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No início do século XX, havia os jornais de bairro, a ampliação da imprensa e o desenvolvimento das artes gráficas, em que as publicações passaram a contar com imagens e fotografias. A imprensa, em geral, não aquela destinada apenas ao

74 público feminino, também começava a trazer perspectivas associadas à mulher. São Paulo e Rio de Janeiro cresciam em relação às indústrias manufatureiras, onde havia cada vez mais mulheres operárias, principalmente no setor têxtil. Elas recebiam salários inferiores aos homens, mesmo exercendo a mesma função, trabalhavam até 18 horas por dia e em más condições, em ambientes sujos e mal iluminados, o que fazia aumentar a necessidade de reivindicação.

Nessa época, no Brasil, as filhas das famílias da elite e do setor médico passaram a frequentar o ensino primário, o ginásio e, eventualmente, o secundário em escolas confessionais católicas e de outras congregações religiosas femininas.

Ainda nesse século, inicialmente nos países europeus, surgiu a ginecologia, que se dedicava exclusivamente à reprodução, sem propriamente considerar a fisiologia e as doenças. Os ginecologistas eram, em geral, homens. Por esse motivo e, associado ao constrangimento, à rígida moralidade e ao pudor, muitas mulheres não passavam por consultas ginecológicas e, quando o faziam, eram sempre acompanhadas pelo pai ou pelo marido.

Nessa época, a mulher era exaltada na pintura e na música por suas virtudes, ela era sempre associada a elementos da natureza, como a flor, por exemplo; era associada à postura passiva e de aceitação ao sofrimento. No Brasil, o homem destacava-se na literatura e a mulher, na pintura. Nomes como Tarsila do Amaral e Anita Malfatti foram de grande destaque no período.

Apesar de alguns avanços, a mulher era ainda reduzida à função biológica da maternidade, sendo negado a ela o desejo sexual. Nessa perspectiva, tendo em vista atender exclusivamente aos desejos masculinos, as mulheres usavam apertados espartilhos para deixar o corpo em conformidade aos padrões da época.

Nessa época, quando nascia uma menina, já se começava a conjecturar com quem se casaria e para isso, preparava-se, desde criança, seu enxoval e dote, em

75 dinheiro, em terras ou em outra forma de riqueza. Se não houvesse dote, não haveria casamento e a mulher seria fadada a ficar solteira.

As brincadeiras destinadas às meninas eram aquelas que não colocavam em risco a integridade física delas, ou seja, eram atividades que envolviam brincar de boneca, panelinha, imitações de ferro de passar roupas e tanques de lavar roupa, como menciona Arend (2012). Além disso, essas brincadeiras simulavam o que se tornariam na vida adulta: mães e donas de casa.

Quando os meninos iam às ruas para brincar, as meninas auxiliavam nas tarefas domésticas, e, se os meninos as fizessem, poderiam se tornar “afeminados”. Com isso, muitas meninas de famílias pouco abastadas, em torno de 9 ou 10 anos de idade se tornavam babás e depois empregadas domésticas. A aptidão para o trabalho, além da vinda da menstruação, era um dos marcos da mocidade feminina.

Nas famílias mais pobres, principalmente nas primeiras décadas do século XX, as meninas tinham ofícios como bordados e costuras e, chegavam até a trabalhar em zonas de meretrício e cabarés.

Arend (2012) afirma ainda que, naquela época, as qualidades atribuídas às mulheres eram docilidade, meiguice, serenidade e resignação, enquanto aos homens, esperava-se que fossem corajosos, tivessem poder de decisão e fossem competitivos.

Por volta de 1908, Freud considerava que a inferioridade intelectual das mulheres se dava pela repressão sexual e pela característica feminina de incompletude e sentimento de castração por não possuírem pênis. Dessa forma, ele reforçava a ideia antagônica de que os homens eram ativos, fazendo referência ao falo e, as mulheres, passivas, devido à castração ou ausência de falo, o que gerava inveja delas em relação aos homens, o que depois procurou romper em sua obra.

76 Em 1910, nos Estados Unidos, ocorreu a primeira greve protagonizada exclusivamente por mulheres, o que foi uma grande conquista, pois acreditava-se que as mulheres não eram capazes de se organizar em movimentos como esse, segundo afirma Álvarez González (2010). As condições de trabalho eram deploráveis, as trabalhadoras, principalmente do setor têxtil, cumpriam jornada de 56 horas semanais, que podia estender-se até para 70 horas.

Ainda em 1910, no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, Clara Zetkin propõe a criação do “Dia Internacional da Mulher”, mas somente no ano seguinte é que a data passa a ser comemorada. Contudo, há uma vinculação errônea que justifica que a data passou a ser comemorada por força do incêndio que ocorreu em 1908, em uma fábrica têxtil em Nova York, com 146 mulheres trabalhadoras, provocado pelo próprio empresário contra as operárias que declararam greve. Nesse episódio, 123 mulheres operárias faleceram.

Álvarez González (2010) afirma que essa justificativa é um mito e que há distorções dos fatos, pois em 08 de março de 1908 era domingo, e não há registros históricos de que tenha ocorrido incêndio em nenhuma cidade dos Estados Unidos. O incêndio da fábrica The Triangle Shirtwaist Company, que funcionava nos três últimos andares de um dos edifícios mais altos de Nova York, aconteceu em 25 de março de 1911, sábado, por volta das 16h45, no oitavo andar, quando um empregado acendeu um cigarro e o jogou próximo à pilha de tecidos e o incêndio rapidamente alastrou-se.

Na fábrica trabalhavam cerca de 500 empregados, sendo a maioria formada por mulheres, imigrantes italianas e russas, entre 16 e 24 anos. Tantas pessoas faleceram devido às condições do prédio: apenas duas estreitas escadas de acesso, uma saída de incêndio e portas trancadas à chave e, além disso, não havia legislação que obrigava os empregadores a colocarem equipamentos contra

77 incêndio de abertura automática nos estabelecimentos. Na época, muitos prédios não cumpriam normas básicas de segurança e havia empregados que fumavam nas dependências.

A partir daí, a Liga Sindical de Mulheres e o Sindicato Internacional dos Trabalhadores em Confecções para Senhoras manifestaram-se contra os abusos cometidos pelos empresários, como não garantir as condições mínimas de segurança para fazer economia e, também foi criada a Comissão de Investigação as Fábricas, que verificava riscos de incêndio e medidas de prevenção de acidentes nos locais de trabalho, o que depois se tornou lei.

A criação do Dia Internacional da Mulher, como mencionamos há pouco, foi impulsionado por diversos fatores, entre eles pela inspiração na corrente socialista da segunda metade do século XIX, em que Marx e Engels afirmavam que as mulheres sofriam dupla opressão – no casamento, pela autoridade do marido e no trabalho, pelos empresários que pagavam metade do salário que pagavam a um homem, conforme aponta Álvarez González (2010).

A partir da ideologia socialista, foi criado o movimento de mulheres socialistas alemãs, do qual Clara Zetkin, que propôs a comemoração da data, era integrante. Ela fez essa proposta, em Copenhague, inspirada no Woman´s Day (Dia da Mulher), comemorado desde 1908 pelas socialistas americanas.

O Dia Internacional da Mulher foi instituído em paralelismo ao Dia do Trabalho, que foi criado para reivindicar jornada de trabalho de oito horas, enquanto o Dia da Mulher tinha finalidade de reivindicar direito a voto pelas mulheres, um dos símbolos da emancipação feminina. Nos primeiros anos, o Dia Internacional da Mulher foi festejado em datas diferentes nos países e, somente em 1914, é que passou a ser comemorado no dia 8, embora não haja nenhuma evidência histórica do porquê desse dia.

78 Assim, o Dia da Mulher não se apoia em um acontecimento isolado, e sim é resultado de um contexto histórico e ideológico mais amplo, como situa Álvarez González (2010).

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