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2. Forskningsdesign og metode

2.2 Kvalitativ tilnærming

DOLORAS é eco de AGONIA DO CORAÇÃO. Há, entre ambos, uma

proximidade no que se refere à plasmação do conteúdo e aos efeitos de leitura: a impactante dramaticidade extática diante da morte insufla a visão fragilizadora do ser humano e plasma-se em recursos linguageiros poéticos de aceitação fácil. Esse perfil, muito bem incorporado a AGONIA DO CORAÇÃO, apresenta-se também em

DOLORAS, mesmo que sem o embalar sedutor dos paralelismos e a profusão do

apelo das apóstrofes. Neste último poema, em contrapartida, o colorido doloroso do veio confidencial dos depoimentos de alcova irradia-se por todo o enunciado, provavelmente despertando no leitor uma cumplicidade pungente em relação à dor manifesta pelo outro. Do ponto de vista estilístico, acreditamos que DOLORAS apenas endosse o que já se configurou nas duas análises anteriores, não acrescentando traços novos ao perfil autiano que se foi tecendo.

DOLORAS71

1 Já vão caminho do cemiterio 2 Meus louros sonhos em visões negras 3 E vão-se todos no Azul sidéreo

4 Como uma nuvem de toutinegras

5 A noite de hontem levei chorando 6 Todo o passado de meus amores;

7 E o dia me achou rezando

8 No immenso terço de minhas dôres.

9 Vejo na vida longo deserto 10 Sem doce oasis de salvação.

11 Dentro em minh’alma, douda, chorosa,

12 De pobre moça tuberculosa, 13 Cheio de medo, tremulo, incerto 14 Bate com força meu coração.

15 E assim morrendo, coitada, aos poucos,

16 Convulsa e fria, louca de espanto,

17 Solto suspiros, soluços roucos, 18 Olhando as cruzes do Campo Santo;

19 Porque me lembro que muito breve

20 Leva-me a elle tanta dor physica.

21 E dentro em pouco, branco de neve,

22 Verão o esquife da pobre tysica.       

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No índice da edição de 1910, o título Doloras encontra-se grafado Dolores. Esta última grafia estabeleceu-se nas edições subsequentes de Horto. Preferimos, no entanto, manter a disposição grafêmica da edição consultada pela seguinte razão: dolora(s) designa um gênero da lírica tradicional, de composição breve (como os demais gêneros líricos da tradição), de essência dramática e centrado em uma reflexão sobre a existência, o destino... Acreditamos, portanto, não se tratar de mero problema ortográfico presente na referida edição.

Devido à semelhança de arquitetônicas entre E1, E2 e DOLORAS

(doravante Enunciado 3 ou E3), evitamos, mais uma vez, o desdobramento da análise nos aspectos que já foram contemplados. Focamos, portanto, algumas complementações necessárias a nossa investigação.

Sob a plasticização do tom vocal monocórdico que manteve a tensão dramática presente nos enunciados anteriores, o autor-criador, em E3, elege, como herói, a angústia, focalizando-a na perspectiva de um sujeito (manifesto em primeira pessoa do singular e no feminino) que experiencia esse sentimento ante a situação existencial de decrepitude em que se encontra. Consideremos os excertos abaixo.

15 E assim morrendo, coitada, aos poucos,

16 Convulsa e fria, louca de espanto,

17 Solto suspiros, soluços roucos,

18 Olhando as cruzes do Campo Santo;

19 Porque me lembro que muito breve 20 Leva-me a elle tanta dor physica.

21 E dentro em pouco, branco de neve,

22 Verão o esquife da pobre tysica.

A perspectivação assumida pelo autor-criador coloca o herói em um plano capaz de aniquilar os impulsos de vida do sujeito: a focagem do ser humano como presa fragilizada e patética de seus sentimentos e suas impressões. Consideremos, para melhor visibilização desse aniquilamento, as duas rotas traçadas pelo autor- criador: a das impressões e a das ações, ambas vivenciadas pelo sujeito que se manifesta no enunciado. Listemos a primeira delas:

1 Já vão caminho do cemiterio 2 Meus louros sonhos em visões negras

[...]

9 Vejo na vida longo deserto 10 Sem doce oasis de salvação.

[...] 19 [...] me lembro que muito breve

20 Leva-me a elle [ao Campo Santo] tanta dor physica. 21 E dentro em pouco, branco de neve,

22 Verão o esquife da pobre tysica.

Listemos a rota das ações agenciadas ou sofridas pelo sujeito:

5 A noite de hontem levei chorando 6 Todo o passado de meus amores; 7 E o dia me achou rezando

8 No immenso terço de minhas dôres. [...]

11 Dentro em minh’alma, douda, chorosa,

12 De pobre moça tuberculosa,

13 Cheio de medo, tremulo, incerto 14 Bate com força meu coração.

15 E assim morrendo, coitada, aos poucos,

16 Convulsa e fria, louca de espanto,

17 Solto suspiros, soluços roucos, 18 Olhando as cruzes do Campo Santo;

19 Porque me lembro que muito breve

20 Leva-me a elle tanta dor physica.

Nessa cenografia, o título DOLORAS é sintético em relação ao tratamento dado ao herói, uma vez que as duas rotas se fundem na determinação da situação

existencial por que passa o sujeito. Sendo assim, esse tratamento, condensadamente enfocado no título, espraia-se por todas as estrofes sob forma de assertivas, ora contemplando uma rota ora outra. Caso entendamos o título como plural de dolora, temos uma remissão ao teor de dramaticidade com que esse gênero discursivo poético focaliza o destino do ser humano.

No que se refere às escolhas estilísticas no âmbito da organização composicional, são válidas as ponderações feitas a respeito de E1 e E2, sobretudo a respeito do primeiro enunciado. A tonalidade mocórdica uniformizadora também se manifesta nas escolhas feitas em relação à constituição do verso, à disposição das estrofes, à valoração dos signos, à organização da cadeia sintagmática e à manutenção de um padrão escrito tido como culto.

Para a constituição dos versos, o autor-criador recorre ao metro de nove sílabas poéticas, com tendência de apoio rítmico fundamental nas quartas e nonas sílabas, além de rimas perfeitas e, em alguns casos, ricas (como as sincronizadas nos versos 1-3 e 2-4, transcritos abaixo). Consideremos a escansão da estrofe abaixo, de certo modo padrão em relação às demais.

1 Já – vão – ca – mi – nho – do – ce – mi – te – rio 2 Meus – lou – ros – so – nhos – em – vi – sões – ne – gras 3 E – vão – se – to – dos – no A – zul – si – dé – reo

4 Co – mo u – ma – nu – vem – de – tou – ti – ne – gras.

Para a disposição das estrofes, há mais uma escolha de quartetos, desta vez acrescidos de um sexteto. As três estrofes iniciais apresentam, uma a uma, impressões que justificam a visão dramática e fatalista da vida: na primeira, o apagamento dos sonhos (1 Já vão caminho do cemitério / 2 Meus louros sonhos em visões negras); na segunda, o sofrimento não intermitente (5 A noite de hontem levei chorando / [...] / 7 E o

dia ainda me achou rezando / 8 No immenso terço de minhas dôres.); na terceira, a ausência de

expectativas positivas (9 Vejo na vida longo deserto / 10 Sem doce oasis de salvação.). As duas estrofes finais legibilizam uma conclusão esperada no mesmo tom fatalista: a previsão da morte iminente (19 Porque me lembro que muito breve / [...] / 22 Verão o esquife da

pobre tysica.). Essa disposição da organização composicional estabelece uma

Para a escolha dos signos, o autor-criador recorre, mais uma vez, a valorações associadas à esfera tradicional do intimismo (como sonho, visão, nuvem,

noite, amor, dor, vida, deserto, oásis, alma, moça, medo, coração, espanto, suspiro, soluço e tísica) e da religiosidade católica (como cemitério, terço, salvação, cruz, Campo Santo, esquife e rezar), em um entrecruzamento já presente em E1 e em E2.

Admitamos também a incidência de uso de expressões cristalizadas (como louros

sonhos, visões negras, immenso terço, longo deserto, doce oásis, pobre moça, louca de espanto, soluços roucos, branco de neve e pobre tysica ).

Para a organização da cadeia sintagmática da linguagem em uso, o autor- criador faz escolhas similares à mesma disposição encontrada em E1 e em E2: tendência à busca da clareza, muitas vezes concretizada na ordenação direta convencional, evitando-se quebras (salvo as ditadas pela acomodação métrica ou rímica) ou incompletudes na cadeia. Da mesma forma que nos enunciados anteriores, o autor-criador plasma E3 em um registro escrito tido como culto e como convencionalmente poético.