um contexto de recepção mais imediato, os primeiros trinta anos do século XX em Natal.
A investigação de determinados aspectos da forma do conteúdo, da forma composicional e da forma do material dos três enunciados assegura que o acabamento dado pelo autor-criador converge para uma arquitetônica tecida, do ponto de vista estilístico, por fio de novelos atrelados às forças sociais centrípetas da tradição – oriundas, sobremaneira, do século XIX, apesar de sua vigência no período de tempo focalizado nesta pesquisa. Em sendo assim, acreditamos que a singularidade autoral presente nos enunciados analisados é alicerçada na coerção estilística. Nesse sentido, o autor-criador, ao construir, em E1, em E2 e em E3, um dizer supostamente individualizado e idiossincrático, esconde, no tom monocórdico de sua voz, uma orquestração social estabelecida no movimento centrípeto da
tradição, não permitindo invasões de outras forças sociais linguageiras. Em outras palavras, o autor-criador dialoga com a tradição já consagrada, apropriando-se de dizeres e de modos de dizer legitimados pela comunidade discursiva produtora e leitora de poesia.
Listemos algumas justificações decorrentes da análise dos três enunciados.
Em primeiro lugar, o autor-criador, em E1, E2 e E3, encontra-se situado em um eixo axiológico que valora entonacionalmente heróis recorrentes (a morte, o desamparo e a angústia) na esfera dos dizeres estabelecidos. No caso da morte, por exemplo, podemos ratificar essa recorrência até com uma leitura aleatória da produção poética de Álvares de Azevedo (1831-1852), de Castro Alves (1847-1871) e de Fagundes Varela (1841-1875), caso queiramos permanecer apenas por entre os românticos brasileiros de referência. Eleger, portanto, qualquer um desses heróis significa abrir-se para duas possibilidades fundamentais no que se refere à forma do conteúdo: ou tratá-los em uma perspectiva filiada ao que já se afirmou; ou tratá-los em uma perspectiva que desestabilize o afirmado, nem que se limite ao âmbito de provocar fissuras sutis.
No caso de E1, E2 e E3, não somente os heróis se inserem na recorrência da tradição lírica como também o tratamento dado ao mundo desses heróis assume o mesmo perfil: são plasmados nos enunciados sempre a partir do ponto de vista de um sujeito que se fragiliza – se obnubila até – no enfrentamento com o mundo. É, portanto, a valoração de um tratamento reforçador da visão do ser humano como presa fatalista de seus sentimentos e de suas impressões, do ser humano que não encontra mais saída em seu devir a não ser a aceitação do apagamento do próprio agir e da própria existência, um posicionamento comum na poética romântica oitocentista. Associemos a isso o fato de o autor-criador, em E1 e em E3, recorrer à manifestação da voz feminina assumindo a centralidade do dizer, o que reforça ainda mais a tonalidade emocional-volitiva do espedaçamento existencial.
Em segundo lugar, tanto E1 quanto E2 e E3 assumem uma forma composicional rigorosamente inserida nos movimentos centrípetos da lírica tradicional oitocentista. Em sintonia, portanto, com o tratamento dado aos heróis, a urdidura da composição – em predeterminados padrões métricos, rímicos e de disposição geral das estrofes – remete para os modos de dizer incensados pelas
práticas discursivas tradicionais da esfera da poesia lírica. Dizeres e modos de dizer intricam-se na definição de uma determinada vontade discursiva: a manifestação de uma voz centrípeta encontrada no torvelinho da heteroglossia social. Para um dizer da tradição, há, pois, em E1, E2 e E3, um modo de dizer disponível na mesma fonte.
Em terceiro lugar, a forma do material coaduna-se com os ditames das práticas discursivas da tradição lírica. O autor-criador não faz enfrentamento às convenções sociais da linguagem em uso, restringindo-se somente à apropriação de um registro ditado pelas forças sociais centrípetas. No eixo axiológico em que se insere, o autor-criador elege signos e disposições da cadeia sintagmática carreados da valoração trazida pelo uso social consagrado, permitindo, assim, as tonalidades avaliativas necessárias ao tratamento dado aos heróis. Não há frestas para construções neológicas, nem que seja em apenas âmbito semântico, ou para ambivalências de sentido que possam, de algum modo, desestabilizar as oficialidades do uso. Não há frestas para quebras no encadeamento sintagmático (a não ser as previstas pela acomodação ao metro e à rima), excluindo-se, também nesse nível de organização do material, possibilidades de desestabilização. Lembremos, ainda, que, nos três enunciados, o registro escrito tido como culto assoma a um patamar pontificador. Nessa carpintaria poética, valem, portanto, as cristalizações linguageiras de alcance semântico previsto.
Em quarto e último lugar, todas essas escolhas estilísticas convergem para o estabelecimento de uma arquitetônica de tom uniforme, monocórdico, afastada do registro de índices legitimadores da heteroglossia social. Não há ecos, nos enunciados analisados, de outros dizeres nem de outros modos de dizer que não sejam os legitimados pelos movimentos centrípetos da permanência. O autor- criador faz, desse modo, dois movimentos estilísticos: de um lado, ele impossibilita as desestabilizações, silenciando-as; e, de outro, ele enuncia com um acabamento uniforme, sempre com os mesmos “formão” e “talhadeira”.
No contexto espaçotemporal em que se insere esta pesquisa, a produção poética de Auta de Souza porta talvez a força mais importante e mais bem acabada da coerção estilística. Se entendermos, numa perspectiva dialógica, que a comunidade discursiva é constitutiva também do estilo individual, uma vez que o estilo é orientado para o outro, poderíamos até recompor, situando-nos no imaginário da comunidade leitora e produtora de poesia do período em foco, a configuração estilística de uma arquitetônica de enunciados líricos: no posto de
timoneiro, a tradição pontificando os ditames centrípetos das forças linguageiras. Não nos esqueçamos de que Auta de Souza foi a poeta potiguar que mais esgotou edições (inclusive ao longo do século XX) e que mais se incorporou ao gosto popular. Ante essa conjuntura, o autor-criador, ao dar acabamento estilístico aos enunciados, cria uma arquitetônica que espelha provavelmente o gosto da maioria dos produtores e leitores de poesia lírica, em um continuum de atitudes responsivas ativas.